Ainda há pouco tempo, no Face, a gente falou…

ver.pngVerónica Policarpo, Socióloga e Investigadora Pós-Doc no ICS-ULisboa


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1870, Harrison Weird, The Dogs’ Dinner Party[i] 

Foi com estas palavras que Rute, 42 anos, casada e com dois filhos, iniciou a nossa conversa sobre a sua rede de amigos, e o lugar que estes ocupam atualmente, na sua vida. Nascida e criada num bairro da periferia de Lisboa, foi a brincar na rua, com vizinhos e colegas de escola, que construiu as suas amizades mais perenes. Mas à medida que o tempo foi passando, acompanhado das suas diferentes fases de vida, a distância foi-se instalando. Até que um dia, alguém falou a Rute de uma ferramenta onde se poderia encontrar “muita gente”.

A história de Rute ilustra como os media sociais se instalaram nas nossas vidas de forma mais ou menos paulatina, ao ponto de parecer praticamente impossível vivermos um dia inteiro completamente desconectados. Facebook, Whatsapp, Instagram, Twitter, Snapshot… A interação tecnologicamente mediada tornou-se uma característica da vida contemporânea. Vivemos como que imersos num ambiente polimediático[ii], em que somos chamados a cada instante a fazer uma escolha moral: se comunicamos ou não, que médium escolher, para que tipo de mensagem, em que tempo e com que intensidade. Algumas características tecnológicas destas plataformas amplificam estas escolhas: a capacidade de galgar espaço e tempo, de chegar a largos números de pessoas, incluindo desconhecidas, ou de tornar públicas as nossas relações, experiências e opiniões pessoais… E no entanto esta imersão tecnológica não nos privou da dimensão relacional das nossas vidas, antes parece tê-la tornado mais intensa, mais aguda.

Qual será, então, o seu papel na gestão que, diariamente, somos chamados a fazer das relações com as pessoas que são importantes na nossa vida? Como entram os media sociais nesse puzzle complexo de afetos negociados no quotidiano?

Este foi precisamente um tema que tentei aprofundar, como parte de um projeto maior sobre as relações de amizade em Portugal. Procurando compreender como as pessoas organizam e gerem as suas relações pessoais significativas (comunidades pessoais,[iii]), perguntei-me que lugar teriam os media sociais nesse processo de permanente negociação afetiva. A partir de entrevistas em profundidade a adultos entre os 22 e os 66 anos, com residência em meio urbano, foi possível identificar a grande diversidade de usos destas plataformas tecnológicas de comunicação interpessoal. Olho aqui para esta diversidade a partir da lente da vida pessoal – a importância de aspetos como o relacional, a memória ou a dimensão biográfica, na vida contemporânea[iv].

A saliência dos laços fortes

O Facebook surge principalmente como uma forma de construir, manter, ou incrementar laços já existentes, com um número reduzido de familiares e amigos, ou outros membros da comunidade pessoal com os quais já se tem uma relação a que se atribui (algum) significado. Esta característica sublinha, de modo amplificado, a importância do relacional na vida contemporânea – o modo como estes laços próximos são cruciais para a construção de um sentido de identidade individual. À semelhança das restantes relações pessoais, também as mediadas pelo Facebook são práticas relacionais, constitutivas desses laços próximos. Enfatizam o modo como nos relacionamos ativamente com aqueles que para nós são significativos, desafiando a noção de que algumas dessas relações são “naturalmente dadas” (como os laços de sangue): antes têm de ser permanentemente (re)construídas através de práticas e discursos. Este é um resultado que confirma o que tem sido dito sobre a utilização dos media sociais noutros países[v].

A importância do tempo e da memória

A.pngO Facebook surge também como uma ferramenta poderosa para retomar relações passadas, colocando-nos em contacto com membros da nossa rede de afetos que, por alguma razão, se perderam ao longo da vida (amigos de infância, ex-colegas, familiares que mudaram de residência). Por vezes, torna-se um lugar de encontro virtual até daqueles que, apesar de nunca se terem conhecido, ocupam algum tipo de lugar na galeria de memórias familiares. Neste sentido, representa uma ligação a um passado nostálgico, por vezes romantizado, protegendo do esquecimento essa parte da nossa identidade. Certas interações no Facebook realizam um trabalho de reconstituição da memória, individual e coletiva, contribuindo para a atualização de um sentimento de pertença (a uma família, a uma escola, a uma organização, a um bairro).

