Transformações na paisagem textual urbana de Paris e Lisboa: a chegada do samba e jazz no período entre-Guerras (1917-1939)

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grazGraziela Mello Vianna foi investigadora visitante do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa e da Université Lyon 2. É professora associada da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal de Minas Gerais, no Brasil.

O período entre-Guerras é um período de profundas transformações estéticas em Paris, capital referência para outras cidades europeias, dentre elas, Lisboa. Transformações que passam pela nova paisagem sonora, com a receptividade e o interesse dos parisienses pela música popular advinda de outras culturas; pelas novas danças sociais (tais como o charleston, o samba, o lindy hop) relacionadas a estas músicas praticadas nos bailes e transformadas em espetáculo nos music halls; pela moda, que libera o corpo feminino para dançar livremente; pelas artes gráficas e na arquitetura que, sob a influência do art déco, “simplificam” as formas românticas art nouveau. Em que medida tais transformações nesses elementos das paisagens textuais urbanas de Paris e de Lisboa se relacionam com as novas músicas das Américas: o samba e o jazz? Quais são os rastros dessa paisagem textual do período entre-Guerras na paisagem contemporânea urbana atual nas duas cidades?

Na pesquisa desenvolvida em Paris e em Lisboa entre 2018 e 2019 observei as transformações nas paisagens das duas capitais europeias no período entre Guerras e a relação dessas transformações com a chegada do samba e do jazz. Em Paris, por exemplo, os luminosos dos dancings e music halls que acolhiam os sons “exóticos” das Américas se tornam signos decifráveis para os notívagos. Os nomes dos estabelecimentos fazem uso de estrangeirismos, de nomes relacionados ao lugar de origem da música (por exemplo, Cabana Cubana, Bristol’s), etc. Em Lisboa, os “clubs nocturnos” modernos se instalam na região da avenida da Liberdade e na rua das Portas de Santo Antão.  São inaugurados  clubs e cabarets com inspiração parisiense e/ou americana, com espaços para a música , a dança e jogos.

Paisagens textuais urbanas – uma breve definição
Paisagem e relevo são conceitos originários da Geografia e têm várias acepções, defendidas por diferentes artistas e autores que, em períodos distintos, possibilitaram múltiplas abordagens por outras áreas do conhecimento. Aproprio-me aqui e em trabalhos anteriores (VAZ; MELLO VIANNA; SANTOS, 2017) destes conceitos para pensar em paisagens textuais, que se constituem de materialidades diversas como caligrafia, tipografia, imagem e som, que conformam textualidades. Tais textualidades são multissensoriais, uma vez que busco deslocar a usual posição hierárquica da visão na compreensão dos textos, para pensá-los de acordo com a premissa de que as paisagens textuais se “dão a ver”, mas também a ouvir.

Entende-se por paisagem textual urbana a articulação de textualidades de relevos diferentes, ou materialidades diferentes, tais como a imagem, o som, a tipografia, a arquitetura,  a moda, dentre outras. A paisagem textual urbana depende do enquadramento de quem a observa e lhe confere sentido. O enquadramento da minha pesquisa coloca em evidência os usos sociais das paisagens urbanas relacionados às práticas de música e dança. Concorda-se com o geógrafo Milton Santos quando afirma que:

Em cada época, o processo social imprime materialidade ao tempo, produzindo formas/paisagens. As paisagens construídas e valorizadas da sociedade revelam sua estrutura social e conformam lugares, regiões e territórios. A paisagem é a materialidade, mas é ela que permite à sociedade a concretude de suas representações simbólicas. (SANTOS, 2002, p.13-14)

Etapas da pesquisa (Paris / Lisboa)
Realizei uma pesquisa bibliográfica inicial a fim de traçar um panorama da chegada das “novas músicas das Américas” à Europa. Em seguida, desenvolvi pesquisa documental de periódicos especializados e de guias turísticos da época, que teve como fontes acervos públicos e privados, onde encontrei fotos, anúncios publicitários, cartões postais, documentos oficiais de registros de tais estabelecimentos e registros sonoros e audiovisuais, a fim de observar os relevos da paisagem textual urbana com a chegada das novas músicas.

Em Lisboa, consultei acervos públicos como a Biblioteca Nacional, a Biblioteca de Arte da Fundação Calouste Gulbenkian, a Hemeroteca Digital, a Cinemateca Portuguesa e o Arquivo Municipal de Lisboa, dentre outros. A pesquisa incluiu uma busca dos arquivos sonoros e audiovisuais das canções, dos espetáculos e dos bailes do período entre-Guerras, a fim de entender os cruzamentos ocorridos entre o samba, o jazz, gêneros musicais de origens francesas e portuguesas.  Encontrei poucos registros sonoros ou audiovisuais da época, não tantos como esperava inicialmente. Portanto, tais cruzamentos serão realizados por meio da observação de partituras impressas das canções.

