A imigração e seus possíveis impactos durante a adolescência: o caso de jovens brasileiros na Costa da Caparica

fotoCláudia Pereira é professora e investigadora na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, e investigadora-visitante no ICS-ULisboa.


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Foto: Cláudia Pereira
Painel grafitado – Entrada da Praia Tarquino – Paraíso – Costa da Caparica

No passado dia 11 de janeiro dividi com colegas do ICS-ULisboa alguns apontamentos sobre a pesquisa “Culturas juvenis e migração: uma perspectiva comparada entre Rio de Janeiro e Lisboa”, resultantes do trabalho de campo realizado durante o período em que permaneci como investigadora-visitante nessa instituição, entre agosto de 2018 e janeiro de 2019, sob a preciosa supervisão do Professor José Machado Pais.

Inicialmente, o projeto de investigação previa, como o próprio título afirma, uma comparação entre jovens brasileiros residentes em Lisboa e jovens portugueses residentes no Rio de Janeiro. Porém, quis o destino que eu estabelecesse minha morada temporária na Costa da Caparica, concelho de Almada.

O concelho de Almada, de acordo com o Censo de 2011, contava com um total de 4326 brasileiros residentes, ou seja, quase 50% do total de estrangeiros que escolheram a região para viver. Na Costa da Caparica concentrava-se, naquela altura, a maior densidade populacional estrangeira de Almada, com aproximadamente 11% deste grupo, ou seja, cerca de 1200 estrangeiros – posso arriscar uma rápida projeção e afirmar que há, nesta freguesia, pelo menos 600 brasileiros a residir ao longo de suas praias. De um modo geral, o Censo de 2011 revela, ainda, que 5% de seus 13 mil habitantes, mais precisamente 701 em números absolutos, são jovens de 14 a 19 anos. Diante dos números, o lugar mostrou-se muito mais interessante para os meus objetivos do que Lisboa. Deixei, então, “o campo falar”.

Diante desta realidade encontrada no campo e dos recursos que, na ocasião, se apresentaram, foram feitas, então, algumas mudanças no desenho metodológico e recorte iniciais do projeto. Sendo assim, a investigação incluiu a aplicação de 167 questionários em duas escolas na freguesia da Costa da Caparica e em uma escola secundária em Lisboa. Além disso, foram realizadas seis entrevistas em profundidade com adolescentes de 14 a 19 anos, imigrantes brasileiras e brasileiros, que estudam e, a maioria, que reside na freguesia da Costa da Caparica há menos de 2 anos.

No momento em que escrevo para o Blog do LIFE Research Group os dados estão ainda brutos e não foram devidamente analisados. No entanto, já se podem construir algumas hipóteses a partir deste estudo exploratório. Destaco, portanto, cinco aspectos para futuras reflexões.

O primeiro ponto diz respeito ao lugar do adolescente dentro de um projeto coletivo e familiar da migração. Os adolescentes parecem não ter poder de escolha a respeito da mudança, o que nos leva a crer que ganham menos atenção do que as crianças e os próprios adultos, principalmente quando já estão morando no outro país. Logo são matriculados numa escola e nela permanecem por boa parte do dia – sentem-se mais cansados e ocupados do que eram no Brasil. Afinal, o que caracteriza a adolescência como uma construção social e transitoriedade, já não são crianças para dependerem tanto dos adultos, ao mesmo tempo em que ainda não são adultos o suficiente para fazerem suas escolhas sozinhos. Enquanto os adultos saem em busca de emprego, os filhos adolescentes permanecem em casa ou vagueiam pelas ruas, à procura do que fazer, se chegam no período de férias em Portugal. O grupo pesquisado expressa um ressentimento com relação ao espaço físico perdido: aqueles que tinham um quarto para si, precisam agora dividir com os irmãos. Aqueles que já o dividiam antes, acham que o espaço é pequeno demais e não têm privacidade para realizar as tarefas mais simples, como estudar ou conversar pelo telemóvel, por exemplo.

O segundo aspecto que merece destaque é uma consequência do primeiro, ou seja, o impacto em suas vidas quotidianas, já expressa no ponto anterior: muitas vezes chegam quando o ano letivo ainda não iniciou em Portugal e veem-se sozinhos, “sem ter o que fazer” ou “sem ter com quem conversar”. Dos seis entrevistados, pelo menos quatro tentaram descrever o que sentiram neste primeiro momento com expressões como “tristeza” e “depressão”.

