Livros & capítulos em Maio

POST_SCRIPTUM.png

Rubrica mensal com destaque para publicações (livros, capítulos de livros e artigos) de investigadores/as do LIFE Research Group (ICS-ULisboa).

Boas leituras!


LIVROS

José Machado Pais
Jóvenes y Creatividad. Entre futuros sombríos  y tiempos de conquista
Barcelona: Ned Ediciones. ISBN: 978-84-16737-89-5]; eISBN: 978-84-16737-93-2.

Excerto do prólogo Hijo del fado: una conversación con José Machado Pais, de Carles Feixa:

Como Paulo Freire nos enseñó, la inexorabilidad del futuro es la negación de la historia. Por lo tanto, el futuro debe ser cuestionado en lugar de ser delimitado. En el presente libro, me propongo precisamente un cuestionamiento del futuro que nos permita imaginarlo. De esa forma, hacemos presente el futuro. ¿Y cómo podemos imaginar el futuro? En la lógica de los sistemas que se autoconstruyen, es decir, reflexivamente.

José Machado Pais


Bojan Bilić
Trauma, Violence, and Lesbian Agency in Croatia and Serbia: Building Better Times
Cham: Palgrave Macmillan. ISBN 978-3-030-22959-7

O livro de Bojan Bilić, Trauma, Violence, and Lesbian Agency in Croatia and Serbia: Building Better Times, trata os trauma da guerra, da homofobia e do capitalismo neoliberal como uma experiência verbal impenetrável que deseja ser narrada. A monografia explora as maneiras pelas quais a linguagem lésbica feminista emergiu repetidamente no contexto de um forte silenciamento patriarcal que cercou os conflitos armados de a sucessão jugoslava.


CAPÍTULO DE LIVRO

Destaque também para o capítulo de José Luís Garcia acerca dos biobancos, em que se discutem as complexas relações entre práticas científicas, desenvolvimentos tecnológicos e dinâmica mercantil em torno da vida e dos bens que corporizam.

José Luís Garcia
Os biobancos e a questão das práticas técnológicas e da dinâmica mercantil em torno da vida e dos bens que corporizam
In Silva, J. P. e Barros, H. (Eds.), Biobancos, investigação e Saúde Pública: promessas e desafios, pp. 59-67 . Porto: Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto. ISBN 978-989-99644-4-0.

“Onde gastei, eu, hoje, o meu tempo?”

Life_GOES ON 1

Vanessa Cunha, ICS-ULisboa

Em plena crise pandémica, o meu relógio parou… o de pulso, o que anda sempre comigo para todo o lado. Parou às 7 horas e 10 minutos. Se da manhã ou da tarde, não sei (é um relógio analógico)… Mas ambos os horários são igualmente sugestivos, pois reenviam-me para a minha existência pré-COVID-19, para um tempo em que 7:10 era (mais coisa, menos coisa) a hora de acordar, com a ajuda do despertador, e em que 19:10 era (mais coisa, menos coisa) a hora de chegada do comboio, de regresso a casa, ao final de um dia de trabalho. Marcadores dos meus ritmos diários, há anos, muitos, apenas dispensados em fins-de-semana e em férias, tempos menos espartilhados por horários rígidos.

Quando o relógio parou fiquei apreensiva: “Logo agora, que está tudo fechado! Onde vou eu desencantar uma pilha?” É preciso dizer que gosto de usar relógio (é uma segunda pele, tal como os óculos) e sempre resisti a substituí-lo pelo versátil telemóvel, que entre tantas coisas que nos permite fazer, ver as horas é apenas uma delas. Não é, contudo, a mesma coisa, não está sempre à mão, ao subtil e natural(izado) rodar do pulso, e é tão dispersivo que não me transmite a segurança de que sou dona do meu tempo (cada qual com a sua mania…).

