Envelhecimento em Lisboa, Portugal e Europa

pmf.pngPedro Moura Ferreira é Sociólogo, Investigador Auxiliar no ICS-ULisboa e Coordenador do Instituto do Envelhecimento


978-972-671-376-0-1

O livro Envelhecimento em Lisboa, Portugal e Europa: Uma perspetiva comparada, de Manuel Villaverde Cabral, Maria Toscano e Pedro Alcântara da Silva, recentemente editado pela Imprensa Ciências Sociais, dá conta de um estudo comparativo entre a população portuguesa sénior residente em Lisboa e a população da mesma faixa etária residente no conjunto de Portugal, assim como em três países europeus escolhidos para efeitos comparativos ─ Espanha, Suécia e República Checa. Com o fim de sustentar a reflexão e o debate sobre as políticas públicas em torno do envelhecimento, a investigação visou estabelecer o perfil sociodemográfico, atitudinal e comportamental da população sénior da cidade de Lisboa, tendo em consideração o enquadramento nacional e europeu.

O livro tem duas particularidades que devem ser ressaltadas.

Em primeiro lugar, representa uma fonte inestimável de dados e de informação sobre o envelhecimento, em particular na cidade de Lisboa, dando um contributo importante para o conhecimento objetivo de um dos temas que mais marca a agenda das sociedades contemporâneas. Em segundo lugar, constitui a primeira iniciativa nacional que se propõe analisar e explorar de modo sistemático e transversal um conjunto muito vasto de indicadores e de questões disponibilizado pelo inquérito europeu SHARE (Survey of Health, Ageing, Retiremente in Europe).

É muito relevante que os dados analisados no livro tenham resultado da realização deste inquérito. O SHARE constitui atualmente uma infraestrutura europeia de investigação e o principal instrumento longitudinal de recolha de dados sobre o envelhecimento, permitindo comparações entre países europeus e ao longo do tempo. Com base nestes dados, o SHARE visa compreender não só as interações entre a saúde e o ambiente socioeconómico do indivíduo mas também o modo como estas interações são condicionadas pelas instituições existentes na sociedade (saúde, educação, trabalho, etc.), bem como pelas políticas públicas levadas a cabo pelos governos num determinando contexto histórico.

É, por um lado, a perspetiva comparativa e longitudinal, e, por outro, a diversidade de temas e dimensões que explora, recolhendo desde dados demográficos até dados socioeconómicos, passando ainda por dados epidemiológicos, que tornam o SHARE uma referência incontornável nos estudos sobre o envelhecimento na Europa.

A riqueza dos temas e das dimensões contempladas está bem retratada neste livro, dividido em três partes, de acordo com a própria organização do questionário SHARE, às quais se acrescenta uma conclusão, que, de certo modo, condensa os principais resultados que são referidos no final de cada uma das três principais partes do livro.

A primeira parte diz respeito ao curso de vida de acordo com uma perspetiva sociológica e psicossociológica do envelhecimento, o qual abrange o percurso dos inquiridos ─ desde a educação à família, passando pelo seu posicionamento em relação ao trabalho e à reforma ─,  finalizando com a caracterização socioeconómica e da qualidade de vida refletida em elementos como o rendimento do agregado familiar, a habitação, os bens, as poupanças e os consumos.  A caracterização dos percursos de vida dos seniores (50-64 anos) e dos idosos (65+) proporciona por sua vez uma base na qual assentam as duas outras partes do livro.

É assim que a segunda parte explora as dimensões das redes interpessoais e das atividades sociais realizadas por esta população através das quais se procura detetar os fatores pessoais e grupais favoráveis à promoção do chamado «envelhecimento ativo», além de, evidentemente, inventariar as vinculações sociais e a sociabilidade. Merece ainda relevo a atenção dada às relações intergeracionais e intrageracionais, designadamente no que respeita ao apoio social e às transferências financeiras, bem como o mapeamento relativo às expectativas quanto ao futuro formadas pelos seniores e idosos.

Por fim, a terceira e última parte do presente estudo proporciona um conjunto abrangente de indicadores relativos ao estado de saúde, incluindo também aspetos relacionados com a saúde mental. A descrição é assumidamente descritiva, permitindo, no entanto, eleger a dimensão saúde como uma variável crítica para a compreensão do percurso de vida e das redes, da participação social e das atividades de «envelhecimento ativo» reportadas pelos seniores e idosos, tanto em Lisboa e Portugal como no resto da Europa.

Em termos da conclusão que fecha o livro, talvez seja de destacar o papel da instrução. É perfeitamente evidente ao longo da exposição que quanto mais elevada a escolaridade maior tende a ser o envolvimento em atividades sociais, a rede de amigos, a perceção do nível de saúde e a satisfação com a vida. A escolaridade é, porventura, o fator mais significativo e com mais consequências ao longo de todo o percurso de vida. Conforme salienta o responsável do estudo, Manuel Villaverde Cabral, em entrevista ao semanário Expresso, “a baixa escolaridade das pessoas mais velhas começa por se repercutir imediatamente ao nível do emprego e do rendimento, mais ainda no sexo feminino do que no masculino, projetando-se posteriormente ao longo de todo o curso de vida, nomeadamente na adoção (ou não) de atividades de socialização e manutenção pessoal que constituem o chamado ‘envelhecimento ativo’”. Como corolário da escolaridade crescente da população portuguesa, as pessoas tenderão a gerir o processo de envelhecimento de modo mais ativo e com vantagens claras para si próprias, não dispensando, no entanto, as políticas públicas, nos mais variados domínios institucionais, designadamente a família, o emprego, na reforma, de contribuírem de forma decisiva para a gestão da idade ao longo do curso de vida.

É para esse mesmo fim que este livro pretende contribuir, oferecendo, conforme se destaca na Introdução do mesmo, «uma plataforma informada e reflexiva para a conceção e condução de políticas relativas à condição dos mais velhos na nossa sociedade».

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