A Língua pode ser, a depender do caso, um fator de resistência ou de sentimento de pertencimento fundamentais para os adolescentes brasileiros. Esta terceira hipótese surge quando comparo três casos entre os meus informantes: um deles, Mateus, é de Goiânia e permanece com seu sotaque “carregado”, como dizemos no Brasil, intacto. Ele revela que “se recusa a falar telemóvel e autocarro”. Para ele, ainda é “celular” e “ônibus”. De outro lado, temos Bruna, que chegou à Costa da Caparica há menos tempo que Mateus, mas que já fala como uma portuguesa nativa. Ele afirma ter ainda grandes dificuldades para se adaptar, embora já resida em Almada há dois anos, enquanto ela diz ter esquecido de muitas coisas do Brasil e não querer mais voltar. Curioso também é o caso de Laura, que em vez de falar “contínua”, fala “cantina”, quando se refere às funcionárias de sua escola. Pude depois confirmar com outros adolescentes brasileiros que estudam na Costa que a expressão usada é “cotina”. A Língua, nos três casos, é uma espécie de mediadora para a construção de uma outra identidade. Ora recusando-a, ora incorporando-a, ora modificando-a, de todo modo, é parte do processo de construção de “novas” subjetividades.

Por meio de fotografias solicitadas por mim e que retratassem objetos que os informantes consideram importantes, chegamos à quarta hipótese: as materialidades objetificam rupturas necessárias, sejam elas com suas infâncias, seus amigos ou seus amores, mais do que continuidades. Deste modo, os vínculos de afeto deixados no Brasil  são mais concretos nas “coisas” que representam do que naquilo que ainda sentem. Por exemplo, dos seis entrevistados, cinco enviaram-me fotografias. Destes, três escolheram objetos como bonecas, álbuns de fotografias com imagens de suas infâncias, medalhas e kimono usado quando ainda tinha 10 anos e praticava Karatê – os outros dois revelaram objetos, por meio de imagens, que lembravam amigos e namoradas – os quais, deixados no Brasil, passam a ser considerados “mudados”, “diferentes”, o que pode também representar um reflexo da própria mudança que passa a se processar, subjetivamente, em si próprios.

Por fim, o quinto aspecto diz respeito às redes sociais online, que parecem não substituir as redes sociais presenciais nesta fase inicial de chegada a Portugal e, concorrendo com este fenômeno observado, os “colegas” ganham uma maior importância do que os “amigos”. De acordo com os relatos sobre os primeiros movimentos de sociabilidade, os primeiros “colegas” foram importantes, pois introduziram-nos nas redes de amizade da escola. Contrariando minha premissa, as redes sociais online parecem não substituir a contento as conversas presenciais e, em poucos meses, como observado no ponto anterior, os amigos do Brasil tornam-se “distantes”.

A investigação está ainda em seu começo e parece-me pertinente, considerando a escassez de trabalhos científicos que se debruçam sobre os imigrantes adolescentes em Portugal. Até aqui, como pude observar, há pelo menos dois importantes impactos que esta sua condição pode trazer para si e para o contexto que os envolve, quais sejam, a carência de “tempo livre” e, consequentemente, de um engajamento com a vida na e da cidade que colabore para o seu rejuvenescimento (questão importante em Portugal) e para a sua cultura local; e os riscos que representam os primeiros sentimentos relatados, de “tristeza” e “depressão”, esta última já considerada uma “epidemia” global, com sinais já críticos entre jovens no Brasil, onde um aumento assustador na ordem dos 40% entre jovens de 12 a 25 anos, como informa o Ministério da Saúde, vem alarmando a comunidade médica e as famílias.

Ciências sociais e políticas públicas, juntas, levantam grandes temas, sempre. Mas nunca podemos esquecer que tudo começa no pequeno, e apenas se lançarmos olhar atento aos que, de fato, até têm as suas “vantagens de ser invisível” como indica o título do filme de Stephen Chbosky, de 2012 – porém, cabe a nós, antropólogos e sociólogos, lançar luz sobre os fatos sociais que por vezes estão eclipsados e que decorrem da condição de ser adolescente e ainda imigrante.


Como citar este artigo: Pereira, Cláudia (2019) A imigração e seus possíveis impactos durante a adolescência: o caso de jovens brasileiros na Costa da Caparica Life Research Group Blog, ICS-Lisboa, https://liferesearchgroup.wordpress.com/2019/02/21 21 de fevereiro (Acedido a xx/xx/xx)

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