Quando a liberdade passa pelo corpo: compreensões acerca do pensamento feminista e antifascista de Maria Teresa Horta

miv.pngMichelle Vasconcelos Oliveira do Nascimento é doutoranda em História na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grade do Sul (PUCRS) e doutoranda-visitante no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa.


1.jpgMaria Teresa Horta (1937), jornalista e escritora portuguesa conhecida pela sua forte oposição ao Estado Novo, ao salazarismo e pela luta feminista, iniciou a sua vida jornalística ainda cedo, entre finais da década de 1950 e início dos 60, na redação do jornal República. Começa a sua carreira literária com Espelho Inicial, em 1960, vindo a fazer parte do movimento literário Poesia 61, juntamente com Fiama Hasse Paes Brandão, Casimiro de Brito, Gastão Cruz e Luiza Neto Jorge. Durante a década de 1960, Teresa Horta colaborou em vários periódicos.

Embora tenha publicado 8 títulos na década de 1960, foi na década de 1970 que se torna amplamente conhecida pelo público. Não apenas pela publicação de Minha Senhora de Mim (1971), que foi apreendida pela censura do Estado Novo, mas, sobretudo, pela publicação de Novas Cartas Portuguesas (1972), juntamente com Maria Isabel Barreno e Maria Velho da Costa. O livro, pelo qual ficaram conhecidas como As Três Marias, foi considerado pela censura como imoral e pornográfico, o que lhes rendeu a apreensão da obra, condução e interrogatório das escritoras e um processo movido pelo Estado, que as tornou conhecidas internacionalmente.

O salazarismo… e a opressão feminina

A instabilidade política do período republicano abriu caminho para o Golpe militar de 28 de maio de 1926. O golpe foi, de acordo com Oliveira Marques (2001), uma reação antiurbana, da maioria conservadora das províncias, e que triunfou porque soube utilizar as camadas inertes da população, representando-as, no seu conservadorismo, através da defesa dos valores tradicionais: a Religião, o Exército, a Nação, a Família, a Ordem, a Terra.

Salazar tinha uma forte ligação com a Igreja, que foi, fundamentalmente, o braço direito de seu governo, seja no restabelecimento oficial das relações, que se consolidou a partir da Concordata de 1940, seja pelo discurso conservador de cunho cristão utilizado pelo ditador para defender os seus valores e modelos, adotando o slogan “Deus, Pátria e Família”, e o lema “A mulher para o lar”. A família de modelo cristão passou a ser o núcleo da sociedade do Estado Novo, e o “destino biológico” e a moral cristã passam a ser os determinantes da conduta feminina, “uma moral repressiva, assente na desigualdade de gênero e na diabolização do prazer”, como demonstrado por Isabel Freire. A autora continua o seu argumento, pontuando que “o sexo feminino, alvo preferencial deste puritanismo, foi simultaneamente o alvo mais fácil de atingir, dado que a “relação com a Igreja era feita pelas mulheres” (FREIRE, 2010, p. 26).

Maria Teresa Horta rememora o fato comigo, durante uma das nossas conversas, afirmando que “os homens iam à Igreja, mas ficavam lá trás, e as mulheres à frente.” A desigualdade de gênero estava marcada em todas as esferas, privada e pública. Mesmo em relação à sexualidade, considerada um dos maiores tabus, senão o maior durante a ditadura portuguesa, a desigualdade de gênero estava marcada nos comportamentos esperados, conforme descrito por Isabel Freire (2010, p. 32):

Chegada pura e casta ao altar no dia do casamento, a noiva seria desflorada na noite de núpcias. A partir desta data, sujeitar-se-ia aos desejos e impulsos do esposo, tanto no leito conjugal, como nos outros domínios da vida de cada dia. De si, não se esperam iniciativas sexuais, fantasias eróticas e muito menos orgasmo. Pelo contrário. Deveria manter-se recatada e passiva nas artes do prazer. Quanto menos soubesse sobre a exuberância do corpo, ou menos aparentasse saber, maior seria a sua virtude.

