Um convite ao manifesto – Quando sinto que já sei

rafael.pngRafael Garcia Barreiro – Professor na Universidade de Brasília (UnB), Doutorando pelo Programa de Pós Graduação em Terapia Ocupacional – Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e Doutorando visitante no ICS/ULisboa.


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Refletir sobre a educação é questionar seu passado, entender seu presente e projetar um futuro. Quando digo questionar sobre o passado, me refiro aos padrões hegemônicos que adotamos enquanto sistema educacional. Ao presente, busco entender o debate posto na atualidade acerca do acesso instantâneo ao conhecimento via as plataformas digitais e a discordância deste fator sobre o os modelos já consolidados  como “processos de aprendizagem”. Sobre o futuro, irei tratar logo a frente.

Para tentar entender essa relação entre passado e presente da educação, recorro a Antonio Gramsci na compreensão da dialética marxista. Gramsci indissocia a relação dialética entre o intelectual e o mundo circunstante, colocando o desafio para uma nova produção da ciência, ao que ele refere de “intelectual orgânico”, capaz de produzir além da técnica, uma relação política na formação de uma contra-hegemonia aos interesses do capital e de uma intelectualidade tradicional.

A relação técnico-política é para Gramsci, um conceito chave no entendimento do papel daqueles que promovem a inovação, nesse caso, no campo da educação. Seja pelas exigências do mundo contemporâneo ou pelo desgaste que a instituição escolar vem sofrendo desde a Revolução   Industrial no século XVIII.

Projetar um futuro para educação sobre os processos de aprendizagem que estão colocados a dois séculos na nossa sociedade, é pensar em como podemos conciliar aprendizagem, tecnologia e política, criando uma capacidade critica e teórica sobre aqueles que buscam o conhecimento nas instituições educacionais.

Alguns pensadores brasileiros nas últimas décadas do século XX, como Paulo Freire, Darcy Ribeiro, Rubens Alves por exemplo, buscaram trazer ao campo deste debate, proposições teóricas que poderiam fundamentar práticas educacionais inovadoras. Embotados com os escritos destes autores e buscando um sentido aplicável para isto, um grupo de amigos, sem muita experiência com cinema, começam a buscar e registrar práticas educacionais inovadoras pelo Brasil, compilando assim no documentário “Quando sinto que já sei”.

O documentário, realizado através de um financiamento coletivo foi lançado em 2014, e traz o retrato de experiências educacionais que vão para além do formato institucionalizado da escola, e que buscam trabalhar a relação democrática nos ambientes de ensino, ou seja, uma escola pensada dentro dos princípios de igualdade entre professores, alunos e gestão. Esse movimento tem como precursores a experiência de Summerhiil School, inaugurada na década de 1920 na Inglaterra e pela escola da Ponte, inaugurada o fim da década de 1970 pelo pedagogo José Pacheco em Portugal.

O documentário traz apontamentos feitos por alunos, professores e gestores acerca das experiências apresentadas e de suas reflexões pessoais quanto as pedagogias alternativas implementadas. Acima das inovações, o documentário se torna um manifesto para a reflexão acerca das nossas metodologias atuais de ensino, nossas relações com a aprendizagem e a transmissão de conhecimento.

Seu nome, “Quando sinto que já sei”, origina-se de um “mural” que existe em uma das escolas visitadas, onde os alunos marcavam o que aprenderam, independente do formato que chegavam a determinado conteúdo. Remetendo novamente a Gramsci, é sobre essa vertente que conseguimos para além da técnica, apresentar o espirito critico sobre o conhecimento absorvido, dando elementos para qualificar sua relevância e não ser apenas um conteúdo depositado a ser revisto somente em uma avaliação formal para qualificar se o alunos “decoraram” ou não.

Seja um educador, pesquisador ou aluno, esses questionamentos de algum modo já passaram pelas suas reflexões e se as mesmas acompanharam um desejo de transformar, fazer diferente, este documentário pode ser um propulsor para fazer a diferença. Fica aqui convite da transformação.


Como citar este artigo: Barreiro, Rafael (2017) Um convite ao manifesto – Quando sinto que já sei. Life Research Group Blog, ICS-Lisboa, https://liferesearchgroup.wordpress.com/2017/07/11 11 Julho 2017 (Acedido a xx/xx/xx)

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