‘Assuntar’ ciência em blogues

isabel Isabel Freire é doutorada em Sociologia no ICS-ULisboa, jornalista e editora de conteúdos online.


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Normal people are nothing exceptional é o título de um filme que vi há muitos anos na antiga sala de cinema King, em Lisboa. Foi realizado por Laurence Ferreira Barbosa, em 1993. Não tem nada a ver com a ideia de divulgar ciência em blogues ou em outras plataformas online, mais ou menos em rede, menos ou mais sociais.

Lembrei-me da obra de Laurence Ferreira Barbosa pela ideia da excecionalidade. Ciência e cientistas têm tanto de “excecional” como de “comum”. Acredito que sim. Exatamente por isso, vale a pena ‘desmarciar’ os gestos ‘disso’ que é fazer ciência, simplificar as palavras que a divulgam e – last but not least – revelar um pouco da pessoa atrás do cientista. Muito embora não haja uma fórmula para agendar ciência em blogues, o caminho – parece-me – pode ser por aí.

Quando espreitamos o imenso universo dos blogues feitos por gente de ciência, a diversidade impõe-se. Propostas editoriais muito distintas. Blogues em nome de coletivos ou de autor, de acesso livre ou reservado, com narrativas mais e menos acessíveis, em posts brevíssimos ou demorados, e com múltiplas abordagens (apontamentos, anúncios, notícias, entrevistas, artigos, resenhas, recensões críticas, etc.).

Não tenho dúvidas de que a ciência pode e deve comunicar nas mais diversas plataformas online, e de forma abrangente (portanto mais ligeira, clara e resumida), sem perder credibilidade científica. Os desafios, para quem comunica, são essencialmente dois: motivar e ser compreendido.

Helen Sword, diretora do Centro de Aprendizagem e Investigação em Educação Superior da Universidade de Auckland, estuda uma tendência para comunicar de forma complexa e hermética, que se verifica ainda nos nossos dias, em narrativas académicas, que vão das ciências sociais às humanidades. Vale a pena ouvi-la falar sobre o assunto. Também Michel Billig, investigador inglês, problematiza estas questões num livro publicado há quarto anos pela Cambridge University Press. O título da obra está carregado de ironia: Learn to write badly: how to succeed in the social sciences. A introdução está disponível neste link.

Em Portugal tem ainda muita força a ideia de que a ciência séria (de qualidade) comunica de forma elaborada e tendencialmente inacessível para leigos, ou especialistas das matérias tratadas.

Quando leio artigos científicos que me inspiraram clareza e fruição, reconheço aos seus investigadores/autores, uma excecional acuidade, sentido de partilha e intenção de universalidade. Faz-me sentido que em blogues de ciência e cientistas, a atitude de comunicação siga estes mesmos princípios. E que as opções editoriais vão para além das descobertas realizadas nos mais diversos projetos de investigação. Por mim, poderíamos ficar também a conhecer um pouco das pessoas atrás dos cientistas e a saber dos princípios que defendem, nas matérias – simultaneamente “comuns” e “excecionais” – que são tanto as da ciência como da vida quotidiana.


Como citar este artigo: Freire, Isabel (2017) ‘Assuntar’ ciência em blogues.  Life Research Group Blog, ICS-Lisboa, https://liferesearchgroup.wordpress.com/2017/04/20 20 Abril 2017 (Acedido a xx/xx/xx)

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