O corpo feminino, então, é o que se pretende dócil, subserviente e casto. É neste contexto de opressão feminina em que Maria Teresa Horta cresce, como ela própria me descreveu:

Eu conheci mulheres que escreviam na casa de banho, às escondidas do marido. A casa de banho era o único sítio onde elas podiam estar fechadas. Não podiam estar em outro sítio nenhum, porque aí tinham que estar disponíveis para os maridos, os filhos, as sogras, para as cunhadas, para toda a gente. E para os maridos. Não podiam ter vida particular, não podiam ter segredos, pensar coisas que os outros não tivessem à espera que elas pensassem. E não se culparem por isso…

Em 1971 publica a sua obra Minha Senhora de Mim, que pode ser compreendida como um discurso de oposição à mentalidade conservadora e à política do Estado Novo em relação à mulher.

Na chamada poesia inicial de Maria Teresa Horta, a de 1960, a temática do corpo feminino aparece, talvez, como secundária. O corpo aparece em ato amoroso já em Candelabro (1965). Mas é com Minha Senhora de Mim que Teresa Horta assinala definitivamente a subversão literária e política. Como o próprio título já sinaliza, a obra tem como um dos temas centrais a autonomia e liberdade femininas, contesta o modelo e a desigualdade de gênero dentro da sociedade portuguesa da época. Isso se dá, sobretudo, pela reivindicação do eu lírico feminino através da posse do seu próprio corpo e sexualidades. Ser senhora de si e não de um homem, ter o direito sobre seu corpo, sobre sua sexualidade, seu desejo, ter direito à individualidade e ter direito à voz são alguns dos discursos de subversão construídos nos poemas do livro.

Minha Senhora de Mim

Comigo me desavim
minha senhora
de mim

sem ser dor ou ser cansaço
nem o corpo que disfarço

Comigo me desavim
minha senhora
de mim

nunca dizendo comigo
o amigo nos meus braços

Comigo me desavim
minha senhora
de mim

recusando o que é desfeito
no interior do meu peito

Mas é o erotismo feminino o tema que mais causou reação adversa à obra na sociedade portuguesa da época, por subverter totalmente o papel (e comportamento) feminino, por transgredir toda uma cultura pautada nos juízos morais cristãos e no papel feminino da “boa mulher” naquela sociedade. É na exploração da sexualidade e desejo femininos que a senhora de si assume o papel ativo na sexualidade. Ou no encontro amoroso do casal, como em Segredo, em que a mulher guia o encontro. O ato sexual e o gozo aparecem de forma metaforizada, através dos termos “poço”, “novelo” e “roca de fiar”, e sugere o encontro secreto de um casal:

Segredo

Não contes do meu
Vestido
Que tiro pela cabeça
Nem que corro os
Cortinados
Para uma sombra mais espessa

Deixa que feche o anel
Em redor do teu pescoço

Com as minhas longas
Pernas
E a sombra do meu poço

Não contes do meu
Novelo
Nem da roca de fiar

Nem o que faço
Com eles
A fim de te ouvir gritar.

O fechar das cortinas e o segredo/silêncio sobre o encontro e o prazer são flagrantes de uma sociedade em que a sexualidade ou a simples demonstração afetiva era um interdito social, fato que pode ser atestado pela Postura nº 69 035 da Câmara Municipal de Lisboa, que data de 9 de janeiro de 1953, e que ditava as seguintes multas para quem fosse ‘flagrado” realizando atos inapropriados em logradouros públicos:

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A postura da Câmara de Lisboa não apenas limitava a afetividade e o erotismo entre os casais, como estipulava, em forma de multa, qual ato erótico/sexual era considerado mais “pernicioso” dentro daquela sociedade. Ora, como explica Isabel Freire, “o sexo servia para descarregar a energia masculina. A mulher, que não tinha sido educada para o erotismo, e muito menos para a beleza do sexo, apanhava muitas vezes com o marido na cama que se servia dela como uma besta” (2010, p. 122).

