Da Escola Pública ao espaço público da educação: concepções e reverberAÇÕES

alex.pngAlexandre dos Santos Silva é doutorando no Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), e doutorando-visitante no ICS-ULisboa.


“É nós por nós, defendendo a Educação”
(Tema dos protestos estudantis na Insurreição Secundarista nos atos em 2018 contra a Proposta de Reformulação do Ensino Médio brasileiro).

O ano de 2015 foi marcado, no Brasil, por lutas e ocupações das escolas públicas do estado de São Paulo por parte de estudantes do Ensino Médio e do Fundamental II contra a postura autoritária e a equivocada proposta de “Reorganização Escolar” imposta pelo governo estadual de Geraldo Alckmin. Com o slogan “Não tem Arrego!”, o processo de mobilização e resistência estudantil juvenil inicia um movimento de intensas manifestações (163 protestos) e, consequentemente, mais de 200 escolas foram ocupadas durante todo o processo, entre setembro a novembro de 2015.

1

Protesto dos estudantes na Avenida Paulista, em São Paulo. 2015

Nessa “primavera secundarista”, acompanhando as trajetórias escolares dos jovens pós-ocupações nos anos de 2016, 2017 e 2018, fui investigar o papel da escola pública e dos espaços urbanos, enquanto ambientes de socialização, na constituição das múltiplas culturas juvenis contemporâneas, a fim de compreender rupturas e continuidades entre espaços de produção de subjetividades. A investigação teve como base a antropologia urbana e a inspiração etnográfica na produção de dados. Para tanto, fez-se necessário, atingir as interfaces da constituição da condição juvenil, tomando os percursos urbanos de jovens de 36 escolas públicas que oferecem o Ensino Médio em uma determinada região da cidade de São Paulo.

2

II Ato dos Estudantes na Avenida Pedroso de Morais (25 de agosto de 2018)

Tomámos o cotidiano dos jovens como perspectiva metodológica, triangulando deambulações etnográficas, observação participante, registros fotográficos e entrevistas, a fim de apreender as biografias dos jovens no contexto escolar e social em que vivem, a constituição e compreensão das múltiplas trajetórias e identidades juvenis, bem como a apropriação do espaço urbano e a atuação da escola pública na potencialização de culturas juvenis.

Frente às percepções juvenis oriundas de práticas de existência reverberada pelo protagonismo social, vozes marginalizadas (re)existem e entram em cena, apropriadas de um discurso crítico/social, a fim de instaurar a visibilidade e o engajamento político juvenil nas disputadas arenas da cidade de São Paulo.

A emergência da juventude no cenário social.

A percepção juvenil orientada pelo protagonismo social vem ensaiando de modo efetivo um apreço às discussões políticas na cidade. Esse estranhamento tem mobilizado os jovens a externalizarem seus pensamentos e reflexos acerca da política vigente de modo público e subjetivo.

De entre as mobilizações que circunscrevem as manifestações juvenis, estimuladas pelas redes sociais, três momentos na história da política brasileira aparecem nos mais variados discursos dos entrevistados para justificarem suas práticas em torno dos engajamentos políticos nos ‘atos dos secundaristas’:

1. as manifestações de junho de 2013 “Passe Livre”;
2. a contrariedade da população a “copa do mundo” em 2014;
3. o acirramento político das eleições presidenciais de 2014/2015.

Tais implicações são apresentadas pelos jovens para reafirmarem suas posturas, bem como as mobilizações para as ocupações de mais de 190 escolas por parte de estudantes contra o plano de “reorganização” da rede estadual paulista, em 2015, que influenciou enormemente a atuação de uma geração de jovens, incluindo aí os secundaristas que também desempenharam um papel decisivo em torno dessas discussões.

Assistia-se, a partir de então, a uma efervescência juvenil em meio a uma pluralidade de percepções que, no caso, estavam ocultas no espaço público que conforma a sociedade brasileira. Jovens brasileiros emergem no cenário público, criando alterações e deslocamentos que permitiram a entrada na agenda pública de novas realidades, questões, sujeitos, coletivos, impactando a representação sobre juventude no imaginário social brasileiro.

Com essas aquisições valiosas tem-se o início de uma reflexão acerca dos percursos de vida juvenis nas sociedades contemporâneas, com ênfase voltada para os jovens estudantes de Ensino Médio público brasileiro, por (de)trás dos muros da escola e em suas particularidades nos lugares sociais. É nesse contexto que cabe, então, perguntar: quem são os sujeitos jovens que ingressam ao Ensino Médio no Brasil? Como se articulam os interesses pessoais e planos de vida juvenis com as demandas do cotidiano escolar?

Cartografias juvenis e desigualdades estruturais.

