Pedras nas trajetórias de estudantes de Taperuaba: a superação como ponto de partida

aleksandra.pngAleksandra Oliveira é doutoranda em Sociologia na Universidade Federal de Goiás, Brasil, e doutoranda-visitante no ICS-ULisboa.


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Minha pesquisa doutoral em curso trata da história de vida de estudantes que buscam inclusão e reconhecimento social através da escolaridade estendida. Para além da análise da singularidade das biografias, procuro compreender que conjunturas e processos desencadearam transformações nas trajetórias de pessoas comuns, o que fez com que agarrassem ou cultivassem oportunidades e alcançassem destinos improváveis.

Elegi oito interlocutores provenientes de famílias com baixo poder aquisitivo, com pouca escolaridade, egressos de escola pública, que conseguiram chegar ao ensino superior público, entre graduação e pós-graduação stricto sensu. Três são mestras em Geografia, Filosofia e Saúde Pública, e uma doutoranda em Antropologia Social; entre os moços, três são doutorandos em Geociências Paleontologia, Química e Geografia, e o mais jovem é graduado em Letras/Inglês.

A realidade local onde os meus interlocutores lançaram seus primeiros passos como sujeitos de sua história tem como característica o isolamento geográfico. Esta foi a primeira “pedra” – no sentido de barreira – para o prosseguimento escolar. O distrito de Taperuaba fica a 72 km de distância da sede do município de Sobral, no Noroeste do estado do Ceará, distante 207 km da capital Fortaleza, no Brasil. Dadas as distâncias que os separam da capital e de Sobral, os moradores têm acesso limitado a muitos serviços, bem como ao intercâmbio cultural e institucional.

A estrada é um caminho inevitável para obter comércio diversificado, transações bancárias, assistência médica especializada, ensino universitário e formação complementar. Em algumas ocasiões, não raras, os estudantes necessitam fazer este trajeto duas vezes ao dia, quando há atividades em turnos não conciliáveis, como manhã e noite, o que os leva a percorrer até 288 km numa única jornada. Localizado no Nordeste brasileiro – que em termos de geopolítica é considerado periferia em relação ao Sudeste e ao Sul -, esta região é historicamente menos assistida por investimentos econômicos e sociais. Melhorias através da implantação de políticas públicas na área da educação e saúde, por exemplo, são ações muito recentes. Para se ter uma ideia, a implantação do nível médio de ensino e a construção do posto de saúde foram conquistas que a comunidade de Taperuaba só alcançou no início dos anos de 1990.

A economia da comunidade taperuabense gira em torno da agricultura sazonal típica do semiárido, do pequeno comércio, de benefícios sociais do governo e dos insuficientes e disputados empregos públicos – em geral temporários – na área da educação (cinco escolas) e na área da saúde (dois postos de saúde). Mas a vocação econômica do distrito está nas pequenas e médias empresas de confecção para recém-nascidos, que há pelo menos três décadas passaram pela transição do artesanato do bordado à mão para o bordado à máquina. Com exceção do interlocutor mais jovem da pesquisa, todos os demais iniciaram a vida profissional nas atividades da confecção do bordado, não como escolha, mas como meio de sobrevivência. Logo que possível, todos abandonaram a atividade do bordado e migraram para a área da educação e da pesquisa. Este é o micropanorama socioeconômico que gestou os sujeitos com quem trabalho.

Ao longo de suas vidas, os interlocutores pesquisados driblaram uma série de escassezes e contratempos, aproveitaram e otimizaram chances e meios para ampliar a escolaridade e para se qualificarem profissionalmente. Um dos critérios na escolha dos interlocutores da pesquisa foi a faixa etária, que vai de 24 a 40 anos de idade. Esta opção considera que o contexto histórico da educação pública brasileira atravessou mudanças ao longo das últimas duas décadas, e que essas mudanças repercutiram, de formas diversas, nos percursos escolares dos pesquisados.

