A solidariedade não pode entrar em quarentena

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Maria Teresa Nobre, Universidade Federal do Rio Grande do Norte (Brasil)

 

Fique em casa, lave bem as mãos, use álcool gel, alimente-se, hidrate-se, durma bem. Mantenha distância das pessoas, use máscara, saia apenas para resolver questões essenciais, higienize as compras antes de guardá-las. Essas recomendações chegam-nos todos os dias, inúmeras vezes, através de todas as mídias, de modo que diante do pânico e da insegurança, para muitos o mais difícil não é ficar em casa, mas voltar para ela, como relatou-me um amigo por estes dias: “saímos tensos e voltamos estressados. Limpa tudo, lava tudo, sapatos no corredor”.

Mas… e para quem não tem casa e depende dos serviços públicos ou filantrópicos para alimentar-se, dormir, fazer higiene pessoal e até beber água?

Mesmos em tempos normais, a oferta desses serviços já era imensamente inferior à demanda de milhares de pessoas em situação de rua/sem abrigo no Brasil, que em 2015 já passavam dos 100 000, segundo o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA).

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Viaduto do Baldo, em Natal (Brasil), onde vivem cerca de 30 pessoas em situação de rua. Foto: Maria Teresa Nobre (acervo pessoal) Continuar a ler

LIFE Seminar | 14 Janeiro 2020

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Neste seminário LIFE apresento o processo de pesquisa e os principais resultados da minha tese de doutoramento em Sociologia (Programa Interuniversitário de Doutoramento OpenSoc), intitulada “Encarnando a Europeia: biografias corporais, (i)mobilidades e subjetividades de trabalhadoras do sexo trans e travestis brasileiras em Lisboa”. A entrada é livre.

Esta tese busca compreender a construção de biografias corporais e de patrimônios de disposições de trabalhadoras do sexo trans e travestis brasileiras em mobilidade para Portugal e/ou no continente europeu. Por meio de entrevistas compreensivas e teoricamente orientado por uma Sociologia à escala individual e do corpo, analiso as disposições para a modificação do corpo e de produção do Eu produzidas no decorrer de trajetórias de vida que transitam por contextos sociais, geográficos e históricos distintos. Continuar a ler

What’s in a Diary? An Autoethnographic Tale about Self-Narratives

IMG_20180628_115228David Primo is PhD candidate in Social Sciences at the University of Padua, and Visiting PhD at ICS-ULisboa.


Can the private life of a researcher be of scientific interest? A long-standing tradition of research inspired by the (neo)positivist scientific research maintains the idea that the subjectivity of the researcher is a disturbing element that should be erased. Nonetheless, the constructionist turn in social and human sciences undermined the idea that the researcher can be a neutral observer.

Autoethnography develops the non-neutrality of the researcher and claims that personal experiences could be a starting point of the investigation of the cultural context. Indeed, a common idea shared by different approaches to autoethnography is that the awareness about one’s own symbolic and material position in society can shed a light on the power dynamics which are at play in different situations.

But what is Autoethnography?

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Chang (2008, p. 43) affirms that “stemming from the field of anthropology, autoethnography shares the storytelling feature with other genres of self-narrative, but transcends mere narration of the self to engage in cultural analysis & interpretation”. Therefore, what defines this method is the explicit intent to find a link between personal experiences and cultural processes. Continuar a ler

O que pode a capoeira?

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Igor Monteiro – Capoeirista, Pós-doutorado em Sociologia Urbana (UFC), Doutor em Sociologia (UFC), professor da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (UNILAB).


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Roda de capoeira, com os integrantes do Centro Cultural Capoeira Água de Beber, nas margens da Lagoa da Itaperaoba – Serrinha, Fortaleza-CE.Enter a caption

Para além de sua inscrição rebelde no curso da história, a capoeira apresenta-se como algo da ordem da resistência também no que se refere às tentativas, sobretudo mobilizadas por parte da academia, de domesticá-la a partir de definições rígidas, de representações totalizantes e de aspirações de pureza. Ao considerá-la em termos de experiência, ou seja, tomando como horizonte suas figurações concretas, o que parece surgir – engendrando, pelo menos a meu ver, um enorme desafio para qualquer pesquisador ou pesquisadora – é uma expressão de pluralidade, afeita – justamente por este caráter múltiplo – a noções tais como a de mistura, movimento e rasura, por exemplo.

Explico-me melhor, mais que um jogo, uma dança ou luta – como, comumente, era definida por determinados discursos, situados em certos momentos históricos – a capoeira deve ser pensada de maneira mais alargada, tendo reconhecida sua constituição complexa que envolve, apenas à título de ilustração, dimensões como as da ludicidade, ancestralidade, alacridade, circularidade, oralidade e musicalidade. Ainda sob esta perspectiva mais dilatada, a capoeira passa a ser compreendida como uma espécie de dispositivo de reflexão histórico-social, passível de acionamento em distintos contextos (na escola, na comunidade, na rua etc.), que não deixa de ser investida também de conteúdos políticos.

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Integrantes do Centro Cultural Capoeira Água de Beber em ação na rotunda do elevado do Aeroporto Internacional Pinto Martins – Serrinha, Fortaleza-CE.

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