A bricolage afetiva em processos de mobilidade social: That’s what friends are for…

ritaRita Gouveia é Investigadora em Pós-Doutoramento no ICS-ULisboa


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Versão em português

A amizade é usualmente caracterizada como o arquétipo da escolha, da igualdade e do privado na esfera das relações pessoais. Na sociologia, bem como em outras disciplinas, a amizade tem sido tratada e reconhecida, de forma marginal, enquanto objeto de estudo que também permite aos cientistas sociais analisar temas mais sólidos e clássicos do pensamento sociológico, tais como relações de poder, processos de mobilidade social e desigualdades estruturais. A amizade, tal como o amor e os afetos em geral, tem sido tratada como o “parente pobre” na investigação sociológica.

No entanto, se olharmos para a nossa própria biografia e para o nosso círculo de pessoas próximas, de imediato nos apercebemos de “para o quê, como e quando os amigos estiveram lá” (e quando não estiveram).  Da mesma forma que conseguimos facilmente identificar momentos e situações nas quais os amigos foram determinantes para lidar com e/ou criar desigualdades sociais; somos também capazes de perceber de que forma eles estão associados a memórias e sentimentos.

No seu capítulo “The power(s) of friendship: affects and inequalities between friends” (O(s) poder(es) da amizade: afetos e desigualdades entre amigos), Verónica Policarpo mostra de uma forma séria, elegante e vívida de que modo podemos alargar o setting analítico às relações de amizade e às comunidades afetivas, e assim captar as desigualdades sociais e as trajetórias de mobilidade social.

A autora adota um enquadramento analítico que combina perspetivas da sociologia da amizade e da teoria do afeto, recorrendo a dispositivos e ferramentas analíticas, tais como as figuras afetivas, as comunidades afetivas e as práticas afetivas (a repetição é deliberada).

Baseando-se em dados qualitativos e adotando uma abordagem narrativa centrada no papel dos afetos nas biografias individuais, a autora mostra os imbricamentos e dinâmicas entre desigualdades afetivas e desigualdade estruturais. O leitor pode seguir de perto o percurso de mobilidade social ascendente de David (estudo de caso) e facilmente perceber o papel das comunidades e práticas afetivas na reconfiguração das relações de poder e na circulação de recursos.

Reescrevendo a frase introdutória deste texto, a Verónica mostra como a amizade é negociada ao longo do percurso de vida através de um trabalho de bricolage constante entre escolhas e constrangimentos, igualdade e desigualdade e público e privado. Este capítulo representa um contributo sério para colocar a amizade e a “relacionalidade” (paradigma focado no estudo das relações sociais) no centro da agenda sociológica num contexto de profundas transformações na vida pessoal.

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Policarpo, Verónica (2018). The Power(s) of Friendship: Affects and Inequalities Between Friends. In: Tuula Juvonen, Marjo Kolehmainen (Eds) Affective Inequalities in Intimate Relationships, pp.186-200, Routledge


Como citar este artigo: Gouveia, Rita (2018) A bricolage afetiva em processos de mobilidade social: That’s what friends are for… Life Research Group Blog, ICS-Lisboa, https://liferesearchgroup.wordpress.com/2018/11/15 15 de novembro (Acedido a xx/xx/xx)

English Version


The affective bricolage of social mobility processes: That’s what friends are for…

ritaRita Gouveia is postdoctoral researcher at Institute of Social Sciences, University of Lisbon

Friendship is commonly portrayed as the archetype of choice, equality, and private in personal relationships. In sociology, as in other disciplines, friendship was marginally studied and recognized as a research topic that enables social scientists to capture more classical and enduring themes of sociological thinking, such as power relations, social mobility processes, and structural inequalities. Friendship as love, and affects in general, was for a long time a kind of “underdog” of sociological research.

However, if we look at our own biography and circle of close persons, we can easily understand “what, how, and when friends were there for” (and when they were not). We can easily identify moments and situations in which friends were determinant both in positive and negative ways to cope with and/or create social inequalities and how they are tied to our biographical memories and feelings.

In her chapter “The power(s) of friendship: affects and inequalities between friends”, Verónica Policarpo shows in a very serious, elegant, vivid and appealing way how we can open the analytical floor to friendship and affective communities in order to tap structural inequalities and social mobility trajectories.

The author adopts a theoretical framework that combines perspectives from the sociology of friendship and the affect theory, drawing on conceptual devices and tools, such as affective figures, affective communities, and affective practices (the repetition is deliberate).

Drawing in qualitative data and adopting a narrative approach focused on the role of affects in individuals’ biographies, the author shows the entanglements and dynamics between affective and structural inequalities. The reader can follow the upward social mobility of David and clearly understand the role of affective communities and practices in the reconfiguration of power relations and the circulation of resources.

Rephrasing the introductory sentence of this text, Policarpo shows how friendship is negotiated over the life course through an affective bricolage between choice and constraint, equality and inequality, and private and public. This chapter represents a serious contribution to place friendship and relationality in the centre sociological agenda in a context of profound transformations in personal life.

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Policarpo, Verónica (2018). The Power(s) of Friendship: Affects and Inequalities Between Friends. In: Tuula Juvonen, Marjo Kolehmainen (Eds) Affective Inequalities in Intimate Relationships, pp.186-200, Routledge


How to cite this post: Gouveia, Rita (2018) A bricolage afetiva em processos de mobilidade social: That’s what friends are for… Life Research Group Blog, ICS-Lisboa, https://liferesearchgroup.wordpress.com/2018/11/15 15 de novembro (Acedido a xx/xx/xx)

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