Neste sentido, a obra representa uma viragem na produção poética e na vida da escritora porque não só inova nos aspectos e temas literários que seriam comuns às mulheres da época, como foi objeto de apreensão e destruição pela PIDE/DGS, sendo a autora levada a prestar depoimento. Contou-me Teresa Horta que “certa noite estava descendo as escadas do Cinema São Jorge, quando dois homens chegaram e perguntaram:você é Maria Teresa Horta?” Tais homens, que se identificaram como sendo da PIDE, levaram Maria Teresa Horta para a delegacia, sem mandato, onde foi interrogada e detida. Sua editora, Snu Abecassis, da Editora Dom Quixote à época, foi proibida de publicar qualquer título de Maria Teresa Horta. Mesmo que fossem “contos da carochinha”.

Com Minha Senhora de Mim apreendido e a escritora proibida de publicar, Maria Teresa Horta, Maria Isabel Barreno e Maria Velho da Costa escrevem, a seis mãos, a polêmica obra Novas Cartas Portuguesas, lançada em 1972 pela Estúdios Cor. A obra foi considerada “atentatória à moral e aos bons costumes”, vindo a ser apreendida, destruída e as três escritoras interrogadas e presas. Com isso, as três foram levadas a julgamento, que se estendeu até maio de 1974, tendo fim com a Revolução dos Cravos e a absolvição das três.

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As Três Marias (Maria Teresa Horta, Maria Isabel Barreno e Maria Velho da Costa)

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Manifestação na Embaixada Portuguesa em Boston

Contudo, entre 1972 e 1974 ela escreve um de seus livros em que, até então, o erotismo se faz mais presente, e o corpo feminino aparece, definitivamente, como corpo político. É como ato de insubmissão, desobediência e rebeldia que Maria Teresa Horta escreve Educação Sentimental (1975), que, como ela mesma diz, foi “escrito nos bancos do tribunal”. Num país conservador, sexista e autoritário em que as mulheres não possuíam qualquer educação para a sexualidade ou para o corpo, Horta escreve o poema para estas mulheres, como uam espécie de guia de conhecimento do corpo:

Educação Sentimental

Põe devagar os dedos
devagar…

                                                         e sobe devagar
até ao cimo

o suco lento que sentes
escorregar
é o suor das grutas
o seu vinho

Contorna o poço
aí tens de parar
descer, talvez
tomar outro caminho…

Mas põe os dedos
e sobe devagar…

Não tenhas medo
daquilo que te ensino

Teresa Horta, em Educação Sentimental, subverte os discursos em torno da sexualidade que estabelecem finalidade, procedimentos e ordenações sobre o sexo, substituindo-os pelo conhecimento do corpo sexual, pela busca do prazer: o gozo como única finalidade.

Como ato de insubordinação e rebeldia, os poemas que compõem o seu vasto guia de educação sentimental afrontam os discurso de poder e controle sobre a sexualidade e, principalmente, mentalidade/imaginário acerca do sujeito feminino. E esta educação sentimental pode ser entendida como a impossibilidade de deixar-se dominar, impossibilidade de se deixar ser “educada” pelos discursos conservadores:

Domínio

Não deixo que as coisas
Me dominem
Nem que a vasta secura
Me adormeça
Nem que a vela
Me apague
nos sentidos
a febre a que a boca não se entrega
[…]

Em Domínio conseguimos perceber claramente que Educação Sentimental não é apenas um livro de conhecimento erótico, no sentido em que explora o conhecimento e prazer, mas um livro de contestação política a todo um sistema de controle social dos corpos. Educação Sentimental é, além de tudo, um livro de liberdade que desafia, através da palavra, os resquícios de um sistema autoritário numa sociedade extremamente conservadora e ainda atrasada no que se refere às políticas dos corpos.