Vanessas watch

O relógio da Vanessa

Continuar a ler

As tecnologias digitais entre os casais com filhos em tempo de Covid-19

Life_GOES ON 1

Silvia Di Giuseppe, doutoranda em Sociologia (OpenSoc), ICS-ULisboa

1A Itália foi, e continua a ser, o país europeu mais afectado pela Covid-19. Há semanas que se lê e se ouve falar, nos média, de permanência forçada em casa e possibilidade de saída apenas por extrema necessidade, dois dos imperativos categóricos estabelecidos pelo governo italiano para poder enfrentar a emergência, que os cidadãos devem tentar respeitar tanto quanto possível. Tendo em conta a propagação da pandemia, foram adoptadas medidas de contenção, ou seja, vários decretos legislativos actualizados, de acordo com a gravidade da situação, ao longo dos dias.

A parte mais visível desta situação para os cidadãos é que, na vida quotidiana, as consequências e reacções a estas restrições variam de pessoa para pessoa, apresentando, em alguns casos, um verdadeiro desafio entre risco e possibilidade. Continuar a ir trabalhar, por exemplo, é importante para prover às próprias necessidades económicas e familiares mas, ao mesmo tempo, o perigo de contrair o coronavírus está definitivamente ao virar da esquina. Para além dos pretextos de ir ao supermercado para comprar alimentos, ou à farmácia para medicamentos, outras situações podem acarretar problemas graves.

Continuar a ler

Regressando à América do Sul – Emerson Pessoa, alumni de doutoramento (ICS-ULisboa)

RESEARCHING_LIVES.png

emerson

Emerson, onde estás agora e que planos tens para o presente?

Após o fim do doutoramento regressei para a Universidade Federal de Rondônia (UNIR-Vilhena) para retomar as atividades como professor de Sociologia no Departamento de Administração. Neste semestre estou a lecionar as disciplinas de Sociologia, Antropologia e Metodologia da Pesquisa Científica para as licenciaturas em Administração e Letras. Os planos a curto-médio prazo são prosseguir com as atividades como coordenador do grupo de pesquisa HIBISCUS (Grupo de Pesquisa e Extensão sobre Gêneros, Discursos e Comunicação na Amazônia Ocidental), a orientação de Trabalhos de Conclusão de Curso e de Dissertações de Mestrado, Projetos de Extensão e a publicação dos artigos da minha tese.

Na tua bagagem o que levaste de melhor da academia portuguesa?

Os 4 anos em que cursei o doutoramento no ICS foram cruciais para o desenvolvimento das minhas habilidades como pesquisador. O ICS, principalmente na pessoa do meu orientador Vitor Ferreira, foi fundamental para o aprendizado de novas metodologias, técnicas de pesquisa e de análises de dados que serão utilizados nesta nova fase da minha trajetória como pesquisador e professor. Além disso, o doutoramento propiciou o contato com inúmeros pesquisadores de diversas regiões do mundo e consequentemente, a compreensão das diferenças, desigualdades e dificuldades dos campos acadêmicos. Por outro lado, as experiências na universidade portuguesa possibilitaram percepções críticas sobre a produção do conhecimento científico em Portugal e no Brasil e que serão valiosos para este novo momento da minha vida profissional.

No futuro, o ICS poderá vir a…

Ser a minha instituição de acolhimento para um futuro pós-doutoramento e/ou um parceiro no desenvolvimento das minhas próximas pesquisas. O ICS será lembrado como uma casa onde vivi um importante momento da minha trajetória acadêmica. Mais do que isso, um local onde constituí laços profissionais e de amizade. Agradeço à comunidade ICS pelo suporte recebido durante toda a minha estadia na cidade de Lisboa e no Instituto.

 

BIO

Emerson Pessoa doutorou-se em Sociologia (Programa Interuniversitário de Doutoramento OpenSoc), em 2020. Graduou-se em Ciências Sociais pela Universidade Estadual de Maringá (UEM) e fez mestrado nesta mesma área e instituição. As suas pesquisas permeiam as discussões sobre corpos, gêneros, sexualidades, biotecnologias e processos de subjetivação.

