Desencontros de um ‘ensino meio’: desde pequenos a gente é acostumado a ir, ir e ir… e nunca perguntar as coisas!

foto.png Cineri Fachin Moraes, Universidade de Caxias do Sul/Brasil e doutoranda visitante no ICS-ULisboa


A escuta de jovens do Ensino Médio de escolas públicas do sul do Brasil, indicam que ainda persistem muitos desencontros entre a experiência juvenil e a escolar. Narrativas como a que complementa o título desta postagem e a apresentada a seguir mostram um desencontro, um afastamento entre o que lhe interessa aprender e o que lhe é ensinado na escola. Também nos ajudam a pensar na rotina de ‘ir, ir e ir e nunca perguntar’, nunca questionar:           

 Sobre esse assunto de aprender o que a gente não ocupa pra vida… eu acho que a gente está sendo alunos ignorantes, porque a gente só aceita o que vem pra nós. Só aceita! Todo mundo aprende e nunca ninguém fala nada.

Estar na escola e acompanhar as rotinas e rupturas do cotidiano a partir da voz dos jovens estudantes desafia a tentativa de decifrar enigmas que perpassam as relações entre os atores que a compõe, mais especificamente, no cenário do Ensino Médio de escolas públicas da região metropolitana da serra gaúcha do estado do Rio Grande do Sul, localizado no extremo sul do Brasil. Continuar a ler

Controlo social e responsabilidade em Jovens em conflito com a Lei: um estudo etnográfico num Centro Educativo

carlaCarla Cristina Storino é Doutorada em Sociologia pelo ICS-ULisboa.


A aplicação de medida tutelar de internamento em regime fechado possui um caráter educativo? Uma questão que se manteve presente nos três contextos tutelares de internamento em regime fechado pelos quais passei na minha carreira profissional e académica, no Brasil, na Itália e em Portugal. Essa mesma pergunta norteou a minha investigação do doutorado recentemente defendido no ICS-ULisboa (Dezembro 2017), problematizando a formatação do controlo social plasmada na justiça juvenil portuguesa, sempre revestido de educação.

Guiada por essa questão, e problematizando o revestimento educativo de práticas de monitorização e controlo institucional, realizei trabalho de campo num centro educativo português entre 2011 e 2013, onde se encontram jovens na faixa etária de 14 a 18 anos a cumprir a medida tutelar educativa em regime fechado e semiaberto por terem praticado um ato qualificado como crime. Esses jovens têm uma escolaridade básica e residem em zonas pobres de Portugal, tendo sido eles os meus mais frequentes interlocutores. Entretanto, também pude dialogar com os seus familiares e com os demais atores da instituição.

Nessa instituição tutelar, os seus pilares abrigaram sempre uma instituição total: inicialmente um mosteiro, veio a transformar-se numa “casa de correção” e, atualmente, alberga o “centro educativo”.  Ao longo desse processo, a sua arquitetura tem espelhado as intenções da política tutelar em toda a sua trajetória histórica, consolidando as formas de disciplina e controle dos jovens nos diferentes modos de intervenção tutelar. Continuar a ler