Uma leitura de «Os jovens portugueses no contexto da Ibero-América»

denise.pngDenise Laranjeira é professora titular na Universidade Estadual de Feira de Santana, e foi investigadora visitante no ICS-ULisboa.


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O livro “Os jovens portugueses no contexto da Ibero América”, publicado pela Imprensa de Ciências Sociais no final de 2016, e coordenado por José Machado Pais e Cícero Roberto Pereira, traz alguns dos principais resultados e análises do Primeiro Inquérito “A Juventude Ibero Americana”, fruto de um protocolo institucional que abrange o Instituto Português do Desporto e Juventude (IPDJ), a Organização Ibero Americana de Juventude (OIJ) e o Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa (ICS-ULisboa), através do seu Observatório Permanente da Juventude (OPJ).

O estudo, auspicioso por sua abrangência e complexidade, foi realizado no ano de 2013 em 20 países, sob a coordenação da Organização Ibero-Americana de Juventude e o apoio do Banco Interamericano de Desenvolvimento e o Banco de Desenvolvimento da América Latina. 18 935 jovens ibero americanos, de 15 a 29 anos, responderam por telefone fixo a um questionário que versou sobre diversos temas, como educação, trabalho, saúde, ecologia, política, expectativas de futuro, etc… O principal  objetivo deste livro foi analisar atitudes, valores e expectativas dos jovens portugueses no contexto Ibero-Americano, confrontando com jovens de outros países, como Espanha e aqueles situados na América do Sul, América Central e México.

As parcerias institucionais envolveram a Universidade Autônoma do México e a Comissão Econômica para a América Latina e Caribe. Vale consultar a publicação na íntegra do referido Inquérito, ilustrada com fotografias de jovens que representam a diversidade cultural e territorial, disponibilizada pela OIJ, intitulada El Futuro ya Llego Primeira Encuesta Iberoamericana de Juventudes.

Os capítulos do livro despertam interesse ao tratarem de questões contemporâneas sobre as quais a academia e a sociedade civil organizada se debruçam há algumas décadas, visando, por um lado, conhecer a realidade onde xs jovens surgem como sujeitos de direitos, em diálogo interdisciplinar (sociologia, política, psicologia, comunicação, educação, cultura, etc.) e interinstitucional. E, por outro, potencializando debates e ações propositivas em seu sentido plural e público, tendo em vista uma nova ordem social mais inclusiva.

Com prefácio do atual Secretário de Estado da Juventude e Desporto em Portugal, João Paulo Rebelo, subentende-se os elos necessários entre academia, sociedade civil e Estado, quiçá projeções para uma agenda de políticas públicas intersetoriais para e com a juventude. Fica talvez uma incógnita quanto aos desdobramentos desse inquérito na Espanha e em outros países latino-americanos. Uma enquete quanti e qualitativa, respeitando as singularidades de cada país e região, seria bem-vinda, tendo sido essa a intenção inicial dos promotores do Inquérito, forçados a redesenhar a proposta diante dos obstáculos financeiros.

Na primeira parte, o livro apresenta a sessão “Valores, atitudes e percepções” dxs entrevistadxs frente a alguns temas «socialmente sensíveis», como bem nominados por Pereira, a exemplo do casamento homossexual, aborto, imigração, uso de cannabis sativa, dentre outros. Ainda na mesma sessão, temos acesso às preocupações que mobilizam os jovens na atualidade. Qual a hierarquia estabelecida pelos entrevistados para os problemas da delinquência e violência, emprego, acesso à educação de qualidade e à justiça?

A percepção da violência em suas diferentes matizes e âmbitos social e econômico, apresentada de maneira comparativa, nos instigam a refletir sobre a relação nem sempre direta entre democratização e diminuição da violência, e igualmente na relação fato social e as percepções sobre a violência. O tema é tratado em sua complexidade e diversidade, respeitando as diferenças históricas, geográficas, culturais e sociais. Encerrando essa parte, um artigo discorre sobre a sexualidade juvenil e métodos contraceptivos, com destaque aos diferentes contextos nacionais, culturais e sociais, além das especificidades de gênero, para não recair em homogeneização dos resultados. Embora não seja o alvo do artigo, nota-se a sua atualidade, inclusive porque, ainda hoje, conteúdos relacionados à sexualidade humana continuam cerceados dos espaços escolares por razões morais e religiosas que expõem o embate entre ciência e religião.

A percepção da juventude iberoamericana sobre as instituições, a democracia e o associativismo, é contemplada na segunda parte do livro. Em parte, algumas das conclusões sobre a participação social e política dos jovens são semelhantes àquelas de Carrano (2006), quando o pesquisador interpreta dados de uma investigação feita no Brasil aferindo o associativismo entre rapazes e moças. Grosso modo, a maior escolaridade parece favorecer o associativismo juvenil, seja ele esportivo, artístico, religioso, etc. Um artigo específico busca interpretar o grau de confiança atribuído à democracia e a Governos, Justiça, Media, Polícia, Universidades, etc.