 

 

A Conferência Internacional “(Non) Reproductive Freedom”, por Anne Cova

EVENTS_LIFE.png

Imagem4Anne Cova (historiadora), membro do GI LIFE, participou na Conferência Internacional “(Non) Reproductive Freedom”, na Ca’ Foscari University of Venice, em Veneza, no passado dia 5 de dezembro, com a comunicação “Feminisms and neo-malthusianisms during the French Third Republic”. A convite do GI partilha algumas impressões sobre o evento.

Continuar a ler

As mulheres e o associativismo em Portugal (1914-1974)

isabel

 

Isabel Freire é socióloga e investigadora no ICS-ULisboa.


cropped-dkO projeto de investigação WOMASS (do inglês Women and Associativism) estuda organizações femininas e feministas criadas em Portugal entre 1914 e 1974. Desenvolvido no ICS-ULisboa, sob coordenação de Anne Cova (historiadora) e cocoordenação de Vanda Gorjão (socióloga), com financiamento da Fundação para a Ciência e Tecnologia (PTDC/HAR-HIS/29376/2017), tem uma duração estimada de 3 anos (2018-2021), e conta com uma equipa de 10 investigadores afiliados em 5 organismos nacionais (ICS-UL, ISCSP-UL, NOVA FCSH, Universidade Católica e Universidade do Minho): Ana Costa Lopes, Fátima Mariano, Isabel Freire, João Esteves, Manuela Tavares, Natividade Monteiro, Raquel Rego e Sílvia Espírito-Santo fazem parte da equipa. Continuar a ler

As TIC nas actividades quotidianas e o seu peso nas relações familiares: comparação entre mulheres portuguesas e italianas

silviaSilvia Di Giuseppe é Doutoranda em Sociologia (OpenSoc) no ICS-ULisboa


 

1

Pretendo, na minha pesquisa de doutoramento, conhecer o quotidiano de mulheres na sociedade digital, numa comparação entre Portugal e Itália. Mais especificamente, o meu interesse é orientado, por um lado, para as representações e os significados que as mulheres atribuem às tecnologias digitais de informação e comunicação (TIC), e, por outro, para as práticas, ou seja, as modalidades de acesso e uso nos diferentes contextos do seu dia-a-dia (exercício da profissão, tarefas domésticas e atividade de entretenimento). Entendemos por TIC os equipamentos digitais (ex. computador, smartphone, tablet), mas também as redes de informação e comunicação (ex. emails, Facebook, Youtube).

Um grande problema de interesse sociológico ainda é o da questão da conciliação família-trabalho: estatisticamente, prova-se que é sobre as mulheres que recai o grosso dessa conciliação, apesar de alguns avanços masculinos na esfera doméstica; o que se traduz numa desigualdade de oportunidades de sucesso e progresso profissional e salarial. Outro fenômeno a assinalar é a massificação das tecnologias digitais de informação e comunicação nas diversas esferas de atividade quotidiana. Não podemos subestimar a importância da relação entre media, novos media, vida pública e vida privada (Baym, 2010; Papacharissi, 2010; Monteiro e Policarpo 2011; Aboim, 2011; Almeida 2011). As TIC estão em constante mudança (os novos devices de hoje ficarão obsoletos amanhã), criam conexões cada vez mais intensas entre o espaço público e privado e na relação entre atividades on-line e off-line (Almeida, Alves, Delicado e Carvalho, 2014).

No cenário da conciliação família-trabalho (onde as TIC são mais ou menos presentes e importantes), pretendo observar a importância das TIC para as mulheres nos seus quotidianos e rotinas: no trabalho profissional, nas tarefas domésticas (divididas ou não com os seus parceiros), nos cuidados aos filhos, no lazer pessoal e familiar. No ambiente doméstico vemos, por exemplo, que essas ferramentas são cada vez mais utilizadas pelos membros da família. Há, portanto, uma espécie de negociação para o uso das TIC entre os casal e pais e filhos – já foi destacada a importância da negociação na vida conjugal e na parentalidade contemporâneas (Marinho, 2011; Cunha e Marinho, 2018).

