À espera de a vida real reiniciar…

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Madelon Schamarella, doutoranda em Sociologia no
Programa de Doutoramento Inter-Universitário OpenSoc

Este é o Mac, meu computador, parceiro de investigação e da vida digital. Numa tarde, na passada quarta-feira, Mac avariou… escreveu uma mensagem no ecrã dizendo: disco rígido cheio…

Num gesto claro de exaustão, desligou-se deixando apenas uma tentativa de reiniciar pela metade; o que mais me pareceu o símbolo da incompletude da vida moderna. Mas como pode um Mac avariar? Eu pensei que ele fosse forte. Como eu conseguirei recuperar meus ficheiros? Como dar continuidade à minha agenda profissional e aos meus compromissos académicos? Como solicitar os serviços de reparo neste período de encerramento parcial do comércio? Parece que muitas das minhas perguntas ficariam sem respostas durante esta pandemia.

Os ecrãs da minha casa. Foto: Madelon Schamarella

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Rear window / Janela indiscreta

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Maria Manuel Vieira, ICS-ULisboa

Em 1954 estreava o filme Rear Window / Janela Indiscreta, de Alfred Hitchcock. Considerado por alguns críticos o melhor filme do realizador britânico, o cenário e o enredo apresentam curiosamente fortes homologias com a sociologia e o tempo presente.

O personagem principal, desempenhado por James Stewart, é um jovem fotógrafo a quem um acidente e uma perna engessada o atiram para um confinamento forçado no seu apartamento de Greenwich Village. Sentado numa cadeira de rodas, pretendendo refrescar-se da onda de calor que assola Nova Iorque, encontra distração nas ações dos indivíduos que observa atentamente da janela das traseiras (rear window), aberta de par em par. Encolhido o raio de visão ao tamanho da sua janela, descobre pela primeira vez o mundo próximo que o rodeia: os vizinhos dos apartamentos em frente, os utilizadores do pátio em baixo, os transeuntes que se deslocam no passeio da rua, entrevistos ao fundo.

O acompanhamento diário de hábitos, gestos e horários, ampliado nas lentes dos seus binóculos, permitem-lhe ser testemunha de um acontecimento fatal, que alimentará o clímax de mais este thriller, genialmente encenado pelo mestre do suspense.

Frame do filme Janela Indiscreta, de Alfred HitchcockFrame do filme Janela Indiscreta de Alfred Hitchcock

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LIFE Seminar | 03 de Dezembro 2019

No próximo dia 03 de Dezembro vamos contar com a presença de Lanka Horstink, investigadora no ICS-ULisboa, que irá apresentar o seu novo projeto Participatory performance assessment: of small-scale sustainable farming initiatives in Portugal, financiado pelo programa Estímulo ao Emprego Científico 2017, da Fundação para a Ciência e a Tecnologia (Sociologia-CEECIND/01132/2017).  A entrada é livre.

LIFE 26 nov hor_001.png Continuar a ler

Posso dar a minha opinião? Um Focus Group sobre Animais de Companhia

Verónica Policarpo, investigadora no ICS-ULisboa

Constança Agostinho e Maria de Fátima Pires, alunas no Ensino Secundário

 

Entre 2 e 6 de julho o ICS-ULisboa participou mais uma vez na iniciativa da Reitoria Verão na ULisboa, acolhendo 18 alunos do ensino secundário para uma semana de atividades diversas a que foi dado o rótulo “Aventuras com as Ciências Sociais”.

No final da semana, os alunos orientados por investigadores do LIFE Research Group foram convidados a escrever um post sobre a sua experiência para o nosso blogue. Os investigadores responsáveis acrescentaram uns parágrafos de enquadramento a cada post.​ Hoje publicamos o segundo, em torno da temática das relações entre humanos e animais de companhia, escrito por Verónica Policarpo (investigadora no ICS-ULisboa), Constança Agostinho e Maria de Fátima Pires (alunas no Ensino Secundário).

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O que é um animal de companhia? Como se define, e como os distinguimos de outros animais, e de outras espécies? Como é a nossa vida com esses animais que temos em casa? E como é a vida desses animais connosco? São felizes? Sofrem? Quando? Porquê? Porque razões temos animais nas nossas casas? Isso é benéfico para ambos – pessoas e animais? Se sim, quando e em que circunstâncias deixa de ser? Quem trata deles? As suas necessidades são sempre atendidas?

Estas foram algumas das questões que discutimos na atividade de Verão no ICS-ULisboa, com o título Posso dar a minha opinião? O objetivo desta atividade era dar a conhecer aos jovens pré-universitários uma parte do ofício de sociólogo, e o que fazem os cientistas sociais quando querem conhecer a opinião das pessoas sobre um determinado tema. Continuar a ler

Vidas de Humanos com Animais: que relevância nas ciências sociais?

