“Onde gastei, eu, hoje, o meu tempo?”

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Vanessa Cunha, ICS-ULisboa

Em plena crise pandémica, o meu relógio parou… o de pulso, o que anda sempre comigo para todo o lado. Parou às 7 horas e 10 minutos. Se da manhã ou da tarde, não sei (é um relógio analógico)… Mas ambos os horários são igualmente sugestivos, pois reenviam-me para a minha existência pré-COVID-19, para um tempo em que 7:10 era (mais coisa, menos coisa) a hora de acordar, com a ajuda do despertador, e em que 19:10 era (mais coisa, menos coisa) a hora de chegada do comboio, de regresso a casa, ao final de um dia de trabalho. Marcadores dos meus ritmos diários, há anos, muitos, apenas dispensados em fins-de-semana e em férias, tempos menos espartilhados por horários rígidos.

Quando o relógio parou fiquei apreensiva: “Logo agora, que está tudo fechado! Onde vou eu desencantar uma pilha?” É preciso dizer que gosto de usar relógio (é uma segunda pele, tal como os óculos) e sempre resisti a substituí-lo pelo versátil telemóvel, que entre tantas coisas que nos permite fazer, ver as horas é apenas uma delas. Não é, contudo, a mesma coisa, não está sempre à mão, ao subtil e natural(izado) rodar do pulso, e é tão dispersivo que não me transmite a segurança de que sou dona do meu tempo (cada qual com a sua mania…).

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O relógio da Vanessa

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Ir para além da dor crónica: contributos sociológicos para a sua compreensão em idade pediátrica

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Imagem2Ana Patrícia Hilário é Investigadora no ICS-ULisboa.


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Como é que as crianças e as suas famílias experienciam a vivência da dor crónica? Que significados as crianças e os seus pais atribuem a esta condição? De que modo as crianças e as suas famílias a gerem? De que forma ela tem impacto sob a vida familiar? Estas representam as principais questões a que o projeto ‘Tornar visível o invisível’, que estou a desenvolver no ICS-ULisboa com o apoio da FCT, procura dar resposta. Continuar a ler

O desenvolvimento social dos valores na infância e na adolescência

139.pngAlice Ramos é socióloga e investigadora no ICS-ULisboa.


Clave_1A Europa enfrenta múltiplos desafios no domínio da integração da diversidade social e cultural com impacto transversal nas várias gerações, quer nos contextos nacionais, quer no plano das relações entre os diferentes países. O projeto de investigação CLAVE: O Desenvolvimento Social dos Valores Humanos na Infância e na Adolescência, estuda a origem dos valores humanos, o seu desenvolvimento durante a infância e a adolescência (dos 6 aos 14 anos), bem como o seu impacto nas representações de justiça, nas atitudes face a diferentes grupos sociais (e.g. idade, género, nacionalidade) e no bem-estar numa perspetiva transnacional. Continuar a ler

Três crianças e um gato cego: crescer juntos, mas ao contrário, na casa da vida

… ou de como o projecto CLAN iniciou o estudo das relações entre as crianças e os animais que com elas (com)vivem


147Verónica Policarpo é socióloga e investigadora no ICS-ULisboa.


HAS Hub@ICS-ULisboaSeis da tarde de um dia de outubro que mais parece de agosto, daqueles antigos, em que o sol queima, mesmo quando já está a desaparecer do horizonte. Tudo está calmo, neste bairro residencial da margem sul do tejo. Tão calmo que a nossa chegada, para a primeira entrevista do projeto CLAN, parece acordar a casa de um sono tranquilo, de sesta de final de tarde. No quintal do lado, dois cães de grande porte olham para nós, do alto da sua impassibilidade. Mas é um daqueles pequenos, cruzado de caniche, que vem ter connosco, a ladrar. Tento falar com ele. Abana a cauda. Está contente. Continuar a ler

Infâncias brasileiras, educação e sentidos de futuro

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Levindo Diniz Carvalho é professor da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Minais Gerais e investigador-visitante no ICS-ULisboa.


A reflexão sobre a infância, educação e sentidos de futuro constitui um instigante desafio, em particular para nós, pesquisadores brasileiros, em um contexto de retrocesso na conquista de direitos sociais, barbárie nas condições de vida das crianças pobres e do risco que se anuncia na implantação de uma visão reducionista e dogmática para as políticas educacionais.

Emblemáticas imagens da infância brasileira informam a complexidade dos  modos de vida de nossas crianças, e exemplificam a trama simbólica em que são tecidas suas experiências em uma sociedade cindida e desigual que conforma distintas e diversas formas de se viver esse ciclo da vida.

