“É assim que gosto de olhar para as coisas”

Rita Morais, doutorada em Psicologia pelo ISCTE-IUL (2020), é Bolseira de Pós-Doutoramento no âmbito do projeto VAX.TRUST no Instituto de Ciências Sociais, Universidade de Lisboa, desde abril de 2021.

É Bolseira de Pós-Doutoramento no projeto VAX.TRUST no ICS-ULisboa (desde abril de 2021). O que lhe parece mais desafiante neste caminho de pesquisa? Sou imensamente agradecida pela oportunidade de trabalhar num projeto como o VAX.TRUST. As questões da vacinação são muito relevantes atualmente. O mais desafiante é sem dúvida trabalhar uma área nova para mim. Do ponto de vista prático, as questões relativas à hesitação vacinal são desafiantes por si só. Se pensarmos que para haja saúde individual precisamos do grupo (e que é exatamente o que acontece no caso da vacinação), então este é o desafio propício para os Psicólogos Sociais e da Saúde. Estou a aprender imenso e espero que esteja a dar imenso também ao projeto.  

No seu doutoramento estudou o impacto de género na avaliação e tratamento de mulheres com sintomas pré-menstruais por profissionais de saúde. Como surgiu o interesse pelo tema? Tentei essencialmente compreender como é que os médicos/as representavam mulheres com sintomas pré-menstruais e que impacto é que isto podia ter nos seus diagnósticos e tratamentos. A ideia surgiu após uma consulta com a minha ginecologista. Queixei-me de alguns sintomas antes do aparecimento da menstruação, que ela nesse momento desvalorizou completamente. Disse-me que eu tinha de “controlar um bocadinho isso”, e que me receitaria uma pílula na mesma. A situação levantou-me uma série de questões. Que imagem é que eu lhe teria transmitido? Será que “isso” a influenciou a desvalorizar completamente os meus sintomas? E se os meus sintomas fizessem parte de algo grave… como é que eu ia poder controlar “isso”? Sou mesmo eu que tenho de controlar “isso”? Seria a pílula é um tratamento para o meu problema? Choveram questões na minha cabeça, fui para casa, pesquisei, propus a ideia à minha orientadora e a partir daí delineamos o projeto.  

Em que medida gostaria que o seu estudo de doutoramento inspirasse a realidade? A ideia da investigação é sempre a de alicerçar a prática e a intervenção. Gostava muito que o meu doutoramento fosse uma das bases para se poder intervir com profissionais de saúde ao nível da consciência de género, isto é, facilitar a sensibilidade e conhecimento necessários para se compreender que questões relacionadas com o sexo e o género têm impacto nos processos de doença e também no que respeita a doenças exclusivas das mulheres. A minha ideia de futuro será sempre trabalhar com estes/as profissionais, para que possam aplicar um modelo biopsicossocial na íntegra, na sua prática, e melhor servirem os/as pacientes.  

O cruzamento entre género e medicina já tem lugar marcado e reconhecido na investigação em Portugal? Penso que as questões de género em Portugal têm um caminho muito bem trilhado já. Consigo lembrar-me de várias/os sociólogas/os e psicólogas/os que fizeram muitíssimo bem este caminho. Contudo, na sua relação com a Medicina penso que ainda estamos numa fase muito embrionária. Não conheço assim tantas pessoas que trabalhem as duas áreas e penso que era muito importante que a investigação por aqui se começasse a destacar, com benefícios para todos (investigadores/as, profissionais e pacientes).  

