As tecnologias digitais entre os casais com filhos em tempo de Covid-19

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Silvia Di Giuseppe, doutoranda em Sociologia (OpenSoc), ICS-ULisboa

1A Itália foi, e continua a ser, o país europeu mais afectado pela Covid-19. Há semanas que se lê e se ouve falar, nos média, de permanência forçada em casa e possibilidade de saída apenas por extrema necessidade, dois dos imperativos categóricos estabelecidos pelo governo italiano para poder enfrentar a emergência, que os cidadãos devem tentar respeitar tanto quanto possível. Tendo em conta a propagação da pandemia, foram adoptadas medidas de contenção, ou seja, vários decretos legislativos actualizados, de acordo com a gravidade da situação, ao longo dos dias.

A parte mais visível desta situação para os cidadãos é que, na vida quotidiana, as consequências e reacções a estas restrições variam de pessoa para pessoa, apresentando, em alguns casos, um verdadeiro desafio entre risco e possibilidade. Continuar a ir trabalhar, por exemplo, é importante para prover às próprias necessidades económicas e familiares mas, ao mesmo tempo, o perigo de contrair o coronavírus está definitivamente ao virar da esquina. Para além dos pretextos de ir ao supermercado para comprar alimentos, ou à farmácia para medicamentos, outras situações podem acarretar problemas graves.

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A Onda

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Ana Nunes de Almeida, ICS-ULisboa

E de repente, a onda que se abate sobre nós. Víamo-la distante, esquecendo que a globalização encurta o horizonte e o acelera. Víamo-la nos outros, esquecendo que os outros somos nós também. E era como se a nossa capacidade racional de pensar o mundo nos impedisse de prever que um pequeníssimo vírus, invisível e silencioso, tivesse o poder de suspender o mundo em poucas semanas. E de repente, a onda começou a cair na nossa praia também. Com mansidão, fechámo-nos em casa. De surpresa, de um dia para o outro. Afinal, começávamos a sentir na pele que o risco, aquilo sobre o que tanto teorizamos, é mesmo para levar a sério. Ou seja, existe, e existe naquele seu nível mais fundo: perder ou salvar a vida.

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Foto de Ana Nunes de Almeida

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O trabalho sexual feminino, por Roseli Bregantin Barbosa

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Damos as boas-vindas a Roseli Bregantin Barbosa, doutoranda visitante no ICS-Lisboa e integrada no GI LIFE, sob a supervisão de Vitor Sérgio Ferreira.  Desenvolve a sua pesquisa no Programa de Pós-Graduação em Sociologia, na área de Políticas Públicas e Mudanças Sociais, da Universidade Federal do Paraná (Brasil), orientada por Maria Tarcisa Silva Bega e Miriam Adelman.

Em que consiste o teu projeto de investigação?
Meu projeto consiste em analisar a relação entre a feminização do mercado de trabalho e as demandas por mudanças no estatuto do trabalho sexual feminino, mais especificamente busca perceber como o Estado se posiciona frente tais demandas, na esfera das políticas públicas. Continuar a ler

Vozes e protagonismo de estudantes juvenis brasileiros: análise do projeto “Outros Olhares”

POST-CAST

fláviaFlávia Brocchetto Ramos é Professora na Universidade de Caxias do Sul-RS, e foi investigadora-visitante no ICS-ULisboa.

lovaniLovani Volmer é Professora na Universidade FEEVALE.

A linha literária é um instrumento para
elaborar o mundo interior e, portanto, de
modo indissoluvelmente ligado, a
relação com o mundo exterior.
(Michèle Petit)

O clássico literário ultrapassa barreiras temporais e espaciais. Assim são os contos de Machado de Assis que ainda têm algo a dizer a jovens em idade escolar. Os jovens têm a possibilidade de, pela literatura, ter contato com posições axiológicas de outra época, de estabelecer relações com a atualidade, de refletir sobre a língua e suas variantes, como forma de expressão e identidade dos grupos sociais e da época em foco. Esses contos foram o mote para o “Projeto Outros Olhares”. O Projeto é desenvolvido, anualmente, desde 2002, com alunos do Ensino Médio, em uma escola comunitária da região metropolitana de Porto Alegre, no sul do Brasil, e consiste na leitura e adaptação de contos de Machado de Assis a curtas-metragens. Aqui, tomamos o Projeto e, em especial, um curta para analisarmos a atuação de jovens integrantes da proposta.

