Desencontros de um ‘ensino meio’: desde pequenos a gente é acostumado a ir, ir e ir… e nunca perguntar as coisas!

foto.png Cineri Fachin Moraes, Universidade de Caxias do Sul/Brasil e doutoranda visitante no ICS-ULisboa


A escuta de jovens do Ensino Médio de escolas públicas do sul do Brasil, indicam que ainda persistem muitos desencontros entre a experiência juvenil e a escolar. Narrativas como a que complementa o título desta postagem e a apresentada a seguir mostram um desencontro, um afastamento entre o que lhe interessa aprender e o que lhe é ensinado na escola. Também nos ajudam a pensar na rotina de ‘ir, ir e ir e nunca perguntar’, nunca questionar:           

 Sobre esse assunto de aprender o que a gente não ocupa pra vida… eu acho que a gente está sendo alunos ignorantes, porque a gente só aceita o que vem pra nós. Só aceita! Todo mundo aprende e nunca ninguém fala nada.

Estar na escola e acompanhar as rotinas e rupturas do cotidiano a partir da voz dos jovens estudantes desafia a tentativa de decifrar enigmas que perpassam as relações entre os atores que a compõe, mais especificamente, no cenário do Ensino Médio de escolas públicas da região metropolitana da serra gaúcha do estado do Rio Grande do Sul, localizado no extremo sul do Brasil.

Nesse contexto, concentro minha análise no cotidiano do Ensino Médio, considerando a pesquisa na escola e as aprendizagens experienciadas nessa etapa da educação. A tríade do conhecimento, representada pelo movimento gradativo que parte da curiosidade ingênua, transita pela curiosidade crítica e se aproxima da curiosidade epistemológica apresentada por Freire (1996) é um dos apoios teóricos na tentativa de juntar peças.

Destaco que no Brasil, o Ensino Médio passou a ter identidade própria, sendo definido como a etapa final da Educação Básica, com a promulgação da Lei de Diretrizes e Bases da Educação n° 9.394/96, mas apenas passou a ser obrigatório, como dever do estado e da família, a partir da Emenda Constitucional n°59 de 2009.

Para muitos estudantes, estar no Ensino Médio é como viver um ‘ritual de passagem’ nos processos de vida e formação. Arrisco nomear “Ensino Meio”, não no sentido de metade de uma parte, mas sim no sentido de separação, de ruptura entre o final do Ensino Fundamental e início do Ensino Superior para alguns, e o final da vida escolar para tantos outros, ou, ainda, como ponte para outra etapa da vida.

Ao mesmo tempo, se entendemos que os processos educativos acontecem em todos os momentos, em diferentes espaços e ao longo da vida, fica menos difícil identificar o quanto os jovens estudantes vivem situações de aprendizagem muito diferentes da escola em espaços fora dela. Ou seja, o rompimento de  muros, a ampliação de frestas permitirá que o conhecimento transite, que os questionamentos, as perguntas e as possíveis respostas encontrem espaços permeáveis na escola fortalecendo a relação entre a experiência escolar e os percursos juvenis. Dessa forma, a pesquisa na escola e as aprendizagens construídas a partir dela, considerando a tríade do conhecimento, são objetos dessa investigação de doutorado.

Entendo a tríade  do conhecimento, referida anteriormente como algo dinâmico, associado à metáfora da maratona, cujo movimento acolhe: a curiosidade ingênua  relacionada ao posicionamento inicial de largada, ou seja, ao senso comum, ao modo como a realidade é lida; a curiosidade crítica envolveria a dimensão da análise de modo a desafiar/provocar o distanciamento em relação ao posicionamento inicial no âmbito do processo de construção do conhecimento; e a curiosidade epistemológica estaria relacionada ao distanciamento da posição inicial, considerando os deslocamentos, no sentido de deslocação, mudança de um lugar para o outro de forma gradativa e entrelaçada entre a visão inicial da realidade com a interpretação desta, chegando, dessa forma,  a uma aproximação teórica com o conhecimento socialmente construído. A maratona é permanentemente percorrida, a posição inicial, está constantemente envolvida em novas largadas, em novas experiências e possíveis aproximações teóricas e interpretativas. Pensando dessa forma, a pesquisa na escola pode ser considerada um dos motivadores desse movimento, dessa maratona pela aprendizagem.

A dimensão da pesquisa na escola a que me refiro está vinculada a implantação de uma política pública nomeada Proposta Pedagógica para o Ensino Médio Politécnico e Educação Profissional Integrada, que esteve vigente entre 2011 e 2016 nas escolas de Ensino Médio do estado do Rio Grande do Sul. Essa proposta esteve pautada pelo uso da pesquisa como princípio educativo e indicou mudança de postura na organização curricular.

