Como pensam os Portugueses, hoje, a vida familiar?

Autores:

vascoVasco Ramos, Sociólogo e Investigador no ICS-ULisboa

vanessaVanessa Cunha, Socióloga e Investigadora no ICS-ULisboa

susanaSusana Atalaia, Socióloga e Investigadora no ICS-ULisboa


Quais as atitudes dos Portugueses perante a vida familiar? Como pensam, atualmente, a coabitação, o casamento e o divórcio? Como encaram o trabalho dentro e fora de casa considerando o género dos membros do casal? Que papel os pais reservam aos filhos na vida familiar? A análise de alguns indicadores do módulo Family and Changing Gender Roles integrado no inquérito ISSP – International Social Survey Programme[i] – aplicado em 2014, permite responder às questões colocadas e avaliar a mudança social ocorrida nesta esfera da vida dos portugueses.

Como pensam os Portugueses a coabitação, o casamento e o divórcio?

Em Portugal existe uma atitude favorável à informalidade das relações conjugais e uma desvalorização do laço jurídico. Em 2014, a ideia que a vida a dois não implica casar é transversal a homens e mulheres dos vários escalões etários, embora menos hegemónica entre os mais velhos. Nos mesmos moldes é generalizada a representação de que o divórcio é a melhor solução quando o casal não consegue resolver os seus problemas.

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O panorama é um pouco distinto no que diz respeito à relação entre parentalidade e formalização da conjugalidade. Se a maior parte (cerca de 50%) dos inquiridos discorda da afirmação “as pessoas que querem ter filhos devem casar”, é aqui muito vincado o contraste geracional entre a posição dos inquiridos mais jovens, que discordam de forma enérgica, e a posição dos inquiridos mais velhos, que consideram que um casal deve formalizar a relação antes de ter filhos.

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Finalmente a ideia de que as pessoas casadas são mais felizes é também ela rejeitada (47,2% discordam). Essa é uma posição que apenas tem acolhimento entre os inquiridos com 65 e mais anos. Com efeito, para as gerações que chegaram à vida adulta durante o Estado Novo, o casamento era uma transição essencial na vida de homens e mulheres. Quem não casava não o fazia, portanto, por opção.

Quem faz o quê, dentro e fora de casa, considerando o género?

A divisão de papéis de género no trabalho pago e não pago é outra dimensão central dos estudos sobre atitudes face à família e aos papéis de género. Uma leitura conjunta dos indicadores desta dimensão revela a forte adesão, entre os portugueses, à ideia que a participação no mercado de trabalho e a obtenção de recursos económicos é uma tarefa que compete aos dois elementos do casal (94,0%). Apenas entre os escalões etários mais velhos da população se encontra suporte a uma divisão do trabalho segundo moldes mais tradicionais, em que compete sobretudo ao homem ganhar dinheiro e à mulher cuidar da casa e dos filhos.graf3

Contudo, as atitudes face ao trabalho pago feminino na sua relação com os cuidados aos filhos são algo ambivalentes. Se, por um lado, a esmagadora maioria dos inquiridos considera que uma mãe que trabalhe fora de casa pode ter uma relação tão carinhosa e sólida com os filhos como uma mãe que não trabalhe fora de casa (75,7%), por outro, também é maioritária a opinião de que uma criança pequena pode sofrer quando a mãe trabalha fora de casa (57,3%). De facto, é ainda significativa a proporção de indivíduos que considera que a vida familiar é prejudicada quando a mulher trabalha fora de casa (42,7%) e que perceciona a vida doméstica e os cuidados aos filhos como uma esfera naturalmente feminina (41,6%). A leitura desagregada dos dados revela contrastes significativos entre posições mais conservadoras quanto aos impactos do trabalho feminino sobre a vida familiar, características sobretudo de homens e mulheres com 45 ou mais anos de idade, e posições mais favoráveis, comuns entre os mais jovens e entre as mulheres.

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Qual o papel dos filhos na vida das mães e dos pais?

São as mulheres que mais assinalam o conflito entre parentalidade e vida profissional, em particular as que se encontram em idade reprodutiva. É consensual a opinião de que ver os filhos crescer é o maior prazer da vida dos pais (94,0%). As solidariedades intergeracionais e a reciprocidade também se afiguram enquanto elementos centrais das relações pais-filhos: a maioria dos inquiridos considera que a parentalidade representa um relevante encargo financeiro para os pais (78,4%) e reconhece que os filhos adultos são uma importante fonte de apoio para os pais idosos (79,4%).

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Outras afirmações geram menos consenso entre a população portuguesa. Cerca de metade dos inquiridos concorda que ter filhos interfere negativamente na liberdade dos pais (49,6%). As opiniões também se dividem acerca dos efeitos da parentalidade na vida profissional de um ou ambos os pais, tendendo a maior parte dos inquiridos a concordar que a mesma é limitadora da progressão na carreira profissional (43,5%). Finalmente, a maior parte dos inquiridos discorda que a parentalidade sirva para elevar o estatuto social dos indivíduos (44,1%).

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Por fim, pode-se dizer que o quadro atitudinal relativamente ao papel dos filhos na vida dos pais atravessa as linhas geracionais e de género. Existe, no entanto, um aspeto que merece destaque: são as mulheres quem mais assinala o conflito entre parentalidade e vida profissional, em particular as mulheres com 30-44 anos de idade, precisamente as que se encontram em idade reprodutiva e se debatem mais com as questões da conciliação.


[i] O ISSP – International Social Survey Programme (http://www.issp.org/) é uma rede internacional de estudos comparativos e longitudinais, que realiza inquéritos anuais desde 1985 e reúne atualmente 45 países. Portugal integrou a rede em 1997 (http://issp.ics.ul.pt/). Das 5 edições do ISSP, Portugal participou em duas, em 2002 e 2012. O inquérito de 2012 foi dedicado ao tema Family and Changing Gender Roles (5ª edição), e propôs-se observar as mudanças nas relações sociais de género, situando a análise no âmbito da vida familiar e da sua articulação com a vida profissional. Em Portugal, o inquérito realizou-se em 2014 e foi aplicado a uma amostra representativa de 1001 indivíduos residentes em Portugal Continental com idade igual ou superior a 18 anos. Este inquérito foi realizado no âmbito de uma parceira científica entre o ICS-ULisboa e a CITE – Comissão para a Igualdade no Trabalho e no Emprego, com financiamento do programa EEA Grants e da Comissão para a Cidadania e a Igualdade de Género.

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