 

Verónica Policarpo, Instituto de Ciências Sociais, ULisboa
Miguel Barbosa, Faculdade de Medicina, ULisboa
Ricardo R. Santos, Centro de Bioética da Faculdade de Medicina, ULisboa

Organizadores da conferência
Animais-companheiros nas vidas dos humanos: desafios sociais e éticos


Em 1999, aquele que viria a ser laureado, quatro anos mais tarde, com o prémio Nobel da Literatura, J. M. Coetzee, publicou The Lives of Animals. A obra integra dois capítulos de Coetzee, “Os filósofos e os animais” e “Os poetas e os animais”, que foram inicialmente apresentados pelo autor em Princeton, em 1997, enquanto orador convidado das Tanner Lectures on Human Values. Nessa obra metaficcional, a personagem-escritora Elizabeth Costello reflete sobre os direitos dos animais e o trabalho da literatura e da filosofia sobre o modo como os olhamos, como os construímos enquanto entidades que resultam da existência humana, mais do que como entidades em si mesmas, com uma existência própria e autónoma.

A reflexão de Coetzee constitui não só um exemplo inspirador de como trazer para o pensamento académico a criatividade inspirada da literatura, mas também sobre como iluminar a forma como os humanos tendem a definir e a determinar a existência dos não-humanos. As questões que Elizabeth Costello coloca são incómodas, deixam a sua audiência desconfortável. Por exemplo (e assim ecoando a de a outros autores como Isaac Bashevis Singer[1]), compara o extermínio dos animais de produção aos campos de extermínio do Holocausto.

A obra convida-nos a questionar a relação que temos com os animais. Em vez de “será que temos alguma coisa em comum com eles – razão, consciência de si, alma…”; “será que somos diferentes, e em quê?”; a pergunta central a fazer é: até que ponto conseguimos partilhar o Ser de um Outro? Até que ponto somos capazes de uma empatia que nos permita descentrarmo-nos do nosso próprio mundo, para nos centrarmos no de um Outro? Somos ou não capazes desta “imaginação solidária”? Existem ou não limites para ela? E o que nos diz a relação que temos com os animais sobre o modo como nos vemos a nós próprios, como humanos? E que papel tem a constante criação, e manutenção, de uma barreira inter-espécies nessa definição do que somos (e queremos ser)? Continuar a ler

O que pode a capoeira?

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Igor Monteiro – Capoeirista, Pós-doutorado em Sociologia Urbana (UFC), Doutor em Sociologia (UFC), professor da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (UNILAB).


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Roda de capoeira, com os integrantes do Centro Cultural Capoeira Água de Beber, nas margens da Lagoa da Itaperaoba – Serrinha, Fortaleza-CE.Enter a caption

Para além de sua inscrição rebelde no curso da história, a capoeira apresenta-se como algo da ordem da resistência também no que se refere às tentativas, sobretudo mobilizadas por parte da academia, de domesticá-la a partir de definições rígidas, de representações totalizantes e de aspirações de pureza. Ao considerá-la em termos de experiência, ou seja, tomando como horizonte suas figurações concretas, o que parece surgir – engendrando, pelo menos a meu ver, um enorme desafio para qualquer pesquisador ou pesquisadora – é uma expressão de pluralidade, afeita – justamente por este caráter múltiplo – a noções tais como a de mistura, movimento e rasura, por exemplo.

Explico-me melhor, mais que um jogo, uma dança ou luta – como, comumente, era definida por determinados discursos, situados em certos momentos históricos – a capoeira deve ser pensada de maneira mais alargada, tendo reconhecida sua constituição complexa que envolve, apenas à título de ilustração, dimensões como as da ludicidade, ancestralidade, alacridade, circularidade, oralidade e musicalidade. Ainda sob esta perspectiva mais dilatada, a capoeira passa a ser compreendida como uma espécie de dispositivo de reflexão histórico-social, passível de acionamento em distintos contextos (na escola, na comunidade, na rua etc.), que não deixa de ser investida também de conteúdos políticos.

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Integrantes do Centro Cultural Capoeira Água de Beber em ação na rotunda do elevado do Aeroporto Internacional Pinto Martins – Serrinha, Fortaleza-CE.

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Pessoas sem abrigo: percursos de uma investigação no Brasil e em Portugal

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Maria Teresa Nobre é Professora da Universidade Federal do Rio Grande do Norte e Investigadora Visitante no ICS (tlnobre@hotmail.com)


 

Fig.1 – Pessoas em situação e rua e sem abrigo, no Brasil e em Portugal
(Foto: Maria Teresa Nobre)

Como pessoas em condições extremas inventam a vida de cada dia? Parti desta questão norteadora para realizar uma investigação no Brasil e em Portugal, com o objetivo de conhecer modos de vida de pessoas sem abrigo ou que vivem “em situação de rua”.  Neste post descreverei os percursos do trabalho de campo, através da utilização de estratégias metodológicas que permitiram-me acessar o cotidiano dessas pessoas. A construção das narrativas privilegiou a fala dos sujeitos em situações espontâneas, captadas em conversas e em deambulações pelas cidades.