Pretendo averiguar, portanto, como as TIC se integram e redefinem o quotidiano feminino e considero que é de sociologicamente relevante ampliar a perspectiva de conciliação família-trabalho à luz das mudanças da sociedade digital.

Segui uma metodologia qualitativa e realizei 44 entrevistas semi-estruturadas a mulheres portuguesas e italianas. Em particular, a amostra é composta por mulheres activas residentes na área metropolitana de Lisboa e Roma, entre 25 e 49 anos, de diferentes profissões e níveis de escolaridade, que vivem em conjugalidade e com filhos. Entre outras questões, o meu primeiro objetivo foi observar e interpretar o impacto das TIC nas atividades quotidianas destas mulheres, quer ao nível laboral, quer no espaço doméstico, nomeadamentenas suas relações familiares.

Para tal, comecei por dividir as entrevistadas em dois grupos distintos com base na profissão e no nível de escolaridade: mulheres licenciadas com profissões mais liberais e científicas (empregadas técnicas e especialistas), e mulheres não licenciadas que trabalham sobretudo no sector dos serviços pessoais e comerciais, em contacto com o público ou em empresas (empregadas de serviços pessoais, comércio e escritório).

Basicamente, segui quatro hipóteses: i) as desigualdades sociais são reduzidas em termos de acesso à tecnologia, mas persistem as diferenças nas práticas e representações; ii) o modo de uso das tecnologias digitais varia de acordo com a especialização/qualificação, uma vez que diferentes trabalhos envolvem diferentes relações com as TIC; iii) o modo como as TIC são usadas influencia os posicionamentos em termos de pontos de vista pessoais em relação às TIC; por último, iv) as TIC têm um peso mais ou menos marcado nas relações familiares.

A observação dos resultados preliminares permitiu verificar que, de facto, existem diferenças expressivas por tipo de profissão, na medida em que há profissões que exigem um maior ou menor nível de literacia digital. Assim, de acordo com as tarefas associadas a cada profissão, há um uso diferente das TIC no contexto de trabalho.

2

O computador é a ferramenta que muitas das entrevistadas possuem e usam no ambiente de trabalho. No grupo das empregadas técnicas o computador e o smartphone são usados em simultâneo para a consulta de e-mails e sites, o uso de bases de dados e programas de computador. Os media são usados também para fins de trabalho, como o WhatsApp e o Skype. No grupo das empregadas de comércio, o uso do computador é mais limitado, varia entre ser fundamental, servir de complemento às tarefas principais ou ser praticamente inexistente. Aqui também o computador é usado para a consulta de emails e programas de computador (ex. o Office).

O smartphone é a ferramenta que todas as entrevistadas mais utilizam no espaço doméstico desde simples conversas com familiares e amigos à consulta de aplicações como o Whatsapp, o Facebook, a Amazon, o Youtube, os Jogos. Em alguns dos casos, as empregadas técnicas acedem às TIC em casa também para trabalhar, enquanto as empregadas de comércio as usam para comunicar com familiares e amigos (ex. para saber como estão) no auxílio às tarefas escolares dos filhos ou ainda para entreter as crianças com os jogos. O uso do Facebook é praticamente semelhante, mas enquanto as empregadas técnicas visualizam mais as notificações e partilham posts, as empregadas de comércio colocam mais fotos e gostos e fazem comentários nas publicações.

3.jpg

O uso do smartphone é muito comum também no tempo livre para comunicar e marcar encontros com familiares e amigos, procurar eventos para os seus filhos (Facebook) e visualizar vídeos de música e receitas (Youtube). Em relação ao tempo livre gasto em casa, às vezes também é usado para trabalhar no grupo das empregadas técnicas, enquanto as empregadas de comércio fazem mais compras online ou verificam ainda as diferenças de preços na Internet.

4.jpg

Tomando agora em consideração as  representações sobre os usos das TIC, as empregadas técnicas confirmam que as TIC alteram de forma positiva a maneira como exercem a sua actividade profissional. Em geral, melhoram a qualidade do trabalho, o qual passou a ser mais rápido e imediato. As empregadas de comércio, por um lado, concordam com esta tendência, por outro lado, não notaram qualquer mudança.