Convém apontar que dia 24 de maio de 1974, o jornal O Expresso publica uma matéria intitulada “Virgindade até o casamento é símbolo da mulher portuguesa – pensa (ainda) a população nacional”, em que conclui, num universo de 800 entrevistados em centros urbanos, que pelo menos 2/3 da população acredita que a virgindade deve ser conservada até o casamento (66%). E desta maioria, 75% são mulheres e 73% são de sujeitos casados. E 77% desta amostra concordou que a virgindade é um símbolo próprio da mulher portuguesa. O que confirma a permanência de uma mentalidade extremamente conservadora após o 25 de Abril.

Logo, a poesia de Educação Sentimental desafia os tabus sexuais, talvez os maiores interditos desta sociedade, utilizados para estabelecer as relações de poder entre os gêneros.

O sonho de Abril: “Abril foi um sonho!”

A Revolução dos Cravos, em 25 de abril de 1974, pôs fim a quase meio século de ditadura em Portugal, dando início a um longo processo político de redemocratização no país. A liberdade veio com o 25 de Abril. Mas o que realmente teria mudado para as mulheres? Que liberdades haviam sido conquistadas?

Dentro da nova vaga de liberdades pós-25 de Abril, começam a surgir os debates e grupos feministas e grupos de mulheres. Maria Teresa Horta, por sua vez, participa da formação do Movimento de Libertação das Mulheres (MLM), em maio de 1974, após o término do julgamento das Três Marias, seguindo a mesma linha do movimento francês MLF, que tinha como principal diretriz a eliminação de todas as estruturas e instituições sexistas. Tal como apontado por Manuela Tavares (1998), o MLM tem como principais pautas a igualdade de direitos e a todas as profissões para ambos os sexos, a igualdade salarial, o reconhecimento do valor econômico do trabalho doméstico e, ainda, o direito à educação sexual, a métodos contraceptivos e ao aborto. O MLM teve pautas extremamente progressistas para o período. A Revolução dos Cravos havia mudado definitivamente a estrutura política portuguesa, mas não a mentalidade.

A exemplo, em 13 janeiro de 1975, o grupo propõe um ato no Parque Eduardo VII, em que queimaria os símbolos do patriarcado, e, para isso, mulheres foram caracterizadas como “dona de casa”, “noiva” e “vamp”. O ato no parque, noticiado pelo Expresso, dizia que as mulheres iriam praticar strip-tease e queimar soutiens, foi invadido por homens que agrediram e violaram as mulheres presentes.

Manifestação no Parque Eduardo VII. Fonte: Diário de Notícias

Tal ato reflete a permanência da visão conservadora em relação ao comportamento e ao lugar social feminino. Segundo Teresa Horta me testemunhounós nunca queimamos soutiens, não havia soutiens, nós sequer usávamos soutiens…” E completou: “subiam homens [no Parque Eduardo VII] aos magotes… a violência era tanta que eles queriam nos violar[…], havia homens com símbolos de todos os partidos: PCP, CDS, PS… a violência foi tal que […] a única mulher que saiu intacta, sem ter um beliscão, foi a noiva: toda vestida de branco, com o seu véu, ela passava e eles abriam alas.”

A direção do MLM à época vai buscar os partidos políticos para explicações sobre as atitudes dos seus associados, mas estes se isentaram das ações criminosas. Enquanto a implementação de Educação Sexual parecia ser bem aceita pelos entrevistados na pesquisa realizada pelo Expresso em 24 de maio de 1974: 88% da amostra respondeu que gostaria de ter recebido educação sexual na escola, o aborto era ainda punido com prisão.

Em finais de 1974, Teresa Horta, juntamente com Célia Metrass e Helena de Sá Medeiros, publicam o livro Aborto: direito ao nosso corpo, que se trata de um inquérito realizado pelas três feministas com mulheres vítimas de aborto, parteiras, médicos, psicólogos e juristas, a fim de desnudar a realidade do país, mostrando o aborto como uma prática comum na clandestinidade, e que afeta a saúde física e psicológica das mulheres. O objetivo era a discriminalização do aborto, defender o direito ao aborto seguro, ao acesso a métodos contraceptivos, a uma educação sexual e planeamento familiar. O livro, como as próprias autoras assinalaram na introdução, foi publicado após a cisão do MLM, causada por divergências ideológicas.

