OCUPAR A ESCOLA, OCUPAR A POLÍTICA: QUESTÕES, SURPRESAS, ALENTOS

miriam.pngMiriam Leite é professora na Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ, Brasil) e investigadora-visitante no ICS-ULisboa.


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Desde 2015, diversos estados do país têm assistido a ocupações de escolas públicas por suas estudantes, sobretudo, secundaristas, mas também com presença de ativistas dos últimos anos do ensino fundamental. Mobilizam-se por questões com importante dimensão local – como, por exemplo, por voz e democracia nas escolas, contra a chamada “reorganização escolar”, em 2015, em São Paulo, ou em reação às decorrências do severo corte de verbas para a Educação ocorrido no contexto de falência financeira do estado do Rio de Janeiro, em 2016 – mas também em resposta a iniciativas conservadoras em nível nacional, como a emenda constitucional promulgada em dezembro de 2016, que congelou os gastos públicos por 20 anos, e por lutas ainda mais amplas, como pelos direitos das mulheres, das pessoas negras, lgbt, jovens, pobres.

Pobre, sempre falaram isso pra mim, pobre, preta, sapatão e estuda em colégio público. Tudo pra dar errado. A gente vê todos os preconceitos numa coisa só, numa coisa só, entendeu? (Aluno[1], 16 anos, 2ª série, Grande Rio 1)

Tive o privilégio de pesquisar sobre essa ação política, de que me aproximei por diversos caminhos: páginas do Facebook mantidas pelas ocupações, vídeos no YouTube produzidos por ou sobre o movimento, visitas a escolas ocupadas na região do Grande Rio, e discussões com grupos de ativistas das escolas visitadas (gravadas e transcritas). De fato, um privilégio.

Nos duros dias que hoje vivemos em nosso país, em meio a graves retrocessos políticos e flagrante ruptura com o estado de direito, conhecer as ocupações e conversar com as estudantes envolvidas teve inesperado impacto pessoal, para além do óbvio interesse acadêmico. Ao controlar o espaço-tempo escolar, criavam territórios de experimentação política, em que arriscavam relações interpessoais outras, e deslocavam as pessoas visitantes – ao menos aquelas dispostas à escuta – a um mundo radicalmente distinto da cultura da intolerância e do individualismo que tanta força ganha hoje no Brasil.

Desde a organização da limpeza e da produção da merenda até as decisões políticas mais centrais ao movimento, buscavam a horizontalidade – expressão onipresente nos contatos que tive com essas ativistas, que contava da radicalidade das suas lutas por igualdade e democracia, extensiva às suas práticas cotidianas e aos variados níveis e aspectos da sua ação política. Organizadas ou não em comissões, empenhavam-se em promover uma distribuição equitativa do trabalho e da palavra, em recusa explícita e intencional aos nossos tabus de gênero, orientação sexual, raça, idade e todo tipo de atravessamento identitário que pudesse implicar alguma forma de subalternização. E se narro tais feitos no feminino é porque entendo que a força das vozes feministas nessas construções não poderia passar sem enfático registro.

A gente busca o tempo todo desconstruir os meninos, entendeu? […] E teve um dia que eu saí de sutiã. Andei pra cima e pra baixo de sutiã. E tava todo mundo assim: “Nossa, você tá saindo de sutiã? Que isso, Hevelin? Você não tá na…” – “Meu amor, do mesmo jeito que você tem o direito de ficar sem blusa, eu posso ficar sem blusa!”  (Hevelin, 18 anos, 3ª série, Grande Rio 2)

Relataram muitas descobertas nessa trajetória de enfrentamento de tantas e ubíquas desigualdades sociais, contando de processos de aprendizagem que surpreendiam pela rapidez, independência e potência. Em sua grande maioria, não se vinculavam a partidos ou entidades de representação políticas tradicionais, como uniões estudantis oficiais e sindicatos, e, sem aparentar conceder especial atenção a esse aspecto da sua (falta de) experiência, falavam das suas pesquisas, que configuravam uma formação política tão recente quanto sofisticada, vibrante e relativamente autônoma – digo relativamente, porque não estavam isoladas do mundo e nele buscavam suas referências; no entanto, nessa busca, estavam abertas, porém não submetidas à voz adulta. Para quem se dedica a pensar academicamente a educação escolar da juventude, como vem a ser o meu foco profissional de pesquisa, travar contato com tais relatos traz questões, surpresas e alentos. A ver.

Conhecer a rotina das ocupações e perceber que lá se criavam múltiplas rotas de construção de aprendizagem – desde pesquisas motivadas por necessidade de informação colocada pela própria ocupação, além de promoção e participação em oficinas, palestras, rodas de conversa, produção de cartazes, criação de vídeos e páginas de Facebook, aulas, até assembleias horizontais que tomavam decisões por meio do diálogo e da negociação, e não por contagem de votos – impõe pensar por que a escola aconteceu de forma tão dinâmica e produtiva quando a autoridade adulta foi substituída pela coletividade jovem estudantil.

