Rear window / Janela indiscreta

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Maria Manuel Vieira, ICS-ULisboa

Em 1954 estreava o filme Rear Window / Janela Indiscreta, de Alfred Hitchcock. Considerado por alguns críticos o melhor filme do realizador britânico, o cenário e o enredo apresentam curiosamente fortes homologias com a sociologia e o tempo presente.

O personagem principal, desempenhado por James Stewart, é um jovem fotógrafo a quem um acidente e uma perna engessada o atiram para um confinamento forçado no seu apartamento de Greenwich Village. Sentado numa cadeira de rodas, pretendendo refrescar-se da onda de calor que assola Nova Iorque, encontra distração nas ações dos indivíduos que observa atentamente da janela das traseiras (rear window), aberta de par em par. Encolhido o raio de visão ao tamanho da sua janela, descobre pela primeira vez o mundo próximo que o rodeia: os vizinhos dos apartamentos em frente, os utilizadores do pátio em baixo, os transeuntes que se deslocam no passeio da rua, entrevistos ao fundo.

O acompanhamento diário de hábitos, gestos e horários, ampliado nas lentes dos seus binóculos, permitem-lhe ser testemunha de um acontecimento fatal, que alimentará o clímax de mais este thriller, genialmente encenado pelo mestre do suspense.

Frame do filme Janela Indiscreta, de Alfred HitchcockFrame do filme Janela Indiscreta de Alfred Hitchcock

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Vozes e protagonismo de estudantes juvenis brasileiros: análise do projeto “Outros Olhares”

POST-CAST

fláviaFlávia Brocchetto Ramos é Professora na Universidade de Caxias do Sul-RS, e foi investigadora-visitante no ICS-ULisboa.

lovaniLovani Volmer é Professora na Universidade FEEVALE.

A linha literária é um instrumento para
elaborar o mundo interior e, portanto, de
modo indissoluvelmente ligado, a
relação com o mundo exterior.
(Michèle Petit)

O clássico literário ultrapassa barreiras temporais e espaciais. Assim são os contos de Machado de Assis que ainda têm algo a dizer a jovens em idade escolar. Os jovens têm a possibilidade de, pela literatura, ter contato com posições axiológicas de outra época, de estabelecer relações com a atualidade, de refletir sobre a língua e suas variantes, como forma de expressão e identidade dos grupos sociais e da época em foco. Esses contos foram o mote para o “Projeto Outros Olhares”. O Projeto é desenvolvido, anualmente, desde 2002, com alunos do Ensino Médio, em uma escola comunitária da região metropolitana de Porto Alegre, no sul do Brasil, e consiste na leitura e adaptação de contos de Machado de Assis a curtas-metragens. Aqui, tomamos o Projeto e, em especial, um curta para analisarmos a atuação de jovens integrantes da proposta.

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Cartaz produzido pelos estudantes para o curta Ela. Imagem da Prof.ª Lovani.

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“COVIDamos” em um mundo globalizado.

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Victor Nedel,  Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Brasil) 

Somos apresentados, diariamente, a uma enxurrada de informações acerca da pandemia de COVID-19. Televisão, redes sociais, rádio e vizinhos têm sido agentes propagadores das mais variadas notícias sobre o novo Coronavírus. Ao mesmo tempo, no mundo inteiro, as Universidades têm sido demandadas na produção de conhecimento científico sobre o vírus, na produção de insumos para testes, na criação de métodos de assepsia e consequente fabricação de álcool gel, na busca por uma vacina ou medicamento que interrompa a reprodução do vírus no corpo humano.

