Cartoons, Saúde e Conjuntura: disputas e sentidos na imprensa escrita brasileira

1Nilson Moraes é investigador visitante no ICS-ULisboa, e professor na Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro.


writing-hand-fig-brand-art-sketch-490822-pxhere.com.jpgA pobreza, a desigualdade e as doenças são constituintes da História brasileira. Tais condições são reportadas ao longo de cinco séculos por artistas, estudiosos, analistas sociais, militantes sociais e políticos. O quotidiano da sociedade brasileira é feito e expresso em carências, ausências e desacertos, este é um dos motivos da presença das doenças, da saúde e do Sistema Único de Saúde (SUS) nos jornais.

As notícias sobre a saúde e o SUS provocam indignação e medo, embora contrariando a ação da imprensa, a população reconhece e recorre ao SUS como alternativa principal ou única para o cuidado em saúde. A adesão ou não ao SUS na sociedade segue sendo tensa e ambígua.

Este meu trabalho de pesquisa, de natureza qualitativa, propõe-se a descobrir os significados que os cartoons, “tirinhas” ou charges sobre saúde emprestam ou são tomados da conjuntura brasileira. O seu objetivo principal é a análise do comportamento, linguagem e direção destes cartoons na produção de sentidos sobre a saúde durante a conjuntura associada aos 100 primeiros dias de gestão do governo de Jair Bolsonaro.

Entre o engajamento e o distanciamento, a análise da gestão Jair Bolsonaro na Presidência do Brasil, mesmo realizada em seu primeiro ano de mandato, desafia as expectativas de um governo em início. Para tanto, consideramos a existência de uma racionalidade na ação política, na gestão e nos modos de fazer e pensar a conjuntura. Analisar os cartoons publicados durantes esses 100 primeiros dias é compreender a ação simbólica desse dispositivo no contexto dessa conjuntura, considerando a etimologia da palavra francesa charges, como chamamos os cartoons no Brasil: significa carga, no sentido de ataque ou investir contra alguém ou alguma coisa. Incluindo as charges (ou cartoons), nada pode ser pensado fora do contexto de mudanças, utilizando-se de todas as brechas, interpretações e re-significações possíveis de recusa à cidadania no Brasil nos últimos três anos.

No dia 10 de abril encerrei a primeira etapa de trabalho. A opção de estudar de três jornais – O Globo, Folha de S. Paulo e Jornal Notícias Populares – não se deu ao acaso. São jornais líderes de venda, de empresas ou grupos empresarias diversos, de Estados diferentes e, por fim, de veículos com públicos/leitores distintos. Nas primeiras páginas identifiquei os principais temas, acontecimentos e personagens desses cem primeiros dias de Governo Bolsonaro.

Esse acervo permite reunir e analisar as charges, cartoons, bandas desenhadas ou tirinhas que tematizam a saúde na conjuntura. Considerei que são modos de produção e re-significação de sentidos que interferem na produção e compreensão dos fatos, processos e relações. Interessa-me os principais temas, personagens, situações e instituições referenciadas, considerando um quadro teórico-metodológico fundamentado na semiologia dos discursos sociais e na análise crítica de discursos (Milton José Pinto, 1999), em diálogo com conceitos como o de poder simbólico de Pierre Bourdieu (1989), quarto outro poder, de Afonso de Albuquerque (2000) e mercado simbólico, de Inesita S. Araújo (2004).

Reuni um acervo de 317 cartoons e 300 primeiras páginas dos jornais Folha de S. Paulo (São Paulo), O Globo (Rio de Janeiro) e Notícias Populares (Minas Gerais). Na Folha de S. Paulo identifiquei 32 chamadas sobre saúde nas primeiras páginas e dois cartoons. Em geral, os cartoons da Folha de S. Paulo abordaram questões políticas de forma mais ampla. Em O Globo foram publicadas 24 chamadas e nenhum cartoon diretamente com o foco sobre saúde foi veiculado. Todos os cartoons estão centralizados na personalização da política. No Notícias Populares seis chamadas sobre saúde foram publicadas em cem dias e, nesse período, cinco cartoons sobre saúde. O tom é crítico. Aroeira, Chico Caruso, Paulo Caruso, Latuff, Laerte, Jaguar, Duke e Nani são reconhecidos como alguns dos mais destacados chargistas (ou cartunistas) brasileiros. Podem encontrar-se no site  ChargeOnline.

A saúde é pauta de todos os veículos e linguagens. O SUS vive em 2019 a sua mais dramática experiência de desqualificação e desmonte com a política de Estado. Extinguir o SUS é uma oferta pedagógica exemplar aos setores privados, repetidas promessas de recursos e verbas para a Saúde não foram cumpridas. Ao contrário, o discurso do setor económico do governo é de contenção das despesas e das exigências constitucionais com a proposta de desvinculação do Orçamento da regra que estipula um gasto mínimo para a Saúde e para a Educação.

Tomamos o discurso dos mídia como prática social estratégica na produção de sentidos e ações que buscam orientar e influenciar indivíduos, grupos e interesses sociais em disputa. Os mídia, além de produzir um discurso, são um locus de disputas simbólicas, políticas e materiais. Nos jornais, as notícias e imagens hierarquizam, produzem ou inventavam narrativas, situações e personagens reais ou imaginadas que assumem identidades próprias.

As charges ou cartoons são o que são, e como são, por condições precisas. É meu objetivo interpretar sociologicamente as lógicas subjacentes à sua produção e utilização, considerando que nos cartoons o humor e o discurso nascem da urgência em prender a atenção do receptor. A saúde na imprensa escrita é parte do espetáculo e do consumo de um mundo supostamente equitativo, como já argumentei (ver Nilson A. Moraes, 2012).