Em 1998, a primeira estudante do grupo estudado ingressou no ensino superior. Àquela altura, ela fazia parte de uma parcela muito restrita de pessoas pertencentes às camadas economicamente desfavorecidas que alcançavam esse feito. A partir de 2003, é verificado maior investimento em políticas públicas de educação. As matrículas no ensino superior cresceram paulatinamente até tomar grandes proporções, especialmente com a criação do Programa de Expansão e Reestruturação das Universidades Federais (Reuni), em 2008. Em todo o Brasil, inclusive no interior, foram abertas 18 novas Universidades Federais e 173 campi universitários, incluindo novas unidades de Institutos Federais de Educação Ciência e Tecnologia. Os Institutos Federais (IFs) oferecem cursos que vão do nível técnico à pós-graduação. Foram criados novos programas de pós-graduação stricto sensu em todo o Brasil, acompanhados pela criação e ampliação de sistemas de bolsas de estudo e pesquisa em vários níveis. Tal cenário possibilitou o ingresso e a permanência de estudantes economicamente carentes, viabilizando o estudo e acesso à uma renda mínima de subsistência.

A realidade de quem viveu o ensino básico entre as décadas de 1980 e 1990, e chegou ao ensino superior na travessia para os anos 2000, foi completamente diferente de quem viveu a escolaridade nos anos posteriores. As políticas públicas de educação que foram implantadas na última década e meia alteraram sobremodo o perfil dos ingressantes na universidade, além das trajetórias escolares e de vida de grupos sociais antes excluídos. Os sujeitos da pesquisa estão entre os primeiros de sua geração familiar a experimentar tal novidade. Foram contemplados pelas políticas públicas e as mudanças macrossociais que acompanharam suas trajetórias acadêmicas.

A partir de 2001, o governo municipal de Sobral levantou uma forte bandeira de melhoria da educação básica pública e reestruturou toda a rede municipal com metas arrojadas de proficiência da aprendizagem. Em 2006, a rede estadual de ensino incorporou a filosofia e o modelo do projeto de educação aplicado em Sobral. Este cenário médio encontrou apoio nas políticas públicas federais de educação. Desde a década de 1980 o distrito de Taperuaba protagoniza um movimento comunitário de valorização da educação escolar. O fortalecimento dos sistemas de ensino municipal, estadual e federal foi abraçado com entusiasmo pela comunidade taperuabense, que tem uma história de reinvindicações pela melhoria das escolas e pelo acesso à universidade. Toda a atmosfera local também é um ingrediente relevante para compreender como os cidadãos de um lugar tão isolado podem desejar se apropriar da possibilidade de aprender e podem ter no acesso ao conhecimento um bem precioso.

Em um encadeamento de elementos a longo prazo, os eventos macro (nacionais) e meso (regionais) podem gerar movimentos locais e podem afetar a visão de mundo de muitos indivíduos e as suas trajetórias. Quantas pessoas e quantas famílias e grupos sociais podem ser afetados por esses movimentos de mudanças? No sentido inverso, ou concomitante, quantos indivíduos podem criar em suas biografias rupturas profundas capazes de impactar sobremaneira seus grupos e suas realidades, proporcionando alterações nas macroestruturas? Esse movimento é parte do fluxo social que é conflitante e complexo.

No nível micro, o desafio é conhecer que características relevantes e que referências significativas foram determinantes na constituição dos sujeitos da pesquisa como estudantes de pós-graduação. Procuro apreender os meandros dos caminhos e as estratégias de superação que os meus interlocutores encontraram para galgar novos degraus sociais: universidade e trabalho qualificado. Estes indivíduos não se curvaram às adversidades e, ao contrário da constatação do poeta Carlos Drummond de Andrade, não se fiaram no fato de que “no meio do caminho tinha uma pedra”. Eles fizeram das “pedras” um recurso de preparação para enfrentar os desafios.

Minha fundamentação teórica-metodológica está focada em reconstituir os processos de socialização dos interlocutores da pesquisa em formas de “retratos sociológicos” inspirados no modelo de Lahire. À luz dos conceitos bourdieusianos de capitais (econômico, social, cultural e simbólico), e de patrimônio disposicional de Lahire, dentre outros, procuro encontrar os fios que tecem o panorama de sucesso escolar nas camadas populares.