Nesse horizonte, as interrogações da sociologia da infância procuram tomar as crianças como o seu centro de interesse, superarando o paradigma biológico: em um nível de análise estrutural buscam compreender a infância como geração. A sociedade, tal como é atravessada por clivagens de classes sociais, dicotomias de gênero, identidades étnicas etc., assenta também em uma ordem geracional, em que coexistem adultos e crianças, “adultez” e infância opondo-se enquanto categorias binárias dessa ordem. Pode-se então dar visibilidade às crianças considerando-as a parte dominada e subalterna dessa ordem geracional, mostrando como elas não têm os mesmos direitos de cidadania dos adultos e que estão também afastadas do acesso aos recursos econômicos.

Entretanto, a criança não está passivamente submetida a essa estrutura. Como sujeito social ativo, ela exerce uma “agência” (agency) nas relações sociais. Esta perspectiva interpretativa evidencia como esses sujeitos constroem processos de subjetivação próprios por meio de sua produção simbólica, estabelecendo interações com os adultos e com seus pares, que as levam a “reproduzir interpretativamente” e recriar a cultura mais ampla e a própria cultura escolar.

No contexto brasileiro, as investigações sobre infância nas ciências sociais informam a complexa realidade da infância e os inseguros mundos de vida das crianças. Ainda que tenhamos tido avanços inéditos, sobretudo na primeira década dos anos 2000, no Brasil, seis em cada dez crianças vivem na pobreza – isto é, aproximadamente 32 milhões de pessoas (PNAD 2015). Dessas, 24 milhões além de viverem com renda insuficiente, têm um ou mais direitos negados, como moradia, água, educação, exploração do trabalho, sendo o saneamento básico a privação mais recorrente.

Os dados mais recentes apontam para a rápida deterioração das condições de vida da criança no Brasil após 2016. Registra-se, por exemplo, o aumento da mortalidade infantil após 20 anos de queda contínua. Observa-se, assim, a fragilidade das conquistas de direitos pela criança, num país onde a democracia é ainda recente e a desigualdade sócio-racial é histórica e persistente.

É das franjas mais empobrecidas da nossa população que se escuta, em uma etnografia, a instigante frase de Ana, uma menina de 6 anos, vítima de violência  doméstica e negligência. À época, a criança já havia vivido por alguns meses em uma instituição de acolhimento, um abrigo, e também com duas diferentes  famílias que faziam parte de um programa chamado ”famílias acolhedoras” cujo objetivo era abrigar crianças. É em uma atividade de produção de desenhos na escola que a menina tematiza o seu complexo mundo social, desenha as diferentes casas em que já morou e, ao olhar repetidas vezes para o desenho, diz: “Eu queria mesmo era morar em um caminhão de biscoito”.

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Desenho de Ana representando as portas casas onde já viveu
Fonte: Carvalho 2015

Apontada como ‘a problemática’, ‘sem futuro’, ‘a suja’ e/ou ‘a coitadinha’ da escola, Ana não é uma metáfora sobre a vulnerabilidade e a pobreza na infância. Ana é uma realidade, um sujeito concreto, sendo representativa de uma geração que teve recente acesso à educação, mas ainda enfrenta a luta cotidiana pelas condições objetivas da vida.

Por outro lado, pelo o fato de estar em uma escola que em tempo integral (ou a “tempo inteiro”), a condição social de Ana ganha visibilidade: ela demanda práticas de cuidado e higiene, passa se a alimentar melhor graças à escola,  mas sobretudo desafia a escola e o papel dessa instituição como agente articulador da rede de proteção social. Sua presença nos convoca, portanto, a ultrapassar uma análise binária acerca da função da escola – ensino versus proteção social;  cidadania escolar versus cidadania plena;  alargamento dos currículos e  diálogos ‘com’ e ‘no’ território versus crença na função única da escola.

Entretanto, o caso de Ana não encerra a imagem da criança pobre brasileira e seus direitos. Ainda que também pontualmente, vale lembrar que temos no Brasil um original exemplo de participação ativa das crianças na cena social: o Movimento Nacional dos Meninos e Meninas de Rua (MNMMR), que tensionou, no final da década de 80 e 90, as ideias sobre as crianças em situação de rua: ‘menores?’; ‘Abandonados?’; ‘Infratores?’.

A participação das crianças no MNMMR deu-se num momento de redemocratização do país e de conquista de direitos, em que o movimento teve papel fundamental  na elaboração e aprovação da Estatuto da Criança e Adolescente, marco legal que institui a noção da proteção integral.  A celebração dos 30 anos da Convenção Internacional dos Direitos da Criança (UNCRC), que acontece em 2019, constitui um precioso momento de reflexão sobre os resultados de sua implementação, expresso nas condições de vida das crianças dos países signatários.