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Cartaz produzido pelos estudantes para o curta Ela. Imagem da Prof.ª Lovani.

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Quarantine Thoughts on Italy

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The Decameron, 1837–1837. Franz Xaver Winterhalter. Oil on Canvas

Bojan Bilić, ICS-ULisboa

When I moved to Florence in September 2008, after being awarded a fellowship at the European University Institute, my life took a whole new course. As my train approached Santa Maria Novella, I caught a glimpse of the dome of Brunelleschi and a Stendhalian adrenaline rush fluttered though my chest inaugurating a period of immersion into many forms of beauty. Years of student hardship, the exhaustion provoked by endless political chaos, and the myriad dilemmas I had about my rigid patriarchal body, had already taken their toll making me long for pleasure.

Soon after my arrival, I started going for long walks from San Domenico’s Via dei roccettini to the Piazza San Marco, passing by the Medici villas full of cypress, lemon, and olive trees, and trying to convince myself that my new surrounding was indeed real. While I slowly synced with the imperceptible rhythm of Italian small city life, both in myself and in many of my colleagues, I noticed a remarkable transformation: tanned by the Tuscan sun, caressed by centuries of culture, and nourished by food prepared with love and attention, we received an injection of vitality that could hardly be matched by any of my subsequent experiences. Italy has given me far more than other places in which I have lived and the moment I step on its soil I am imbued with the feeling of being at home. Continuar a ler

“COVIDamos” em um mundo globalizado.

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Victor Nedel,  Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Brasil) 

Somos apresentados, diariamente, a uma enxurrada de informações acerca da pandemia de COVID-19. Televisão, redes sociais, rádio e vizinhos têm sido agentes propagadores das mais variadas notícias sobre o novo Coronavírus. Ao mesmo tempo, no mundo inteiro, as Universidades têm sido demandadas na produção de conhecimento científico sobre o vírus, na produção de insumos para testes, na criação de métodos de assepsia e consequente fabricação de álcool gel, na busca por uma vacina ou medicamento que interrompa a reprodução do vírus no corpo humano.

“COVIDamos” todos juntos. O mundo “COVIDou”. Com a devida licença pela criação, por meio de aglutinação das palavras, penso que essa seja a realidade pela qual estamos transcorrendo, enquanto humanidade. Não seria esperada outra situação, frente ao mundo globalizado em que vivemos, sobre a disseminação do novo Coronavírus: mais do que o próprio vírus, o que se prolifera são as informações que dele decorrem. Nunca antes da história da humanidade uma pandemia está tendo cobertura full time como a pandemia de COVID-19, e isso é reflexo da conectividade do globo, a partir da internet e, principalmente, das redes sociais. Exemplos dessa disseminação de informações são as mais de 1 bilhão de menções sobre o novo Coronavírus na mídia brasileira, desde o primeiro caso[1]. Continuar a ler

Em fase janela: dilemas sobre o trabalho de campo à distância

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Ana Sofia Ribeiro, ICS-ULisboa

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Fotografia de uma das participantes no estudo, tirada da janela do seu quarto durante a quarentena

Fazer trabalho de campo é talvez a minha parte preferida do processo de investigação. Conhecer pessoas, ir aos locais, observar a vida quotidiana, são para mim primeiras escolhas para recolha de dados. Não é que ignore o valor de uma boa desk research. É só que apesar de hoje em dia ser possível obter dados de grande qualidade a partir de fontes digitais, a investigação sobre catástrofes implica geralmente uma aproximação material ao campo, para averiguar perdas e impactos. No caso da minha investigação sobre jovens no interior e recuperação dos grandes incêndios de 2017, o contacto pessoal no terreno tem sido insubstituível no acesso a realidades muitas vezes invisíveis, porque afastadas dos grandes centros de produção mediática.