Ora, se a liberdade, para Maria Teresa Horta, passava pela liberdade do corpo, pelo direito do sujeito ao seu corpo no que diz respeito ao comportamento, sexualidade, desejos, decisões, logo o aborto se tornou uma questão central e tabu, porque implicava outras tantas: como a maternidade compulsória, a violência contra a mulher, a falta de educação sexual e planeamento familiar, a tripla exploração da mulher (trabalho, marido e filhos), etc. Não obstante, estas serão várias das questões a serem trazidas pela jornalista no periódico “o diário”, do editorial Caminho (1976 e 1977), na Revista Mulheres (1978-1989), e na sua obra Mulheres de Abril (1977).

Em 1977, Maria Teresa Horta publica Mulheres de Abril, escrito entre abril e novembro de 1977, composto por 58 poemas, muitos deles poemas-denúncias que a escritora escreve a partir de notícias de violências contra mulheres, acompanhados pelas notas dos jornais; de relatos de mulheres operárias, que recolheu em inquéritos. Ou mesmo da condição das camponesas, o grupo menos privilegiado, levando em consideração a exploração e miséria do camponês português. A escritora apresenta assim o seu livro na primeira edição (1977, p. 13):

Mulheres de Abril pretende ser um relato do quotidiano das mulheres portuguesas: de hoje e ontem, também… o ontem reflectido no hoje, ainda, mas já o futuro e o presente, tão diferentes, apesar de tudo. […] pretende ser, pois, a denúncia do real terrível, do devastador, aniquilador quotidiano das mulheres portuguesas, mas também da mudança, já, da esperança e da luta por um mudo novo: sem diferença de classe e de sexo.[…] pretende ser o canto à coragem, a resistência […] pretende ser o desfiar, contar do seu anonimato […] pretende ser o retrato de todas as mulheres portuguesas que o fascismo exigia sacrificadas, secundarizadas, duplamente exploradas e oprimidas. […] pretende ser dessas mulheres o grito. […].

E traz uma dedicatória a todas essas mulheres:

A todas as mulheres, minhas irmãs,
que durante estes últimos três anos
tanto me ensinaram sobre
a  liberdade, a dignidade e a coragem.

O possui poema homônimo que faz homenagem às Mulheres de Abril, sujeito plural, coletivo, que não figuram na História oficial, mas são parte do processo de mudança que está ser implementado no país. Afinal, as mulheres continuam sem ter acesso aos direitos requeridos, a sua exploração continua: na casa, na fábrica, no campo, no trabalho doméstico. São as mulheres invisíveis, comuns, que Teresa Horta nos apresenta em seu livro, que muitas vezes só se tornam “alguém” quando figuram a página policial:

Cantar A Uma Mulher Assassinada Enquanto Dormia

Estavas na cama
com o filho deitada
chegou-se-te o homem
não te disse nada
[…]
Mas tu já dormias
e dele o ciúme
tu desconhecias

E o homem curvado
de súbito se ergueu
brandindo o machado que no teu pescoço
três vezes desceu

– Marido! – dirias
Que fizeste tu
da vida que eu queria?

Mas tu já morrias…

São mulheres cujos corpos são explorados e violentados por maridos, pais, patrões, pela sociedade que se cala e que as trata como um objeto. É para um trabalho de parto de um país, um novo país, que Teresa Horta conclama as companheiras, as Mulheres de Abril, tantas anônimas, nos campos, cidades, fábricas, guerreiras.

