Procriação e Parentalidade em contexto de baixa fecundidade, mudança familiar e crise económica

111Vanessa Cunha é socióloga e investigadora no ICS-ULisboa.


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O projeto PARENT: Procriação e Parentalidade em contexto de baixa fecundidade, mudança familiar e crise económica pretende apreender o impacto da crise económica e dos novos valores da parentalidade nas perspetivas e nas práticas procriativas em Portugal[1]. Tem como ponto de partida a severa queda da fecundidade durante a recente recessão, que acentuou o persistente declínio da fecundidade das últimas décadas, e as suas consequências para pais, famílias e sociedade portuguesa no seu conjunto.

Apesar do relativo reconhecimento público destas transformações demográficas e dos seus impactos a longo prazo, pouco se sabe acerca das representações e das experiências parentais atuais, do modo como são moldadas e condicionadas, e as expetativas que pais e mães acalentam relativamente às políticas de apoio às famílias. Por outro lado, emergiram perspetivas pró-natalistas e de suporte à parentalidade sem um debate inclusivo e informado sobre a formulação de políticas, pelo que é crucial a pesquisa produzir conhecimento sobre as coortes de nascimento e os contextos sociais mais afetados pelo declínio da fecundidade, assim como contribuir para a consciencialização pública destas questões, nomeadamente por parte de decisores políticos e grupos de interesse.

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Créditos: Foto de Jonathan Borba no Unsplash

Com o intuito de ampliar o estado da arte e o conhecimento sobre as representações e as experiências parentais atuais, o projeto sustenta-se em três campos do conhecimento – sociologia, demografia e política social; combina as abordagens teóricas estruturalista e do curso de vida; e propõe articular três objetivos:

O primeiro objetivo consiste em avaliar o impacto da crise económica e das mudanças familiares nas representações, decisões e práticas procriativas e parentais de dois grupos de coortes: um, dos indivíduos que nasceram em 1970-74; e outro, dos que nasceram em 1980-84. Estas coortes foram expostas à crise em diferentes momentos do seu curso de vida e anos e em diferentes idades de formação familiar.

As coortes dos anos setenta experienciaram a deterioração das condições de vida (desemprego, instabilidade laboral, perda de rendimento) em meados da terceira década e início da quarta década de vida, colocando em risco intenções reprodutivas tardias, enquanto as coortes dos anos oitenta foram confrontadas com a crise numa etapa-chave, a transição para a vida adulta, dificultando a autonomização económica e mesmo a formação familiar destes jovens adultos.

Por outro lado, a mudança familiar, em particular novas orientações normativas da parentalidade, também podem ser cúmplices da baixa fecundidade. Com efeito, de acordo com a literatura, é expectável uma mudança cultural no sentido da conformação ou mesmo valorização de famílias pequenas e do filho único, aliadas à emergência de novos requisitos da parentalidade e às tensões subjacentes à conciliação família-trabalho e à negociação dos papéis de género na vida familiar. À luz da mais recente queda da fecundidade que acompanhou a conjuntura económica recessiva e a redução de apoios públicos às famílias, é plausível esperar um impacto mais forte das mudanças nas coortes mais jovens.

Figura 1 – Índice Sintético de Fecundidade (ISF) – Portugal, 2000-2017

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Fonte: PORDATA / INE (elaboração própria)

O segundo objetivo consiste em apreender o modo como diferentes contextos socioestruturais estão a matizar a procriação e a parentalidade nos dois grupos de coortes. Os comportamentos reprodutivos, à primeira vista privados e explicados por ideais e preferências individuais e conjugais, são influenciados por condições sociais a nível macro que os balizam para lá da vontade dos indivíduos e dos efeitos do curso vida.

