
Ana Patrícia Hilário, ICS-ULisboa
Rita Morais, ICS-ULisboa

Como é que pais compreendem a hesitação vacinal? Como é que os profissionais de saúde entendem a hesitação vacinal? Quais os principais desafios que os profissionais de saúde enfrentam em torno da hesitação vacinal? Estas são as principais questões que norteiam o projeto «VAX.TRUST – Addressing vaccine hesitancy in Europe», financiado pela Comissão Europeia (Grant Agreement N.º 965280) e que está a ser desenvolvido em Portugal no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa (ICS-ULisboa) e na Universidade Nova de Lisboa (UNL). O projeto está também a ser realizado na Bélgica, Itália, Finlândia, Reino Unido, República Checa e Polónia, e pretende desenvolver recomendações sob o ponto de vista da hesitação vacinal, tanto ao nível nacional, como ao nível Europeu.
A hesitação vacinal refere-se quer ao adiamento da vacina, quer à sua recusa. Embora a hesitação vacinal tenha sempre existido, desde o início da vacinação, este fenómeno tem vindo a acentuar-se nas últimas décadas, em particular na Europa. A hesitação vacinal é atualmente, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), uma das maiores ameaças à saúde global. De facto, embora a vacinação permita a prevenção em termos globais de cerca de 2 a 3 milhões de mortes anualmente, tem-se verificado uma forte contestação devida a um conjunto complexo de fatores. Entre estes destaca-se: i) a crítica às práticas dos profissionais de saúde; ii) a refutação das recomendações das autoridades de saúde; iii) a negação da medicina baseada na evidência. Na verdade, tem-se vindo a assistir a múltiplas formas de contestação do saber pericial.

Estudos recentes em Portugal demonstram que a hesitação vacinal por parte dos pais prende-se sobretudo com questões relacionadas com a possibilidade de existirem reações adversas, a eficácia das vacinas e a segurança das mesmas [1] [2]. A hesitação vacinal não é um problema maior em Portugal, ao contrário do que sucede em outros países da Europa, uma vez que a taxa de cobertura vacinal para todas as vacinas recomendadas pelo Programa Nacional de Vacinação (coortes de 2019 a 2012) atingiu o objetivo de 95% de cobertura. A exceção refere-se à coorte de 2013 para a 5ª dose das vacinas contra o tétano, difteria e tosse convulsa que foi de 94%.
No entanto, quando nos debruçamos sobre dados a nível regional verificamos a existência de algumas disparidades em termos da taxa de cobertura vacinal que podem, de certo modo, comprometer a desejada imunidade de grupo. Exemplo disso é o caso de alguns Agrupamentos de Centros de Saúde (ACES) na Região de Lisboa e Vale do Tejo (RLVT) apresentarem coberturas bastantes inferiores a 95%, nomeadamente o ACES de Lisboa Norte (85,5%), Cascais (86,7) e Amadora (88%), para a 2ª e última dose da vacina contra o sarampo, parotidite epidémica e rubéola (VASPR), para as crianças que completaram 6 anos de idade em 2017 (coorte de 2011). Neste âmbito, é de salientar que em 2017 e 2018 ocorreram surtos de sarampo em Portugal, particularmente na RLVT. Um número significativo de pessoas que contraíram sarampo no desenrolar destes surtos, não tinha sido previamente vacinado. Estes surtos ocorreram não só dentro da comunidade, como em contexto hospitalar, alertando para a importância dos próprios profissionais de saúde cumprirem as recomendações em torno da vacinação.
As escassas pesquisas realizadas em torno da hesitação vacinal em Portugal sugerem que as principais razões para a hesitação vacinal por parte dos profissionais de saúde referem-se: i) a dúvidas em torno da eficácia das vacinas; ii) receio de efeitos adversos; iii) falhas na produção e certificação das vacinas; iv) falta de tempo para ser vacinado. A vacinação dos profissionais de saúde é fundamental, uma vez que os mesmos estão na linha da frente dos cuidados de saúde prestados às populações adultas e infantis. Exemplo disso foi o facto de em Portugal os profissionais de saúde terem sido considerados como um dos principais grupos prioritários na toma da vacina contra a COVID-19. A pandemia provocada pelo vírus SARS-CoV-2 veio alertar ainda mais para a importância da vacinação em termos da saúde pública e os problemas associados à hesitação vacinal.

