Uma experiência de pesquisa sobre práticas de agricultura urbana em Lisboa

lauraLaura Martins de Carvalho é doutoranda no Programa Doutoral em Saúde Global e Sustentabilidade da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP), e doutoranda-visitante no ICS-ULisboa (Bolsa CAPES n: 88881.189504/2018-01).


Este post narra minha experiência de pesquisa sobre agricultura urbana (AU) na cidade de Lisboa. Cheguei à capital portuguesa em agosto de 2018 com a preocupação de entender as práticas de agricultura urbana nos bairros sociais da cidade. Isto porque eu já havia realizado pesquisa de campo em uma região socialmente vulnerável de São Paulo, a Zona Leste, e procurava em Lisboa o equivalente socioeconômico à região de investigação da capital paulistana.

Uma vez instalada em Lisboa, tinha a expectativa de ver os parques hortícolas “em pleno funcionamento e com alta produtividade”, mas não sabia que durante os meses de agosto e setembro os residentes lisboetas costumam estar de férias fora de Lisboa. Inicialmente visitei alguns parques hortícolas para me familiarizar com o cenário da AU na cidade (Telheiras, Jardim da Amnistia Internacional, Quinta da Granja e Quinta das Flores) e, como dito anteriormente, àquela altura havia poucos agricultores urbanos a trabalhar na terra. Para que as plantas não morressem no calor, os donos dos talhões pediam a amigos e vizinhos que as aguassem durante o período de férias. Devido às temperaturas elevadas, os agricultores procuravam ir aos talhões depois das 18h00, quando o calor já não era tão forte.

Por sugestão do professor Vitor Sérgio Ferreira, visitei o parque hortícola do bairro do Vale de Chelas, e por sugestão de um amigo que trabalha no bairro Padre Cruz, a horta local. Ambos os bairros possuem características territoriais e socioeconômicas semelhantes à região investigada em São Paulo: são bairros de habitação popular ou de cooperativas habitacionais com uma população de baixa renda.

As primeiras incursões ao parque hortícola do Vale de Chelas revelaram o primeiro perfil de agricultor urbano: homens reformados, de origem rural portuguesa, com baixo nível de escolaridade, que aprenderam a prática de horticultura com sua família na província, foram à tropa durante as guerras de independência das ex-colônias portuguesas, regressaram a Portugal, casaram, tiveram filhos, trabalharam, reformaram-se e… retornaram à terra para cultivar suas couves, alfaces e outros tipos de hortaliças.

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Foto do Vale de Chelas. Crédito da foto: Laura Martins de Carvalho, outubro de 2018.

Para minha surpresa, os agricultores se mostraram receptivos à conversa logo no primeiro contato. Quando eu falava que estava fazendo doutoramento na Universidade de Lisboa, e que estava a investigar a trajetória de vida dos agricultores para entender o porquê de estarem a cultivar hortas na cidade, imediatamente eles falavam que a horta era da Câmara de Lisboa. O fato de os parques hortícolas serem regulamentados e de os agricultores mencionarem a Câmara me levou a procurar nesta instituição o grupo responsável pelos parques hortícolas.

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Cartaz da inscrição no Concurso de Hortas Urbanas da Câmara de Lisboa. Créditos: CML, novembro de 2017.

O projeto de agricultura urbana chamado Parques Hortícolas Municipais foi encabeçado pela ação política do vereador Sá Fernandes em 2011. O projeto foi inspirado no modelo de Urban Allotment Gardens, onde a agricultura urbana foi concebida como parte de um projeto paisagístico para a cidade. Segundo uma das técnicas do Grupo de Trabalho para a Promoção da Agricultura Urbana na Cidade de Lisboa, em entrevista concedida em outubro de 2018, a execução do projeto foi marcada por conflitos com os agricultores, que antes cultivavam informalmente estes espaços nas chamadas “hortas clandestinas”. Com a estetização e regulamentação desses espaços – agora divididos em talhões, com fornecimento de água e casa de arrumo – eles podem ser utilizados mediante inscrição no concurso da Câmara Municipal de Lisboa, feitoria de um curso de horticultura oferecido pela mesma e pagamento de uma taxa anual de uso.

