O jornalismo sob o olhar de ex-jornalistas

jnmJosé Nuno Matos é investigador em Pós-Doutoramento no ICS-ULisboa


Eu antigamente escrevia para [título de publicação], agora escrevo para os órgãos nacionais todos”. Ao contrário do que possa parecer, esta frase não foi proferida por uma jornalista. Ela surgiu numa entrevista a Rosa [nome fictício], 37 anos à altura, a trabalhar atualmente no departamento de relações públicas de uma empresa de telecomunicações. A frase supracitada remetia, precisamente, para uma comparação entre o emprego anterior, enquanto jornalista, e a sua nova condição sociolaboral.

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O depoimento foi recolhido no âmbito de uma investigação em torno da relação entre precariedade laboral e jornalismo. O seu principal fim é compreender o lugar ocupado pelo precariedade nos percursos sociais dos jornalistas, em particular as suas consequências sobre a prática profissional. Por mais que paradoxal que possa parecer, o estudo da condição social de ex-jornalistas poderá contribuir para o cumprimento deste objetivo. O estudo do jornalismo com base nas experiências quem já não o exerce permite: a) compreender os motivos que conduziram ao fim da atividade; b) conhecer as novas áreas de emprego (ou desemprego) e o seu nível de proximidade com o jornalismo; c) o acesso a uma reflexividade suscitada pela distância temporal e espacial em relação ao objeto em causa.

A investigação parte de uma abordagem biográfica, através da qual se procura analisar o “social” no “individual”, correspondente ao tipo de relações socioestruturais nas quais as suas vidas se encontram imbuídas; e o “individual do social”, ou seja, as particularidades contidas nesta generalidade, em termos quer de percurso, quer da consciência do mesmo. Cerca de trinta pessoas, a maioria oriunda de Lisboa, foram sujeitas a entrevistas de profundidade[1]. Este número, obtido a partir do recurso à técnica de bola de neve, refletiu a preocupação em evitar reproduzir a rede de afinidades do investigador.

Um dos temas que se procurou abordar foi, conforme mencionado, a situação do ex-jornalista após o jornalismo, nomeadamente porque é que se deixou de o exercer; o trabalho que se passou a desempenhar; e, por fim, como é que se encara a antiga profissão. O abandono da atividade apresenta diversos fatores: se nalguns casos, não constituiu uma opção, resultando de processos de despedimento coletivo, noutros resulta de uma decisão motivada pela insatisfação. Embora as questões materiais desempenhem um papel relevante, este sentimento deve-se a uma incapacidade no exercício de uma atividade que, mesmo num quadro laboral, não deixa de ser interpretada à luz de uma série de normas e princípios (o ethos). Tal frustração é visível no seguinte depoimento:

Porque o meu trabalho, os meus textos estão a sair cheios de gralhas. […] Eu só escrevo banalidades. Porque eu não tenho tempo para pensar. O jornalismo é um trabalho que tu tens que ter tempo, tu tens que ter tempo e tens que ter distanciamento. Tu não podes entrevistar uma pessoa de manhã e escrever o texto à tarde – porque tu tens, ao fazeres um trabalho, ires ver uma exposição e escreveres à tarde. Tu tens, tu precisas de pelo menos um dia para te distanciares sobre aquilo e fazeres uma análise crítica sobre aquilo”. (Rosa [nome fictício], 37 anos à altura da entrevista).

Algumas entrevistas referem igualmente a procura por uma maior estabilidade, essa “pré-disposição para ter ainda mais fins-de-semana livres e finalmente, pela primeira vez na vida, um horário tipo 9 to 5 – não é bem mas é quase(Daniel [nome fictício], 42 anos à data da entrevista).

Os novos empregos tendem, em níveis distintos, a refletir a condição passada. De facto, são diversos os casos de passagem a gabinetes de comunicação, em geral fruto de uma rede de contactos que se foi construindo ao longo do jornalismo. No entanto, mesmo nos trabalhos que, à partida, parecem apresentar maiores diferenças, existe um reconhecimento da utilidade das competências adquiridas. Uma operadora de call-centre, a título de exemplo, mencionava a maior facilidade de comunicação:

Eles ligam-me e eu consigo dar-lhes a volta, entre aspas, consigo conversar com toda a gente […]. Mas sim acho que o nível de ter aqui este background de comunicação, de jornalismo, acho que me dá à-vontade para falar facilmente”. (Lara [nome fictício], 39 anos à altura da entrevista).

Por fim, no que respeita ao significado do jornalismo após o seu abandono, a nostalgia encontra-se longe de constituir um fator relevante. Pelos mesmos motivos que conduziram a outros empregos, o regresso à profissão não é encarado como uma hipótese minimamente viável. Não obstante o reconhecimento da sua importância numa formação social e individual, a distância que é criada – e que, mesmo durante o jornalismo, era potenciada pela frustração de expectativas – acaba por ser preenchida por outras condições sociolaborais.


[1] O conteúdo deste post é baseado em apenas 15 das entrevistas realizadas.


Como citar este artigo: Matos, José Nuno (2018) O jornalismo sob o olhar de ex-jornalistasLife Research Group Blog, ICS-Lisboa, https://liferesearchgroup.wordpress.com/2018/07/24 24 de julho (Acedido a xx/xx/xx)

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