Posso dar a minha opinião? Um focus group sobre humanos e outros animais

147Verónica Policarpo é socióloga e investigadora auxiliar no ICS-ULisboa

11.pngHenrique Tereno é bolseiro de investigação no ICS-ULisboa


…O que é para nós um “animal de companhia”? E um ‘animal selvagem’? De que forma os mesmos animais circulam entre uma e outra destas classificações, e porquê? Quais são as categorias que construímos para os definir, em interacção uns com os outros e com o contexto à nossa volta – a casa, a rua, os espaços de lazer e divertimento, entre outros? De que modos isso influencia a nossa relação com esses animais, e consequentemente as suas vidas concretas – o seu bem-estar, a sua saúde, a sua felicidade?

Foi este o tema que, pela segunda vez, abordámos numa das atividades que tiveram lugar no ICS, no âmbito da iniciativa Verão na ULisboa. A atividade consistiu em encenar um focus group – uma técnica qualitativa muito usada nas ciências sociais e nos estudos de mercado, com o objetivo de fazer o levantamento das principais saliências temáticas a respeito de um tópico. Numa entrevista de grupo, um conjunto diversificado de pessoas escolhidas em função de alguns critérios discute, a partir de alguns estímulos, o tópico escolhido.

Aqui, 8 estudantes participaram na entrevista de grupo, e os restantes foram distribuídos pelos papéis dos parceiros envolvidos no estudo encenado, num exercício de role playing: veterinários, assistentes sociais, psicólogos e juristas. Houve também o papel da equipa técnica, nomeadamente dois anotadores que auxiliaram a entrevistadora. A discussão distribuiu-se por fases: entrevista propriamente dita; reunião com os parceiros (que assistiram à entrevista); e discussão reflexiva alargada com todos, no final. Foi uma discussão viva, estimulante e muito enriquecedora, em que se destacaram, entre outras, algumas ideias.

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Em primeiro lugar, deambulámos em torno dos animais que são considerados “animais de companhia”. Os animais de companhia foram principalmente associados ao espaço doméstico, os que vivem fora desta esfera sendo mais dificilmente considerados de companhia.

Foi também discutido o valor que determinados animais têm para os seres humanos. Os exemplos mais contrastantes neste caso foram o dos cães e dos peixes. O cão foi considerado pela maioria como o animal mais inteligente de entre os animais discutidos, foi também frequentemente mencionado como sendo uma “pessoa”. Contrariamente, os peixes foram categorizados como descartáveis, sem emoções e desprovidos de inteligência, o que facilitava o desapego e a sua substituição. A interação que os animais têm com os seres humanos demonstrou ser importante para estabelecerem uma posição privilegiada junto dos seus cuidadores, fatores como o toque (a possibilidade de mexer e estabelecer contacto físico com os animais) e o aspeto dos animais (se são “fofinhos”) foram considerados essenciais para ser desenvolvida uma relação de proximidade com os mesmos.

Outro ponto discutido foi o facto de os animais de companhia não serem comestíveis. Inicialmente existiu uma grande concordância entre os participantes. Contudo, quando se mencionou o coelho como um animal de companhia, houve alguma discussão sobre o porquê de este animal ser comido, e se deveria ser ou não.

Pedimos também aos participantes que escolhessem uma foto de entre um conjunto de imagens com animais, e justificassem a sua escolha. Esta atividade permitiu explorar um lado mais emotivo e pessoal da relação que cada participante tinha com os seus animais. Neste exercício, a maioria dos participantes escolheu uma foto que fazia lembrar o seus próprios animais ou escolhiam uma foto que representasse algo que para eles era importante nas suas relações com animais, como o companheirismo, a inteligência dos animais e a amizade.

Num momento seguinte, pedimos aos participantes que associassem um grupo de fotos de animais a vários habitats. Após terem colocado os animais nos locais em que achavam que melhor se enquadravam, foi discutido o porquê de os terem colocado nesse habitat. Após esta discussão, foi revelado outro conjunto de fotografias com imagens dos animais no que é considerado o seu habitat natural. Esta atividade teve como objetivo estimular a reflexão acerca da nossa categorização dos animais e como a nossa relação para com eles é estimulada pelo contexto situacional em que estão inseridos (por exemplo, uma cobra num terrário é um animal de companhia, mas numa floresta é um animal selvagem).

Na discussão geral foram abordados vários temas, entre os quais os maus tratos a animais, as touradas e o estatuto dos animais. Relativamente a estes temas, os participantes demonstraram maioritariamente ser contra quaisquer tipos de maus tratos a animais e demonstraram também um grande nível de aceitação à ideia dos animais enquanto seres sencientes merecedores de direitos, ainda que se tenham mostrado um pouco reticentes acerca de como tais direitos seriam implementados.

Em suma, este Focus Group e a discussão que dele se originou permitiu que os participantes fossem expostos à área de Human-Animal Studies e, consequentemente, estimulados a novas maneiras de conceptualizar e pensar sobre os animais com que interagem no seu dia-a-dia. A discussão permitiu uma troca rica de perspetivas que beneficiou não só os participantes, mas também os organizadores.

Esta atividade foi organizada em articulação com o Human-Animal Studies Hub, uma plataforma de conhecimento interdisciplinar sobre o estudo das relações entre os humanos e os outros animais, com sede no ICS-ULisboa. As atividades deste Hub podem ser consultadas no site, assim como nas respetivas páginas das redes sociais, Facebook, Instagram e Twitter.

Vejamos como os estudantes que participaram este ano descrevem a experiência, pelas suas próprias palavras.


Posso dar a minha opinião?

Por Maria Lucas e Diogo Braga, participantes no Verão ULisboa

Durante uma semana participamos no Verão na ULisboa. Logo no primeiro dia tivemos uma atividade que simulava um focus group e que teve como objetivo escutar as opiniões que os participantes têm sobre a relação que os animais e humanos estabelecem.

No inicio dividimos os participantes para aqueles que iriam ser questionados e os que iriam representar os técnicos (jurídicos, psicólogos, veterinários e assistentes sociais).

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Durante essa atividade existiram 3 fases:

– Questionário aos participantes;
– Ouvir os técnicos sobre a opinião profissional deles e as coisas que as pessoas deveriam melhorar;
– No fim houve um resumo da atividade de uma forma rápida.

A atividade iniciou-se com a pergunta “Como se relacionam com o vosso animal doméstico e qual a razão de terem um animal?” e foi-se desenrolando com outras perguntas como se eram adotados ou se foram comprados e por exemplo:

– Qual são os nomes do animais e qual a razão de o ser?
– Como cuidar dos animais (qual as necessidades dos animais e quais são as tarefas)?

No questionário existiu uma parte onde os participantes iriam escolher uma foto e diz qual a razão da escolherem. A seguir fizeram uma atividade de identificação onde tiveram que colocar o animal no sitio onde achavam que ele pertencia (habitats).

Depois a primeira fase os técnicos assumiram uma pose e opinaram sobre os problemas e as resoluções dos mesmos que existem atualmente entre a relação entre animais e humanos.

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No fim houve uma síntese resumida dos acontecimentos e debatemos sobre vários tópicos como por exemplo, as touradas e se os animais têm sentimentos.

 

Como citar este artigo: Policarpo, Verónica; Tereno, Henrique (2019). Posso dar a minha opinião? Um focus group sobre humanos e outros animais. Life Research Group Blog, ICS-Lisboa, https://liferesearchgroup.wordpress.com/2019/09/12 12 de setembro (Acedido a xx/xx/xx)

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