A saúde, a doença, os poderes e desmandos da burocracia, as carências assistenciais e problemas curativos, assim como o acesso e a utilização de informação de saúde e de cidadania são candentes. Eles introduzem ideias sobre relações entre subjetividade, direitos dos assistidos e daqueles que dispõem do reconhecimento conferido pela legitimidade do conhecimento e das técnicas para o cuidado. A saúde é uma urgência, permanente nas preocupações das populações, gestores, políticos, militantes sociais, artistas, intelectuais, profissionais de saúde, e seu colapso aprofunda a desigualdade social.

Remédios, novas tecnologias, tratamentos, doenças, terapêuticas, corpos perfeitos povoam os media e comportam a construção de imaginários e relações simbólicas em que a saúde, a medicina e as inovações, admitem a expectativa da cura e de soluções rápidas, eficientes e duradouras, derrotando a dor e o sofrimento.

Nos cartoons brasileiros, as posições e oposições entre indivíduos e classes sociais não estão ou são tranquilas ou conscientes. Alguns vivem, outros se digladiam e sobrevivem em mundos à parte. As narrativas não constituem necessariamente um nexo entre personagens e interesses. O poder vive sem nenhuma preocupação, culpa ou ressentimento. Existem apreensões. A ausência de preocupação parece gerar uma incapacidade de lidar com o mundo dos outros, dos diferentes, dos pobres, dos que ignoram. O poder é naturalizado e previsível. Nas charges, o aedes aegypti (nome em latim para Mosquito da Dengue) e a corrupção são presenças quotidianas, representadas no mosquitinho transmissor, nos espertalhões da política, nos doentes ‘desassistidos’ e seus efeitos.

As tendências nos cartoons publicados nos tempos Bolsonaro são, de um lado, o fortalecimento das concorrências pela hegemonia dos sentidos, e de outro, a invisibilização da pauta da saúde que perde centralidade na conjuntura em que inexiste um projeto de país e de sociedade.

Bolsonaro defendeu valores anti-humanistas e ambientalistas, bélicos, favoreceu familiares e amigos. Governa comprometido em atender exclusivamente o seu “núcleo duro de eleitores’. O fazer político e a gestão pública enfrentam os setores sociais organizados e demonstram um profundo desinteresse pelos trabalhos intelectuais, artísticos e científicos. Bolsonaro não se empenha em ampliar sua base ou atingir outros interesses, visões de mundo e segmentos da sociedade. Seu apoio são os militares da reserva, evangélicos e políticos tradicionais. Explicita o horror ao debate sobre género, sexualidade, direitos sociais, humanos, educação, ciência, não se compromete com a realidade e com o contexto internacional.

Os cartoons demonstram o quotidiano hierarquizado, disciplinado, controlado e perplexo de uma sociedade e indivíduos às voltas com uma profunda crise social, desorientação cultural e humana, além da total falta de opções políticas evidenciadas no processo em curso. As pistas dessa tragédia estão explícitas. Nas imagens criadas, cada personagem é mais que a pessoa e a situação representada, cada acontecimento ou pessoa não se esgotam em si.

As diversas e simultâneas crises brasileiras em um panorama social e assistencial de excessos de demandas e nenhuma capacidade ou interesse de oferta e resolução do contexto, aprofundam a desigualdade. Nos cartoons o Brasil vive dificuldades, numa dramática narrativa que exige e contribui para as urgentes reflexões sociais e culturais. Em certo sentido, mesmo que não seja este o seu objetivo, o cartoon nos auxilia e cumpre um papel transformador de indivíduos encurralados, revelando as entranhas das armadilhas da sociedade e da cultura.

Somente uma completa incapacidade em compreender o conjunto dos acontecimentos pode induzir uma visão ingénua e despolitizada do processo em curso no Brasil. O governo Bolsonaro é um completo êxito em seus projetos, impedindo o mínimo de cidadania e humanidade, acelerando o desmonte do Estado e a fragmentação da sociedade. Este é o seu papel diante da história: esgotar a vida, o coletivo e os direitos.


Como citar este artigo: Moraes, Nilson A. (2019). Cartoons, Saúde e Conjuntura: disputas e sentidos na imprensa escrita brasileira. Life Research Group Blog, ICS-Lisboa, https://liferesearchgroup.wordpress.com/2019/12/17 17 de dezembro (Acedido a xx/xx/xx)


Referências:

ALBUQUERQUE, Afonso de. 2000. Um outro ‘Quarto Poder’: imprensa e compromisso político no Brasil. Contracampo: RJ, . 4, pp. 23-57.

ARAUJO, Inesita S. 2004. Mercado Simbólico: un modelo de comunicación para políticas públicas. Interface – Comunicação Saúde, Educação, 8, 14, set. 2003 – fev.2004.

BOURDIEU, Pierre. 1989. O poder simbólico. Lisboa: Difel.

MORAES. Nilson A. 2012. Charges, Saúde e Conjuntura. NEMC, Rio de Janeiro.

PINTO, Milton José. 1999. Comunicação & Discurso: introdução à Análise de Discursos. São Paulo: Hacker Editores.

 

Um pensamento sobre “Cartoons, Saúde e Conjuntura: disputas e sentidos na imprensa escrita brasileira

  1. Preciso e assustador. Preciso, pois aponta que são objetivos do governo o que alguns entendem como equívocos e incompetência. Assustador por que parte da oposição propõe dar trégua ao governo, acreditando em mudanças de rumo. .

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