A necessidade de uma vacina contra a COVID-19 e a emergência da mesma em tempo recorde trouxeram dúvidas e incertezas face à sua eficácia e segurança um pouco por todo o mundo, incluindo Portugal. Um estudo [3][4] recente que visou investigar as atitudes das pessoas face à vacinação contra a COVID-19 em 7 países europeus, mostrou que a vontade das pessoas em geral em serem vacinadas, em território nacional, decresceu substancialmente desde Abril de 2020 (cerca de um mês depois de ter sido decretada a pandemia provocada pelo vírus SARS-CoV-2) até Novembro de 2020. Paralelamente, a percentagem de pessoas que tinham dúvidas face à vacinação contra a COVID-19 ou que não queriam ser vacinadas aumentou neste mesmo período. O receio dos efeitos secundários nas vacinas existentes à data para a COVID-19 ou a segurança das mesmas são os fatores mais relevantes no que toca à hesitação quanto à toma de uma vacina contra o vírus SARS-CoV-2.
Porém, estas evidências revelam ainda outras crenças e inseguranças das pessoas como a crença de que a COVID-19 não é assim tão perigosa para a saúde ou preocupações devido a condições prévias de saúde. Mais recentemente, um estudo nacional veio evidenciar que no início de 2021 existia uma percentagem considerável de portugueses que hesitavam (56%) ou recusavam (9%) ser vacinados contra o vírus SARS-CoV-2. Este mesmo estudo mostra que os portugueses não só estão pouco confiantes na vacina como percebem a informação face às vacinas para a COVID-19 como contraditória ou inconsistente, bem como, têm uma pior perceção das medidas governamentais. Estes resultados revelam a importância da existência de políticas públicas sobre vacinação e a sua comunicação de forma clara e transparente à população por parte dos governantes.
Nota: Este projeto recebeu financiamento através do programa de pesquisa e inovação European Union’s Horizon 2020 com o Grant Agreement N.º 965280 (This project has received funding from the European Union’s Horizon 2020 research and innovation programme under Grant Agreement N.º 965280).
Ana Patrícia Hilário é investigadora auxiliar no Instituto de Ciências Sociais, Universidade de Lisboa ao abrigo do Estímulo ao Emprego Científico da Fundação para a Ciência e Tecnologia onde está a desenvolver um projeto sobre as experiências das famílias com crianças com dor crónica. É uma das coordenadoras portuguesas do projeto VAX.TRUST. Ana Patrícia Hilário doutorou-se em Sociologia pela Universidade de Londres e participou em diversos projetos nacionais e europeus. É co-coordenadora da secção de sociologia da saúde da Associação Europeia de Sociologia.
Rita Morais é doutorada em Psicologia pelo ISCTE-IUL (2020). Atualmente é Bolseira de Pós-Doutoramento no âmbito do projeto VAX.TRUST no Instituto de Ciências Sociais, Universidade de Lisboa desde abril de 2021. Anteriormente, trabalhou como assistente de investigação em diversos projetos de investigação na área da Psicologia (áreas temáticas como saúde, identidade social, imigração, educação e ambientais). Os seus interesses de investigação atuais centram-se na área da Psicologia Social e da Saúde, nomeadamente relacionados com a consciência de género na saúde e processos psicossociais e culturais envolvidos nas questões de saúde e doença.
Como citar este artigo: Hilário, Ana Patrícia; Morais, Rita (2021). No ‘olho do furacão’: compreender a hesitação vacinal em Portugal e na Europa. Life Research Group Blog, ICS-Lisboa, https://liferesearchgroup.wordpress.com/2021/05/27 27 de maio (Acedido a xx/xx/xx)