Relativamente ao espaço doméstico, as entrevistadas concordam que as TIC são úteis para ter acesso imediato a qualquer contacto ou informação e que as pessoas, com elas, são mais independentes. As TIC são sobretudo úteis na pesquisa de informações escolares para ajudar os filhos. Em termos de alterações negativas em casa por parte das TIC, o traço comum observado é que estas condicionam as relações sociais na família porque a interação entre os membros passou a ser mais reduzida. As empregadas técnicas argumentam que o trabalho pode sempre tornar-se parte das atividades quotidianas, mesmo no tempo livre, e nesse sentido as TIC facilitam essa dinâmica.  O problema colocado pelas empregadas de comércio é que, devido às TIC, a comunicação na família torna-se bastante mais reduzida, enquanto as crianças tendem a ser hoje em dia mais preguiçosas porque os jogos virtuais não estimulam muito a sua imaginação.

Em termos das alterações no tempo e práticas lazer, e num sentido positivo, as empregadas técnicas argumentam que as TIC são úteis para organizar o tempo livre nas viagens (reservas de hoteis, escolha de lugares para visitar), enquanto as empregadas de comércio valorizam o entretenimento (pessoal e das crianças), bem como a partilha de experiências com familiares e amigos. Num sentido negativo, as empregadas técnicas entendem que, às vezes, as pessoas são forçadas a trabalhar mesmo no seu tempo livre, e que as TIC facilitam este processo porque o indivíduo está sempre contactável, ao passo que as empregadas de comércio argumentam que as TIC tendem a isolar os familiares e que, em muitos casos, podem criar desentendimentos.

Em conclusão, as diferenças entre os dois grupos de mulheres estão marcadas por posições e motivações muito distintas em relação às TIC, em particular na maneira como as TIC são usadas nas mais variadas esferas de actividade. Talvez dizer que as profissões, muito mais do que a nacionalidade, moldam estas práticas. Observou-se, de facto, por um lado que, de acordo com o tipo de profissão, há uma procura maior ou menor pelo uso de TIC. Por exemplo, uma investigadora usará o computador de forma muito mais intensiva e diversificada do que uma empregada numa loja de electrodomésticos.

Por outro lado, notou-se que, às vezes, o uso de TIC no trabalho pode, em certos casos, vir a influenciar o seu uso em outros contextos, como o doméstico e o lazer. É por exemplo o caso de entrevistadas que em contexto laboral usam os e-mails para comunicarem com os empregadores, clientes ou colegas, e por vezes, com os seus próprios parceiros ou com a escola dos filhos, ou que quando se encontram no espaço doméstico também fazem uso dos emails para fins de trabalho.  Portanto, não se excluí a existência de outros factores influentes, mas, por agora, considera-se que o modo de usar as TIC no trabalho também se pode reflectir em outras esferas de actividades quotidianas.

5.jpg


Como citar este artigo: Di Giuseppe, Silvia (2019). As TIC nas actividades quotidianas e o seu peso nas relações familiares: comparação entre mulheres portuguesas e italianasLife Research Group Blog, ICS Lisboa, https://liferesearchgroup.wordpress.com/2019/06/11 11 de Junho de 2019 (Acedido a xx/xx/xx)

(Des)fazer o masculino e o feminino em Portugal e no Reino Unido

sara.pngSara Merlini é doutoranda em Sociologia (OpenSoc) no ICS-ULisboa.


Quando nos referimos ao género podemos estar a falar de coisas tão diferentes como as categorias legais de cidadania, os traços reprodutivos, a expressão cultural de uma diferença, a autodefinição ou sentido de pertença pessoal, os modos de organização coletiva dos espaços (por ex. as casas de banho ou balneários), etc. O género refere-se, portanto, a um conceito complexo e as suas conceções têm mudado.