Precocemente encaixados na múltipla condição de trabalhadores e estudantes/viajantes, as conquistas que alcançaram até agora os sujeitos pesquisados já os colocam na condição de “vencedores” perante seus pares, porque escaparam das reservadas trajetórias convencionais de seus antepassados e dos parâmetros comuns que limitam os indivíduos de suas classes sociais. Os estudantes indicam em suas falas que o saber escolar e a obtenção do título acadêmico representam um conjunto de suportes práticos para ascender, mesmo que relativamente, a patamares mais elevados de oportunidades profissionais, melhoria na própria condição socioeconômica e de seu grupo familiar. Além disso, há uma série de elementos simbólicos na qualificação adquirida que é conferida com a aquisição do conhecimento e a certificação do saber, que se convertem em capital cultural. Toda a nova condição se desdobra em consciência sobre a realidade, realização pessoal e conquista de autonomia.

Num cenário geopolítico de incerteza e reduzidas garantias para os menos aquinhoados no mundo onde vigora o capital financeiro, ter acesso ao conhecimento ainda é um privilégio. Para os sujeitos da pesquisa, extrapolar seus circunscritos campos de possibilidades e contrariar as recorrências de suas origens foram os primeiros passos de uma longa caminhada.


Como citar este artigo: Oliveira, Aleksandra (2019). Pedras nas trajetórias de estudantes de Taperuaba: a superação como ponto de partida. Life Research Group Blog, ICS Lisboa, https://liferesearchgroup.wordpress.com/2019/04/23 23 de abril de 2019 (Acedido a xx/xx/xx)

 

 

Mudar a hora? A necessidade de um estudo multidisciplinar de suporte à decisão

raquelRaquel Rego é socióloga e investigadora auxiliar no ICS-ULisboa.


No último fim-de-semana, em Portugal, adiantámos uma hora ao relógio. Essa alteração faz-se para aproveitarmos mais a luz natural do dia. Temos já o hábito de mexer no relógio duas vezes por ano. Mas isso pode mudar em breve…

Em 2018, depois de uma consulta pública, a Comissão Europeia (CE) propôs que em 2019 se abandonasse a mudança da hora na União Europeia. A grande maioria dos participantes nessa auscultação da população considerou que seria desejável não se mexer no relógio ao longo do ano. Esse inquérito foi feito em pleno Verão e nele participaram pouco mais de 4,6 milhões de cidadãos europeus. A taxa de participação não chega, portanto, a 1% da população, pois a Europa totaliza mais de 500 milhões de cidadãos. A taxa de participação dos portugueses é também insignificante, uma vez que responderam ao inquérito pouco mais de 30 mil cidadãos.

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(https://ec.europa.eu/info/consultations/2018-summertime-arrangements_pt Acedido a 27.03.2019)

Segundo a posição da CE, dever-se-ia deixar de mexer no relógio em finais de Março e, na maior parte dos países europeus, em finais de Outubro de cada ano, altura em que se introduz e termina a hora de Verão, respectivamente. Cada Estado-membro deveria optar por ficar na hora de Verão ou na hora de Inverno até Abril de 2019 e deixar depois de avançar ou atrasar o relógio.

Um relatório português do Observatório Astronómico da Lisboa (OAL), desenvolvido pelo seu director e publicado logo em Agosto de 2018, defendia claramente que «a melhor solução para o país» (p.4) era a manutenção da mudança da hora, mas com regresso à hora de Inverno em Setembro e não Outubro. O parecer do OAL vai, portanto, contra a disposição europeia.

Na sequência deste relatório, o Primeiro-ministro português declarou publicamente que o “critério da ciência” deve prevalecer. O responsável político esquadra-se no facto de que faz parte da missão do OAL dirigir a Comissão Permanente da Hora. Com efeito, esta «tem por finalidade estudar, propor e fazer cumprir as medidas de natureza científica e regulamentar ligadas ao regime de hora legal e aos problemas da hora científica» (p.1 do Decreto n.º 279/79, de 9 de Agosto, que regula as competências da Comissão Permanente da Hora).