Trabalho de Parto

Mulheres – companheiras
ombro a ombro

o ventre a crescer-nos
de coragem

Como tarefa temos
o que somos:
no interior da luta
a sua faca
[…]
Em trabalho de parto
de um país

Produto ainda do salazarismo, de uma mentalidade conservadora e sexista, Portugal precisa ser gestado e parido (novamente): um país com liberdade, igualdade, fraternidade e o respeito que nunca se viu. O ideal de liberdade e o ideal feminista são, sobretudo, antifascistas. Antifascista porque só se pode clamar pela liberdade individual combatendo o fascismo. Só se pode defender a liberdade sexual, a liberdade dos corpos, a educação sexual, o aborto, e a autonomia feminina combatendo o fascismo. Desta maneira, na produção intelectual de Maria Teresa Horta do período, ser feminista é ser antifascista e vice-versa.


Biliografia:

FREIRE, Isabel. Amor e sexo no tempo de Salazar. Prefácio de José Luís Pio Abreu. Lisboa: Esfera dos Livros, 2010.
HORTA, Maria Teresa. Mulheres de Abril. Lisboa: Editorial Caminho, 1977.
HORTA, Maria Teresa. Poesia: década de 70. Organizado por Michelle Vasconcelos Oliveira do Nascimento; Marlise Vaz Bridi. São Paulo: LiberArs, 2019.
MARQUES, António H. de Oliveira et al. Da Monarquia para a república. In: História de Portugal. Org. José Tengarrinha. 2 ed. Bauru/Sp: EDUSC; São Paulo/SP: UNESP; Portugal, PT: Instituto Camões, 2001.
TAVARES, Manuela. Movimento das mulheres em Portugal após Abril de 1974. 295 p. Dissertação de Mestrado em Estudos sobre as Mulheres. Universidade aberta. Lisboa, 1998.


Como citar este artigo: Nascimento, Michelle (2019). Quando a liberdade passa pelo corpo: compreensões acerca do pensamento feminista e antifascista de Maria Teresa Horta. Life Research Group Blog, ICS Lisboa, https://liferesearchgroup.wordpress.com/2019/06/26 26 de Junho de 2019 (Acedido a xx/xx/xx)

As TIC nas actividades quotidianas e o seu peso nas relações familiares: comparação entre mulheres portuguesas e italianas

silviaSilvia Di Giuseppe é Doutoranda em Sociologia (OpenSoc) no ICS-ULisboa


 

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Pretendo, na minha pesquisa de doutoramento, conhecer o quotidiano de mulheres na sociedade digital, numa comparação entre Portugal e Itália. Mais especificamente, o meu interesse é orientado, por um lado, para as representações e os significados que as mulheres atribuem às tecnologias digitais de informação e comunicação (TIC), e, por outro, para as práticas, ou seja, as modalidades de acesso e uso nos diferentes contextos do seu dia-a-dia (exercício da profissão, tarefas domésticas e atividade de entretenimento). Entendemos por TIC os equipamentos digitais (ex. computador, smartphone, tablet), mas também as redes de informação e comunicação (ex. emails, Facebook, Youtube).

Um grande problema de interesse sociológico ainda é o da questão da conciliação família-trabalho: estatisticamente, prova-se que é sobre as mulheres que recai o grosso dessa conciliação, apesar de alguns avanços masculinos na esfera doméstica; o que se traduz numa desigualdade de oportunidades de sucesso e progresso profissional e salarial. Outro fenômeno a assinalar é a massificação das tecnologias digitais de informação e comunicação nas diversas esferas de atividade quotidiana. Não podemos subestimar a importância da relação entre media, novos media, vida pública e vida privada (Baym, 2010; Papacharissi, 2010; Monteiro e Policarpo 2011; Aboim, 2011; Almeida 2011). As TIC estão em constante mudança (os novos devices de hoje ficarão obsoletos amanhã), criam conexões cada vez mais intensas entre o espaço público e privado e na relação entre atividades on-line e off-line (Almeida, Alves, Delicado e Carvalho, 2014).

