Decifrando o social: reflexões sobre o trabalho de campo em Roma

filipaFilipa C. Cachapa | Doutoranda em Sociologia | ICS-ULisboa


1© Filipa C. Cachapa

O trabalho de campo permite ao cientista descrever, comparar e analisar uma cultura ou um facto social. Particularmente no caso da Sociologia, e em especial quando se trata de uma investigação qualitativa, o mergulho na vida quotidiana constitui uma mais-valia para o investigador: torna possível compreender as pessoas, as suas atitudes e (inter)acções. Quando os indivíduos que são objecto de estudo de uma dada investigação pertencem a uma cultura diferente da do investigador, a imersão na realidade social revela-se fundamental e pode ser um desafio.

Em 2015, estive em Roma durante dois meses. Entrevistei 30 jovens universitários italianos, depois de já ter entrevistado, em Lisboa, 28 universitários portugueses. O objectivo foi procurar respostas para a pergunta “o que é um adulto?”, de modo a desvendar se o dinheiro e a (in)dependência financeira têm ou não um papel social importante no momento de transição para a vida adulta.

A experiência de trabalho de campo que vivi em Roma, levou-me a reflectir e a ganhar consciência sobre muitos dos procedimentos e dispositivos que, até então, dei por adquiridos. O contraste cultural que experienciei deixou-me alerta para as vulnerabilidades do trabalho de campo. Numa cidade muito diferente daquela onde nasci e cresci (Évora), numa cidade muito diferente daquela onde estudei (Lisboa), confrontei-me cedo com a riqueza cultural que me rodeava.

Tudo era tão diferente para mim que senti a necessidade de criar uma ferramenta onde fosse possível captar toda a diversidade de sons, cores, cheiros, movimento e interacções. O diário de campo foi o instrumento onde anotei, não todos os dias, mas sempre que necessário, os meus comentários, opiniões, pensamentos, receios, ideias, frustrações e vitórias. De outra forma, as “peculiaridades subtis”, de que já Bronislaw Malinowski (1997:33) falava, teriam passado “despercebidas à medida que se [tornavam] familiares”, como é o caso dos movimentos a que diariamente assistia durante a manhã num café perto da casa onde vivi:

 “Não sei quantas pessoas já vi desde que cheguei. Turistas, italianos… todos se misturam. A segurança é apertada neste café da estação Termini. Os mendigos (italianos, romenos, enfim, de nacionalidades que nem sei identificar) não são autorizados a estar aqui dentro. Sejam os que activamente pedem dinheiro ou comida, seja aquele senhor, um pouco gordo, de casaco de malha verde azeitona, de alguma idade e carregando um grande saco de plástico azul que se tentou sentar, pacificamente, numa cadeira, mesmo à entrada. Delicadamente, o segurança aparece. O senhor sai. Os turistas entram. Entram… “Cappuccini: normali? Maxi?”; “un caffè macchiato”; “due cornetti”. Pizza, massas… talvez algumas saladas. “Deseja uma spremuta para completar o seu menu?”. O ritmo é alucinante e aqui as horas não têm tempo. Não são pequenos-almoços, não são almoços… É tudo ao mesmo tempo! E desde que escrevo estas linhas já passaram umas centenas de malas de viagem de todas as cores, variados padrões, umas maiores e outras mais pequenas. Velhos e novos, mulheres e homens, asiáticos, europeus, loiros e morenos. Alguns ruivos. Com barba, bigodes… óculos, chapéus… A lista não tem fim. “
Excerto de diário de campo. Filipa C. Cachapa, Itália, Roma, 02.11.2015.

Tendo-me deslocado a uma cidade europeia, seria de esperar que o confronto cultural fosse mínimo, numa quase uniformidade de valores, princípios e crenças. A vivência no quotidiano romano abriu portas para uma heterogeneidade de identidades, de modos de ser e de estar que necessariamente coexistem no Sul Europeu. Nesse momento, os enigmas que levei comigo ganharam outra dimensão: se inicialmente tinha partido com o objectivo de recolher 30 entrevistas, cedo fui aliciada pela necessidade de decifrar o social — aquele social, diferente do meu.

2© Filipa C. Cachapa

Assim, comecei a embrenhar-me naquela cultura. Ouvia as conversas dos outros nos cafés, via como comunicavam; sentava-me nos bancos de autocarro para ouvir conversas, observava os gestos e comportamentos. Sentava-me nas esplanadas a ver passar as pessoas nas passadeiras, na rua; observava como falavam ao telefone. Queria compreender aquela informalidade que não se aprende nos livros e que corresponde à vida de todos os dias, ao banal.