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Casa de arrumos do Vale de Chelas. Créditos: Laura Martins de Carvalho, outubro de 2018.

Depois de ter entrevistado os agricultores do Vale de Chelas e algumas técnicas da Câmara, constatei que a dinâmica relacional entre agricultor e poder público é marcada por uma visão técnico jurídica, onde prevalece uma noção do que é “permitido e não-permitido” e do que é “formal e informal”. Não contempla as especificidades culturais nem o próprio conhecimento do agricultor sobre o cultivo, isto é, não é um processo colaborativo ou participativo. No entanto, o poder público “tem cara”, pois os agricultores sabem quem são as técnicas, sendo, porém, um diálogo restrito às regulamentações. Tal dinâmica aponta para a necessidade de criação de mecanismos de participação popular, contemplação do conhecimento do agricultor e criação de mecanismos de venda.

No final de novembro de 2018 conheci outra faceta da agricultura urbana em Lisboa, quando vi um anúncio no Facebook sobre um evento chamado Sustainable Food Week, organizado por um grupo de voluntários interessados ou envolvidos com projetos de sustentabilidade alimentar. Participei amplamente de todas as atividades e durante a interação com os participantes e organizadores do evento, conheci os novos atores e modelos de iniciativas e ação social civil em torno do uso da terra em Lisboa.

Essas iniciativas eram encabeçadas por um novo perfil de agricultor urbano, notadamente jovens, entre 20 e 40 anos, de caráter internacional, que não querem se relacionar com a agricultura urbana da maneira proposta pela Câmara  Municipal de Lisboa e pretendem construir novas configurações para o uso da terra como espaços de experimentação, convivência, atuação, articulação social, produção, e enfim, de existência. Alguns exemplos das novas iniciativas são a HortaFCUL , Terreno Com Calma, Fruta à Mão e o estabelecimento do Urban Agriculture Working Group Lisbon, que pode ser encontrado no Facebook.

Da esquerda para a direita: Logo da Sustainable Food Week, do projeto Fruta à mão e cartaz da HortaFCUL. Crédito das fotos: imagens recolhidos no Facebook.

A ação dessas iniciativas é múltipla e abrange uma variedade de propostas, tais como conscientização ambiental, ação coletiva para limpeza de terrenos, empreendedorismo socioambiental, gerenciamento comunitário de espaços públicos, entre outras, e carregam um caráter de questionamento das regulamentações relativas ao uso e gerenciamento da terra que apontam para abordagens mais inovadoras na arena da economia e da inovação social.

As dinâmicas organizacionais e relacionais são marcadas pela horizontalidade, autogestão e experimentação social.  As novas iniciativas apresentam soluções que respondem à situação local, interesses e valores das comunidades envolvidas. Porém, elas possuem desafios tais como encontrar fontes de financiamento; verificar a viabilidade, implementação e continuidade dos projetos.

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Grupo de voluntários no Dia de Limpeza do Terreno com Calma. Crédito da foto: Joana Filipa Amaral Grilo, dezembro de 2018.

A multiplicidade e ineditismo das novas iniciativas chamou a atenção para novas práticas do uso da terra, de propostas para a agricultura urbana, de sociabilidade e de perfil de juventude. Infelizmente o meu tempo em Lisboa foi curto e não pude investigar em maior profundidade as novas iniciativas (mesmo não fazendo parte do escopo inicial da pesquisa), mas foi o suficiente para perceber a profusão de novos temas de investigação interdisciplinares.


Como citar este artigo: Carvalho, Laura (2019) Uma experiência de investigação sobre práticas de agricultura urbana em Lisboa Life Research Group Blog, ICS-Lisboa, https://liferesearchgroup.wordpress.com/2019/03/07 07 de março (Acedido a xx/xx/xx)

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