Precarização da vida e práticas alimentares familiares. Apontamentos de um projeto de pós-doutoramento sobre os impactos da precariedade

vascoVasco Ramos, Investigador Pós-Doc do ICS-ULisboa

 


Com a erosão do regime de produção fordista e sob um novo espírito de capitalismo, trabalho e emprego tornaram-se mais complexos, fragmentados e imprevisíveis. Em Portugal como em outros contextos europeus, um número crescente de indivíduos está envolvido em formas atípicas de trabalho ou experimenta períodos de desemprego ao longo do seu percurso profissional, sobretudo entre as coortes etárias mais jovens. Esta realidade tem sido confirmada não apenas pelos dados estatísticos relativos às estruturas do emprego, como também por numerosas investigações.

Grosso modo, o termo precariedade tem sido usado para descrever o vasto conjunto de modalidades de trabalho em que as responsabilidades e os riscos recaem quase exclusivamente sobre os assalariados. O fenómeno é de tal forma complexo que é frequentemente definido por contraste com modelo de emprego standard comum na relação salarial fordista. Contrariamente a esse tipo de relação laboral (estável, juridicamente protegida e garantia de integração social), o emprego precário associa-se a todas as formas de trabalho incerto, a contratos de duração de curto termo, a baixas remunerações e à falta de perspetivas de construção de uma carreira profissional. A precariedade da relação laboral pode ainda ser equacionada para lá da vulnerabilidade objetiva, na componente subjetiva ou existencial do trabalho.

Aquilo que parece um dado adquirido, de facto, não o é. O conceito de precariedade tem sido definido de formas muito diversas e, por vezes, contraditórias, dependendo das perspetivas teóricas e interesses de pesquisa. Enquanto alguns autores enfatizam que o aumento da precariedade é um sinal histórico de transformações no capitalismo, outros contestam que seja sequer algo novo, que se esteja a generalizar ou que esteja na génese uma nova classe social ou fração da classe trabalhadora, como afirma Standing (2011).

A questão torna-se mais clara quando definida enquanto (potencial de) precarização. Isto é, como um processo que se relaciona com insegurança, volatilidade ou vulnerabilidade das condições de vida, cujo epicentro são as dinâmicas do mercado de trabalho, sob o pano de fundo das transformações socioeconómicas, políticas e até culturais do capitalismo contemporâneo. Assim definida, a precarização é um fenómeno simultaneamente real e virtual: pode ter consequências palpáveis nas condições materiais de existência; mas também tem implicações subjetivas, nomeadamente nas expectativas e na forma como nos relacionamos com o futuro.

O crescimento da precariedade laboral transporta consigo o gérmen de uma transformação social profunda. Com a vulnerabilização das relações laborais, o trabalho perde a sua função integradora e criam-se condições para uma double disconnection, como lhe chamou Castel (2000), ou para a precarização dos “mundos da vida”, na linguagem de Butler (2004). No limite, conduzem à erosão dos vínculos sociais e à própria degradação dos indivíduos, que veem diminuída a sua capacidade para agir de forma independente na sociedade.

Os processos de precarização podem causar a disrupção dos hábitos dos indivíduos, bem como alterar convenções e rotinas quotidianas. Isso pode acontecer de forma súbita, como no caso do desemprego ou de choques económicos, ou de forma mais gradual e insidiosa, como no caso das lentas transformações no mundo rural, em resultado das políticas de desenvolvimento adotadas ao longo das últimas décadas. O desfecho dos processos de precarização é incerto: depende das respostas antecipatórias e adaptativas dos indivíduos; dos contextos e do tecido social em que estes se inserem; e, em última análise, das políticas públicas. Uma vez que não seguem um padrão uniforme, mesmo que sejam estruturalmente determinadas, as experiências de precarização tendem a ser complexas, fragmentárias e particulares.

No âmbito do projeto de pós-doutoramento que estou a desenvolver no ICS-ULisboa, equaciono a relação entre precariedade laboral e precariedade da vida, isto é, a hipótese da existência de um processo de precarização social. Para tal, tomo como observatório privilegiado a questão da alimentação, mais precisamente as práticas alimentares familiares. De facto, existem fortes evidências de que a pobreza e a insegurança alimentar ao nível dos agregados domésticos está a aumentar nos países “desenvolvidos”. O aumento da insegurança alimentar é relevante, na medida em que coloca em evidência impactes dos processos de precarização no quotidiano dos indivíduos e das suas famílias. Num contexto de austeridade, é altamente provável que esses fenómenos se agudizem e tenham consequências na organização da vida quotidiana, nomeadamente naquilo que corresponde ao family foodwork, uma expressão de O’Connell e Brannen (2016) para dar conta do processo de obtenção, gestão, preparação e consumo de alimentos.

São várias as questões concretas que orientam a minha pesquisa. Como é que a situação profissional e os rendimentos influenciam a alimentação dos indivíduos e das suas famílias? Como é que se organiza e divide o trabalho relacionado com alimentação lá em casa? Como e onde tomam as refeições? Como é que essas situações evoluíram recentemente? Atualmente os alimentos que consegue comprar são os que gostaria/de que necessita? Que tipo e volume de apoios recebem (do Estado, de IPSS’s, da família e amigos)?

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A minha proposta de projeto de investigação intersecta três campos de pesquisa no âmbito das ciências sociais: o campo das desigualdades sociais e socio-espaciais; dos estudos sobre percurso de vida e vida familiar; e dos estudos sobre práticas alimentares e alimentação. Para compreender de que forma as experiências de precarização afetam as práticas alimentares, uso um desenho de pesquisa sustentado em estudos de caso, em que cada um pode ser estudado por referência a vários níveis analíticos: macro/nacional, i.e. estruturas sociais; meso, i.e. disponibilidades, acessibilidades, redes e práticas de solidariedade local; e micro, i.e. recursos, práticas e divisão de tarefas ao nível familiar. Esse trabalho será complementado pelo mapeamento da relação entre precariedade e pobreza/insegurança alimentar a nível nacional, partindo de dados secundários de várias fontes.

Esta pesquisa pretende contribuir para a compreensão dos efeitos dos processos de precarização sobre a vida quotidiana e o percurso de vida. Nesse sentido, as questões da alimentação são “boas para pensar”. Sendo centrais na vida familiar, obrigam-nos a analisar um conjunto de práticas e gestos quotidianos que damos por adquiridos e que refletem um determinado grau de bem-estar material e subjetivo.


Como citar este artigo: Ramos, Vasco (2018) Precarização da vida e práticas alimentares familiares. Apontamentos de um projeto de pós-doutoramento sobre os impactos da precariedade.  Life Research Group Blog, ICS-Lisboa, https://liferesearchgroup.wordpress.com/2018/01/25 25 de janeiro 2018 (Acedido a xx/xx/xx)

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