‘Alguém pode me ajudar?’

marcia.pngMarcia Lisboa – pesquisadora do Laboratório de Comunicação e Saúde da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e investigadora visitante do ICS-ULisboa.


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A pergunta do título a este post aparece em vários textos postados no espaço de comentários a uma reportagem publicada pelo website Fiojovem, em novembro de 2009, cujo tema central são os cuidados com o pênis. Ao longo de sete anos, a página dessa reportagem ultrapassa os 400 comentários e ainda continua a recebê-los. O conteúdo dessas intervenções provoca reflexões sobre as variadas formas de apropriação desse canal de comunicação sobre saúde e ciência – vinculado a uma instituição pública brasileira – que se propõe a dialogar com adolescentes e jovens.

A começar, não há nos comentários postados elementos indicativos de que seus autores tivessem chegado ali por conhecerem o site ou a instituição que o edita. Ao menos dois resultados extraídos das métricas de visitação apontam na mesma direção. O primeiro refere-se ao elevado acesso à reportagem por busca orgânica (com destaque para a plataforma Google): 72,28% em Novembro de 2016, enquanto apenas 26,94% chegam à reportagem pela página inicial do site. O segundo dado que chama atenção é o fato de a reportagem sobre o pênis ter tido 38 vezes mais visualizações em relação à página inicial do site: foram 35.740 visualizações da reportagem para 940 da página inicial, em novembro de 2016.

Sabemos que o aumento do acesso de um qualquer lote no ciberespaço não depende da escolha informada de quem o acessa, e sim de fatores conjugados. Técnicas para melhorar a relevância e visibilidade de um site em uma plataforma de busca são facilmente encontradas… também via buscadores: cartilhas de SEO (Search Engine Optimization) orientam sobre o título da página, a escolha das palavras-chave, o uso de negrito, a inserção de parceiros etc, dentre as estratégias de visibilidade na lista dos resultados de busca.

Por parte da produção do Fiojovem, não houve ações específicas para destacar a reportagem sobre o pênis. Ela está inserida em uma seção que aborda diversos temas relacionados à sexualidade, tais como: diversidade sexual, pílula do dia seguinte, uso do preservativo, iniciação sexual, gravidez na adolescência, transmissão do vírus HPV e transsexualidade. A decisão de manter abertos os espaços de comentários das reportagens e as seções de murais, constituídas por fóruns temáticos, tinha a intenção de possibilitar a auscultação dos conteúdos publicados, a troca de ideias e o recebimento de sugestões sobre novos temas e formas de abordagem. Buscava, mesmo que de maneira restrita, dar continuidade ao processo de construção coletiva do site, iniciado em março de 2007.

O recurso de participação na web através de comentários expandiu-se na primeira metade da década de 2000, nomeadamente com a adoção, por parte dos grandes veículos de comunicação que ocuparam a internet, de softwares com esse tipo de funcionalidade. O crescimento exponencial, em pouco mais de uma década, do acesso a plataformas de redes sociais não apenas garantiu familiaridade ao uso desse instrumento de publicação como ampliou o interesse pelas intervenções. Para postar um comentário, é comumente exigido o preenchimento de um cadastro, que inclui nome, dados pessoais e um endereço eletrônico válido. Moderados por robôs ou pessoas, segundo critérios editoriais de cada veículo, os comentários de notícias, reportagens ou artigos jornalísticos não necessariamente se referem aos textos geradores nem aos jornalistas que os escreveram. São também canais de diálogo entre autores/atores.

Os comentários de reportagens no ambiente web podem ser considerados herdeiros de um clássico canal de comunicação para expor / compartilhar opiniões: as cartas dos leitores de veículos jornalísticos impressos. Ainda que as lógicas produtivas nos dois suportes sejam distintas, com impacto no formato e no conteúdo final publicado, o gesto de quem envia um texto para publicação em uma dessas diferentes mídias traz em comum a busca de interlocução. Em ambos os casos, as ações tomam parte do fluxo comunicacional contínuo, no qual o produto não é o objeto inicial de contato nem a recepção é o final, mas um momento do circuito, que começa antes e continua depois.

Nos comentários à reportagem do Fiojovem sobre o pênis, observam-se elementos de um dos múltiplos circuitos ampliados pela web: o das consultas, a especialistas ou leigos, sobre assuntos relacionados à saúde. Seja por acesso direto ou por busca simples via “dr Google”, o direcionamento a sites médicos, sites de pessoas que vivem com doenças raras ou sites de perguntas e respostas situa-se em um contexto de aprofundamento do processo de midiatização social, no qual o estranhamento da mídia é reduzido e a plataforma web torna-se um espaço da vida cotidiana.

Que razões (manifestas ou intertextuais) estão presentes nos comentários à reportagem? O que os textos nos dizem a respeito do estatuto dos médicos? Quais os itinerários terapêuticos de quem relata algum problema no órgão sexual masculino? De que forma se manifestam as assimetrias entre saberes especialistas e não especialistas? Como se dá a interação entre aqueles que apresentam uma dúvida e os que postam comentários em resposta aos que solicitaram ajuda? Por que o acesso a essa página cresceu de forma tão expressiva nos últimos anos?

São algumas questões instigantes nesta fase inicial de análise dos comentários postados. O próprio vínculo com a reportagem é superado pelos compartilhamentos, que indicam diferentes possibilidades de articulação entre autor–leitor e visitante–mediador no processo comunicacional.

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