No âmbito do projeto TRANSRIGHTS realizámos uma pesquisa de doutoramento para compreender como as transgressões de género contribuem para (des)fazer a oposição entre masculino e feminino. Através do método biográfico-interpretativo procurámos retratar as principais mudanças e permanências das práticas de género transgressivas em Portugal e no Reino Unido, países pioneiros no reconhecimento jurídico-legal da identidade de género. Em ambos os países verifica-se uma transformação nos modos como se reconhece e vive o género, na qual a problemática transgénero e/ou não binária tem assumido um lugar de destaque, seja para ilustrar a diversidade, seja enquanto representantes legítimos de uma alternativa.

O reconhecimento da existência e importância de outras pertenças tornou-se mais generalizado na viragem para o novo milénio, marcada pela explosão das categorias de género alternativas, especialmente através do ciberespaço. A diversidade começou gradualmente também a ser reconhecida nos dispositivos legais de diversos países – nomeadamente Portugal (Lei 38/2018) – e protegida por vários organismos supranacionais de Direitos Humanos.

O crescente enquadramento da identidade de género como um direito (autodeterminado e/ou indeterminado) tem beneficiado das lutas pelo reconhecimento da diversidade de género e da separação entre o campo biomédico e o campo jurídico-legal na sua classificação e regulação. A possibilidade de o sistema de classificação oficial do género conter três opções – i.e. de marcador indeterminado – nos documentos de identificação está disponível em 11 países (1) e a ser discutida por muitos outros.

Porém, na última década, estas mudanças sobre as conceções e modos de regulação do género foram acompanhadas de guerras culturais (ou gender wars) particularmente acesas e que manifestam crenças muito enraizadas sobre os significados e valores identitários das experiências de género. São discussões que remetem frequentemente para o questionamento da exclusividade das pertenças masculina ou feminina. E que permitem identificar o predomínio de conceções e convenções sociais baseadas na naturalização das diferenças entre masculino e feminino, vistos como duas categorias ou classes discretas e opostas – patentes na ideia que “os Homens são de Marte e as Mulheres são de Vénus”. A aceitação do sistema classificatório binário está, aliás, cultural e socialmente enraizada em Portugal e no Reino Unido, sendo justificada e reforçada. Uma naturalização que dificulta a visibilidade e o consentimento de outras interpretações possíveis das práticas de género.

Um dos maiores obstáculos na compreensão dos efeitos e lógicas de poder das relações de género passa precisamente pela tensão entre a diferença e a semelhança. Se o masculino e o feminino podem ser pensados e/ou vistos como semelhantes, em que medida gerariam desigualdades? Serem (essencialmente) diferentes significa que são assimétricos?

Pensarmos as práticas de género como um todo implica procurar perceber o que é que contribui autonomamente para as diferenças e qual a sua relação com a ordem social existente. Incide sobre os processos de (des)legitimação das práticas, dos modos prescritos da masculinidade e da feminilidade. Possibilidades que são tanto cíclicas, como variáveis no tempo e no espaço. Esta variabilidade não está somente relacionada com uma dada época em que, por exemplo, as mulheres não podiam usar calças, frequentar determinados espaços para homens ou mesmo votar. Ou de um tempo em que um homem a chorar era sinónimo de fraqueza. Diz também respeito à variação interpretativa da diferença (binária, antagónica) e do peso que o género pode assumir como parâmetro de reconhecimento da realidade social.

A transgressão de género consiste numa alternativa que realça os mecanismos de poder e a sua cumplicidade. Reconhecê-la implica acionar as grelhas interpretativas que definem como se (des)faz o género num determinado espaço e momento. A mesma performance de género pode ter significados muito diferentes para quem a testemunha e, em maior ou menor grau, reiterar a sua significância transgressiva ou não. Por exemplo, uma mulher casar de calções em vez de vestido poderia ser interpretado como uma performance transgressiva pelo simples facto de que a convenção social nessa situação estabelece outra indumentária. Essa transgressão seria contextual e eventualmente pontual na medida em que remete para uma situação específica – o dia e o lugar de um casamento particular – e que teria ou não alguma visibilidade (por exemplo mediática). Existem inúmeros exemplos conhecidos de transgressões de género mediatizadas – das interpretações de David Bowie à personificação de Conchita Wurst no Festival da Eurovisão de 2014.

