As promessas e as aporias do digital: uma obra coletiva para pensar a digitalização da cultura e da arte

José Marmeleira é crítico e jornalista. Prepara uma tese de doutoramento sobre a arte e a cultura em Hannah Arendt no Programa Doutoral em Filosofia da Ciência, Tecnologia, Arte e Sociedade da Universidade de Lisboa


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Capa do livro Cultura e Digital em Portugal

Organizado por três sociólogos, Teresa Duarte Martinho (Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa), João Teixeira Lopes (Faculdade de Letras da Universidade do Porto) e José Luís Garcia (Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa), Cultura e Digital em Portugal oferece um panorama plural e alargado do trabalho académico que tem vindo a ser realizado em torno do tema da digitalização na arte e na cultura. Ensaios, estudos de caso, análises de iniciativas e pesquisas empíricas e, acima de tudo, pontos de vista diversos e sensibilidades distintas compõem esta obra coletiva que, em certa medida, é uma continuação do colóquio realizado, há dois anos, no Instituto de Ciências Sociais, Universidade de Lisboa. Trata-se de uma publicação com a chancela das Edições Afrontamento, integrando a coleção Biblioteca das Ciências Sociais.

O livro inicia-se com um texto assinado por Herminio Martins (sociólogo e intelectual falecido em 2015) e José Luís Garcia, que proporciona uma contextualização da revolução digital articulando-a com a reorganização do capitalismo. No período pós-fordista, afirmam-se a digitalização e a mercadorização da cultura, do conhecimento e da investigação. O significado do trabalho, das relações interpessoais, da nossa relação com o mundo altera-se profunda e irreversivelmente e é face ao que essa alteração anuncia que os autores defendem uma posição. O perigo de ser retirada a função de bem social à informação, à cultura e ao conhecimento, consideradas agora meras mercadorias, deve ser combatido com a responsabilidade moral, o sentido crítico, a distância da mundanidade e a independência perante a doxa.

Noutra latitude, Maria Teresa Cruz, elabora o conceito de design social ou (co-design) e mostra como numa paisagem mediática dominada pelas redes de informação e comunicação, o design pode vir a ser mais transformador do que a arte, ao reivindicar uma função no desenho das comunidades e das suas formas de vida. Para tal, adverte Teresa Cruz, será necessário encontrar um pensamento alternativo ao marketing, um novo ethos e, sugerimos nós, impedir que, ao operar sobre uma visão da criatividade, esse design não resvale para uma engenharia da vida social.

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Os Respigadores e a Respigadora, de Agnès Varda, captura de ecrã

Teresa Duarte Martinho oferece uma perspectiva histórica da introdução do digital em Portugal no âmbito das políticas culturais. As novas tecnologias de comunicação surgem como potenciadoras do alargamento da esfera cultural e é nessa direcção, também, que se enquadram os apoios e as directivas comunitárias. Não sem paradoxos ou equívocos, como aqueles que marcaram entre 2012 e 2015 o debate em torno da lei da cópia privada: num contexto fragilizado pela escassez de recursos, verificou-se um desfasamento temporal (ainda não resolvido) entre os efeitos disruptivos das tecnologias digitais no consumo e no acesso à cultura e à arte e os fundamentos da legislação da propriedade intelectual.

É a propósito desses efeitos, mas na natureza dos objectos culturais e artísticos que trata a segunda parte do livro. Maria Augusta Babo reflecte sobre a transformação digital do livro num arquivo como totalidade de dados à disposição do leitor em ambiente hipermédia. Ao mesmo tempo que retira aos textos o enquadramento numa obra, e reduz ao máximo a figura autoral singular (em particular, nos textos científicos), a rede pode transformar os autores e os leitores em utilizadores, integrando-os numa produção colectiva do saber. Estariam assim criadas as condições para a formação de um ecossistema digital, afastado das indústrias culturais e propiciador de uma experiência revitalizada do exercício crítico.

A virtualização de O Livro do Dessossego, Fernando Pessoa (Arquivo LdoD) podia constituir-se como um exemplo da possibilidade desse exercício. Este caso de estudo, investigado por Manuel Portela representa uma criação especificamente digital aberta às possibilidades de modificação, de intervenção e manipulação da escrita. Nesse novo livro, agora virtualizada enquanto potencialidade, recriado digitalmente, o autor avista uma correspondência entre a consciência da subjetivação do processo de escrita, que estaria na base da heteronímia pessoana, e a potencialidade da subjectivação resultante das experiências do literário. O capítulo seguinte é dedicado ao catálogo raisonné digital do pintor António Dacosta.

Considera o autor, Fernando Rosa Dias, que esse “objecto” propicia uma visão sintética e relacional das imagens, uma dinâmica que permite passar do particular para a síntese, gerando novas reorganizações e relações. Deslocando-se da obra de arte e das suas associações internas, o catálogo digital privilegia uma dimensão lúdica, fundamentada na agilidade de conexão e restruturação rápida, sem excluir uma suspensão perante as reproduções ou, até, a sobrevivência da contemplação. Marta Pinho Alves consagra o seu texto a uma nova modalidade de produção cinemática: o microcinema. Numa digressão histórica e compreensiva, sinalizam-se os principais momentos e intervenientes de um novo tipo de cinema (com outras escalas, abordagens ao real e recursos) que as inovações do digital vieram viabilizar. Deixando em aberto o seu futuro como prática, estética e técnica.

Também são abordadas as iniciativas das instituições face à desmaterialização trazida pelo digital. Teresa Barreto Borges e Helena Simões Patrício, por exemplo, analisam, respectivamente, os desafios colocados à museologia cinematográfica e à actividade da Biblioteca Nacional Portuguesa, sublinhando os contextos e as principais medidas estratégicas. Mencione-se, por fim, as pesquisas de João Teixeira Lopes e José Soares Neves que permitem um enquadramento empírico da relação dos indivíduos com o digital. Guiadas por temas distintos (o acesso ao ciberespaço e a leitura impressa e digital em Portugal), os dois estudos apontam para uma conclusão comum que é pertinente salientar: as desigualdades sociais não desapareceram com a digitalização.

Assente num mosaico de perspectivas e metodologias, Cultura e Digital em Portugal faculta uma reflexão ampla e profunda sobre as implicações das novas tecnologias nas várias acepções e realidades da cultura. O leitor não encontrará nos seus capítulos posições catastrofistas ou a ingenuidade imprudente dos tecnólogos, mas um contributo incontornável para pensar as promessas e as aporias que atravessam o digital.


 Este post constitui um extracto de um texto original publicado pelo autor, sobre o livro em foco, no suplemento Ípsilon, do Jornal Público, em 5 de Maio de 2017.


Como citar este artigo: Madureira, José (2017) As promessas e as aporias do digital Uma obra coletiva para pensar a digitalização da cultura e da arte. Life Research Group Blog, ICS-Lisboa, https://liferesearchgroup.wordpress.com/2017/06/06 06 Junho 2017 (Acedido a xx/xx/xx)

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