Entrevistar estes jovens não é fácil, pois a dispersão no território e as barreiras à sua mobilidade fazem com que estejam resguardados em suas casas. Os ambientes de aprendizagem informal que constituem a minha base de recrutamento também têm um funcionamento irregular, o que implica reorganizações de última hora e cancelamentos. Por outro lado, os próprios jovens têm as suas agendas e vontades, e nem sempre estão livres para falar comigo. Assim, iniciei recentemente a realização de entrevistas online via Whatsapp. O Whatsapp é a aplicação mais utilizada pelos jovens, e a que permite fazer vídeo entrevistas gratuitamente através do telemóvel. As entrevistas online são particularmente úteis para casos em que os sujeitos estão distantes ou em situação vulnerável, e dão flexibilidade aos utilizadores para escolherem o melhor momento. No entanto, levantam algumas questões. Continuar a ler

A contaminação das ciências sociais num “mundo aos quadradinhos”

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Vitor Sérgio Ferreira, ICS-ULisboa

Não sei se o meu corpo está contaminado por COVID-19 quando escrevo este post. Mas sei que, inevitavelmente, este vírus veio contaminar os mundos de vida de tod@s @s cientistas sociais, desde as formas de organização do trabalho científico e de conciliação entre trabalho e família, até à forma como moldam os objetos de estudo e se relacionam com @s interlocutores nos respetivos terrenos. Não há tema nem pessoa que não experimente alguma forma de contaminação social e simbólica pelo COVID-19, esteja ou não biologicamente infetada. Continuar a ler

Regressando à América do Sul – Emerson Pessoa, alumni de doutoramento (ICS-ULisboa)

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emerson

Emerson, onde estás agora e que planos tens para o presente?

Após o fim do doutoramento regressei para a Universidade Federal de Rondônia (UNIR-Vilhena) para retomar as atividades como professor de Sociologia no Departamento de Administração. Neste semestre estou a lecionar as disciplinas de Sociologia, Antropologia e Metodologia da Pesquisa Científica para as licenciaturas em Administração e Letras. Os planos a curto-médio prazo são prosseguir com as atividades como coordenador do grupo de pesquisa HIBISCUS (Grupo de Pesquisa e Extensão sobre Gêneros, Discursos e Comunicação na Amazônia Ocidental), a orientação de Trabalhos de Conclusão de Curso e de Dissertações de Mestrado, Projetos de Extensão e a publicação dos artigos da minha tese.

Na tua bagagem o que levaste de melhor da academia portuguesa?

Os 4 anos em que cursei o doutoramento no ICS foram cruciais para o desenvolvimento das minhas habilidades como pesquisador. O ICS, principalmente na pessoa do meu orientador Vitor Ferreira, foi fundamental para o aprendizado de novas metodologias, técnicas de pesquisa e de análises de dados que serão utilizados nesta nova fase da minha trajetória como pesquisador e professor. Além disso, o doutoramento propiciou o contato com inúmeros pesquisadores de diversas regiões do mundo e consequentemente, a compreensão das diferenças, desigualdades e dificuldades dos campos acadêmicos. Por outro lado, as experiências na universidade portuguesa possibilitaram percepções críticas sobre a produção do conhecimento científico em Portugal e no Brasil e que serão valiosos para este novo momento da minha vida profissional.

No futuro, o ICS poderá vir a…

Ser a minha instituição de acolhimento para um futuro pós-doutoramento e/ou um parceiro no desenvolvimento das minhas próximas pesquisas. O ICS será lembrado como uma casa onde vivi um importante momento da minha trajetória acadêmica. Mais do que isso, um local onde constituí laços profissionais e de amizade. Agradeço à comunidade ICS pelo suporte recebido durante toda a minha estadia na cidade de Lisboa e no Instituto.

 

BIO

Emerson Pessoa doutorou-se em Sociologia (Programa Interuniversitário de Doutoramento OpenSoc), em 2020. Graduou-se em Ciências Sociais pela Universidade Estadual de Maringá (UEM) e fez mestrado nesta mesma área e instituição. As suas pesquisas permeiam as discussões sobre corpos, gêneros, sexualidades, biotecnologias e processos de subjetivação.