A produção acadêmica sobre o tema revela que o protagonismo dos meninos e meninas de rua na definição e conquista de seus direitos, demonstra, inclusive, uma concepção menos adultocêntrica do que a participação preconizada pela declaração Tal  movimento informou também  novas  lógicas de governança e de afirmação dos direitos da criança e poderia, assim, como o contemporâneo movimento dos “Sem Terrinha”,  inspirar lentes sociológicas sobre a criança, sua agência e  incidência  em políticas e práticas de educação.

 São, entre outras tantas possíveis de serem aqui evocadas, essas diferentes crianças e infâncias que estão em nossas escolas. Diversidade cujos campos da sociologia da Educação e Sociologia da infância, em suas tensas articulações, assumem a tarefa de compreender, na polifonia de suas vozes e as condições conjunturais em que seus discursos são produzidos. Um desafio teórico, epistêmico e metodológico em muitos casos ainda por ser decifrado.

Uma breve aproximação das realidades paradoxais das crianças brasileiras e suas escolas, nos inquieta e nos exige afirmar a necessidade de uma educação inscrita no amplo campo das políticas sociais, lócus de enfrentamento de desigualdades sociais. Esse foi, em alguma medida, o caminho percorrido pelo Brasil entre anos 2003 a 2013.

Entretanto o retrocesso que o Brasil apresenta nesse momento histórico mobiliza a todos nós com grande preocupação. Jair Bolsonaro, presidente eleito nas eleições de 2018 e vinculado à ultradireita, defende, entre outras aberrações, a revisão do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). O líder de Estado chegou a afirmar que ECA deveria “ser cortado em pedaços e jogado no vaso sanitário“. Já nos cinco primeiros meses de mandato, as atuais políticas educacionais caminham para a precarização da oferta da educação pública, criminalização dos professores e para militarização de escolas. Um revés que atinge diretamente a população mais pobre do país.

No desejo de que não nos furtemos do nosso compromisso ético, pergunto: Que sentidos de futuro podemos vislumbrar para as crianças brasileiras neste final da segunda década dos anos 2000? Oxalá possamos avançar em nossos trabalhos na compreensão da singularidade da infância e sua presença na cena social e, assim, encontrar respostas à esta indagação. Mas também que possamos, a partir das nossas lentes,  colaborar, de maneira enfática e posicionada, no engajamento político e pela defesa de seus direitos como crianças.


Como citar este artigo: Carvalho, Levindo Diniz  (2019). Infâncias brasileiras, educação e sentidos de futuroLife Research Group Blog, ICS Lisboa, https://liferesearchgroup.wordpress.com/2019/05/09 09 de Maio de 2019 (Acedido a xx/xx/xx)

A residência e o contacto da criança após dissolução conjugal em Portugal e na Europa

smSofia Marinho é investigadora Pós-Doc no ICS-ULisboa


imagem casas.jpgPor que é que apenas uma minoria das crianças portuguesas tem acesso à possibilidade de residir alternadamente com mãe(s) e pai(s) quando estes se separam?

Em grande parte, porque a legislação portuguesa não reconhece o direito da criança à residência alternada, ou seja, a coabitar 10 a 15 dias com um progenitor e o restante tempo com o outro (no período de um mês), para beneficiar do envolvimento parental de mães e pais em todos os aspetos do seu dia-a-dia. Contudo, ainda que de formas diferentes, este direito já foi consagrado na legislação de vários países europeus. Continuar a ler

Crianças, recomposição familiar e estatuto jurídico do padrasto em Portugal

SA.pngSusana Atalaia é investigadora Pós-Doc no ICS-ULisboa


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O panorama da vida familiar em Portugal alterou-se profundamente ao longo dos últimos 40 anos. Hoje há cada vez menos casamentos mas aumentou o número de casamentos civis, de recasamentos e de casais a viver em união de facto. Há cada vez menos nascimentos mas aumentou o número de nascimentos fora do casamento de pais coabitantes e não coabitantes. Por outro lado, há cada vez mais divórcios e mais famílias de pós-divórcio como é o caso das famílias monoparentais e das famílias recompostas.

