On life: quando é que sabemos demais?

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Sara Merlini, Centro Interdisciplinar de Estudos de Género (ISCSP / ULisboa)

O Verão passado foi vivido intensamente cá em casa. A fase do doutoramento tinha acabado e os tempos turbulentos também. Antes disso, disseram-me que tínhamos sobrevivido a desafios “pouco recomendados” para a nossa idade… O que teríamos nós prevenido e quantos excessos cometemos? A palavra sobre-vivência foi a única que se encaixou na minha descrição de tudo, porque (só) viver implicaria um tipo de usufruto que, de certo modo, nos esteve vedado. Ou melhor, que foi sendo vivido por nós de uma forma muito peculiar. Esses horizontes de expectativa e espaços da experiência, sempre particulares e moldados em função de temporalidades e exigências, amadurecem-nos, constrangem-nos e formatam-nos, às vezes ao ponto da cegueira… Continuar a ler

A solidariedade não pode entrar em quarentena

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Maria Teresa Nobre, Universidade Federal do Rio Grande do Norte (Brasil)

 

Fique em casa, lave bem as mãos, use álcool gel, alimente-se, hidrate-se, durma bem. Mantenha distância das pessoas, use máscara, saia apenas para resolver questões essenciais, higienize as compras antes de guardá-las. Essas recomendações chegam-nos todos os dias, inúmeras vezes, através de todas as mídias, de modo que diante do pânico e da insegurança, para muitos o mais difícil não é ficar em casa, mas voltar para ela, como relatou-me um amigo por estes dias: “saímos tensos e voltamos estressados. Limpa tudo, lava tudo, sapatos no corredor”.

Mas… e para quem não tem casa e depende dos serviços públicos ou filantrópicos para alimentar-se, dormir, fazer higiene pessoal e até beber água?

Mesmos em tempos normais, a oferta desses serviços já era imensamente inferior à demanda de milhares de pessoas em situação de rua/sem abrigo no Brasil, que em 2015 já passavam dos 100 000, segundo o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA).

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Viaduto do Baldo, em Natal (Brasil), onde vivem cerca de 30 pessoas em situação de rua. Foto: Maria Teresa Nobre (acervo pessoal) Continuar a ler

“Onde gastei, eu, hoje, o meu tempo?”

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Vanessa Cunha, ICS-ULisboa

Em plena crise pandémica, o meu relógio parou… o de pulso, o que anda sempre comigo para todo o lado. Parou às 7 horas e 10 minutos. Se da manhã ou da tarde, não sei (é um relógio analógico)… Mas ambos os horários são igualmente sugestivos, pois reenviam-me para a minha existência pré-COVID-19, para um tempo em que 7:10 era (mais coisa, menos coisa) a hora de acordar, com a ajuda do despertador, e em que 19:10 era (mais coisa, menos coisa) a hora de chegada do comboio, de regresso a casa, ao final de um dia de trabalho. Marcadores dos meus ritmos diários, há anos, muitos, apenas dispensados em fins-de-semana e em férias, tempos menos espartilhados por horários rígidos.

Quando o relógio parou fiquei apreensiva: “Logo agora, que está tudo fechado! Onde vou eu desencantar uma pilha?” É preciso dizer que gosto de usar relógio (é uma segunda pele, tal como os óculos) e sempre resisti a substituí-lo pelo versátil telemóvel, que entre tantas coisas que nos permite fazer, ver as horas é apenas uma delas. Não é, contudo, a mesma coisa, não está sempre à mão, ao subtil e natural(izado) rodar do pulso, e é tão dispersivo que não me transmite a segurança de que sou dona do meu tempo (cada qual com a sua mania…).

Vanessas watch

O relógio da Vanessa

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As tecnologias digitais entre os casais com filhos em tempo de Covid-19

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Silvia Di Giuseppe, doutoranda em Sociologia (OpenSoc), ICS-ULisboa

1A Itália foi, e continua a ser, o país europeu mais afectado pela Covid-19. Há semanas que se lê e se ouve falar, nos média, de permanência forçada em casa e possibilidade de saída apenas por extrema necessidade, dois dos imperativos categóricos estabelecidos pelo governo italiano para poder enfrentar a emergência, que os cidadãos devem tentar respeitar tanto quanto possível. Tendo em conta a propagação da pandemia, foram adoptadas medidas de contenção, ou seja, vários decretos legislativos actualizados, de acordo com a gravidade da situação, ao longo dos dias.

