Uma sociologia leve e profunda

emanuelEmanuel Cameira é estudante de  doutoramento em Sociologia no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa.


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Jeremias van Winghe (1578-1645)
Cena de cozinha, 1613

Extraído de Um quarto que seja seu: “O almoço começou com linguados imersos num molho espesso e branco, preparados pelo cozinheiro da universidade”[i]. Tais palavras, da autoria de Virginia Woolf, vieram-me de imediato à lembrança enquanto lia a entrevista dada pelo sociólogo José Machado Pais à também socióloga Marcela Fernanda da Paz de Souza, publicada este ano na brasileira Revista de Ciências Sociais. Assim como no caso da romancista britânica, explorando o que muitos colegas de ofício costumavam descurar (Woolf apontava aos que tendiam a ignorar a “verdadeira” matéria de que são feitos os momentos comensais – já que vinha sobretudo merecendo registo o que neles se dizia, e bem menos o que lá se comia), encontra-se igualmente em Machado Pais um modo de olhar que desafia convenções. Não é aliás devido a essa particularidade, e ao deslumbrado reconhecimento daí decorrente, que o apetite do leitor se abre? Graças à finura interpretativa – e comunicativa, como não? – de quem pratica uma sociologia outra, diferente?

Outra citação em Era do Átomo. Crise do Homem, Vitorino Nemésio entrega-se ao seguinte raciocínio: “preza-se a linguagem de rigor como instrumento indispensável à fiel expressão dos fenómenos, e depois detesta-se um vocabulário e uma sintaxe fatalmente difíceis e herméticos”[ii]. Há esse padrão, na verdade. Só que as coisas mudam bastante de figura (não no rigor, sublinho) quando se trata do trabalho sociológico de José Machado Pais. Não bastasse a originalidade do seu ponto de vista científico (ancorado no omnipresente quotidiano, menos propício a delimitações empíricas como o são determinados objectos de análise, as migrações, a sexualidade, a arte, etc., mas com o estatuto de “alavanca metodológica do conhecimento”[iii], a alcançar por via de uma estratégia sensível aos elementos insólitos e indiciantes contidos na realidade social), não bastasse isso, ainda a “escrita fluida e espirituosa”, palavras felizes de Simone Frangella[iv], cujo alcance estendo ao discurso que dá corpo à entrevista.

Desfie-se então agora alguns dos seus fios. Nessa viagem narrativa de catorze páginas, ao longo das quais Machado Pais vai lançando luz sobre várias etapas do seu percurso, sobre muito do que lhe tem interessado investigar (o misterioso mundo do fado, a devoção ao médico português José de Sousa Martins, o movimento das Mães de Bragança, as alcunhas e os palavrões, os rastos da solidão, as identidades e culturas juvenis, as encruzilhadas da vida…), voltei a tomar contacto com um universo mental e de referências teóricas que nunca parou de me cativar, e que, declaro-o com franqueza, me pareceu sempre mais próximo das genuínas experiências de vida dos sujeitos. Mais poético por essa razão, porque preferindo os rostos (do repentista Françuá, do violeiro Valdemiro, da jovem de Leste Mihaela) ao anonimato dos números, e porque resistindo a reduzir a prática sociológica a um exercício de demonstração, de teorias e hipóteses de partida (tenho de deixar aqui uma nota: no que respeita a Machado Pais, a imaginação de que falava Wright Mills está longe de ser apenas um slogan retórico. Eu, que seu aluno fui, sei como incentiva a que a cultivem).

Mas regresse-se à entrevista, especialmente apelativa pela vivacidade analítica evidenciada, pelos inúmeros cruzamentos das teorias com os observáveis, ou até mesmo pelos vários apontamentos cultos, semeados nesta e naquela frase («No seu poema Menino do Mato, Manoel de Barros descobre o verme desses conceitos quando diz que há palavras “bichadas de costume”»; «há […], como diria Guimarães Rosa, um mistério»). O da vida, pois claro, e o do simbólico, estimados por Machado Pais num singular esforço de decifração (buscando enigmas), sendo fácil de inferir através das suas respostas como ele próprio protagoniza uma ruptura com o chamado triunfo do descritivo. Expressão do belga Claude Javeau, serve para aludir à tendência que afecta hoje uma certa sociologia empírica, que coloca entre parêntesis a problematização, não raro a dimensão macro-estrutural, ficando assim por explicitar o articulado (o movimento pendular) entre os destinos individuais e da sociedade.

Ora, apesar de combinar aqueles dois eixos, a sociologia que na entrevista se revela, construída no vaivém Portugal/Brasil, é de incidência micro, ou seja, privilegia as sociabilidades, os ritos de sedução, as trocas interactivas estabelecidas pelos indivíduos no dia-a-dia, os seus comportamentos “banais”, tidos por exemplo nas filas de trânsito ou de supermercado, tão merecedores de indagação quanto o quadro institucional de existência. Na roda de autores onde Machado Pais convive, com Goffman, Schütz, Simmel, junte-se-lhe José de Souza Martins (o sociólogo, não o médico), o social é passível de apreensão no plano intersubjectivo, inclusive individual.

Refira-se por fim: que ao ler-se na íntegra a entrevista em causa, logo se identifica um estilo, uma maneira personalizada de fazer sociologia, vadiante, heterodoxa, não alinhada com o cânone, se se quiser. Com a atenção dirigida para o irrelevante, para o anódino (somente na aparência, entenda-se), e socorrendo-se de uma metodologia inventiva, José Machado Pais alarga os horizontes exploratórios da disciplina, quiçá tornando-a mais convidativa (pelos temas tratados, pelo tipo de escrita e de abordagem) a um público não especializado.


[i] Woolf, Virginia (1978), Um quarto que seja seu, Lisboa, Vega, p. 22.

[ii] Nemésio, Vitorino (1976), Era do Átomo. Crise do Homem, Lisboa, Livraria Bertrand, p. 61.

[iii] Pais, José Machado (2002), Sociologia da vida quotidiana – teorias, métodos e estudos de caso, Lisboa, Imprensa de Ciências Sociais, p. 13.

[iv] Frangella, Simone (2016), recensão a Enredos Sexuais, Tradição e Mudança: as Mães, os Zecas e as Sedutoras de Além-mar, de José Machado Pais, in Análise Social, n.º 220, p. 745.

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