As repercussões que delineiam as profundas transformações no cenário da educação básica no Brasil tendem a delimitar cada vez mais o mapeamento das desigualdades circunscritos aos jovens de baixa renda que chegaram ao Ensino Médio. No tratamento das questões educacionais, o Brasil tem demonstrado silenciosamente uma drástica ampliação das desigualdades de oportunidades quando se analisam os percursos de vida dos jovens estudantes na sociedade brasileira.

3.jpg
Antes de mais nada, importa demonstrar a cartografia juvenil desta pesquisa evidenciando os itinerários e percursos desiguais, mesmo que de modo introdutório, das vidas e vozes marginalizadas que compõem o território.

Numa primeira fase, fez-se necessária uma pesquisa etnográfica junto das 36 unidades escolares públicas da região geográfica delimitada pela Diretoria de Ensino Centro-Oeste no Estado de São Paulo que oferecem o ensino médio. Por meio dessa pesquisa, identificou-se os agrupamentos juvenis que compõem parte da pesquisa de campo, a saber: alunos frequentes do Ensino Médio de Escola Pública com idade entre 15 e 19 anos.

4

II Ato dos Estudantes Secundaristas (25 de agosto de 2018). Avenida Paulista, São Paulo.

Após a imersão no terreno, realizando entrevistas aprofundadas e semi-diretivas, caminhando com os jovens nas entradas e saídas das escolas em seus percursos urbanos, trajetórias de mobilidade da escola até as residências, transitando entre parques, praças, vielas, campos de futebol, salas de cultura, ONG´s, galpões de acesso da prefeitura, pontos de ônibus, cursinho popular (Cursinho Popular Livre Cláudia Silva Pereira) na ‘quebrada’ do bairros Jardim João XXIII e as inúmeras mobilizações juvenis no espaço extra-escolar (manifestações artísticas e políticas), pude identificar os modos de sociabilidades, apropriações e representações juvenis no que confere à constituição das suas subjetividades.

Concepções e Reverber_AÇÕES juvenis sobre a Educação.

Partindo, principalmente, dos pontos de vista dos alunos, os sentidos e significados juvenis sobre essa etapa de escolarização, as diversas manifestações juvenis, os grupos de sociabilidade, novas formas de participação e socialização invadem o espaço público da escola. Um novo exercício do olhar se faz a escola. Eis que surge, a partir de dos engajamentos dos sujeitos jovens ‘secundaristas’, uma ‘Escola de Luta’.

5

III Ato dos Estudantes Secundaristas. (05 de Setembro de 2018). Avenida Paulista, São Paulo

Devem-se pensar as concepções e reverberações da juventude brasileira após as ocupações das escolas públicas pelos jovens atores sociais, decorrentes do “Movimento Secundaristas” em 2015/2016, e viabilizar uma reconstrução da trajetória escolar individualizada, para compreender quais são os sentidos e significados que os jovens atribuem à Escola. Quem são esses ‘novos sujeitos jovens’? Que vozes são essas que ainda repercutem nos ‘bastidores’? Por que é necessário (des)mascarar os olhares por detrás dos portões da escola? Afinal, estão conseguindo engajar socialmente suas ideologias após a conclusão do Ensino Médio? Quais foram suas trajetórias estudantis? Permearam o sucesso escolar ou foram dilacerados pelo insucesso escolar?

Este slideshow necessita de JavaScript.

São questionamentos iniciais que têm a intenção de contribuir com a reflexão e o debate em favor desse movimento espontâneo de resistência pelo direito à educação, que se manteve autêntico em todo seu percurso. Nesse contexto, a sociedade brasileira, hoje, vê-se diante de um novo patamar de direitos expostos pelas demandas juvenis e traz para o espaço público novos temas, novos sujeitos e novas identidades.

Ultrapassar uma visão redutora de “territórios” circunscritos às suas dimensões escolares, desvendar as concepções juvenis em torno do processo de escolarização, pensar a constituição juvenil e potencializar as reverberações oriundas dos micromundos juvenis ainda pouco explorados, é o foco da minha tese de doutoramento. Um constante fluxo do ‘vir-a-ser’ heraclitiano, em que os sujeitos jovens reivindicam um espaço de visibilidade e existência nas sociedades contemporâneas que garanta aos sujeitos sociais em questão a participação efetiva nas mais variadas dimensões sobretudo política/existencial.


Como citar este artigo: Silva, Alexandre dos Santos (2019), Da Escola Pública ao espaço público da educação: concepções e reverberAÇÕES Life Research Group Blog, ICS-Lisboa, https://liferesearchgroup.wordpress.com/2019/03/23 23 de março (Acedido a xx/xx/xx)

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s