As atitudes de pais e mães são condicionadas por estruturas de oportunidade mais amplas, relacionadas com contextos socioeconomicos específicos também afetados pela crise. Por exemplo, durante a última década adensaram-se as assimetrias regionais nos níveis de fecundidade, com um declínio generalizado, mas muito intenso em algumas regiões do país (interior norte e centro e regiões autónomas) do que em outras (litoral). Por conseguinte, selecionámos quatro regiões – Açores, Baixo Alentejo, Beira Baixa e Região de Lisboa – com níveis contrastantes de declínio da fecundidade e de perfis socioeconómicos. De igual modo, as clivagens sociais são tidas em conta, uma vez que o posicionamento social está fortemente relacionado com as condições de vida dos indivíduos, especialmente em tempos de crise.

Figura 2 – Taxa de Variação do ISF – Portugal e NUTS I e II, 2001-2014

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Fonte: PORDATA / INE (elaboração própria)

O terceiro objetivo consiste em promover o debate público em torno questões envolvendo atores políticos, grupos de interesse e famílias. Os efeitos a longo prazo da baixa fecundidade nas famílias e nas sociedades (e.g., o envelhecimento da população e seu impacto na coesão social entre gerações) é uma questão que tem sido colocada de forma recorrente na agenda das políticas públicas. Nos últimos anos, a promoção da natalidade e o suporte à parentalidade têm constituído áreas designadas de intervenção política.

Contudo, as políticas de apoio à parentalidade em Portugal, tal como noutros países europeus aliás, concentraram-se principalmente nas famílias desfavorecidas e na pobreza, prosseguindo uma atuação altamente normativa de apoio às famílias. Abordagens da política social têm enfatizado a necessidade de ir além de um modelo único de parentalidade moderna, integrando as perspetivas dos jovens adultos e a diversidade de perspetivas e práticas de parentalidade. A partir da articulação de pontos de vista – pais e mães, decisores políticos e grupos de interesse -, o projeto pretende ampliar o entendimento sobre estas questões recorrendo de procedimentos de consulta, debate e disseminação, e contribuir com novas perspetivas baseadas na evidência para a política pública.

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Créditos: Foto de Kelly Sikkema no Unsplash

Para atingir os objetivos enunciados, o projeto propõe um desenho de pesquisa baseado numa metodologia mista, na qual se combinam abordagens extensivas/quantitativas, com abordagens intensivas/qualitativas e com a disseminação/produção de recomendações políticas.

A primeira abordagem baseia-se na análise demográfica de microdados dos nascimentos e de dados secundários, tendo em vista a identificação de perfis sociodemográficos nos dois grupos de coortes de nascimento (1970-74 e 1980-84). Pretende-se ainda analisar indicadores estatísticos de âmbito nacional e regional, de forma a apreender as tendências socioeconómicas, demográficas e familiares ao longo da última década, retratando a vulnerabilidade económica, as tendências do mercado de trabalho e a mudança familiar nos dois grupos de coortes e nas quatro regiões.

Com o pano de fundo da crise económica e das mudanças na vida familiar, na parentalidade e na procriação, e no quadro das perspetivas do curso de vida e das clivagens sociais e de género, a segunda abordagem consiste na realização de entrevistas em profundidade a uma amostra intencional de homens e mulheres dos dois grupos de coortes e das quatro regiões.

A terceira abordagem compreende a disseminação e o debate público através de duas linhas de atuação: a análise dos desenvolvimentos recentes nas políticas de apoio às famílias e à parentalidade em Portugal, tendo em vista informar a investigação e debate; a auscultação e o diálogo com grupos de interesse e decisores políticos, com o objetivo de reunir diferentes pontos de vista e identificar possíveis recomendações políticas, recorrendo a grupos focais e ao debate amplo e crítico.

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Créditos: Foto de Kelly Sikkema no Unsplash

O projeto PARENT está a ser desenvolvido no quadro da parceria entre o ICS-ULisboa, enquanto instituição proponente, o CIDEHUS-UÉvora, enquanto instituição participante, e a UAçores e a UBI, como instituições associadas. Para dar conta do âmbito regional e multidisciplinar do projeto, a equipa reúne investigadoras com experiências de investigação em áreas complementares da sociologia, da demografia e da política social, e das quatro instituições, cada uma delas implantada numa das regiões em estudo: Vanessa Cunha (IR), Sofia Marinho (Co-IR) , Karin Wall, Susana Atalaia e Mafalda Leitão, do ICS-ULisboa; Maria Filomena Mendes e Rita Freitas, do CIDEHUS-UÉvora; Piedade Lalanda, da UAçores; e Filomena Santos, da UBI.


