Música, afetos e processos de subjetivação com jovens de baixa renda

martha.png Martha Bento Lima é pós-doutoranda na Universidade Federal Fluminense no Brasil, e investigadora visistante no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa.


Venho de uma formação em Música, Biodança e Psicologia, sendo as primeiras determinantes no modo como encaminhei minha formação no campo psi. A experiência com os dispositivos artísticos, seja por meio de uma prática e formação musical, e também por meio de uma formação em Biodança, prática que tem a música e a dança como dispositivos artísticos – terapêuticos, produziu em mim questionamentos / inquietações durante minha formação em Psicologia, que permearam uma reflexão crítica de uma abordagem da subjetividade que abrangesse a dimensão ético-estética- política da natureza humana, abrindo-se assim a compreensão dos modos de vida através dos dispositivos da arte, em especial; da música. Nesse percurso, realizei projetos com jovens de baixa renda no Brasil.

Na clínica desenvolvida com os jovens pobres no projeto de doutorado intitulado “Musicocartografias: partituras políticas do desejo” foram compostas sete canções, gravadas em um estúdio próximo à favela em que se realizou a pesquisa. A linguagem musical se revelou como um dispositivo de grande potência de escuta, movimento e encontro entre os participantes, tecendo linhas de transversalização dentro e fora do espaço institucional, provocando a transversalização de narrativas; histórias e acontecimentos cotidianos, a produzir outros modos de pensar, viver e refletir sobre a realidade em que vivem.

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A tessitura dos bons encontros, tomando a perspectiva da filosofia dos afetos de Spinoza (2011), é cartografada na tese por meio das linhas melódicas das canções compostas — denominadas “musicocartografias” —, que foram se agenciando durante a prática da Oficina de Composição Musical, em simultaneidade com as modificações das formas dos jovens se relacionarem; passando de uma subjetivação autocentrada/individualista a uma subjetivação porosa/coletiva, reflexiva e solidária, subjetivação que afetou, inclusive, algumas regras estabelecidas pela instituição, propondo outras mais tolerantes e consonantes com seus afetos e suas necessidades. A contraefetuação do “traumático”, de histórias e acontecimentos experenciados pelos jovens em situações de violência na favela, ocorreu por uma escuta e prática musical que os possibilitou a experiência de vivências criativas e integradoras do desenvolvimento do self, desfazendo bloqueios que constrangiam modos de comunicação entre eles; a instituição e a comunidade.

Para o atual projeto de pós-doutorado, pretendo ampliar a discussão sobre as práticas e diversidades musicais juvenis, seja por meio da escuta, da aprendizagem de um instrumento ou via composição musical. Este projeto é fruto das pesquisas que venho desenvolvendo desde 2005 articulando Música, Clínica e Política, inicialmente, no período de minha formação em Psicologia na Universidade Católica de Petrópolis, por ocasião de um estágio de psicologia escolar em uma escola da rede municipal da referida cidade onde propus uma Oficina de Composição Musical — como estratégia de intervenção psicossocial, e posteriormente, com as pesquisas de mestrado e doutorado em Psicologia Social na Universidade do Estado do Rio de Janeiro.

O desafio atual é colocar uma lupa na linguagem musical como potência de compreensão dos afetos, de que forma seu exercício estaria favorecendo a expansão da dimensão afetiva e social/coletiva dos jovens pobres, a desterritorialização dos afetos tristes, criando disposições para agir, pensar e resistir aos modelos da subjetivação dominante. Se a linguagem musical pertence ao reino do inconsciente e da criatividade, tendo a virtude de agir através da matéria sutil, é antes, a meu ver, a potência de escuta aos afetos imperceptíveis que ela inaugura como um possível. A capacidade de produzir em nós uma escuta sensível a um feixe de universos sensíveis. Escuta que por sua vez, nos predispõe a agir; “a fazer o movimento”. E são das forças da ativação da potência de escuta e movimento de que ela é capaz — a música, — que estaremos ampliando o sentido de afeto presente nas práticas da linguagem musical juvenil.

Os documentos sonoros com as respectivas musicocartografias produzidas pelos jovens durante a pesquisa de mestrado e doutorado podem ser escutados no seguinte site: www.musicamarthalima.com.br

A pesquisa de mestrado foi publicada em livro sob o título Estratégia Sensível: Composição Musical e Produção de Subjetividade de Jovens da Comunidade da Mangueira, Editora Appris, 2015.

O recente ensaio Espaço Angélico: devir-pantera-anjo & criança, presente na tese de doutorado, encontra-se publicado no site: http://www.mnemosine.com.br/ojs/index.php/mnemosine/article/view/491

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