“Onde gastei, eu, hoje, o meu tempo?”

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Vanessa Cunha, ICS-ULisboa

Em plena crise pandémica, o meu relógio parou… o de pulso, o que anda sempre comigo para todo o lado. Parou às 7 horas e 10 minutos. Se da manhã ou da tarde, não sei (é um relógio analógico)… Mas ambos os horários são igualmente sugestivos, pois reenviam-me para a minha existência pré-COVID-19, para um tempo em que 7:10 era (mais coisa, menos coisa) a hora de acordar, com a ajuda do despertador, e em que 19:10 era (mais coisa, menos coisa) a hora de chegada do comboio, de regresso a casa, ao final de um dia de trabalho. Marcadores dos meus ritmos diários, há anos, muitos, apenas dispensados em fins-de-semana e em férias, tempos menos espartilhados por horários rígidos.

Quando o relógio parou fiquei apreensiva: “Logo agora, que está tudo fechado! Onde vou eu desencantar uma pilha?” É preciso dizer que gosto de usar relógio (é uma segunda pele, tal como os óculos) e sempre resisti a substituí-lo pelo versátil telemóvel, que entre tantas coisas que nos permite fazer, ver as horas é apenas uma delas. Não é, contudo, a mesma coisa, não está sempre à mão, ao subtil e natural(izado) rodar do pulso, e é tão dispersivo que não me transmite a segurança de que sou dona do meu tempo (cada qual com a sua mania…).

Vanessas watch

O relógio da Vanessa

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Sinead Marian D’Silva shedling some light on youth negotiation of tourism in Goa and Lisbon

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Foto redonda

Sinead Marian D’Silva is a research fellow at ICS-ULisboa. We are pleased to introduce you to her study – Youth negotiation of tourism-based employment in Goa and Lisbon – funded by the European Union’s Horizon 2020 research and innovation programme, through a ‘Widening Fellowship’, accepted for funding via the Marie Skłodowska-Curie Actions – Individual Fellowship scheme. The project has the scientific supervision of Dr. Vitor Sérgio Ferreira.

Sinead, tell us about your research project…
My research is on young people working in tourism in Goa and Lisbon, while being ‘local’ to either respective place. In both locations, reactions by ‘locals’ to tourism are represented as either highly contested or completely endorsed as both economies are geared towards the industry. As I begin my research, I hope to understand why young people decide to work in tourism and how they negotiate their participation in it. This includes who they are in society, how they perceive their futures and their relationship with place.

What excites you most about this research plan?
I suppose this is two-fold. In terms of academic interests, the focus on youth futures is a continuation of my previous work. The consideration of it within a contentious industry allows me to take further an interest I have as a researcher, in the empirical sense, as I must confront perspectives that may be different from mine or are not popularly presented. I must then treat them in the way that those narrating them intended while simultaneously maintaining a critical perspective. There is also a personal aspect to it which I will speak later…

Did the global pandemic situation influenced your initial research design? How?
The current pandemic has definitely had an impact on the initial plan for my research. It has sent my fieldwork for a toss – I had just started in March – and made me re-construct it to be back-to-front. My fieldwork has been delayed further by a need to re-apply for ethical clearance – understandably so.

At the moment how are you trying to solve difficulties?
I would not call these difficulties, but rather inconveniences, mostly bureaucratic ones. I suppose such times call for a mobilizing of ‘Plan B’. As social researchers, we are usually prepared to eat some humble pie and realize that circumstances change and our ‘dream project’ may not play out as planned. In practical terms this has meant that rather than starting off with observations and encountering participants ‘organically’, I need to have a virtual approach to contacting people, using the networks I have and my own knowledge. In addition to virtual interviews which will be flexible, I have included a diary method for participants to go their thoughts and experiences in multiple ways, including sharing social media posts they might feel demonstrate this, doing videos, voice messages, and so on. The uptake is yet to be known as I await amended ethical clearance, but if anyone would like to help, here is a link to share.