A parte mais visível desta situação para os cidadãos é que, na vida quotidiana, as consequências e reacções a estas restrições variam de pessoa para pessoa, apresentando, em alguns casos, um verdadeiro desafio entre risco e possibilidade. Continuar a ir trabalhar, por exemplo, é importante para prover às próprias necessidades económicas e familiares mas, ao mesmo tempo, o perigo de contrair o coronavírus está definitivamente ao virar da esquina. Para além dos pretextos de ir ao supermercado para comprar alimentos, ou à farmácia para medicamentos, outras situações podem acarretar problemas graves.

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Seminário Parent – Childbearing and Parenting in the context of low fertility, family change and the economic crisis

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Ir para além da dor crónica: contributos sociológicos para a sua compreensão em idade pediátrica

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Imagem2Ana Patrícia Hilário é Investigadora no ICS-ULisboa.


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Como é que as crianças e as suas famílias experienciam a vivência da dor crónica? Que significados as crianças e os seus pais atribuem a esta condição? De que modo as crianças e as suas famílias a gerem? De que forma ela tem impacto sob a vida familiar? Estas representam as principais questões a que o projeto ‘Tornar visível o invisível’, que estou a desenvolver no ICS-ULisboa com o apoio da FCT, procura dar resposta. Continuar a ler

Políticas de família no contexto europeu e latinoamericano: concepções, contrastes e desafios

1.pngLiliane Moser é Professora na Universidade Federal de Santa Catarina e investigadora visitante no ICS-ULisboa


Entender as relações estabelecidas entre o Estado e a família tem sido motivo de interesse e pesquisa de diferentes áreas de estudo, como a história, a sociologia, a antropologia, a psicologia, ou o serviço social. Vários estudiosos têm analisado as complexas relações construídas entre o aparato estatal e os grupos familiares, as quais abrangem desde o controle das famílias com o estabelecimento de normas para as relações familiares até à constituição das políticas de proteção social para as famílias e os seus integrantes. Continuar a ler

O desenvolvimento social dos valores na infância e na adolescência

139.pngAlice Ramos é socióloga e investigadora no ICS-ULisboa.


Clave_1A Europa enfrenta múltiplos desafios no domínio da integração da diversidade social e cultural com impacto transversal nas várias gerações, quer nos contextos nacionais, quer no plano das relações entre os diferentes países. O projeto de investigação CLAVE: O Desenvolvimento Social dos Valores Humanos na Infância e na Adolescência, estuda a origem dos valores humanos, o seu desenvolvimento durante a infância e a adolescência (dos 6 aos 14 anos), bem como o seu impacto nas representações de justiça, nas atitudes face a diferentes grupos sociais (e.g. idade, género, nacionalidade) e no bem-estar numa perspetiva transnacional. Continuar a ler

Três crianças e um gato cego: crescer juntos, mas ao contrário, na casa da vida

… ou de como o projecto CLAN iniciou o estudo das relações entre as crianças e os animais que com elas (com)vivem


147Verónica Policarpo é socióloga e investigadora no ICS-ULisboa.


HAS Hub@ICS-ULisboaSeis da tarde de um dia de outubro que mais parece de agosto, daqueles antigos, em que o sol queima, mesmo quando já está a desaparecer do horizonte. Tudo está calmo, neste bairro residencial da margem sul do tejo. Tão calmo que a nossa chegada, para a primeira entrevista do projeto CLAN, parece acordar a casa de um sono tranquilo, de sesta de final de tarde. No quintal do lado, dois cães de grande porte olham para nós, do alto da sua impassibilidade. Mas é um daqueles pequenos, cruzado de caniche, que vem ter connosco, a ladrar. Tento falar com ele. Abana a cauda. Está contente. Continuar a ler

Procriação e Parentalidade em contexto de baixa fecundidade, mudança familiar e crise económica

111Vanessa Cunha é socióloga e investigadora no ICS-ULisboa.


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O projeto PARENT: Procriação e Parentalidade em contexto de baixa fecundidade, mudança familiar e crise económica pretende apreender o impacto da crise económica e dos novos valores da parentalidade nas perspetivas e nas práticas procriativas em Portugal[1]. Tem como ponto de partida a severa queda da fecundidade durante a recente recessão, que acentuou o persistente declínio da fecundidade das últimas décadas, e as suas consequências para pais, famílias e sociedade portuguesa no seu conjunto. Continuar a ler