Desenvolvi uma cartografia dos lugares de música e dança, onde se dançava e ouvia o samba e o jazz e dos music halls, que acolhiam o samba e o jazz como espetáculo. À medida em que foram encontrados tais endereços,  fiz registros fotográficos com uma câmera Polaroid a fim de perceber e evidenciar os vestígios na paisagem urbana atual dos estabelecimentos que acolheram o samba e o jazz no período entre-Guerras.  Em seguida, tendo como referências os registros fotográficos, produzi desenhos das fachadas atuais destes lugares onde se instalaram no período entre-Guerras os dancings e music halls. Realizarei uma exposição com os mapas, as fotos Polaroids e os desenhos, que está programada para abril de 2020 na galeria da Câmara Municipal de Lisboa.

 Chegada do samba e recepção Midiática do Jazz
As primeiras pistas da pesquisa relacionavam o samba em Lisboa à chegada das telenovelas brasileiras na década de 1970. No entanto, percebi rastros na capital portuguesa de músicos brasileiros que tocavam samba já na década de 1920: a orquestra Jazz-band sul americana “Romeu Silva” , por exemplo, faz uma excursão à Europa, fazendo propaganda do Brasil e chega a Lisboa em 1925.

Em 1925, no Teatro Trindade de Lisboa apresenta, pela primeira vez ao vivo, o samba, o maxixe e o frevo. (…) Do Trindade, a orquestra foi para o Politeama, depois para o Monumental e para o Maxim’s,  e o público, longe de arrefecer, parecia cada vez vibrar mais com o ritmo brasileiro. Romeu exibiu-se em clubes e até no palácio presidencial. (VASCONCELOS, 1964, p.163)

Encontrei ainda partituras impressas de sambas em Lisboa a partir da década de 1920, que também confirmam a presença do samba na capital portuguesa já no período entre-Guerras. Na pesquisa documental, surgiram inúmeros textos sobre a chegada do jazz e do samba publicados em jornais e revistas da época em Paris e em Lisboa. Ainda não realizei uma análise aprofundada de tais textos, mas desde já pode-se perceber algumas recorrências.

Tanto em Paris quanto em Lisboa os textos se dividiam entre críticas positivas e críticas negativas relacionadas ao jazz e ao samba. Em ambas as cidades, dentre as críticas positivas pode-se perceber a recorrência de textos que consideram o jazz um gênero musical avant garde, por vezes associado a movimentos artísticos como o dadaísmo ou o cubismo – “é o triunfo do cubismo musical” (Le Rire, 1918). Outras críticas positivas destacam o exotismo e a inovação do jazz ou do samba, graças à presença da bateria ou de instrumentos de percussão e ao ritmo sincopado dos dois gêneros.

Dentre as críticas negativas, muitos textos consideram tais gêneros em relação aos aspectos musicais, avaliando-os como música de baixa qualidade, um ruído infernal sem qualquer interesse. Outros consideram a origem africana, em críticas racistas que fazem alusão aos músicos negros, como por exemplo, um jornal francês que considera o jazz como “uma imitação de macacos” (Les Spectacles, 1927).

Em Lisboa, além dessas críticas, encontrei outras recorrências que não aparecem nos jornais franceses da época. Alguns textos, por exemplo, entendem o sucesso do jazz e do samba como formas de reconhecimento tardio do talento dos negros.

Em várias ocorrências, aparece uma curiosa versão sobre a origem do jazz, segundo a qual a invenção do jazz é atribuída a um minhoto multi-instrumentista exilado na América, cuja a autoria teria sido “roubada” por negros norte-americanos.

A pressão da Igreja Católica contra os lugares de “pecado” – os night clubs e cabarets  -também é percebida nessas críticas de jornais e em livros publicados pela Igreja.

Cartografia de lugares de música e dança em Lisboa e Paris
Encontrei 270 moradas de dancings, clubs nocturnos, music halls e teatros que acolheram o jazz e/ou o samba no período entre-Guerras. Destes, apenas 35 em Lisboa. A proibição de jogos nos clubs noturnos no final da década de 1920 e a pressão política não favorecia a manutenção destes lugares de dança, jogos e música.