“COVIDamos” todos juntos. O mundo “COVIDou”. Com a devida licença pela criação, por meio de aglutinação das palavras, penso que essa seja a realidade pela qual estamos transcorrendo, enquanto humanidade. Não seria esperada outra situação, frente ao mundo globalizado em que vivemos, sobre a disseminação do novo Coronavírus: mais do que o próprio vírus, o que se prolifera são as informações que dele decorrem. Nunca antes da história da humanidade uma pandemia está tendo cobertura full time como a pandemia de COVID-19, e isso é reflexo da conectividade do globo, a partir da internet e, principalmente, das redes sociais. Exemplos dessa disseminação de informações são as mais de 1 bilhão de menções sobre o novo Coronavírus na mídia brasileira, desde o primeiro caso[1]. Continuar a ler

Em fase janela: dilemas sobre o trabalho de campo à distância

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Ana Sofia Ribeiro, ICS-ULisboa

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Fotografia de uma das participantes no estudo, tirada da janela do seu quarto durante a quarentena

Fazer trabalho de campo é talvez a minha parte preferida do processo de investigação. Conhecer pessoas, ir aos locais, observar a vida quotidiana, são para mim primeiras escolhas para recolha de dados. Não é que ignore o valor de uma boa desk research. É só que apesar de hoje em dia ser possível obter dados de grande qualidade a partir de fontes digitais, a investigação sobre catástrofes implica geralmente uma aproximação material ao campo, para averiguar perdas e impactos. No caso da minha investigação sobre jovens no interior e recuperação dos grandes incêndios de 2017, o contacto pessoal no terreno tem sido insubstituível no acesso a realidades muitas vezes invisíveis, porque afastadas dos grandes centros de produção mediática.

Entrevistar estes jovens não é fácil, pois a dispersão no território e as barreiras à sua mobilidade fazem com que estejam resguardados em suas casas. Os ambientes de aprendizagem informal que constituem a minha base de recrutamento também têm um funcionamento irregular, o que implica reorganizações de última hora e cancelamentos. Por outro lado, os próprios jovens têm as suas agendas e vontades, e nem sempre estão livres para falar comigo. Assim, iniciei recentemente a realização de entrevistas online via Whatsapp. O Whatsapp é a aplicação mais utilizada pelos jovens, e a que permite fazer vídeo entrevistas gratuitamente através do telemóvel. As entrevistas online são particularmente úteis para casos em que os sujeitos estão distantes ou em situação vulnerável, e dão flexibilidade aos utilizadores para escolherem o melhor momento. No entanto, levantam algumas questões. Continuar a ler

A contaminação das ciências sociais num “mundo aos quadradinhos”

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Vitor Sérgio Ferreira, ICS-ULisboa

Não sei se o meu corpo está contaminado por COVID-19 quando escrevo este post. Mas sei que, inevitavelmente, este vírus veio contaminar os mundos de vida de tod@s @s cientistas sociais, desde as formas de organização do trabalho científico e de conciliação entre trabalho e família, até à forma como moldam os objetos de estudo e se relacionam com @s interlocutores nos respetivos terrenos. Não há tema nem pessoa que não experimente alguma forma de contaminação social e simbólica pelo COVID-19, esteja ou não biologicamente infetada. Continuar a ler

LIFE Seminar | 03 de Dezembro 2019

No próximo dia 03 de Dezembro vamos contar com a presença de Lanka Horstink, investigadora no ICS-ULisboa, que irá apresentar o seu novo projeto Participatory performance assessment: of small-scale sustainable farming initiatives in Portugal, financiado pelo programa Estímulo ao Emprego Científico 2017, da Fundação para a Ciência e a Tecnologia (Sociologia-CEECIND/01132/2017).  A entrada é livre.

LIFE 26 nov hor_001.png Continuar a ler

What’s in a Diary? An Autoethnographic Tale about Self-Narratives

IMG_20180628_115228David Primo is PhD candidate in Social Sciences at the University of Padua, and Visiting PhD at ICS-ULisboa.


Can the private life of a researcher be of scientific interest? A long-standing tradition of research inspired by the (neo)positivist scientific research maintains the idea that the subjectivity of the researcher is a disturbing element that should be erased. Nonetheless, the constructionist turn in social and human sciences undermined the idea that the researcher can be a neutral observer.

Autoethnography develops the non-neutrality of the researcher and claims that personal experiences could be a starting point of the investigation of the cultural context. Indeed, a common idea shared by different approaches to autoethnography is that the awareness about one’s own symbolic and material position in society can shed a light on the power dynamics which are at play in different situations.

But what is Autoethnography?