No cenário da conciliação família-trabalho (onde as TIC são mais ou menos presentes e importantes), pretendo observar a importância das TIC para as mulheres nos seus quotidianos e rotinas: no trabalho profissional, nas tarefas domésticas (divididas ou não com os seus parceiros), nos cuidados aos filhos, no lazer pessoal e familiar. No ambiente doméstico vemos, por exemplo, que essas ferramentas são cada vez mais utilizadas pelos membros da família. Há, portanto, uma espécie de negociação para o uso das TIC entre os casal e pais e filhos – já foi destacada a importância da negociação na vida conjugal e na parentalidade contemporâneas (Marinho, 2011; Cunha e Marinho, 2018).

Pretendo averiguar, portanto, como as TIC se integram e redefinem o quotidiano feminino e considero que é de sociologicamente relevante ampliar a perspectiva de conciliação família-trabalho à luz das mudanças da sociedade digital.

Segui uma metodologia qualitativa e realizei 44 entrevistas semi-estruturadas a mulheres portuguesas e italianas. Em particular, a amostra é composta por mulheres activas residentes na área metropolitana de Lisboa e Roma, entre 25 e 49 anos, de diferentes profissões e níveis de escolaridade, que vivem em conjugalidade e com filhos. Entre outras questões, o meu primeiro objetivo foi observar e interpretar o impacto das TIC nas atividades quotidianas destas mulheres, quer ao nível laboral, quer no espaço doméstico, nomeadamentenas suas relações familiares.

Para tal, comecei por dividir as entrevistadas em dois grupos distintos com base na profissão e no nível de escolaridade: mulheres licenciadas com profissões mais liberais e científicas (empregadas técnicas e especialistas), e mulheres não licenciadas que trabalham sobretudo no sector dos serviços pessoais e comerciais, em contacto com o público ou em empresas (empregadas de serviços pessoais, comércio e escritório).

Basicamente, segui quatro hipóteses: i) as desigualdades sociais são reduzidas em termos de acesso à tecnologia, mas persistem as diferenças nas práticas e representações; ii) o modo de uso das tecnologias digitais varia de acordo com a especialização/qualificação, uma vez que diferentes trabalhos envolvem diferentes relações com as TIC; iii) o modo como as TIC são usadas influencia os posicionamentos em termos de pontos de vista pessoais em relação às TIC; por último, iv) as TIC têm um peso mais ou menos marcado nas relações familiares.

A observação dos resultados preliminares permitiu verificar que, de facto, existem diferenças expressivas por tipo de profissão, na medida em que há profissões que exigem um maior ou menor nível de literacia digital. Assim, de acordo com as tarefas associadas a cada profissão, há um uso diferente das TIC no contexto de trabalho.

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O computador é a ferramenta que muitas das entrevistadas possuem e usam no ambiente de trabalho. No grupo das empregadas técnicas o computador e o smartphone são usados em simultâneo para a consulta de e-mails e sites, o uso de bases de dados e programas de computador. Os media são usados também para fins de trabalho, como o WhatsApp e o Skype. No grupo das empregadas de comércio, o uso do computador é mais limitado, varia entre ser fundamental, servir de complemento às tarefas principais ou ser praticamente inexistente. Aqui também o computador é usado para a consulta de emails e programas de computador (ex. o Office).

O smartphone é a ferramenta que todas as entrevistadas mais utilizam no espaço doméstico desde simples conversas com familiares e amigos à consulta de aplicações como o Whatsapp, o Facebook, a Amazon, o Youtube, os Jogos. Em alguns dos casos, as empregadas técnicas acedem às TIC em casa também para trabalhar, enquanto as empregadas de comércio as usam para comunicar com familiares e amigos (ex. para saber como estão) no auxílio às tarefas escolares dos filhos ou ainda para entreter as crianças com os jogos. O uso do Facebook é praticamente semelhante, mas enquanto as empregadas técnicas visualizam mais as notificações e partilham posts, as empregadas de comércio colocam mais fotos e gostos e fazem comentários nas publicações.