Tanto o samba como o jazz e as danças relacionadas a estes gêneros musicais chegaram a Lisboa simultaneamente ou logo após a chegada a Paris. Por outro lado, eu acreditava que os lugares de dança que acolheram tais músicas continuaram a se multiplicar em Lisboa mesmo sob a ditadura de Salazar. Mas, de acordo com os registros encontrados, a maioria não resistiu.

Desenhei mapas de orientação das regiões de Paris e Lisboa para guiar os percursos pelas duas cidades. Tais percursos tiveram como propósito a realização de registros fotográficos das fachadas dos lugares que acolheram o jazz e/o samba naquele período.

Mapa de lisboa

Ainda que boa parte de tais moradas tenham deixado de ser lugares de música ou dança, o objetivo foi registrar os vestígios daquela paisagem do passado na paisagem textual urbana do presente.

polaroide

Dessa forma, entendo que a paisagem sonora serviu de guia para minha flânerie pelas ruas de Paris e de Lisboa a registrar os vestígios, permanências e ausências dos dancings, cabarets, clubs e teatros que acolheram tais gêneros.

foto conjunto de polaroids

As polaroides foram desenhadas em papeis no formato de cartão postal, uma vez que o projeto artístico foi inspirado em trabalhos anteriores de artistas da década de 1960, que faziam suas obras circularem por meio do envio postal e incorporavam as marcas dessa circulação às obras. Os Correios brasileiros produziram-me um selo válido no território nacional. A minha ideia inicial era enviar os desenhos-postais para as moradas dos dancings que não existem no tempo presente e recebê-los de volta no Brasil dada a inexistência dos destinatários. No entanto, algumas experiências negativas de comunicação via correios entre a França, Portugal e Brasil colocam em questão a viabilidade da proposta, que estou a reavaliar.

Paragens finais
O objetivo do trabalho que apresentei no Life (novembro de 2019) foi dar a ver os achados preliminares da pesquisa de campo, que abre diversas possibilidades de reflexões a serem realizadas, de percursos metodológicos a serem traçados.

Dentre estes percursos possíveis pretendo aprofundar a análise sobre a recepção midiática dos dois gêneros musicais em Lisboa e em Paris; fazer uso dos catálogos e das partituras encontradas para reconstituir a paisagem sonora do período e pensar, a partir dos elementos gráficos das partituras, sobre as representações do samba, do jazz e por conseguinte, dos seus países de origem colocadas em circulação na Europa. Fazendo uso das imagens da época dos lugares de dança e música e das fotografias realizadas no presente, reflito sobre as transformações na paisagem urbana no momento da chegada de tais músicas às duas capitais a partir de tais registros fotográficos.

Várias questões pertinentes e sugestões a serem exploradas a partir do material recolhido foram apontadas por colegas na ocasião do Seminário Life. Penso assim em discutir futuramente os cruzamentos entre o samba e jazz; as questões relativas às transformações trazidas pelo empenho do corpo nas práticas de dança trazidas por tais gêneros musicais cuja seção rítmica, inovadora para a época é tão significativa; os contextos sociais e políticos, tais como a emancipação feminina relacionada à moda e às danças dos anos 1920, a representação política dos negros na época, a relação com a Primeira República e o Estado Novo em Portugal, as questões religiosas, dentre outras

Existem várias formas de se guiar por uma cidade. Escolhi aqui um enquadramento singular das cidades que não se encontra nos guias turísticos: olhar/escutar Paris e Lisboa a partir de uma transposição no tempo e com o foco em lugares de dança e música. Assim, este enquadramento é estabelecido inicialmente pela dimensão sonora da paisagem urbana, mas aponta para questões de naturezas diversas, relevantes para a compreensão das dinâmicas sociais constituidoras da tessitura das paisagens textuais.


Referências

VASCONCELOS, Ary. 1964. Panorama da música popular brasileira. Martins: São Paulo, p.163.

VAZ, Paulo B., MELLO VIANNA, Graziela; SANTOS, Humberto.  2017. Sobre texto visual, sonido e imagen: nuevos parajes de los paisajes textuales. In: Bruno Leal; Carlos Alberto Carvalho; Geane Alzamora (dir.), Textualidades Mediaticas, Barcelona, Editorial UOC, pp.131-150.


Como citar este artigo: Vianna, Graziela Mello. (2020). Transformações na paisagem textual urbana de Paris e Lisboa: a chegada do samba e jazz no período entre-Guerras (1917-1939). Life Research Group Blog, ICS-Lisboa, https://liferesearchgroup.wordpress.com/2020/02/20 20 de fevereiro (Acedido a xx/xx/xx)

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