À espera de a vida real reiniciar…

Life_GOES ON 1


Madelon Schamarella, doutoranda em Sociologia no
Programa de Doutoramento Inter-Universitário OpenSoc

Este é o Mac, meu computador, parceiro de investigação e da vida digital. Numa tarde, na passada quarta-feira, Mac avariou… escreveu uma mensagem no ecrã dizendo: disco rígido cheio…

Num gesto claro de exaustão, desligou-se deixando apenas uma tentativa de reiniciar pela metade; o que mais me pareceu o símbolo da incompletude da vida moderna. Mas como pode um Mac avariar? Eu pensei que ele fosse forte. Como eu conseguirei recuperar meus ficheiros? Como dar continuidade à minha agenda profissional e aos meus compromissos académicos? Como solicitar os serviços de reparo neste período de encerramento parcial do comércio? Parece que muitas das minhas perguntas ficariam sem respostas durante esta pandemia.

Os ecrãs da minha casa. Foto: Madelon Schamarella

Continuar a ler

O desenvolvimento social dos valores na infância e na adolescência

139.pngAlice Ramos é socióloga e investigadora no ICS-ULisboa.


Clave_1A Europa enfrenta múltiplos desafios no domínio da integração da diversidade social e cultural com impacto transversal nas várias gerações, quer nos contextos nacionais, quer no plano das relações entre os diferentes países. O projeto de investigação CLAVE: O Desenvolvimento Social dos Valores Humanos na Infância e na Adolescência, estuda a origem dos valores humanos, o seu desenvolvimento durante a infância e a adolescência (dos 6 aos 14 anos), bem como o seu impacto nas representações de justiça, nas atitudes face a diferentes grupos sociais (e.g. idade, género, nacionalidade) e no bem-estar numa perspetiva transnacional. Continuar a ler

Estereótipos e (des)igualdades de género

Entre 2 e 6 de julho o ICS-ULisboa participou mais uma vez na iniciativa da Reitoria Verão na ULisboa, acolhendo 18 alunos do ensino secundário para uma semana de atividades diversas a que foi dado o rótulo “Aventuras com as Ciências Sociais”.

No final da semana, os alunos orientados por investigadores do LIFE Research Group foram convidados a escrever um post sobre a sua experiência para o nosso blogue. Os investigadores responsáveis acrescentaram uns parágrafos de enquadramento a cada post.​ Hoje publicamos o primeiro, em torno da temática dos Estereótipos e (Des)Igualdades de Género, escrito por Rita Correia (investigadora no ICS-ULisboa), Hebe Ferreira e Joana Marques (estudantes do Ensino Secundário).

****************************************

Desconstruindo estereótipos: caminhos para a igualdade de género

por Rita Correia, ICS-ULisboa

A possibilidade de participar numa escola de Verão com alunos do ensino secundário é sempre uma excelente oportunidade de pôr em prática a ciência que fazemos diariamente e as recomendações que fundamentamos com os dados recolhidos. O facto de expormos estes temas em linguagem acessível e permitirmos aos jovens que reflitam e nos transmitam as suas próprias impressões é um processo de diálogo ciência/sociedade sempre enriquecedor.

 A minha ideia na preparação desta sessão passou também pela sensibilização dos jovens participantes para a importância da Psicologia Social na atualidade, em que os conflitos intergrupais estão na ordem dia em Portugal, mas também no mundo, nomeadamente no que diz respeito às atitudes face aos migrantes e refugiados. Estabelecida essa relevância da Psicologia Social e outras Ciências Sociais e respondidas algumas questões sobre o trabalho de um cientista social, focamo-nos na compreensão do que são estereótipos, a sua origem e porque razão estes levam a tratamentos desiguais.

Sendo a sessão especificamente sobre estereótipos de género e desigualdades, utilizámos dinâmicas que nos levaram a desmontar em conjunto estereótipos conhecidos, nomeadamente através da aplicação de um Bingo Contra Estereótipos. Através deste jogo cada jovem, organizado em grupos de trabalho, facilmente “ganhava” encontrando exemplos contra estereótipos de género. E desta forma os seus resultados criaram uma discussão interessante entre todos que desmontou algumas ideias feitas sobre traços e papeis de género. Continuar a ler

Desenvolvimento do preconceito racial na infância: como o preconceito parental e as mensagens transmitidas pelos pais influenciam as atitudes raciais das crianças

cvvRita Correia é doutoranda em Psicologia Social e colabora com o Observatório das Famílias e das Políticas de Família do ICS-ULisboa.


Começo com uma pequena história que ilustra as ansiedades dos pais numa sociedade moderna. Tinha a minha filha uns 2 anos e meio, estávamos a fazer um jogo para a entreter no meio do trânsito: procurávamos pessoas com chapéu. Tudo correu bem até uma vozinha no banco de trás dizer “aquele ali mãe, o preto”. Uma mãe gela nessas circunstâncias e pensa uma série de coisas em catapulta. A principal é, sem dúvida “onde é que ela aprendeu isto?”. No meu caso, a situação não era nada do que eu estava a pensar, ela, limitada pelas suas fracas capacidades linguísticas de dois anos e meio, estava simplesmente a referir-se à cor do casaco de um jovem branco que atravessava a estrada. Mas “o gato estava fora da caixa”, a questão do preconceito, racismo e discriminação era um assunto com que me tinha de confrontar. Eu e todos os pais, educadores e na verdade a sociedade em geral.