Eu acabei descobrindo um projeto de lei que tem sobre a, a base curricular nacional que eu não sabia, pra mim o Rio de Janeiro tinha o currículo mínimo dele, e os outros estados iriam fazer o projeto de currículo mínimo deles. Aí eu descobri que existe um projeto que foi aceito que é o Brasil inteiro ter um único currículo mínimo. E aí, com os ensinamentos de cada um, uns falando sobre conceito de educação de Paulo Freire, outros falando de Hanna Arendt, Foucault, e aí a gente foi construindo o que a gente sabia.  (Fernanda, 17 anos, 2ª série, zona norte Rio)

Nas visitas e conversas de que participei, não foram poucas as vezes em que me contaram de um certo tipo de retorno de estudantes à escola – aliás, não apenas na minha experiência pessoal, como também em relatos de diversas outras pesquisadoras e professoras, bem como em vídeos produzidos pelo/sobre o movimento, registram-se, nas ocupações, numerosas narrativas de ativistas que davam notícia do seu desinteresse anterior pela educação escolar, em contraste com a sua presença cotidiana e voluntária na escola ocupada, onde finalmente descobriam o prazer do conhecimento.

Dentro da sala de aula, você não aprende sobre política, você não aprende a pensar. E aí, quando eu cheguei aqui, no ensino médio, eu fique tipo “Meu Deus, que mundo é esse, de debate?” Não na sala de aula, depois que começou as ocupações.” (Laura, 14 anos, 1ª série, zona sul Rio)

No entanto, não sem constrangimento, reconheço, nesse contato, um tanto de surpresa da minha parte: a maturidade política apresentada por aquelas jovens, mesmo quando simultânea a sinais do pouco tempo da aquisição da gramática que expunham, surpreendia. Na verdade, a surpresa era dupla, pois a minha reação de espanto era igualmente surpreendente, dada minha posição pessoal e pública de aposta na potencialidade política desse agrupamento etário, não por qualquer tipo de atribuição apriorística e essencialista de vigor revolucionário à juventude, mas, sim, pela experiência de magistério e pesquisa com/sobre estudantes dos anos finais do ensino fundamental e do ensino médio (Leite, 2017a, 2010, por exemplo).

Ocorre que a motivação primeira na definição do meu foco de pesquisa esteve, desde sempre, no desejo de problematizar, com sistematicidade acadêmica, essa potencialidade política que percebia na minha atuação como professora da educação básica. Contudo, o encontro face a face com a enunciação viva de uma outra juventude fascinava, mas também espantava, o que entendo denunciar a força do adultocentrismo na nossa ordem social, que insiste em desvalorizar a palavra da pessoa jovem, e pelo qual me descobri mais afetada do que gostava de supor.

A gente tá vivendo uma ocupação! Eu tenho a capacidade de desenvolver projetos, posições políticas, mesmo sendo novo, entendeu? (Leo do China, 16 anos, 2ª série, Grande Rio 1)

Desde então, busco confrontar meus demônios etaristas com a publicização do que pesquisei – em palestras, artigos (Leite, 2017b; 2018), aulas, neste post – sem tolas pretensões de estar a dar a voz àquelas ativistas. Pelo contrário. Nessas publicações, conto da minha pesquisa, que conversou com jovens de voz firme que, ao ocupar suas escolas, ocupavam também a política, quando trabalhavam para transformá-la em profundidade e amplitude, e, por certo, não pediam autorização para ousar pronunciar a aventura de um mundo horizontalizado em radical democracia. Um alento e tanto, no quadro de avanço acelerado do conservadorismo político em curso hoje no Brasil. De fato, um privilégio pesquisar sobre esse movimento.

E quando a gente faz uma ocupação, é como eu falei com eles, assim, há um tempo: a gente vê que a gente não tá lutando por uma resposta amanhã, de fato. A gente quer umas respostas pra hoje e pra amanhã. Mas a gente luta pelo futuro, sabe? (Matheus, idade não informada, 2ª série, Grande Rio 2)


[1] Todos os nomes citados são fictícios e foram indicados pelas próprias estudantes. Para evitar identificação das escolas, refiro apenas a sua localização em regiões da cidade do Rio de Janeiro ou nos municípios do seu entorno.


Como citar este artigo: Leite, Miriam (2018) Ocupar a escola, ocupar a política: Questões, surpresas, alentosLife Research Group Blog, ICS-Lisboa, https://liferesearchgroup.wordpress.com/2018/08/21 21 de agosto (Acedido a xx/xx/xx)

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