How does this research fits into your biographical/academic background?
As said previously, this fits with my academic interests in work, youth futures and place-making. I cannot stress how important it is to have some sense of financial stability – even if temporary – when doing research. I feel a sense of confidence and freedom to pursue my work. I hope to demonstrate part of my capacity through this project. On a personal level, following my PhD I feel determined and confident to return to (research about) my home context of Goa. I have also wanted to know more about Portuguese culture and society for a while now, which can perhaps bring me a step closer to understanding my own social and cultural history. It gives me a good opportunity to be critical and appreciative.

Where have you spend most of your life and what would you like to highlight from that place?
I lived in Goa for the most part of my life – in proportion anyway. Following my schooling I lived in Bombay for 7 years and then Leeds in the North of England for 6 years before coming to Lisbon. I am not sure what to say and about which context, but perhaps my research will shed some light on the situation in Goa!

Bio
Social scientist/researcher whose disciplinary background is an intersection of Sociology and Geography. Formal academic focus on work, youth futures and a senses of place. Engaged with research and community-based action for social justice and equality, such as being a member of the steering group for the Inequalities Research Network at the University of Leeds.

Follow her on…
LinkedIn: https://www.linkedin.com/in/sinead-d-silva-15022810a/
Twitter: @CianydeArgentum – https://twitter.com/CianydeArgentum

Rear window / Janela indiscreta

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Maria Manuel Vieira, ICS-ULisboa

Em 1954 estreava o filme Rear Window / Janela Indiscreta, de Alfred Hitchcock. Considerado por alguns críticos o melhor filme do realizador britânico, o cenário e o enredo apresentam curiosamente fortes homologias com a sociologia e o tempo presente.

O personagem principal, desempenhado por James Stewart, é um jovem fotógrafo a quem um acidente e uma perna engessada o atiram para um confinamento forçado no seu apartamento de Greenwich Village. Sentado numa cadeira de rodas, pretendendo refrescar-se da onda de calor que assola Nova Iorque, encontra distração nas ações dos indivíduos que observa atentamente da janela das traseiras (rear window), aberta de par em par. Encolhido o raio de visão ao tamanho da sua janela, descobre pela primeira vez o mundo próximo que o rodeia: os vizinhos dos apartamentos em frente, os utilizadores do pátio em baixo, os transeuntes que se deslocam no passeio da rua, entrevistos ao fundo.

O acompanhamento diário de hábitos, gestos e horários, ampliado nas lentes dos seus binóculos, permitem-lhe ser testemunha de um acontecimento fatal, que alimentará o clímax de mais este thriller, genialmente encenado pelo mestre do suspense.

Frame do filme Janela Indiscreta, de Alfred HitchcockFrame do filme Janela Indiscreta de Alfred Hitchcock

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As tecnologias digitais entre os casais com filhos em tempo de Covid-19

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Silvia Di Giuseppe, doutoranda em Sociologia (OpenSoc), ICS-ULisboa

1A Itália foi, e continua a ser, o país europeu mais afectado pela Covid-19. Há semanas que se lê e se ouve falar, nos média, de permanência forçada em casa e possibilidade de saída apenas por extrema necessidade, dois dos imperativos categóricos estabelecidos pelo governo italiano para poder enfrentar a emergência, que os cidadãos devem tentar respeitar tanto quanto possível. Tendo em conta a propagação da pandemia, foram adoptadas medidas de contenção, ou seja, vários decretos legislativos actualizados, de acordo com a gravidade da situação, ao longo dos dias.

A parte mais visível desta situação para os cidadãos é que, na vida quotidiana, as consequências e reacções a estas restrições variam de pessoa para pessoa, apresentando, em alguns casos, um verdadeiro desafio entre risco e possibilidade. Continuar a ir trabalhar, por exemplo, é importante para prover às próprias necessidades económicas e familiares mas, ao mesmo tempo, o perigo de contrair o coronavírus está definitivamente ao virar da esquina. Para além dos pretextos de ir ao supermercado para comprar alimentos, ou à farmácia para medicamentos, outras situações podem acarretar problemas graves.