Aquilo que interessa reter destes exemplos, a par de muito outros que poderíamos dar, é que é sobretudo nos elementos visíveis daquilo que o género simboliza que se reconhecem e interpretam as diferenças. E as mudanças nos códigos sociais e institucionais não ocorrem ao mesmo ritmo, podendo inclusive não haver transformações significativas nos modos como se estruturam os limites e as transgressões. Ou seja, os significados simbólicos ou expressivos das transgressões de género podem não ter efeitos concretos, mantendo inalterada a ordem de género – o jogo de forças sociais que produz e legitima as diferenças.

Em linha com Foust, a transgressão de género requer o reconhecimento do que está a ser transgredido. O predomínio da divisão dicotómica e antagónica do género em feminino ou masculino estrutura os seus limites e, simultaneamente, determina a transgressão. O leque de disposições e repertórios (apesar de negociáveis) em que baseamos a compreensão do género constrange as interpretações possíveis e o reconhecimento dos limites (imediatos ou mediados) considerados invioláveis.

Mas estes constrangimentos são distintos para quem não cumpre e para quem transpõe o posicionamento de género atribuído, à nascença e ao longo da vida. Participar numa atividade ou ter uma preferência tipicamente associada ao género “oposto” é um incumprimento transversal e frequente. Transpor o posicionamento de género legível, i.e. assumir uma pertença ou posição de género não binária constitui uma transgressão de primeira ordem. Há consequências efetivas em não pertencer exclusivamente ao feminino ou ao masculino. Para quem sente desconforto com a classificação do género em duas categorias discretas e opostas, as experiências são vividas num permanente limbo.

Situar-se de forma não exclusiva relativamente ao binário de género implica lidar com as fronteiras de género legitimadas, validadas e reconhecidas. São práticas interpretadas como transgressivas porque a perceção de género legítima é frustrada, porque há um testemunho denunciante, porque há uma dúvida quanto ao pronome a ser usado, etc. Existem, aliás, diferentes possibilidades para contrariar ou desconectar o reconhecimento da pertença ao género binário:

1

Figura 1. As possibilidades não binárias

Estas pertenças e posicionamentos alternativos são, no fundo, o resultado que revela, contesta e reconstrói a edificação social dominante das práticas de género. E permitem-nos pensar as dinâmicas de mudança e permanência das experiências de género. Repensar a ordem de género e as alternativas existentes para pertencer. Seja como categoria de identidade de género, seja como movimento ativista, desde 2012 que o não binário tem vindo a consolidar-se e a agregar as agendas de emancipação do género. Nomeadamente, nas lutas de reconhecimento do género além das duas possibilidades de identificação legal existentes, na defesa da linguagem inclusiva e formas neutras de tratamento, na democratização da diversidade de género, na representação e expressão de alternativas à exclusividade.

Ainda não dispomos de dados substantivos e extensivos em relação aos posicionamentos e pertenças de género. Designadamente, quantas pessoas optariam pela possibilidade de marcador indeterminado nos documentos de identificação ou quantas pessoas se identificam com ambos os géneros reconhecidos, com nenhum ou com outras categorias além do binário. Os estudos disponíveis, direcionados tanto à população em geral como especificamente à população transgénero e/ou não binária, apontam para um número crescente de pessoas que se autoidentificam de forma alternativa (TGEU, 2018, Richards et al. 2016; Hines e Sanger, 2010).

Com esta investigação verificámos que o género não tem importância somente pela função reprodutiva (ou de manutenção da espécie humana). Como referimos num artigo, o género é importante pelos significados que acarreta à pertença e à desejabilidade de ser aceite, reconhecível, reputado. Incluirmos o não binário na equação, na especificação das diversas regras em jogo, na possibilidade desta alternativa ser reconhecida nas interações sociais é afirmar que o género não precisa de ser somente oposto, assimétrico e dicotómico.