A particularidade vivida no estado do Rio Grande do Sul desde 2011, buscou promover espaços onde o jovem vivenciasse situações de investigação, de mobilização e de interferência na realidade, oportunizando assim que a escola pudesse falar e vibrar para além da consciência ingênua, ou seja, em direção à criticidade.

O adentramento do Ensino Médio, ou do ‘Ensino Meio”, envolveu em 2016 o trabalho de campo com um estudo exploratório realizado com 400 jovens estudantes de 20 escolas dos 14 municípios da região de abrangência da 4° Coordenadoria Regional de Educação. Essa tarefa teve a intenção de analisar em que medida a experiência com os projetos de pesquisa desenvolvidos na escola oportunizam o movimento da experiência juvenil pelo processo de construção do conhecimento em vista do movimento referido por Freire (1996), ou seja, partindo da curiosidade ingênua, transitando pela consciência crítica e chegando à consciência epistemológica.

Problematizações emergem e mobilizam indagações: qual a relevância que o jovem estudante atribui ao aprender, ao conhecer, ao descobrir? Que conhecimentos considera necessários para sua vida? Que valor tem o conhecimento em sua trajetória de estudante? Como os conhecimentos socialmente construídos são transmitidos, construídos, apreendidos, traduzidos, percebidos na escola e pelos jovens? Que táticas os jovens estudantes utilizam para encontrar respostas as suas curiosidades?

A necessária aproximação aos meandros das experiências escolares, permite afirmar que o jovem não sabe menos, sabe outra coisa, não quer nada com nada, quer outra coisa. Algo que eles querem, é vivenciar o processo de aprender, entender o que que é. A gente está só decorando. Ah! Eu sei que isso é isso, mas eu não sei porque é isso. Eu só decorei! Não peguei o processo criativo de ter entendido. Ah! É por causa disso ou daquilo.  O legado de Freire (1996, p.30), há mais de trinta anos, vem sugerindo a importância de “discutir com os alunos a razão de ser de alguns desses saberes em relação com o ensino dos conteúdos”, de oportunizar uma “intimidade” entre os saberes curriculares e a experiência dos jovens, ou seja, seus saberes de vida e experiência.

Em 2017, continuei o trabalho de campo com o intuito de escutar os jovens através da realização de Grupos Focais. A provocação para que os estudantes do Ensino Médio falassem sobre seu cotidiano na escola foi desencadeada por temáticas que envolviam narrativas de jovens que participaram do estudo exploratório, excertos da proposta do Ensino Médio Politécnico e tirinhas do Calvin. A imagem que segue apresenta uma das quatro tirinhas do Calvin utilizadas para promover discussões nos Grupos Focais.

O espaço de discussão criado facilitou a escuta das vozes dos jovens, as quais expressam que em alguns momentos se sentem com duas viseiras assim, olhando para frente… Querem ampliar o olhar para diferentes e outros lados, conhecer o que está a sua volta, ir além do previsto no currículo, mas não conseguem. Afirmam ainda: É isso! Está preso ali. Fechado nesse mundo. É isso e pronto. Tu tem que aprender isso. É restringido.  

Essas e tantas outras vozes dos jovens presentes nas narrativas abrem fissuras, frestas entre o que vivem no cotidiano escolar e juvenil em relação à pesquisa e o que de fato almejam experienciar, ou seja, trazem muitos enigmas a serem decifrados. Narram que suas curiosidades nem sempre são consideradas pelos professores. Clamam ser entendidos, percebidos, respeitados, escutados, além de desejarem ser considerados integrantes, com suas ideias, motivações, interesses, histórias, percursos, descobertas, intenções, erros e acertos.

Assim, entre rotinas e ruptura do cotidiano, sigo na tentativa de juntar peças envolvendo a pesquisa na escola e as aprendizagens experienciadas, anunciando a ingenuidade como condição, como uma ignorância sábia que motiva a maratona pela tríade do conhecimento.


Como citar este artigo: Moraes, Cineri (2018) Desencontros de um ‘ensino meio’: desde pequenos a gente é acostumado a ir, ir e ir… e nunca perguntar as coisas!.  Life Research Group Blog, ICS-Lisboa, https://liferesearchgroup.wordpress.com/2018/02/22 22 de fevereiro 2018 (Acedido a xx/xx/xx)

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s