Como citar este artigo: Cunha, Vanessa (2019). Procriação e Parentalidade em contexto de baixa fecundidade, mudança familiar e crise económica. Life Research Group Blog, ICS-Lisboa, https://liferesearchgroup.wordpress.com/2019/10/24 24 de outubro (Acedido a xx/xx/xx)


[1] O projeto PARENT – Procriação e Parentalidade em contexto de baixa fecundidade, mudança familiar e crise económica foi submetido à FCT – Fundação para a Ciência e a Tecnologia, no âmbito do Concurso para Projetos de IC&DT em todos os Domínios Científicos 2017, e é financiado por fundos nacionais (PTDC/SOC-SOC/29367/2017).


[i] ENGLISH VERSION

Childbearing and Parenting in the context of low fertility, family change and the economic crisis

111Vanessa Cunha is sociologist and research fellow at ICS-ULisboa.


The PARENT project: Childbearing and Parenting in the context of low fertility, family change and the economic crisis, intends to apprehend the impact of the economic crisis and new parenting values on the childbearing perspectives and outcomes of adults in Portugal[1]. It takes as its starting point the severe fertility drop during the recessive period, which accentuated persistent fertility decline over the last decades, and its consequences for parents, families and Portuguese society as a whole.

Despite public acknowledgment of these demographic transformations and their long-term impact, little is known about the current perceptions and experiences of parents themselves, how they are shaped and constrained, and their expectations regarding policies to support families. Furthermore, pro-natalist and parenting support perspectives have emerged without a wide and informed debate on policy-making, making it crucial for research not only to provide new knowledge on the birth cohorts and social contexts affected by fertility decline but also to promote awareness of these issues by policy actors and stakeholders.

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Credits: Photo by Jonathan Borba on Unsplash

To move beyond the state of the art and provide fresh knowledge and inputs regarding parents’ perspectives and experiences, the project draws on three fields of knowledge – sociology, demography and social policy – and combines life course and social structural theoretical approaches. Against this backdrop, the PARENT project has three interconnected goals.

The first goal is to grasp the impact of the economic crisis and family change on the childbearing perspectives, decisions and outcomes of two cohort groups – one that was born in 1970-74, and the other that was born in 1980-84 –, which were caught by the crisis at different moments of their life course and family formation years.

The cohorts from the seventies experienced the deterioration of living conditions (unemployment, job instability, wage loss) in their 30s and early 40s, jeopardizing their late childbearing intentions, while the cohorts from the eighties had to cope with the crisis at a crucial life-stage, the transition to adulthood, impeding these young adults’ economic autonomy and even family formation.

Furthermore, family change, in particular new normative orientations to parenting, may also be endorsing poor childbearing behaviours. A cultural shift toward small family size and compliance with single-child ideals are to be expected, as well as changes and hindrances identified in scholarly literature, such as the new requisites for parenting or the tensions underlying work-family balance and gendered negotiations of parenting. In light of the most recent drop in fertility and retrenchment in public support for families, it is plausible to expect a stronger impact of these changes on the youngest cohort group.

Figure 1 – Total Fertility Rate (TFR) – Portugal, 2000-2017

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(Source: PORDATA/INE-own elaboration)

The second goal is to understand how differing social structural contexts are shaping childbearing and parenting in the two cohort groups. Childbearing behaviours, at first sight private and explained by individuals’ and couples’ ideals and preferences, are framed by macro-level social conditions that shape them beyond the volition of individuals and life-stage effects.

