Emigração portuguesa recente para a Alemanha: uma integração a duas velocidades.

pcPedro Candeias é doutorando no Programa Doutoral em Migrações no ICS-ULisboa.


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A Alemanha tem sido, desde os anos 1960, um destino importante para a emigração portuguesa. Segundo os dados compilados pelo Observatório da Emigração, no ano de 2016, a Alemanha era o o sétimo país do mundo com maior número de portugueses a viver. Se forem pensadas nas entradas anuais, a Alemanha era, em 2015, o terceiro país do mundo para onde foram mais portugueses.

No entanto, os estudos sobre a Alemanha enquanto país de destino não abundam, numa recolha e análise de bibliografia sobre emigração portuguesa em que trabalhei (Candeias, Ferreira, & Peixoto, 2014; Candeias, Góis, Marques, & Peixoto, 2014), verificámos que, num total de 806 publicações científicas, apenas 27 (3%) incidiam sobre a Alemanha.

Na minha perspectiva este reduzido interesse deve-se sobretudo a dois motivos. Em primeiro lugar, um “fascínio pelos grandes números”, o que leva a que se privilegie os países do topo da emigração de uma determinada época: durante muitos anos, a França; atualmente, o Reino Unido. Em segundo lugar, abona em favor do estudo destes dois países a familiaridade dos investigadores com a língua francesa e inglesa. O que já não pode ser dito em relação à língua alemã. Foi neste contexto que propus estudar a integração dos portugueses a viver na Alemanha.

Numa perspectiva longitudinal, destaco três grandes vagas de emigração para a Alemanha (figura 1). A emigração para a Alemanha teve como primeiro impulso a celebração de acordos bilaterais de recrutamento de trabalhadores convidados, os gasterbeiter. Os portugueses fizeram parte desse contingente juntamente com italianos, espanhóis, gregos, turcos, marroquinos, tunisinos e jugoslavos. O acordo com Portugal vigorou entre 1964 e 1973 e a partir de 1974 o stock começou a diminuir.

Alguns anos mais tarde, no início dos anos 1990, deu-se uma nova vaga de emigração portuguesa. A queda do Muro de Berlim e a reunificação da Alemanha aumentou a demanda por mão de obra. Este período coincide também com a implementação da diretiva europeia referente aos trabalhadores destacados, que facilitava a circulação de trabalhadores dentro do espaço comum europeu. Entre meados das décadas de 1990 e início dos anos 2000 o stock de portugueses manteve-se estável, só decrescendo em 2004, provavelmente devido a obras públicas de grande porte em Portugal que incentivariam o regresso de alguns emigrantes. Uma terceira vaga coincidiria com a crise económica e financeira que teve início em 2007.

Figura 1. As três fases da emigração portuguesa para a Alemanha (N)

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Fonte: Statistisches Bundesamt in Candeias (2017).

É especialmente sobre a terceira vaga que o meu estudo recai. Tal como o plano inicialmente estabelecido, recorri a uma metodologia mista que conjuga dados de um inquérito por questionário online aplicado a emigrantes portugueses na Alemanha com um conjunto de entrevistas conduzidas em Berlim e em Hamburgo. Mas, embora tivesse como objetivo conseguir uma amostra heterogénea em termos de sexo, idade, qualificações escolares e áreas académicas, fracassei em especial no perfil escolar. O peso dos graduados do ensino superior foi bastante mais elevado do que tinha desejado inicialmente.

Durante o processo de construção do modelo de análise foquei-me em estabelecer um conjunto de hipóteses bastante rígidas, possíveis de verificar empiricamente seguindo um método hipotético-dedutivo. Contudo, ao conduzir o trabalho de campo, ao entrevistar portugueses a viver em Berlim, surgiram novas ideias e desviei o foco para o que a sociologia americana das migrações considera ser uma produção de teoria que deriva dos dados.

No decorrer das entrevistas percebi que o modo como os portugueses se inseriam no mercado de trabalho tinha consequências a jusante. Mais concretamente, aqueles que chegavam com emprego assegurado conseguiam mais rapidamente obter alojamento e inserir-se num primeiro círculo de sociabilidade. Quanto ao alojamento, o emprego assegurando era uma garantia de rendimento, que facilitava o acesso ao mercado de habitação. Já aqueles que procuravam emprego após chegarem normalmente passavam períodos – mais longos ou mais curtos – a residir na companhia de familiares, amigos ou em residências partilhadas.

A chegada com emprego também “acelerou” a integração em redes de sociabilidade. Os portugueses que chegavam à Alemanha com emprego, muito frequentemente, trabalhavam em contextos de trabalho internacionais. A existência de colegas de trabalho também imigrantes numa situação semelhante facilitava o acesso a uma primeira rede de sociabilidade. Em comparação, os portugueses que procuravam emprego após chegarem passariam por uma pluralidade de contextos em que forjariam relações de sociabilidade, normalmente, diversos empregos precários e cursos de integração para estrangeiros.

Propus assim a trajetória de “higway of integration” protagonizada pelo grupo que chegou à Alemanha com emprego assegurado e a “hardway of integration” para o grupo cuja inserção laboral se fez a posteriori. Os segundos percorreram uma trajetória mais lenta e dificultada, com empregos precários e pouco gratificantes, e um acesso ao mercado habitacional mais.

Mas não se pense que esta integração acelerada se encontra livre de consequências negativas. A integração em empresas internacionais desincentiva a aprendizagem da língua alemã, o que por sua vez dificulta a lide com a burocracia administrativa e que, a longo prazo, se torna um embaraço. “Há tantos anos cá e ainda não sabe falar alemão!” – diziam alguns dos meus entrevistados. E este foi o que considerei o “dark side” da “highway of integration”, caraterizada por uma rede de suporte muito centrada no empregador, redes de sociabilidade pouco diversificadas, menor participação associativa e menor participação política no destino.

Na agenda política, os emigrantes portugueses mais qualificados tendem a ficar na sombra. Por um lado, a posse de um grau académico tende a ser utilizada como um indicador de integração. Em segundo lugar, no espaço europeu, a atenção sobre a integração tende a focar-se nos imigrantes não-comunitários, questionando pouco a integração dos europeus comunitários. Esta análise permitiu perceber que também existem diferenças no modo como se dá a integração dos portugueses mais qualificados na Alemanha.


Como citar este artigo: Candeias, Pedro (2019) Emigração portuguesa recente para a Alemanha. Uma integração a duas velocidades Life Research Group Blog, ICS-Lisboa, https://liferesearchgroup.wordpress.com/2019/02/07 07 de fevereiro (Acedido a xx/xx/xx)

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