Três crianças e um gato cego: crescer juntos, mas ao contrário, na casa da vida

… ou de como o projecto CLAN iniciou o estudo das relações entre as crianças e os animais que com elas (com)vivem


147Verónica Policarpo é socióloga e investigadora no ICS-ULisboa.


HAS Hub@ICS-ULisboaSeis da tarde de um dia de outubro que mais parece de agosto, daqueles antigos, em que o sol queima, mesmo quando já está a desaparecer do horizonte. Tudo está calmo, neste bairro residencial da margem sul do tejo. Tão calmo que a nossa chegada, para a primeira entrevista do projeto CLAN, parece acordar a casa de um sono tranquilo, de sesta de final de tarde. No quintal do lado, dois cães de grande porte olham para nós, do alto da sua impassibilidade. Mas é um daqueles pequenos, cruzado de caniche, que vem ter connosco, a ladrar. Tento falar com ele. Abana a cauda. Está contente.

Na casa aonde nos dirigimos, não há cães. A mãe, os três filhos e um gato estão à nossa espera. As crianças vêm buscar-nos à porta e, assim que entramos, o gato amarelo vem cheirar-nos e tropeça nas nossas pernas. “É cego”, diz uma das crianças, “mas consegue encontrar o caminho dele para todo o lado!” Os três irmãos amontoam-se em escadinha, espreitando-nos com curiosidade, como uma escala tocada num piano que ainda não se faz ouvir: 9, 7 e 2 anos. No corredor há um arranhador, e pelo chão da sala misturam-se brinquedos de criança e de gato, numa osmose de brincadeiras antecipadas.

Imagem Folheto CLAN

Assim se inicia o projeto CLAN, ou pelo menos uma das suas partes mais entusiasmantes – o contacto com as famílias que aceitaram participar. O estudo visa compreender melhor as relações entre as crianças e os animais de companhia, no contexto da casa e da vida familiar. O foco principal são as práticas, ou seja, o que fazem, em conjunto, crianças e animais.

Como brincam? Como cuidam uns dos outros? Que espaços usam na casa, e fora dela? Onde comem, dormem, ou simplesmente não fazem nada? Têm lugares preferidos, e outros proibidos? Quais os momentos de lazer, e quais os de dever, e como é que uns e outros se entretecem, para construir um laço? E quando é que este laço se quebra, quando é que há conflito e porquê? Que regras pontuam a sua existência comum, e quem as gere? O que acontece quando estão doentes? Como fazem nas férias? Como é que tudo isto é gerido com o mundo dos adultos? E o que é que tudo isto nos diz sobre as suas condições de vida e bem-estar? De como é para uma criança viver com um animal de companhia? E de como é para estes animais viverem com crianças? E o que pode ser feito para maximizar uma vida em comum digna e sustentável para todas as espécies.

Nesta primeira fase, dois entrevistadores visitam 24 famílias e, em cada entrevista, dividem-se pela casa, para conversar separadamente com uma criança entre os 8 e os 14 anos, e um dos adultos responsáveis, geralmente mãe ou pai. Os animais participam de várias formas: influenciam a escolha do lugar; a ordem das perguntas; a ‘porta de entrada’ para o guião; o seu ritmo e o seu fluxo; até os conteúdos e o momento em que termina. Constituem também um incrível ‘quebra gelo’ inicial… isso não é novidade. Mas a partilha constante e fluída entre todas as espécies que vivem em casa revela, desde o início, a extensão do termo metodologia multiespécies que define o projeto. E claro que tudo isto varia em função das espécies envolvidas. Selecionadas por terem um cão e/ou um gato há pelo menos 6 meses, as espécies mais prevalentes em Portugal como animais de companhia segundo os inquéritos da indústria pet, o mosaico das famílias multiespécies integra também muitos outros animais: caturras e outros pássaros, peixes, porquinhos da Índia, tartarugas, coelhos.

O trabalho de campo do CLAN desdobrar-se-á em três fases, num total de 108 entrevistas, a 24 famílias na primeira fase, das quais serão selecionadas 12 famílias para as segunda e terceira fases, nas quais se aprofundará a observação dos animais que vivam em casa, e das práticas que interligam as vidas de humanos e não humanos. Vamos espreitar a vida de todos os dias destes animais e das suas crianças, contada por estas através de fotografias, desenhos e outras narrativas. Vamos acompanhá-las nos cuidados e brincadeiras com os animais, como passear o cão no parque.

Hoje, ficámos na cozinha, eu e o Tomás, de nove anos. Calhou bem, porque é na cozinha que vive o Pipo, o gato de 15 anos e já cego, que entrou na família pela mão da mãe, adotado de uma ninhada sem dono. O Pipo entra e sai, roça-se no Tomás e pede festas, bate algumas vezes na perna da mesa, à procura de orientação espacial e, depois de beber água, enrosca-se no tampo do banco corrido, por baixo da mesa. ‘Ele gosta de estar ali, é um dos sítios onde costuma dormir’, explica-me o Tomás, a bocejar, afinal é quase hora de jantar e para trás ficou um dia inteiro de escola e atividades. ‘E ele tem outros sítios preferidos?’, pergunto. ‘Também vai às vezes para o sofá, mas não pode’, responde, baixando os olhos, um véu leve de tristeza cruzando o olhar, ‘eu sou alérgico’. ‘O pai não deixa!’, responde por sua vez a Sílvia, sete anos, irrompendo ruidosamente na cozinha.