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A Onda

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Ana Nunes de Almeida, ICS-ULisboa

E de repente, a onda que se abate sobre nós. Víamo-la distante, esquecendo que a globalização encurta o horizonte e o acelera. Víamo-la nos outros, esquecendo que os outros somos nós também. E era como se a nossa capacidade racional de pensar o mundo nos impedisse de prever que um pequeníssimo vírus, invisível e silencioso, tivesse o poder de suspender o mundo em poucas semanas. E de repente, a onda começou a cair na nossa praia também. Com mansidão, fechámo-nos em casa. De surpresa, de um dia para o outro. Afinal, começávamos a sentir na pele que o risco, aquilo sobre o que tanto teorizamos, é mesmo para levar a sério. Ou seja, existe, e existe naquele seu nível mais fundo: perder ou salvar a vida.

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Foto de Ana Nunes de Almeida

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O trabalho sexual feminino, por Roseli Bregantin Barbosa

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roseli

Damos as boas-vindas a Roseli Bregantin Barbosa, doutoranda visitante no ICS-Lisboa e integrada no GI LIFE, sob a supervisão de Vitor Sérgio Ferreira.  Desenvolve a sua pesquisa no Programa de Pós-Graduação em Sociologia, na área de Políticas Públicas e Mudanças Sociais, da Universidade Federal do Paraná (Brasil), orientada por Maria Tarcisa Silva Bega e Miriam Adelman.

Em que consiste o teu projeto de investigação?
Meu projeto consiste em analisar a relação entre a feminização do mercado de trabalho e as demandas por mudanças no estatuto do trabalho sexual feminino, mais especificamente busca perceber como o Estado se posiciona frente tais demandas, na esfera das políticas públicas. Continuar a ler

Vozes e protagonismo de estudantes juvenis brasileiros: análise do projeto “Outros Olhares”

POST-CAST

fláviaFlávia Brocchetto Ramos é Professora na Universidade de Caxias do Sul-RS, e foi investigadora-visitante no ICS-ULisboa.

lovaniLovani Volmer é Professora na Universidade FEEVALE.

A linha literária é um instrumento para
elaborar o mundo interior e, portanto, de
modo indissoluvelmente ligado, a
relação com o mundo exterior.
(Michèle Petit)

O clássico literário ultrapassa barreiras temporais e espaciais. Assim são os contos de Machado de Assis que ainda têm algo a dizer a jovens em idade escolar. Os jovens têm a possibilidade de, pela literatura, ter contato com posições axiológicas de outra época, de estabelecer relações com a atualidade, de refletir sobre a língua e suas variantes, como forma de expressão e identidade dos grupos sociais e da época em foco. Esses contos foram o mote para o “Projeto Outros Olhares”. O Projeto é desenvolvido, anualmente, desde 2002, com alunos do Ensino Médio, em uma escola comunitária da região metropolitana de Porto Alegre, no sul do Brasil, e consiste na leitura e adaptação de contos de Machado de Assis a curtas-metragens. Aqui, tomamos o Projeto e, em especial, um curta para analisarmos a atuação de jovens integrantes da proposta.

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Cartaz produzido pelos estudantes para o curta Ela. Imagem da Prof.ª Lovani.

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Quarantine Thoughts on Italy

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1 Xaver_Winterhalter_Decameron

The Decameron, 1837–1837. Franz Xaver Winterhalter. Oil on Canvas

Bojan Bilić, ICS-ULisboa

When I moved to Florence in September 2008, after being awarded a fellowship at the European University Institute, my life took a whole new course. As my train approached Santa Maria Novella, I caught a glimpse of the dome of Brunelleschi and a Stendhalian adrenaline rush fluttered though my chest inaugurating a period of immersion into many forms of beauty. Years of student hardship, the exhaustion provoked by endless political chaos, and the myriad dilemmas I had about my rigid patriarchal body, had already taken their toll making me long for pleasure.

