Desenvolvimento do preconceito racial na infância: como o preconceito parental e as mensagens transmitidas pelos pais influenciam as atitudes raciais das crianças

cvvRita Correia é doutoranda em Psicologia Social e colabora com o Observatório das Famílias e das Políticas de Família do ICS-ULisboa.


Começo com uma pequena história que ilustra as ansiedades dos pais numa sociedade moderna. Tinha a minha filha uns 2 anos e meio, estávamos a fazer um jogo para a entreter no meio do trânsito: procurávamos pessoas com chapéu. Tudo correu bem até uma vozinha no banco de trás dizer “aquele ali mãe, o preto”. Uma mãe gela nessas circunstâncias e pensa uma série de coisas em catapulta. A principal é, sem dúvida “onde é que ela aprendeu isto?”. No meu caso, a situação não era nada do que eu estava a pensar, ela, limitada pelas suas fracas capacidades linguísticas de dois anos e meio, estava simplesmente a referir-se à cor do casaco de um jovem branco que atravessava a estrada. Mas “o gato estava fora da caixa”, a questão do preconceito, racismo e discriminação era um assunto com que me tinha de confrontar. Eu e todos os pais, educadores e na verdade a sociedade em geral.

As crianças são esponjas culturais: absorvem de forma altamente eficiente tudo o que as rodeia. Aprendem todas as tarefas mundanas (o que comer, como vestir o casaco, dizer obrigada e se faz favor), mas também as formas não explícitas de organização social. E se por um lado isso é útil e essencial para o seu desenvolvimento como adultos que vivem em sociedade, infelizmente inclui aprendizagens sobre questões de estatuto social de diferentes grupos que podem levar a atitudes preconceituosas.

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Photo by Patrick Fore on Unsplash

Na verdade, os estudos mostram que o preconceito surge nas crianças a partir dos cinco anos, provavelmente antes, sugerindo que, muitas vezes estas quando entram na escola já trazem consigo este tipo de crenças. Com o aumento da diversidade étnica e racial na Europa e em Portugal em particular, torna-se urgente perceber de que forma o preconceito se desenvolve e como pode ser reduzido ou eliminado. Esta é uma preocupação de pais, educadores e cientistas que se vêem confrontados com actos infantis racistas, alguns de extrema gravidade que acabam por ter muita visibilidade social, mas também perante actos menos mediáticos mas também danosos, e muito mais frequentes, como a recusa de uma criança branca em brincar com uma criança negra ou cigana, ou uma criança negra ter de ouvir insultos raciais no recreio da escola da boca de crianças muito pequenas.

Já desde o trabalho compilador de Allport (1956), um dos principais teóricos do desenvolvimento do preconceito na infância, é dado aos pais principal relevo neste processo e dificilmente encontraremos uma teoria que não os considere, ou a outros educadores primários com o mesmo papel, no desenvolvimento destas atitudes nas crianças. Apesar disso temos ainda dificuldade em encontrar provas evidentes e irrefutáveis de que as atitudes destas díades estão correlacionadas.

Mesmo os modelos teóricos contemporâneos, que salientam abordagens integradoras que sublinham a importância da transmissão das normas e do contexto no desenvolvimento das atitudes, presumivelmente um papel inerente aos pais, são parcos na explicação quanto à natureza, processos, mecanismos, mensagens e variáveis envolvidas nestas experiências de socialização.

A investigação existente sobre a relação entre as atitudes étnicas explícitas dos pais e das crianças teve alguma expressão no âmbito da psicologia do desenvolvimento, mas o conjunto de estudos sobre esta temática apresenta resultados mistos e confusos, revelando lacunas que continuam inexploradas.

Para a compreensão destas ambiguidades empíricas encontradas ao longo do tempo desenvolvo no meu doutoramento duas hipóteses fundamentais:

Em primeiro lugar, a noção de que as atitudes de pais e filhos devem ser estudadas à luz do conhecimento actual sobre as formas de racismo contemporâneas – subtis e flagrantes – e com medidas de preconceito que permitam distinguir as influências normativas na expressão de atitudes étnicas pelas crianças também ao nível explícito e implícito.

Em segundo lugar a percepção de que este é um processo complexo que implica uma relação que nem sempre é directa, e que em contexto natural é sujeita a diversos efeitos moderadores, quer por parte dos pais, das suas crenças e expectativas, como das crianças, consoante o estádio de desenvolvimento, o sexo e proximidade e identificação com a família.

Os resultados dos meus estudos revelam, por exemplo, que entre outros factores relevantes para perceber esta transmissão de atitudes, são as espectativas maternais e as suas crenças educativas que são essenciais na transmissão de atitudes raciais subtis. Também ficou claro na minha investigação que existe uma tipologia de tipos de socialização racial por parte dos pais (Preconceito Aberto, Multiculturalismo, Educação “Colorblind”, Promoção do próprio grupo, Silêncio) que são usados de forma distinta pelos pais considerando tanto o estádio de desenvolvimento da criança, como as suas próprias atitudes flagrantes e subtis, e que têm implicações distintas na transmissão de atitudes raciais.

Foi, por exemplo, interessante que falar de temas raciais não é uma prioridade para os pais, ou sendo, é usado muitas vezes no sentido de promover uma Educação “Colorblind”, que parecendo igualitária, ignora a riqueza das diferenças raciais. Também foi interessante verificar que a opção pelo “Silêncio” está mais associada a pais com níveis de preconceito mais elevados do que a pais com atitudes mais igualitárias, pelo que em última instância acaba por ser uma forma de perpetuar o racismo.

Estes resultados mostram a importância de entender a forma como os pais enviam mensagens raciais directas e subtis. Importa também perceber como as expectativas e crenças educativas dos pais interagem nesse processo e em que idades têm maior impacto no desenvolvimento das atitudes raciais das crianças porque as formas insidiosas de racismo moderno são transmitidas muito precocemente e com consequências nefastas na construção de atitudes raciais.


Como citar este artigo: Correia, Rita (2018) Desenvolvimento do preconceito racial na infância: Como o preconceito parental e as mensagens transmitidas pelos pais influenciam as atitudes raciais das crianças. Life Research Group Blog, ICS-Lisboa, https://liferesearchgroup.wordpress.com/2018/03/22 22 de março 2018 (Acedido a xx/xx/xx)

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