A correr atrás vem o terceiro irmão, de dois anos. Acabamos por nos juntar todos à volta da mesa, as três crianças, o Pipo e eu. Falamos do Pipo e da vida lá em casa com ele. Dos animais que vivem ali no bairro, como os cães que ladram no quintal do lado, e de quem a Sílvia tem medo, ‘porque arranham e sobem por mim acima’. Falamos também dos outros animais com quem se cruzam, como os gatos dos avós. E da tristeza que o Tomás sente por não poder ter todos esses animais mais perto de si, por causa da sua doença. A dor e a delícia de ter um animal de pelo fofo, de quem se gosta e no qual se gostaria de tocar mais vezes, paira, suspensa. Deixa adivinhar as tensões e afetos que envolvem a (com)vivência de animais e crianças. De amor, mas também dificuldade. De conforto, mas também medo. De possibilidades desejadas, e cumpridas a nadar contra a corrente dos obstáculos.

Mas a parte mais divertida parece mesmo ser aquela em que esquecemos o gravador e jogamos ao jogo da Glória, e ao Loto. E saírem vencedores em ambos os jogos, claro. Com a agitação da brincadeira, o Pipo abandona a cozinha e vai em busca de paragens mais calmas. Deambula primeiro pelas três malgas de aço inoxidável de três tamanhos, também como irmãs em escadinha, beberrica água de forma intermitente e, com mais um pequeno encontrão num armário, entra e sai da caixa de areia, e abandona a cozinha, silenciosamente. Não voltaremos a vê-lo hoje, ao Pipo, chega de visitas e agitação, os seus 15 anos precisam de descansar. Nesta idade, passa (ainda mais) tempo a dormir. Gosta de brincar, mas não tem tanta paciência como outrora. Gato e crianças crescem assim como se fosse “ao contrário”, em tempos de vida sincronizados, mas inversos, um rumo ao arrematar de uma vida cumprida, outros desabrochando para o que aí vem.

Entretanto, na cozinha levantam-se aromas exóticos de um chili vegetariano cozinhado pelo pai, chegado a casa. Da sala chegam-nos as vozes do Henrique e da Mãe, finalizada a entrevista. Reunimo-nos todos. Começam as despedidas e os agradecimentos. ‘Pois é’, diz o Pai, ‘eu não gosto assim muito de animais’, faz uma careta sorridente, entre a honestidade e a resignação. ‘Por mim não tínhamos nenhum’, e encolhe os ombros. ‘É por ser o meu gato, que eu já trazia!’, responde a Mãe.

Assim se tecem as malhas de uma (com)vivência entre humanos e outros animais, na vida quotidiana feita de coisas comuns e aparentemente insignificantes, mas onde se estruturam as relações que definem o que significa “viver bem” e ser feliz. Partimos, na noite, eu e o Henrique, com aquele sentimento de plenitude que acompanha o trabalho de campo, quando é gratificante. O mosaico que daqui resultará é desconhecido e incerto, e nisso reside também a sua beleza e o seu fascínio. Mas isto sabemos: a cada entrevista, trazemos todas as espécies envolvidas para a construção de um conhecimento sobre as suas vidas que permita compreender melhor as suas condições de existência, e assim quiçá contribuir para maximizar o seu bem-estar.

O PROJECTO CLAN – Amizades entre Crianças e Animais: desafiando as fronteiras entre o humano e o não-humano, é financiado pela Fundação para a Ciência e Tecnologia [PTDC/SOC 28415/2017] e tem como equipa Verónica Policarpo (PI), Ana Nunes de Almeida (Co-Pi), Teresa Líbano Monteiro, Monica Truninger, Leonor Rodrigues, Marta Rosales, Vasco Ramos e Henrique Tereno. O projecto é desenvolvido no quadro do Human-Animal Studies Hub, uma plataforma interdisciplinar e interinstitucional sedeada no ICS-ULisboa, que reúne investigadores de várias escolas e áreas disciplinares, com interesse no estudo crítico das relações entre humanos e outros animais. Todas as informações podem ser consultadas no site do projecto, no site do Human-Animal Studies Hub, e nas redes sociais do CLAN: Facebook, Instagram e Twitter.


Como citar este artigo: Policarpo, Verónica (2019). Três crianças e um gato cego: crescer juntos, mas ao contrário, na casa da vida. Life Research Group Blog, ICS-Lisboa, https://liferesearchgroup.wordpress.com/2019/11/07 07 de novembro (Acedido a xx/xx/xx)

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