As crianças são esponjas culturais: absorvem de forma altamente eficiente tudo o que as rodeia. Aprendem todas as tarefas mundanas (o que comer, como vestir o casaco, dizer obrigada e se faz favor), mas também as formas não explícitas de organização social. E se por um lado isso é útil e essencial para o seu desenvolvimento como adultos que vivem em sociedade, infelizmente inclui aprendizagens sobre questões de estatuto social de diferentes grupos que podem levar a atitudes preconceituosas.

ad.jpg

Photo by Patrick Fore on Unsplash

Continuar a ler

Affective Implications of LGBT Rights Advancement in the Post-Yugoslav and Iberian Spaces: Towards a Research Agenda

vz.pngBojan Bilić, Investigador Pós-Doc (ICS-ULisboa)


EFHands_Web

Neither numerous structural/historical accounts of activist victories nor widespread analyses of Europeanisation, activist NGO-isation, and human rights advancement are sufficient to capture affective ambiguities stirred by two opposing but contemporaneous processes that have been taking place in the European semi-periphery: impressive LGBT legal emancipation, on the one hand, and the increasing precarisation, on the other. This research project aims to bring together the post-Yugoslav (Serbia and Croatia) and Iberian (Portugal and Spain) spaces to examine affectively mediated ways in which recent LGBT rights evolution and an intense juridification of LGBT politics have been intertwined with the deterioration of economic and social networks. Continuar a ler

Ações afirmativas no acesso ao ensino superior: como têm mudado a vida dos jovens de origem popular no brasil?

avaAva Carvalho é  doutoranda em Psicologia do Desenvolvimento na Universidade Federal da Bahia, professora do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia da Bahia (IFBA), membro do grupo de pesquisa Observatório da Vida Estudantil (UFBA), e doutoranda-visitante no ICS-ULisboa.


fred-04

Ibititá é uma pequena cidade localizada no centro-norte do estado da Bahia, Brasil, com menos de 20.000 habitantes. Em uma casa simples com quintal, cozinha ampla e dois quartos – para receber o filho quando chega de viagem – vivem Gilda e Joselito, pais de Fredson, 30 anos. Fred, como é chamado pelos pais, saiu do interior para a capital da Bahia, Salvador, aos 18 anos, com a expectativa de se preparar para a entrada na universidade, após ter concluído a sua formação escolar. Depois de um ano estudando na capital, foi aprovado para o curso de Direito da Universidade Federal da Bahia e não mais retornou à casa dos pais. Segundo ele, até hoje a sua mãe “sente” a sua ausência; Gilda gostaria que Fred encontrasse um emprego em alguma cidade próxima, embora esteja cada vez mais convencida de que ele não volta mais a viver em sua casa. Continuar a ler

Reflexões sobre o (encantado) ofício da investigação: percursos de uma pesquisadora com a lata na cabeça…

rosane.png Rosane Castilho é psicóloga, professora na Universidade Estadual de Goiás (Brasil). Neste momento é investigadora visitante no ICS-ULisboa com o projeto -‘O projeto de vida como estratégia de desvelamento das possibilidades de futuro de jovens estudantes das periferias de Goiânia, Lisboa e Madrid: Representações, perspectivas e desafios de um devir’


Minha trajetória de investigação com jovens inicia-se já na Graduação (Licenciatura) em Psicologia, na Universidade Católica de Goiás. Lá, subindo em ombros de gigantes como Vigotsky – que me ensinou que a subjetividade individual é fortemente permeada por uma subjetividade social -,  e Freud – que me ensinou que o trabalho de construção de uma teoria envolve a humildade de reconhecer algumas ‘falhas’ na interpretação dos motivos da ação deste ser absolutamente complexo e fascinante que é o humano – , pude entrar em contato com um mundo de possibilidades de interpretação, não obstante as distinções epistemológicas que aproximam ou distanciam (apenas aparentemente, pois prefiro pensar que atravessam e enriquecem) a vida experimentada do conhecimento. Continuar a ler

Música, afetos e processos de subjetivação com jovens de baixa renda

martha.png Martha Bento Lima é pós-doutoranda na Universidade Federal Fluminense no Brasil, e investigadora visistante no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa.


Venho de uma formação em Música, Biodança e Psicologia, sendo as primeiras determinantes no modo como encaminhei minha formação no campo psi. A experiência com os dispositivos artísticos, seja por meio de uma prática e formação musical, e também por meio de uma formação em Biodança, prática que tem a música e a dança como dispositivos artísticos – terapêuticos, produziu em mim questionamentos / inquietações durante minha formação em Psicologia, que permearam uma reflexão crítica de uma abordagem da subjetividade que abrangesse a dimensão ético-estética- política da natureza humana, abrindo-se assim a compreensão dos modos de vida através dos dispositivos da arte, em especial; da música. Nesse percurso, realizei projetos com jovens de baixa renda no Brasil.

Continuar a ler