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O uso do smartphone é muito comum também no tempo livre para comunicar e marcar encontros com familiares e amigos, procurar eventos para os seus filhos (Facebook) e visualizar vídeos de música e receitas (Youtube). Em relação ao tempo livre gasto em casa, às vezes também é usado para trabalhar no grupo das empregadas técnicas, enquanto as empregadas de comércio fazem mais compras online ou verificam ainda as diferenças de preços na Internet.

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Tomando agora em consideração as  representações sobre os usos das TIC, as empregadas técnicas confirmam que as TIC alteram de forma positiva a maneira como exercem a sua actividade profissional. Em geral, melhoram a qualidade do trabalho, o qual passou a ser mais rápido e imediato. As empregadas de comércio, por um lado, concordam com esta tendência, por outro lado, não notaram qualquer mudança.

Relativamente ao espaço doméstico, as entrevistadas concordam que as TIC são úteis para ter acesso imediato a qualquer contacto ou informação e que as pessoas, com elas, são mais independentes. As TIC são sobretudo úteis na pesquisa de informações escolares para ajudar os filhos. Em termos de alterações negativas em casa por parte das TIC, o traço comum observado é que estas condicionam as relações sociais na família porque a interação entre os membros passou a ser mais reduzida. As empregadas técnicas argumentam que o trabalho pode sempre tornar-se parte das atividades quotidianas, mesmo no tempo livre, e nesse sentido as TIC facilitam essa dinâmica.  O problema colocado pelas empregadas de comércio é que, devido às TIC, a comunicação na família torna-se bastante mais reduzida, enquanto as crianças tendem a ser hoje em dia mais preguiçosas porque os jogos virtuais não estimulam muito a sua imaginação.

Em termos das alterações no tempo e práticas lazer, e num sentido positivo, as empregadas técnicas argumentam que as TIC são úteis para organizar o tempo livre nas viagens (reservas de hoteis, escolha de lugares para visitar), enquanto as empregadas de comércio valorizam o entretenimento (pessoal e das crianças), bem como a partilha de experiências com familiares e amigos. Num sentido negativo, as empregadas técnicas entendem que, às vezes, as pessoas são forçadas a trabalhar mesmo no seu tempo livre, e que as TIC facilitam este processo porque o indivíduo está sempre contactável, ao passo que as empregadas de comércio argumentam que as TIC tendem a isolar os familiares e que, em muitos casos, podem criar desentendimentos.

Em conclusão, as diferenças entre os dois grupos de mulheres estão marcadas por posições e motivações muito distintas em relação às TIC, em particular na maneira como as TIC são usadas nas mais variadas esferas de actividade. Talvez dizer que as profissões, muito mais do que a nacionalidade, moldam estas práticas. Observou-se, de facto, por um lado que, de acordo com o tipo de profissão, há uma procura maior ou menor pelo uso de TIC. Por exemplo, uma investigadora usará o computador de forma muito mais intensiva e diversificada do que uma empregada numa loja de electrodomésticos.

Por outro lado, notou-se que, às vezes, o uso de TIC no trabalho pode, em certos casos, vir a influenciar o seu uso em outros contextos, como o doméstico e o lazer. É por exemplo o caso de entrevistadas que em contexto laboral usam os e-mails para comunicarem com os empregadores, clientes ou colegas, e por vezes, com os seus próprios parceiros ou com a escola dos filhos, ou que quando se encontram no espaço doméstico também fazem uso dos emails para fins de trabalho.  Portanto, não se excluí a existência de outros factores influentes, mas, por agora, considera-se que o modo de usar as TIC no trabalho também se pode reflectir em outras esferas de actividades quotidianas.

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Como citar este artigo: Di Giuseppe, Silvia (2019). As TIC nas actividades quotidianas e o seu peso nas relações familiares: comparação entre mulheres portuguesas e italianasLife Research Group Blog, ICS Lisboa, https://liferesearchgroup.wordpress.com/2019/06/11 11 de Junho de 2019 (Acedido a xx/xx/xx)