Diante deste problema, a Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (FC) organizou o debate Mudar ou não a hora em Portugal? Várias respostas para uma mesma questão, com diversos especialistas de várias áreas, entre os quais a autora deste texto. Esta iniciativa terá sido motivada pela discordância de alguns investigadores da própria FC relativamente à sustentação do estudo português.

Assim, a 8 de Janeiro de 2019, o debate contou com representantes de diversas áreas disciplinares: meteorologia, astronomia, engenharia geofísica, medicina, economia e sociologia. Ainda que não seja fácil resumir as conclusões deste encontro, de um modo geral considerou-se que o tema da mudança da hora é complexo e por isso deveria obrigar a um trabalho multidisciplinar e mais escrutinado cientificamente. Além disso, pareceu ficar claro que os contributos são desiguais, isto é, os estudos do impacto na saúde e no sono em particular, parecem muito mais desenvolvidos.

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(cartaz do debate da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa)

O problema da mudança ou não da hora parece convocar um estudo multidisciplinar e, nesse quadro, um contributo sociológico fundamental. Se a «hora solar» corresponde ao tempo da rotação da terra sobre si própria, a «hora legal» que se estabelece para uniformizar um determinado território, está associada a múltiplos aspectos da vida em sociedade.

Várias são também as vertentes consideradas no estudo do OAL e, de resto, em estudos anteriores da Comissão Europeia: economia, saúde, estilos de vida, ambiente, entre outros. No entanto, a abordagem de cada uma é feita de forma pouco sistemática e sustentada. Cada uma destas dimensões é bastante complexa, pelo que deveria requerer a participação de pelo menos um especialista na área. No caso da economia, por exemplo, se nos detivermos só no funcionamento das empresas, importará acautelar a variabilidade das actividades por sector económico, o consumo energético diferenciado, o impacto no ambiente e nas comunicações, toda esta trama potenciada pela globalização. Não parece ser uma análise compatível com uma recolha discricionária de dados.

O actual enquadramento legal, fornecido pela Directiva 2000/84/CE do Parlamento Europeu e do Conselho de 19 de Janeiro de 2001, respeitante às disposições relativas à hora de Verão, tem uma vigência indeterminada mas pressupõe, como seria de esperar, a sua monitorização. Não estão, contudo, estabilizados procedimentos para a monitorização do impacto da hora legal.

Desde o século XIX que se procura concertar a hora legal nos diversos países e também introduzir «artificialmente» a «hora de Verão» para rentabilizar a luz natural tendo em conta a trajectória da terra em volta do sol. A mudança da hora em Portugal foi muito manipulada ao longo do século XX, como dados compilados pelo OAL mostram. Mas, a nosso ver, a complexidade da sociedade de hoje, assim como a integração no espaço europeu, deveriam levar a considerar o estudo do impacto da hora como «a problem-driven approach».

Na Sociedade do Conhecimento que queremos ser e integrados e comprometidos com um projecto europeu comum, impõe-se usar o direito da Comissão Permanente da Hora de envolver outros especialistas e de facto estudar o tema em profundidade. Encontrar indicadores para avaliar o impacto da hora legal de forma consensual parece-nos relativamente pacífico, mas alimentar esses indicadores e monitorizar a sua relevância obrigará à constituição de uma equipa multidisciplinar para a realização de um trabalho aturado e sujeito a escrutínio da comunidade científica. Tudo isto deveria de resto ser feito à escala europeia.

No debate de Janeiro da FC falou-se da importância de levar avante um estudo multidisciplinar. A oportunidade poderá ter sido dada agora, pelo adiar da data de comunicação da tomada de decisão dos Estados-membros. Com efeito, o Parlamento europeu, no dia em que no grupo de investigação LIFE se discutiu o tema deste post, decidiu adiar a data de comunicação da escolha da hora legal a fixar para Março de 2020.


Como citar este artigo: Rego, Raquel (2019). Mudar a hora? A necessidade de um estudo multidisciplinar de suporte à decisão. Life Research Group Blog, ICS-Lisboa, https://liferesearchgroup.wordpress.com/2019/04/04 04 de abril (Acedido a xx/xx/xx)