Reflexões sobre o (encantado) ofício da investigação: percursos de uma pesquisadora com a lata na cabeça…

rosane.png Rosane Castilho é psicóloga, professora na Universidade Estadual de Goiás (Brasil). Neste momento é investigadora visitante no ICS-ULisboa com o projeto -‘O projeto de vida como estratégia de desvelamento das possibilidades de futuro de jovens estudantes das periferias de Goiânia, Lisboa e Madrid: Representações, perspectivas e desafios de um devir’


Minha trajetória de investigação com jovens inicia-se já na Graduação (Licenciatura) em Psicologia, na Universidade Católica de Goiás. Lá, subindo em ombros de gigantes como Vigotsky – que me ensinou que a subjetividade individual é fortemente permeada por uma subjetividade social -,  e Freud – que me ensinou que o trabalho de construção de uma teoria envolve a humildade de reconhecer algumas ‘falhas’ na interpretação dos motivos da ação deste ser absolutamente complexo e fascinante que é o humano – , pude entrar em contato com um mundo de possibilidades de interpretação, não obstante as distinções epistemológicas que aproximam ou distanciam (apenas aparentemente, pois prefiro pensar que atravessam e enriquecem) a vida experimentada do conhecimento.

Na pós-graduação tinha (e ainda tenho) o apreço por pesquisadoras como Lúcia Rabello de Castro (Universidade Federal do Rio de Janeiro), brilhante pesquisadora e doce criatura que me ensinou (talvez ela não saiba disto) a admirar esta categoria social denominada ‘Juventude”, alimentando o desejo de adentrar este universo de descobertas sobre um outro que também já fui em tempos passados. De Malvina do Amaral Dorneles (Universidade Federal do Rio Grande do Sul/UCSF), pude beber das discussões acerca das ‘Disposições Ético-Estético-Afetivas e Desafios Teórico-Metodológicos na Investigação Educativa’. De meu encantamento com esta disciplina, veio o pedido para que assumisse a orientação de minha Tese de Doutorado, papel que foi adotado posteriormente por Rubén Manuel Román. Mestre grandioso e paciente que generosamente me acolheu quando de um processo longo de adoecimento e recuperação de doutora Malvina. Agora, no Pós-Doc, este percurso de investigação tem como guia o doutor José Machado Pais, figura amada pelos pesquisadores no Brasil. No Grupo de Investigação do Observatório Juventudes na contemporaneidade, em Goiás (Brasil), o chamamos carinhosamente de ‘nosso’ Pais, imitando Flávio Sofiati, pesquisador de grande envergadura de caráter, tanto acadêmico quanto pessoal.

Como guardamos de nossa vida íntima, aspectos que ‘derramamos’ em nossa vida de ofício, tenho lá meus enfrentamentos com a Academia. Um deles deriva da decisão de não trabalhar com pesquisadores que aparentem soberba ou arrogância em sua relação com os membros do ‘campo’ acadêmico, porque penso que o conhecimento é da ordem do sagrado e jamais poderia conviver com gente pobre de espírito… Neste sentido, se conheço os pesquisadores e observo neles(as) estas fragilidades de caráter, deixo-os ‘hibernando’ até que migrem de seu estágio ‘larva’ e  transformem-se em ‘borboleta’… Aspectos de viés político de um (jovem) espírito que sobrevive em mim…

Adentrando ainda mais este ‘momento confessionário’, desejo contar-lhes que sinto-me em um momento de ‘epifania’ com a pesquisa que venho realizando no âmbito do Estágio no ICS-Ulisboa como investigadora-visitante: os jovens pesquisados nos três países mostraram-se interessados, gentis e afetuosos… O trabalho, cujo título é ‘O projeto de vida como estratégia de desvelamento das possibilidades de futuro de jovens estudantes das periferias de Goiânia, Lisboa e Madrid: Representações, perspectivas e desafios de um devir’, tem me mostrado o céu de um novo mundo… um mundo de descobrimentos…

Quando propus este projeto de investigação ao ICS, desejava conhecer mais profundamente os aspectos fundantes da construção do projeto de vida de jovens estudantes do Ensino Médio (secundário)  da(s) periferia(s) e cotejá-lo com as representações acerca do futuro, tendo por base as narrativas dos sujeitos, desveladas a partir de imagens produzidas em discussões realizadas com o auxílio de uma ferramenta denominada ‘Roda de Conversa’ e incrementada por imagens produzidas por um jovem designer brasileiro, Rodrigo Souza, cujos motivos eram relativos ao cotidiano dos jovens de periferia do Brasil.

Imagens de Rodrigo Souza

Daí surgiu uma certa apreensão sobre uma possível ‘não identificação’ com as imagens por parte dos jovens portugueses e espanhóis. Pura fantasia… Na prática os jovens dos três países reconheceram-se nas imagens e descreveram-nas como se as mesmas tivessem sido confeccionadas para eles, dada a aproximação com a sua realidade… No contato com eles, eu ficava cada vez mais encantada com estas semelhanças que, como sugeriu meu supervisor, ‘não eram mera coincidência’.