A importância dos rituais e dos eventos ritualizados

B.pngO Facebook torna-se um lugar virtual de reunião, que, ao mesmo tempo, facilita e decorre de encontros face a face. Constitui um poderoso auxiliar na organização de eventos, facilitando o contacto e mobilização de laços distantes para eventos festivos, em que se celebra a reunificação dos afetos dispersos pelas circunstâncias da vida. Por outro lado, é muitas vezes no seguimento destas reuniões, em que o contacto é retomado, que estes laços dispersos se tornam “amigos do Facebook”. À roda da mesa e da comida, os almoços e jantares festivos são oportunidades ritualizadas de reconstituir a nossa linhagem e biografia afetivas; mas também um imaginário, não tanto acerca dos amigos e família que temos e com os quais vivemos todos os dias, mas principalmente aqueles que desejamos ou gostaríamos de ter, ou ter tido.

Um imperativo de continuum relacional

Não nos relacionarmos com alguém, de forma significativa, torna-se, portanto, uma impossibilidade ontológica. A ausência de laços com significado como que confere uma aura de estranheza, e transporta sentimentos de insegurança e fracasso. Esta é, pois, uma norma muito forte na sociedade atual: a de que nos devemos relacionar, permanentemente, com os outros, não deixando “cair” as nossas relações, sob pena de mergulharmos num vazio de significado afetivo. Graças às suas potencialidades tecnológicas, as redes sociais como o Facebook vêm intensificar esta norma e o modo como é vivida: quer reaproximando pessoas que foram em tempos próximas; quer mantendo uma distância calculada em relação a pessoas com as quais as relações se complicaram; quer ainda evitando o corte final e permanente de uma relação que se degradou.

Por outro lado, se, na vida contemporânea, a relação afetiva e plena de significado é um valor maior, e cuidar desses afetos um imperativo, então o fim de uma relação é sentido como algo extremo e negativo. Tal como manter alguém como “amigo no Facebook” constitui uma espécie de última fronteira deste continuum relacional em que vivemos, é também no Facebook que o golpe de misericórdia sobre relações moribundas ou excessivamente dolorosas é desferido. Isto é verdade principalmente para os utilizadores mais intensos. Este ato, para o qual existe até uma nova palavra (desamigar), não é mais do que a outra face da moeda da importância que estas relações têm na nossa vida.

Tal como terminar uma amizade gera um sentimento de profunda inquietação e insegurança ontológica [vi], também terminar uma relação “no Facebook” revela as dificuldades em “abrir mão” de alguém importante para nós, desafiando a ideia de que há relações (vg. de amizade) que, por serem fruto de escolha, seriam simples de “descartar” caso não correspondessem aos “padrões aceitáveis”. Enquanto práticas relacionais, estas são também práticas morais: manter alguém como “amigo no Facebook”, ou “desamigá-lo”, torna-se uma escolha moral, com consequências no patchwork de afetos, em permanente reconfiguração, que constitui a pedra basilar da nossa história pessoal.


[i] Disponível em http://www.harrisonweir.com/product/1870-dogs-dinner-party/

[ii] Madianou, M., & Miller, D. (2012). Polymedia: Towards a new theory of digital media in interpersonal communication. International Journal of Cultural Studies, 16(2), 169–187. https://doi.org/10.1177/1367877912452486

[iii] Pahl, R., & Spencer, L. (2004). Personal Communities: Not Simply Families of “Fate” or “Choice.” Current Sociology, 52(2), 199–221. https://doi.org/10.1177/0011392104041808

[iv] Smart, C. (2007). Personal Life: new directions in sociological thinking. Polity Press.

[v] Boyd,  danah. (2014). It’s complicated : the social lives of networked teens. Yale University Press.

[vi] Smart, C., Davies, K., Heaphy, B., & Mason, J. (2012). Difficult friendships and ontological insecurity. The Sociological Review, 60(1), 91–109. https://doi.org/10.1111/j.1467-954X.2011.02048.x

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