O trabalho dividiu-se em duas fases: a primeira em Natal, no nordeste brasileiro, entre 2013 e 2016, realizada junto ao Movimento da População em Situação de Rua, configurou-se como pesquisa-intervenção em direitos humanos. Após três anos deste trabalho, o foco deslocou-se da macro para a micropolítica, impondo novas questões de investigação: Como habitam e circulam nas cidades esses “nômades contemporâneos”? Que espaços urbanos ocupam e como reinventam objetos e percursos? Como enfrentam as adversidades? Como ressignificam as categorias de tempo e espaço nas suas vivências cotidianas?

Na segunda fase da investigação, entre agosto de 2016 e maio de 2017, em Fortaleza e Lisboa, o cotidiano emergiu como categoria central, da qual apropriei-me através das teorizações de Michel de Certeau e de José Machado Pais. De ambos tomei a noção de cotidiano como algo que difere de dia-a-dia, pelo seu caráter enigmático e singular, escondido sob as operações corriqueiras e aparentemente repetitivas, a serem reveladas pelo trabalho de decifração dos sentidos e lógicas que as práticas comportam, que cabe ao cientista social realizar. Continuar a ler

Encontros: de que formas pode um cão transformar a vida familiar e pessoal?

teresaTeresa Líbano Monteiro é socióloga e investigadora associada ao ICS-ULisboa (tlibano@netcabo.pt)


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Few associations are as intense and emotionally involving
as those we have with companion animals.
Despite the frequency and importance of relationships
between humans and animals, analyses of interspecies interaction
are noticeably rare in the social scientific literature.

Clinton R. Sanders
In Understanding dogs

Em 29 de Novembro de 2015 a TVI 24 transmitiu uma reportagem com o seguinte título “Portugueses já têm mais animais de estimação do que filhos”. Esta reportagem cita um estudo da GFK que revela que 2,5 milhões de famílias têm, pelo menos, um animal de estimação, estando o cão no topo das preferências dos portugueses. Não é raro ouvir frases como: “não vivo sozinho, vivo com o meu cão”. Ou, mais comum ainda: “vivo com a minha família de quatro patas. “

Porque é que as pessoas têm um cão? O que é um cão? Um objeto de consumo? Um novo amigo? Um membro da família? Que papel ou papéis pode ter um cão, enquanto animal de estimação, numa família e no desenho de novas morfologias familiares, na sociedade contemporânea? Continuar a ler

Ainda há pouco tempo, no Face, a gente falou…

ver.pngVerónica Policarpo, Socióloga e Investigadora Pós-Doc no ICS-ULisboa


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1870, Harrison Weird, The Dogs’ Dinner Party[i] 

Foi com estas palavras que Rute, 42 anos, casada e com dois filhos, iniciou a nossa conversa sobre a sua rede de amigos, e o lugar que estes ocupam atualmente, na sua vida. Nascida e criada num bairro da periferia de Lisboa, foi a brincar na rua, com vizinhos e colegas de escola, que construiu as suas amizades mais perenes. Mas à medida que o tempo foi passando, acompanhado das suas diferentes fases de vida, a distância foi-se instalando. Até que um dia, alguém falou a Rute de uma ferramenta onde se poderia encontrar “muita gente”.

A história de Rute ilustra como os media sociais se instalaram nas nossas vidas de forma mais ou menos paulatina, ao ponto de parecer praticamente impossível vivermos um dia inteiro completamente desconectados. Facebook, Whatsapp, Instagram, Twitter, Snapshot… Continuar a ler

Envelhecimento em Lisboa, Portugal e Europa

pmf.pngPedro Moura Ferreira é Sociólogo, Investigador Auxiliar no ICS-ULisboa e Coordenador do Instituto do Envelhecimento


978-972-671-376-0-1

O livro Envelhecimento em Lisboa, Portugal e Europa: Uma perspetiva comparada, de Manuel Villaverde Cabral, Maria Toscano e Pedro Alcântara da Silva, recentemente editado pela Imprensa Ciências Sociais, dá conta de um estudo comparativo entre a população portuguesa sénior residente em Lisboa e a população da mesma faixa etária residente no conjunto de Portugal, assim como em três países europeus escolhidos para efeitos comparativos ─ Espanha, Suécia e República Checa. Com o fim de sustentar a reflexão e o debate sobre as políticas públicas em torno do envelhecimento, a investigação visou estabelecer o perfil sociodemográfico, atitudinal e comportamental da população sénior da cidade de Lisboa, tendo em consideração o enquadramento nacional e europeu.

O livro tem duas particularidades que devem ser ressaltadas.

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