Parents’ attitudes are constrained by wider opportunity structures related to specific socio-economic contexts, also affected by the crisis. For example, during the last decade, regional asymmetries regarding fertility became sharper, revealing a pronounced fertility decline in some regions (interior northern and central Portugal, Azores and Madeira) compared to others (coastal regions). We accordingly selected four regions – Azores, Baixo Alentejo, Beira Baixa and Lisbon Region – with contrasting levels of fertility decline and socio-economic profiles. Likewise, social cleavages will be taken into account, since individuals’ social positioning is strongly related to living conditions, especially in times of crisis.

Figure 2 –TFR Rate of Change 2001-2014 – Portugal and NUTS I e II

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(Source: PORDATA/INE-own elaboration)

The third goal is to promote debate and public understanding of these issues by policy actors, stakeholders and families. The long-term effects of low fertility on families and societies (e.g. ageing and its impact on social cohesion across the generations) are an issue that has been taken up recurrently in the arena of public policies. Recent years have seen an explicit focus on pro-natalism and parenting as designated areas of policy intervention.

However, parenting support policies in Portugal, as in other European countries, have focused largely on disadvantaged families and poverty, thereby pursuing a highly normative approach to family and parenting support. Social policy analysis has stressed the need to move beyond one model of modern-day parenting by taking into account the perspectives of young adults and diversity in parenting. Bringing together the views of parents, policy-makers and stakeholders, the project will seek to improve awareness of the issues involved, through consultation proceedings, dissemination and debate, and to provide new evidence-based policy perspectives.

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Credits: Photo by Kelly Sikkema on Unsplash

To achieve these goals, the project proposes a mixed-methods research design combining three complementary approaches: extensive/quantitative, intensive/qualitative and outreach/policy-oriented.

The first approach will rely on a demographic analysis of the micro-data of births and on secondary data analysis to provide a socio-demographic profile of two cohort groups (1970-74; 1980-84) in times of crisis. To complete this macro-approach, the project will analyse additional indicators to provide a national and regional portraits of socioeconomic, demographic and family trends over the last decade, by gathering several time-series indicators that portray economic vulnerability, labour-market trends and family change in specific cohorts in Portugal and across the four regions.

The second approach will be used for a qualitative comparative case study based on in-depth interviews with men and women from the two cohort groups in the four regions. Purposive sampling will take into account the theoretical perspective that conceptualizes the economic crisis, family change and childbearing within a framework of major life course and social cleavages: birth cohorts, contrasting regions, social class and gender.

The third approach will promote dissemination and public understanding of the main issues through two lines of activity: analysis of recent developments in parenting and family support policies in Portugal, in order to provide an informed backdrop to research and debate; consultation proceedings and dialogue with stakeholders and policy-makers, with the aim of gathering their views and identifying possible recommendations for family and parenting support policies, by means of focus groups and critical debate bringing together the views of families, policy-makers and stakeholders.

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Credits: Photo by Kelly Sikkema on Unsplash

The PARENT project is being developed under the partnership between ICS-ULisboa, as proponent institution, CIDEHUS-UÉvora, as participant institution, and UAçores and UBI as associated institutions. In order to give account of the regional and multidisciplinary scopes of the project, the team gathers researchers with complementary expertise in sociology, demography and social policy, from the four institutions/regions: Vanessa Cunha (PI), Sofia Marinho (Co-PI), Karin Wall, Susana Atalaia and Mafalda Leitão, from ICS-ULisboa; Maria Filomena Mendes and Rita Freitas, from CIDEHUS-UÉvora;  Piedade Lalanda, from UAçores; and Filomena Santos, from UBI.


[1] The research project PARENT – Childbearing and Parenting in the context of low fertility, family change and the economic crisis was submitted to FCT – Fundação para a Ciência e a Tecnologia in 2017, under the  Call for SR&TD Project Grants, and it was proposed for national funding in 2018 (PTDC/SOC-SOC/29367/2017).


How to cite this post: Cunha, Vanessa (2019). Childbearing and Parenting in the context of low fertility, family change and the economic crisis. Life Research Group Blog, ICS-Lisboa, https://liferesearchgroup.wordpress.com/2019/10/24 24 october (Acessed on xx/xx/xx)

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