Soon after my arrival, I started going for long walks from San Domenico’s Via dei roccettini to the Piazza San Marco, passing by the Medici villas full of cypress, lemon, and olive trees, and trying to convince myself that my new surrounding was indeed real. While I slowly synced with the imperceptible rhythm of Italian small city life, both in myself and in many of my colleagues, I noticed a remarkable transformation: tanned by the Tuscan sun, caressed by centuries of culture, and nourished by food prepared with love and attention, we received an injection of vitality that could hardly be matched by any of my subsequent experiences. Italy has given me far more than other places in which I have lived and the moment I step on its soil I am imbued with the feeling of being at home. Continuar a ler

“COVIDamos” em um mundo globalizado.

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Victor Nedel,  Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Brasil) 

Somos apresentados, diariamente, a uma enxurrada de informações acerca da pandemia de COVID-19. Televisão, redes sociais, rádio e vizinhos têm sido agentes propagadores das mais variadas notícias sobre o novo Coronavírus. Ao mesmo tempo, no mundo inteiro, as Universidades têm sido demandadas na produção de conhecimento científico sobre o vírus, na produção de insumos para testes, na criação de métodos de assepsia e consequente fabricação de álcool gel, na busca por uma vacina ou medicamento que interrompa a reprodução do vírus no corpo humano.

“COVIDamos” todos juntos. O mundo “COVIDou”. Com a devida licença pela criação, por meio de aglutinação das palavras, penso que essa seja a realidade pela qual estamos transcorrendo, enquanto humanidade. Não seria esperada outra situação, frente ao mundo globalizado em que vivemos, sobre a disseminação do novo Coronavírus: mais do que o próprio vírus, o que se prolifera são as informações que dele decorrem. Nunca antes da história da humanidade uma pandemia está tendo cobertura full time como a pandemia de COVID-19, e isso é reflexo da conectividade do globo, a partir da internet e, principalmente, das redes sociais. Exemplos dessa disseminação de informações são as mais de 1 bilhão de menções sobre o novo Coronavírus na mídia brasileira, desde o primeiro caso[1]. Continuar a ler

Em fase janela: dilemas sobre o trabalho de campo à distância

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Ana Sofia Ribeiro, ICS-ULisboa

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Fotografia de uma das participantes no estudo, tirada da janela do seu quarto durante a quarentena

Fazer trabalho de campo é talvez a minha parte preferida do processo de investigação. Conhecer pessoas, ir aos locais, observar a vida quotidiana, são para mim primeiras escolhas para recolha de dados. Não é que ignore o valor de uma boa desk research. É só que apesar de hoje em dia ser possível obter dados de grande qualidade a partir de fontes digitais, a investigação sobre catástrofes implica geralmente uma aproximação material ao campo, para averiguar perdas e impactos. No caso da minha investigação sobre jovens no interior e recuperação dos grandes incêndios de 2017, o contacto pessoal no terreno tem sido insubstituível no acesso a realidades muitas vezes invisíveis, porque afastadas dos grandes centros de produção mediática.

Entrevistar estes jovens não é fácil, pois a dispersão no território e as barreiras à sua mobilidade fazem com que estejam resguardados em suas casas. Os ambientes de aprendizagem informal que constituem a minha base de recrutamento também têm um funcionamento irregular, o que implica reorganizações de última hora e cancelamentos. Por outro lado, os próprios jovens têm as suas agendas e vontades, e nem sempre estão livres para falar comigo. Assim, iniciei recentemente a realização de entrevistas online via Whatsapp. O Whatsapp é a aplicação mais utilizada pelos jovens, e a que permite fazer vídeo entrevistas gratuitamente através do telemóvel. As entrevistas online são particularmente úteis para casos em que os sujeitos estão distantes ou em situação vulnerável, e dão flexibilidade aos utilizadores para escolherem o melhor momento. No entanto, levantam algumas questões. Continuar a ler