Os dados encontrados levantam a hipótese de que a mudança e a transformação ao nível do que fazemos com o género implica tanto o reconhecimento da pluralidade (ou fluidez) como o respeito pela diferença no (des)fazer do género. A maior abertura à diversidade de género em Portugal e no Reino Unido requer uma inclusão efetiva de outras modalidades de pertença e tradições normativas, que seja menos punitiva de quem não cumpre com a expectativa de feminilidade ou masculinidade.


Este projecto de doutoramento reflecte apenas as opiniões da autora e a União Europeia não pode ser responsabilizada por qualquer uso que possa ser feito das informações nele contidas. A investigação conducente a estes resultados foi realizada através de uma bolsa financiada pelo Conselho Europeu de Investigação no âmbito do Sétimo Programa-Quadro da União Europeia (FP7 / 2007-2013) / ERC Grant Agreement nº 615594.

Financiamento no âmbito do Projeto TRANSRIGHTS – Gender citizenship and sexual rights in Europe: Transgender lives from a transnational perspective, Principal Investigator: Sofia Isabel da Costa d’Aboim Inglez, Host Institution: Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa


(1) Nova Zelândia (2012), Dinamarca (2014), Índia (2014), Malta (2015), Nepal (2015), Austrália (2016), 8 estados dos EUA (desde 2017), Alemanha (2018), Holanda (2018), Paquistão (2018), Canadá (2018).


Como citar este artigo: Merlini, Sara  (2019). (Des)fazer o masculino e o feminino em Portugal e no Reino UnidoLife Research Group Blog, ICS Lisboa, https://liferesearchgroup.wordpress.com/2019/05/23 23 de Maio de 2019 (Acedido a xx/xx/xx)

Reading ‘LESBIAN ACTIVISM IN THE (POST-)YUGOSLAV SPACE: SISTERHOOD AND UNITY’

CAP


eduardaEduarda Ferreira is a researcher of CICS.NOVA – Interdisciplinary Centre of Social Sciences, at FCSH/NOVA (e.ferreira@fcsh.unl.pt)


‘Lesbian activism in the (Post-) Yugoslav space: sisterhood and unity’, edited by Bojan Bilić and Marija Radoman and published by Palgrave Macmillan (2018), is an important book for many reasons. Because it is about a geopolitical reality that still needs to be claimed and understood, the (post-)Yugoslav space; because it is about activism on a time that is ever more urgent to stand up and resist the backlash on human rights; because it is about discrimination on ground of sexual orientation, still a widespread reality in most countries all around the world; because it is specifically about lesbians and gender matters in all contexts of life including, or even particularly, in what concerns sexuality and human rights; because although it is written in English it is not a book that (re)produces the Anglo-American hegemony on academia and production of knowledge, it uses English as a working language to expose Yugoslav activist struggles to international audiences. Continuar a ler

Images of caring masculinities: fatherhood and childcare

juJussara Rowland, ICS-ULisboa

ritaRita Correia, ICS-ULisboa


“Although the camera is an observation station, the act of photographing is more than passive observing (…) it is a way of at least tacitly, often explicitly, encouraging whatever is going on to keep on happening.”

Susan Sontag, On Photography


When Swedish photographer Johan Bävman took a long paternity leave to be at home with his son, he discovered that he had no one he could relate to in spite living in the most equal country in terms of parental leave. So, he decided to take a series of photos of fathers who have chosen to stay at home with their child for at least six months. His goals were multiple: to understand who those fathers were – their expectations, motivations –, to show the impact of the experience of taking time off to be home with their child had on both, and to inspire other fathers by presenting positive, but “not perfect” role-models.

The collection of photos captured moments of everyday life of dads taking care of their kids. The resulting award-winning exhibition has been showed in more than one hundred countries around the world (Thailand, Kenia, Uganda, Argentina, Croatia, Portugal, among others), and it has been often associated with the promotion of initiatives that encourage local fathers to participate with photos of their lives with their children and to become “caring male role models” in their own countries.

imagem1

Opening of the Exhibition “Swedish Dads”. Photo: UNESCO/Christelle ALIX

Continuar a ler