Ocupar e resistir

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Celecina de Maria Veras Sales é professora na Universidade Federal do Ceará  e investigadora-visitante no ICS-ULisboa.


 

IMG_5256Crise, golpe, fascismo, empurram a juventude a beira do abismo e a desesperança quer ocupar seu território existencial, mas algo se passa, afeta, é hora de fazer alguma coisa. Chegou o momento de descobrir e inventar novos territórios. Em um processo dinâmico que não significa se fixar, mas produzir mudança, foi o que aconteceu nas Ocupações das escolas e universidades no Brasil. Isso nos instiga a pensar que ocupar é política, é aprendizagem, é arte, é criar laços, é reacender sonhos e criar uma nova forma de fazer política.

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Era fim da tarde do dia 3/11/2016, quando o cruzamento de duas grandes avenidas na hora do rush, ganhou novo cenário pela intensa movimentação de jovens universitários que estavam a chegar ao pátio da reitoria para realizar a assembleia estudantil no espaço da concha acústica. Que pauta poderia chamar 2 mil jovens em dia de pós-feriado? A convocação foi a discussão da PEC 241/55, Proposta de Emenda Constitucional em tramitação que estava a propor congelar as despesas do governo federal por até 20 anos, inclusive saúde e educação.

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Esse fato, somado a tantos outros acontecimentos políticos, como golpe de estado, as reformas antidemocráticas que estavam a ocorrer no Brasil, gerou indignação e revolta. Produziu um movimento dialético, que ao mesmo tempo que paralisava uma parte da juventude, também a mobilizava dentro das universidades.

Os/as secundaristas tinham se antecipado quando ocuparam as escolas, e os/as universitários/as se perguntavam: diante de tantas atrocidades, o que fazer?

Após a assembleia a decisão foi que os/as estudantes em cada curso se organizassem para greve e/ou ocupação no dia seguinte, mas um determinado grupo não pode esperar, e tomado pela revolta, caminha junto e atravessa a avenida, mas essa travessia não foi um ato mecânico, foi como se estivesse em coro a cantar um trecho da música Travessia, de Milton Nascimento e Fernando Brandt:

“Solto a voz nas estradas
Já não posso parar
Meu caminho é de pedra
Como posso sonhar…”

Embalado pelo desejo de agir e mudar, esse grupo chega a Faculdade de Educação e encontra outro grupo reunido, a mistura desses dois grupos acende ideias e sentimentos diversos, inflama reações que produz um único grito de ordem: “ocupar e resistir”.

IMG_3995Ocupar uma Universidade, uma Escola é um ato político que requer muito mais que ousadia, requer “táticas” e organização. Ocupar é também traçar um mapa, demarcar fronteiras, é construir e reconstruir seu próprio território. Esse território físico, dinâmico, subjetivo que comporta o cotidiano com todos os seus percalços, traz o individual e o coletivo, abriga um processo que confronta, defronta, afronta a todo momento. Em uma ocupação há vida, obstáculos difíceis de ultrapassar, e isso nos remete a poesia “No meio do Caminho”, de Carlos Drummond de Andrade:

“Nunca me esquecerei desse acontecimento
Na vida de minhas retinas tão fatigadas
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
Tinha uma pedra
Tinha uma pedra no meio do caminho
No meio do caminho tinha uma pedra”.

Os 51 dias de ocupação não foram somente pedras, fragilidades, fadiga, medo, afloraram também sentimentos, atos que tem se tornado tão líquidos em nossa sociedade, como solidariedade e confiança. Na ocupação estudantes dormem com estranhos e acordam na luta, na labuta. O cotidiano da ocupação tem sua dinâmica própria, sua “arte de fazer”, cozinhar, discursar, batucar, fazer segurança, manter parcerias, ensinar e aprender.

FB_IMG_1527513223783Ao final da ocupação, no dia 21/12/2016, o que ficou não foi a “máscara dos adultos” benjaminiana, que critica chamar de experiência a tudo que os adultos experimentaram, inclusive a juventude, nem o que se passou simplesmente, mas a experiência do que pode ser narrado, repassado, transmitido e compartilhado.

Após a ocupação uma parte das reivindicações locais foram atendidas, mas os ganhos estão principalmente sob outra ordem, ou seja, o sentimento de identificação, de pertença e de responsabilidade que os/as ocupantes passam a ter com a universidade, as novas relações sociais que estabeleceram, o reconhecimento que ganharam de seus pares e de outros segmentos da universidade, o fortalecimento da organização estudantil. Destaca-se a pluralidade de ideias, a diversidade de gênero, orientação sexual, raça e etnia que povoaram a ocupação e tornaram-se diferenças reconhecidas e legitimadas.   IMG_6948

A PEC 241/55 foi aprovada em /12/2016, as reformas políticas continuaram, mas a experiência de luta ficou gravada na memória, esses/as jovens que construíram as ocupações não ficaram à deriva, seus corpos se movem, e insistem em intervir e acreditar em projetos de mudanças mesmo nessa débil democracia, porque acreditam que “outro mundo é possível”.

A investigação sobre ocupação foi realizada com estudantes do Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal do Ceará (UFC) que participaram da Ocupação do prédio da Faculdade de Educação-UFC em 2016.


Como citar este artigo: Sales, Celecina (2018) Ocupar e resistir. Life Research Group Blog, ICS-Lisboa, https://liferesearchgroup.wordpress.com/2018/09/04 04 de setembro (Acedido a xx/xx/xx)

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