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Quem, como eu, frequentou o ensino primário nos anos 80 do século passado lembra-se, certamente, da estranheza com que a situação de ser filho/a de pais divorciados era encarada pelos demais; fossem professores, auxiliares, colegas de escola, amigos e até mesmo outros familiares. Hoje, pelo contrário, esta é uma situação cada vez mais comum. Em 2011, 23,3% das crianças e jovens portugueses (0-17) a residir num núcleo familiar, vivia numa família de pós-divórcio; 15,9% numa família monoparental e 7,4% numa família recomposta. Continuar a ler

Educação infantil: implicações étnicas e raciais

mulekaChristian M. Mwewa é professor na Universidade Federal de Mato Grosso do Sul/Brasil e investigador-visitante no ICS-ULisboa
alexandre.jpgAlexandre Fernandez Vaz é professor na Universidade Federal de Santa Catarina/Brasil e investigador CNPq


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Temos em curso uma pesquisa cujo objetivo é Explicitar, compreender e analisar relações sociais tensionadas e tangenciadas por questões étnicas nos contextos formativos da Educação infantil nos Centros de Educação Infantil na Cidade de Três Lagoas-MS-Brasil[1]. Esta pesquisa tem como objetivos específicos os seguintes:

(1) Mapear em periódicos Nacionais os pressupostos epistemológicos em que são pautados os artigos que tematizam as quetões das relações étnicas na Educação Infantil ou que abordam o tema das crianças;

(2) Analisar tensões da temática étnica nos documentos oficiais Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, mais conhecida por LDB, a Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996; do Referencial Curricular Nacional para a Educação Infantil (2010);

(3) Investigar as práticas pedagógicas promotoras da diversidade frente à formação cultural do(a) educador(a).

Para isto, pretendemos conhecer e analisar as práticas educativas das professoras sobre a temática das relações étnicas. Foram feitas duas perguntas para todas as entrevistadas: (1) o que você entende por relações étnicas e raciais? (2) como a sua concepção de relações étnicas e raciais influenciam a sua prática pedagógica? A primeira etapa da pesquisa foi publicada sob o título de Mediações étnico-raciais no contexto da Educação Infantil em Três Lagoas/MS: um estudo de casoContinuar a ler

Desenvolvimento do preconceito racial na infância: como o preconceito parental e as mensagens transmitidas pelos pais influenciam as atitudes raciais das crianças

cvvRita Correia é doutoranda em Psicologia Social e colabora com o Observatório das Famílias e das Políticas de Família do ICS-ULisboa.


Começo com uma pequena história que ilustra as ansiedades dos pais numa sociedade moderna. Tinha a minha filha uns 2 anos e meio, estávamos a fazer um jogo para a entreter no meio do trânsito: procurávamos pessoas com chapéu. Tudo correu bem até uma vozinha no banco de trás dizer “aquele ali mãe, o preto”. Uma mãe gela nessas circunstâncias e pensa uma série de coisas em catapulta. A principal é, sem dúvida “onde é que ela aprendeu isto?”. No meu caso, a situação não era nada do que eu estava a pensar, ela, limitada pelas suas fracas capacidades linguísticas de dois anos e meio, estava simplesmente a referir-se à cor do casaco de um jovem branco que atravessava a estrada. Mas “o gato estava fora da caixa”, a questão do preconceito, racismo e discriminação era um assunto com que me tinha de confrontar. Eu e todos os pais, educadores e na verdade a sociedade em geral.

As crianças são esponjas culturais: absorvem de forma altamente eficiente tudo o que as rodeia. Aprendem todas as tarefas mundanas (o que comer, como vestir o casaco, dizer obrigada e se faz favor), mas também as formas não explícitas de organização social. E se por um lado isso é útil e essencial para o seu desenvolvimento como adultos que vivem em sociedade, infelizmente inclui aprendizagens sobre questões de estatuto social de diferentes grupos que podem levar a atitudes preconceituosas.

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Photo by Patrick Fore on Unsplash

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‘The neglect of neglect’: factores sociais e fontes de conflito e de ambivalência na decisão sobre o acolhimento institucional de crianças vítimas de negligência

leonorLeonor Bettencourt Rodrigues é Investigadora Pós-Doc no ICS-ULisboa.


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Em Portugal, mais de metade dos casos sinalizados às CPCJ (Comissões de Protecção de Crianças e Jovensreferem-se a casos de negligência parental – i.e., omissões nos cuidados e na relação com a criança que colocam em risco, ou mesmo perigo, o seu desenvolvimento físico e psicológico, incluindo a exposição a comportamentos de risco. Dados preliminares indicam também que os casos de negligência são aqueles que mais são reabertos, i.e., que voltam a ser sinalizados após terem sido encerrados. No meu trabalho tenho procurado compreender quais os múltiplos factores – atitudinais, emocionais, sociais, legais, institucionais, culturais – que influenciam o julgamento e a decisão sobre a medida de promoção e proteção que deve ser aplicada. Mais recentemente, estou a estudar, em particular, a tomada de decisão face a casos de negligência. Continuar a ler