3© Filipa C. Cachapa

Tornei-me uma participante activa na vida romana. Frequentava sobretudo o meu bairro: ia ao mercado, aos cafés da zona, cumprimentava os vizinhos, com quem trocava duas ou três palavras no elevador. Visitei os vários polos da Universidade: caminhava pelos espaços comuns, frequentava os corredores, a biblioteca, o bar e os mesmos locais que os estudantes frequentavam. Nas primeiras semanas fui sobretudo uma ouvinte. Aprendi palavras novas, sons, gestos e até, sem dar conta, expressões do dialecto local. Comecei a comportar-me, menos como uma visitante, e mais como uma local. Para isto foram importantes também, os jantares que a minha colega de casa organizava com os seus amigos. Eu era sempre convidada e ela, apesar de ser portuguesa, nesses momentos não falava uma palavra de português comigo. Mais do que um idioma, aprendi sobre uma cultura. Foi um processo de integração moroso, delicado e complexo.

Os primeiros obstáculos com que me confrontei surgiram no momento de recrutamento dos entrevistados e, nos primeiras semanas, durante a aplicação das entrevistas. No início, não dominava a língua italiana. No momento dos preparativos para o trabalho de campo, tinha frequentado um curso de língua e cultura italianas, tinha decorado o guião de entrevista e tinha ensaiado uma apresentação para os primeiros contactos com possíveis entrevistados. Rapidamente percebi que isso não era suficiente. Deparei-me com dificuldades em conseguir empatia, principalmente com os entrevistados mais tímidos ou com aqueles que tinham pouca abertura para com estrangeiros.

Sobre essa experiência escrevi no meu diário de campo que “o papel do investigador pode ser um verdadeiro desafio: tenho de ter (ou de inventar) formas de cativar perfeitos desconhecidos a passar pelo menos meia hora do seu dia a conversar sobre si, a sua vida e as suas crenças da forma mais próxima possível da realidade. (…) As dificuldades de uma investigadora, como eu, que tem uma nacionalidade diferente dos seus entrevistados podem surgir principalmente no momento de conquistar os indivíduos e convencê-los a transformarem-se em entrevistados, deixando cair a pele de desconhecidos. Ainda que domine o vocabulário, rapidamente os indivíduos percebem que não sou italiana. Por mais que treine vezes sem conta o discurso de apresentação, a velocidade do meu italiano não é a mesma. A pronúncia daqueles sch ou gl ou ng não é a mesma. O essere e o trovare não soam ao mesmo quando ditos por uma portuguesa com poucos meses de experiência nesta língua. Ainda assim, depois de ultrapassada a barreira linguística que me impedia de falar tanto como o que percebia, esta torna-se uma aliada durante a entrevista. O meu inevitável afastamento à cultura romana (e italiana) enraizada nos meus entrevistadas, conduzem-me a entrevistas menos filtradas pelas lentes influenciadas com que olho para as entrevistas portuguesas.” [30.11.2015]

Depois da experiência em Roma posso dizer que tive dois trabalhos de campo: o português e o italiano. Posso agora compará-los, percebendo que o que parecia ser um obstáculo se transformou numa oportunidade. Em Portugal, tive de encontrar entrevistados. Em Roma, primeiro tive de me infiltrar naquela sociedade, nos modos de estar, de falar. E depois conquistar os entrevistados. Nem sempre foi fácil. Foi um verdadeiro desafio que pôs à prova as minhas competências de investigadora mas também as minhas características individuais. No final, o afastamento à cultura italiana e as dificuldades linguísticas permitiram-me ser sobretudo observadora e ouvinte, o que foi mais-valia para a investigação.

Assim, além dos resultados empíricos que tive oportunidade de recolher no contexto da minha investigação comparativa entre Portugal e Itália, trouxe comigo preocupações sobre a necessidade de auto-reflexividade que acredito ser cada vez mais necessária em ciências sociais. Apesar da neutralidade científica a que obrigam, os bastidores de toda e qualquer a investigação fazem parte da pesquisa, revelando pistas importantes para a reflexão sobre a vulnerabilidade do papel do cientista social.


Malinowski, Bronislaw. (1997) “Os Argonautas do Pacífico. Introdução: objecto, método e alcance desta investigação”, Etnografica 6/8: 17-38 (tradução de Ana Paula Dores)

Pais, José Machado (2012) [2002] Sociologia da Vida Quotidiana – teorias, métodos e estudos de caso, Lisboa: Impressa de Ciências Sociais.

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