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Chang (2008, p. 43) affirms that “stemming from the field of anthropology, autoethnography shares the storytelling feature with other genres of self-narrative, but transcends mere narration of the self to engage in cultural analysis & interpretation”. Therefore, what defines this method is the explicit intent to find a link between personal experiences and cultural processes. Continuar a ler

Posicionalidad: descubrir de no ser “tan” joven en el trabajo de campo

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Margot Mecca é doutoranda em Geografia e investigadora pre-doctoral da Universitat Autónoma de Barcelona, España. É doutoranda visitante no ICS-ULisboa pelo programa Erasmus + (margot.mec@gmail.com).


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Cuando he inserido un apartado dedicado a la “posicionalidad” en mi tesis, ha sido una decisión motivada por un escrúpulo científico, por la voluntad de compartir de manera abierta y clara como había abordado el trabajo de campo. Lo que no me esperaba es que este ejercicio de reflexión terminase por hacerme repensar mi misma identidad, una identidad que tenía también que ver con mi trabajo de investigadora.

Pero finalmente: qué es la posicionalidad? La necesidad de situar el conocimiento, y quien produce tal conocimiento, se ha ido difundiendo en los estudios geográficos a partir de los años ’90, con autoras como Linda McDowell y Kim England. Esta posición nace de la deconstrucción de la idea neo-positivista de una producción objetiva, impersonal y universal del conocimiento: en cambio, lo que tales autores y autoras reivindicaban era la naturaleza intrínsecamente parcial, subjetiva y particular del saber. Un saber que no puede prescindir y aislarse del contexto donde ha sido generado, de las personas concretas que lo han elaborado, de sus identidades y de sus historias, incluso de sus emociones. Continuar a ler

Imaginarios de la infancia, un aporte a la formación de profesores

deliaMaría Delia Martínez Núñez é Professora na Universidad Metropolitana de Ciencias de la Educación, em Santiago de Chile, e é atualmente investigadora visitante no ICS-ULisboa (deliacameliaster@gmail.com)


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En el plano de la educación el estudio de los imaginarios acerca de la infancia, aparece como una fuente de conocimiento en el contexto de la formación docente. Las investigaciones desarrolladas hasta ahora han develado tres cuestiones respecto de la educación infantil. Un aspecto inicial y que ha surgido a partir del desarrollo de los proyectos implementados, es el aporte que las metodologías de estudio de los imaginarios realizan a la formación inicial de educadores para la primera infancia. Este aspecto se fundamenta en la reflexión acerca del propio quehacer y la posibilidad de compartir con otros/as la construcción de un perfil profesional sólido.

Los imaginarios son fundamentalmente interpretativos, por lo tanto la metodología utilizada debe incorporar espacios de reflexión individual y grupal que permitan a los sujetos de la investigación consolidar opiniones respecto a lo que consideran que es la infancia. En el caso de estudiantes en práctica profesional, el diálogo y la reflexión compartida entre pares, respecto del propio desempeño puede impulsarlas de manera significativa a mantener una cercanía con sus propias estructuras mentales, además de incorporar nuevas voces, dimensiones y perspectivas a su construcción profesional como futuras docentes. Continuar a ler

Decifrando o social: reflexões sobre o trabalho de campo em Roma

filipaFilipa C. Cachapa | Doutoranda em Sociologia | ICS-ULisboa


1© Filipa C. Cachapa

O trabalho de campo permite ao cientista descrever, comparar e analisar uma cultura ou um facto social. Particularmente no caso da Sociologia, e em especial quando se trata de uma investigação qualitativa, o mergulho na vida quotidiana constitui uma mais-valia para o investigador: torna possível compreender as pessoas, as suas atitudes e (inter)acções. Quando os indivíduos que são objecto de estudo de uma dada investigação pertencem a uma cultura diferente da do investigador, a imersão na realidade social revela-se fundamental e pode ser um desafio.

Em 2015, estive em Roma durante dois meses. Entrevistei 30 jovens universitários italianos, depois de já ter entrevistado, em Lisboa, 28 universitários portugueses. O objectivo foi procurar respostas para a pergunta “o que é um adulto?”, de modo a desvendar se o dinheiro e a (in)dependência financeira têm ou não um papel social importante no momento de transição para a vida adulta. Continuar a ler