O inquérito, concordando com autores, capta um momento estático da realidade, inibindo a possibilidade de projeções. Ficam questionamentos em aberto quanto ao apoio dos jovens à democracia e a desconfiança nas instituições estatais e não estatais. Retomada de inquéritos passados nos países em foco, abre perspectivas analíticas interessantes que valem aprofundamento na linha comparativa, considerando as oscilações e/ou permanências nas percepções e as conjunturas políticas. Fato é que a descrença nos políticos e nas instituições tendem a estimular uma cultura política participativa entre xs jovens. As experiências mais horizontalizadas, solidárias, cooperativas e à margem do instituído, sejam elas, mais tênues, sistemáticas ou orgânicas atravessam fronteiras e são ilustradas pelos movimentos sociais negro, ecológico, feminista, homoafetivos dentre outros, ou ainda movimentos mais estritos ao campo da arte, da música, da poesia, etc.

Na última parte, o livro explora o eixo Educação, trabalho e futuro, abrangendo a educação e a inserção profissional, como também as novas tecnologias e, por fim, as percepções dxs jovens quanto ao presente e futuro, a partir de doze temas nos distintos cenários investigados. Esse conjunto temático a encerrar a obra, permite uma leitura transversal com os demais conteúdos cotejados anteriormente. Frente às desigualdades típicas do mundo capitalista sob a ordem neoliberal que afeta, sobretudo, setores mais vulnerabilizados da juventude, fica o desafio para instituições e governo propiciarem meios materiais e simbólicos que resultem em políticas de inclusão social econômica e cultural, bem como, por consequência, para que revertam ou amenizem expectativas negativas frente à realidade.

A percepção dos jovens sobre a escola tem seus condicionantes econômicos e instiga questionamentos. São justamente aqueles que pertencem aos estratos de menor poder aquisitivo, propensos a situações de exclusão no mundo social e laboral, a estabelecer maior criticidade sobre a escola, enquanto aqueles oriundos dos estratos de maior poder aquisitivo apresentam maior conformidade com a instituição. Esse cruzamento de dados não seria de menor importância. No caso do Brasil, temos uma particularidade. São os jovens dos setores mais empobrecidos que, majoritariamente, se encontram na escola pública. Assim, mesmo que o acesso ao emprego nas últimas décadas seja difícil, precário e intermitente, de maneira geral, as chances de um lugar ao sol serão mais remotas para jovens menos escolarizados e com menor capital social e econômico, fator que remete às segmentações e hierarquias no plano ocupacional e salarial.

Em Portugal, frente à crise econômica europeia, as análises sugerem uma avaliação não otimista dos jovens quanto ao presente e futuro. Tal avaliação recai justamente sobre as desigualdades, a corrupção e o emprego estável, fenômenos que ganham contornos quase mundiais, apesar de suas variantes no continente iberoamericano. Que impactos de natureza socioeconômica ou comportamental para a juventude representam percepções mais otimistas ou pessimistas diante dos itens avaliados? Quais medidas, que atores institucionais e movimentos organizados poderiam contribuir para amenizar perspectivas sombrias para o futuro da juventude em Portugal ou alhures? Essas são algumas das perguntas acenadas no artigo que contribuem com o debate.

Para concluir, é importante frisar que, sob alegação de motivos econômicos e de tempo, o inquérito feito por telefone fixo apresenta limites, quando se sabe sobre o uso massivo dos aparelhos telemóveis na atualidade. A amostra acaba por contemplar jovens mais escolarizados, universitários e moradores nas cidades. Os estratos menos escolarizados, mais empobrecidos e moradores nas periferias urbanas parecem estar fora da sondagem. Se pensarmos que o Brasil e o México, juntos, reúnem aproximadamente 51,5% dos jovens ibero-americanos com extrema diversidade étnica, religiosa, territorial, etc., nos perguntamos sobre a identificação dessa população (negra, indígena, quilombola, mestiça…) sob esses marcos na investigação.

Igualmente, em Portugal, o lugar da fala dos jovens afrodescendentes ou africanos certamente traria novas configurações para o Inquérito. Como estes sujeitos avaliariam a polícia, a educação e a justiça? Vale dizer que os limites são reconhecidos pelos coordenadores da investigação e pela maioria dxs autorxs ao problematizarem alguns dos resultados. Amparados em ricas fontes teóricas e documentais, o livro propicia reflexões críticas que constituem um dos pontos fortes do conjunto da obra e confirma a importância do Inquérito e suas motivações agregadoras no âmbito ético, acadêmico, social e público.


Como citar este artigo: Laranjeira, Denise (2017) Uma leitura de «Os jovens portugueses no contexto da Ibero-América».  Life Research Group Blog, ICS-Lisboa, https://liferesearchgroup.wordpress.com/2017/12/19 19 de dezembro 2017 (Acedido a xx/xx/xx)

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