Numa breve bio descreve que as suas duas filhas impulsionaram a sua investigação em Estudos de Género… quer falar-nos um pouco sobre essa influência? As minhas filhas impulsionam tudo na minha vida. Tudo o que faço, faço a pensar nelas. Mudaram a minha vida e se há algo que tenho a certeza que fiz bem, foi ter estas duas filhas. O meu caminho pelos Estudos do Género começou antes de ser mãe, mas tomou outra dimensão aposteriori. Tomemos o exemplo da consulta que impulsionou o meu doutoramento… gostava de fazer a diferença, para que amanhã se as minhas filhas tiverem um problema não sejam desvalorizadas e descredibilizadas por um pressuposto de que as mulheres são queixosas por natureza ou por um pressuposto de que grande parte dos seus sintomas tem uma raiz psicológica. Este exemplo da consulta de ginecologia é só um exemplo do que pode acontecer. São as minhas filhas que me motivam para que a equidade de género na saúde e noutras áreas, seja a prática e não só a teoria. Visto que a minha vida pessoal tem muita influência na minha vida profissional, também gostava muito que a minha vida profissional tivesse um impacto na minha vida pessoal.  

Nos últimos 10 anos trabalhou em projetos de investigação na área da Psicologia, mas em temáticas muito diversas: saúde, identidade social, imigração, educação e ambiente. Aspetos bons e/ou maus da mudança? Quanto entrei para Psicologia, a minha ideia inicial não passava pela investigação. Queria ser psicóloga clínica e, portanto, trabalhar com as pessoas em consulta. Contudo, as aulas de Psicologia Social no primeiro ano da licenciatura foram em parte responsáveis por mudar a ideia inicial. Fiquei fascinada com alguns dos estudos clássicos e pensei que também queria fazer aquele tipo de estudos. Assim, quando entrei para o Mestrado já delineei o meu caminho a pensar que queria fazer investigação, e quando finalmente terminei o curso, procurei projetos onde poderia contribuir. Sabia que era importante fazer um doutoramento, mas até isso se concretizar fui trabalhando com várias equipas em diversas áreas. Foi muito bom porque me deu toda a experiência que tenho hoje, e ensinou-me muita coisa. Todas as mudanças foram positivas e gostei de trabalhar em todos os projetos com todas as pessoas. Mesmo quando foi menos bom… foi bom. É assim que gosto de olhar para as coisas.  

Um dos seus objetivos futuros passa por trabalhar em intervenção. Há alguma área, alguma problemática, algum público que a motive particularmente? Os profissionais de saúde são o público que mais me motiva, embora não seja o único. As mulheres são sempre um público que gosto em todas as áreas.  

Onde viveu a maior parte da sua vida e o que gostaria de destacar desse lugar? Nasci, mas nunca morei em Lisboa. A Malveira (concelho de Mafra) foi a terra onde cresci, embora por volta dos 12 anos me tenha mudado para outra freguesia do concelho: o Milharado. Atualmente moro mesmo na vila de Mafra, mas a Malveira é a minha terra do coração. Foi ali que cresci, que tive os meus primeiros amigos, as minhas primeiras vivências. Amo o concelho de Mafra num todo, e não me vejo a viver noutro lugar. Estamos perto da serra e perto do mar, somos um concelho lindo e com imensa qualidade de vida… temos cultura e claro ótima comida. Visitar o Palácio Nacional de Mafra é obrigatório bem como o Jardim do Cerco. Como grande gulosa que sou, não deixo de destacar os docinhos maravilhosos deste concelho. Os meus preferidos são as trouxas da Malveira, fradinhos em Mafra e os ouriços na Ericeira. Mas podia continuar com a lista… (risos).


Bio

Rita Morais, doutorada em Psicologia pelo ISCTE-IUL (2020), é Bolseira de Pós-Doutoramento no âmbito do projeto VAX.TRUST no ICS-ULisboa desde abril de 2021.  Os seus interesses de investigação centram-se na área da Psicologia Social e da Saúde, nomeadamente sobre consciência de género na saúde e processos psicossociais e culturais envolvidos nas questões de saúde e doença. Trabalhou como assistente de investigação em diversos projetos de investigação na área da Psicologia (áreas temáticas como saúde, identidade social, imigração, educação e ambiente).

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