Na prática, esta trajetória investigativa envolveu a aplicação de 307 inquéritos (cada um deles com 28 questões) e a tabulação de 8.596 dados em dias úteis, feriados, manhãs, tardes, noites e madrugadas, assim com a transcrição dos discursos dos jovens, coletados em cinco encontros. Os blocos de questões relativas ao instrumento de coleta de dados envolviam aspectos como: dados gerais, situação socioeconômica, trajetória escolar, projeto de vida e visão de futuro. Entre questões abertas e fechadas, havia ali um caldeirão de dados a serem desvelados. Muito trabalho feito e ainda muito a fazer! No fundo, sinto-me uma pesquisadora com a lata na cabeça. A ‘lata na cabeça’ é uma metáfora capturada de uma ‘luxuosa’ composição do músico brasileiro Chico César.

Dos resultados iniciais, relativos ao núcleo duro da pesquisa, pude concluir que os jovens, em sua grande maioria (84%), têm um projeto de vida que envolve o ingresso na universidade (86%), a busca por um trabalho estável (89%), a formação de uma família (83%) e a busca incessante por seus sonhos… Quanto ao futuro, oscilam entre o temor por não conseguir alcançar suas expectativas – a frase que mais ou vi foi: ‘o que mais me frustra é pensar que por mais que me esforce, não vou conseguir trabalho’-  e a confiança de que ‘nada é impossível’.

Nos três países os jovens ressentem-se da ineficácia das políticas públicas para esta categoria social e veem no Estado a instituição que mais obstaculiza as suas aspirações. As contradições do processo educativo e as suas condições materiais de existência também parecem interferir fortemente em suas aspirações quanto ao futuro. Neste sentido, ilustro com os discursos dos pesquisados:

Quando eu penso no futuro… eu tento ser o mais confiante possível. Tento pensar que vou conseguir entrar numa universidade, no curso que quero… preferencialmente. Depois disso… terminar o meu curso e conseguir arranjar trabalho para dessa forma puder dar um rumo significativo à minha vida… Mas a verdade é que tenho um pouco de medo que nada disso realmente aconteça… medo de que não consiga me sentir realizada, que não consiga principalmente entrar numa boa universidade e fazer aquilo que eu acho que deveria fazer mas não vai ser possível porque talvez a minha média não seja suficiente… infelizmente as pessoas apenas ligam às notas e nada mais nada menos que isso… E se isso acontecer, que eu espero que não… a minha vida vai ser completamente diferente daquela que eu gostaria que fosse… e talvez não seja tão boa quanto eu imagino…(Jovem, sexo feminino, 18 anos, Lisboa).

Cuanto al futuro… cuándo pienso…  yo tengo más miedo… porque no sé que me espera en el futuro, tanto laboral como económicamente… soy una persona que piensa mucho sobre el futuro y no quisiera llevarme una decepción… así… con que no he podido llegar a cumplir mis sueños… nó sé.. no me gusta pensar  que hay algo que me impidió seguir adelante y que… que no estuvo en mis manos, sabés? (Jovem, sexo masculino, 17 anos, Madrid)

O futuro? É luta…  Tipo… os obstáculos, eu acho [que são] a família e Estado porque a minha mãe vai mudar este ano e eu vou precisar ficar sozinho… trabalhar e estudar… e também tem…  tem o Estado que não ajuda porque não te dá chance de ingressar numa universidade e ter um bom futuro. É cada um por si. A gente vê as condições dos prédios das universidades públicas e parece muito com os nossos daqui [escola secundária]. Eles deviam pelo menos reformar os prédios, porque a infraestrutura também conta. Deveriam manter mais projetos sociais, ações sociais… assim… porque tem muito jovem que quer fazer faculdade e não consegue. Mesmo que não paguem  a mensalidade… tipo… falta dinheiro para poder fazer o curso. Aí a gente não tem o incentivo da família e nem a ajuda do Estado…  a luta é… é dura e a gente tem que contar… tipo… só com a gente mesmo.”(Jovem, sexo masculino, 17 anos, Goiânia)

Enfim, devo dizer que esta investigação ainda está em curso e que agora, com a sistematização dos dados, há o trabalho (sutil e não menos hercúleo) de análise e interpretação dos discursos e da aproximação com alguns dos trabalhos já realizados (Recio, 2009; Parente et al, 2011; Leão, Dayrell e Reis 2011; Corica, 2012; Ruiz, 2014, Brealey…)  e ainda com os referenciais teóricos (Pais, Dubet, Schutz, Mannheim, Koselleck…) que norteiam minha leitura da realidade acerca da temática. Portanto, temos um longo percurso ainda a trilhar… Deixo-vos com a metáfora da ‘lata na cabeça’, que ao fim e ao cabo, a mim parece a imagem mais próxima do (encantado) oficio de investigadora. Mergulhem nesta imagem comigo…

A força que nunca seca

Chico César

 Já se pode ver ao longe
A senhora com a lata na cabeça
Equilibrando a lata vesga
Mais do que o corpo dita
O que faz o equilíbrio cego
A lata não mostra
O corpo que entorta
Para a lata ficar reta

Para cada braço uma força
De força não geme uma nota
A lata só cerca não leva
A água na estrada morta
E a força nunca seca
Para a água que é tão pouca…

Em tempo: Abraços a todos os que me acompanharam até aqui, ao Vitor, que afetuosamente me convidou a escrever neste espaço, aos jovens que amorosamente me acolheram e a vocês que generosamente compartilham deste momento de vida experimentada!

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