Sociologia de uma singularidade editorial

emanuelEmanuel Cameira é estudante de  doutoramento em Sociologia no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, e professor convidado no ISCTE-IUL.


Primeiro a &etc, depois a &etc na minha cabeça, e depois ainda o que fixei na tese doutoral, recentemente entregue para provas públicas. Conceitos, raciocínios, rizomas, mediações para novos encontros com a editora literária de Vitor Silva Tavares (1937-2015), veículo através do qual ele e outros se exprimiram.

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de “& etc” (de Cláudia Clemente, 2007)

Fiz minhas as seguintes premissas de Nuno Medeiros: “iluminar o papel de uma casa editora e interpretar a sua actividade como actor participante na dinâmica cultural dos contextos sócio-históricos em que actua, […] part[indo] justamente da ideia de observatório de indivíduos e editoras que sejam estudados como casos, procurando discernir itinerários singulares e tentando elaborar hermeneuticamente uma narrativa na qual estes itinerários adquiram sentido no quadro da sua ligação aos contextos em que têm lugar e aos processos em que participam[i]. Porque o panorama é este: uma sociologia e história da edição portuguesa da segunda metade do século passado até à actualidade pouco consolidadas em estudos de natureza intensiva ou compreensiva, capazes de manifestar interesse por quem (singularmente) interfere nos contornos dos campos editorial e literário. Por outras palavras, faltam trabalhos de timbre social e historiográfico incidindo em actores específicos, tanto sobre personagens como casas editoriais, para já não falar em livrarias.

Ora a investigação a que me abalancei orientou-se para o conhecimento de uma singularidade, conceito com que iniciei o trilho da pesquisa e que ganhou imediatamente relevo, tanto pela própria natureza do fenómeno em estudo como pelo alcance de uma linhagem que, dentro da disciplina sociológica, sempre achei intelectualmente intrigante e apelativa. A linhagem que, para o mundo da criação artística, com Nathalie Heinich, Idalina Conde ou Norbert Elias (sobretudo o Elias de Mozart. Sociologia de um génio), quis equacionar de uma nova forma esse “estado de irredutibilidade a que se associa certos indivíduos em virtude das suas acções ou obras, excluindo, por definição, a generalização, a busca de equivalência[ii].

Não sem relação, ponho a nu o que Paulo da Costa Domingos, autor/colaborador nuclear da &etc, escreveu num e-mail que me enviou: “é sempre interessante, para nós daqui deste lado da rua, ficarmos a saber que a Universidade ainda não conseguiu ruminar e digerir um território de acção poética”. Também Vitor Silva Tavares adensou o meu entusiasmo sociológico pela &etc quando, numa conversa que tivemos, disse: “esta editora não existe” – a capacidade reflexiva do objecto lembrava assim ao investigador o problema de perceber que desafios analíticos se levantavam para uma editora que parecia isolar-se do social, muito por força da singularidade procurada pelo seu editor.

Objecto sociológico interessante, inclusive para reflectir sobre o social, para perceber como as pessoas agem socialmente, a &etc de Vitor Silva Tavares foi por mim abordada numa multiplicidade de vias reflexivas, comunicantes, e mobilizando diferentes recursos de conhecimento – perscrutei representações produzidas em torno da editorial; reconstituí interacções implicando o editor, os autores, círculos de sociabilidade intelectual, outros indivíduos (tarefa indispensável para interpretar certas relações inscritas na história cultural portuguesa recente e das quais há carência de registos); explorei a complexidade social em que se alicerça a individualidade singular (de Vitor Silva Tavares, mais concretamente); trouxe a singularidade no seu estatuto de problemática à sociologia da edição…

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“Coisas” – 1.º livro publicado pela editora &etc
Fevereiro/Março de 1974
(capa de João Vieira)

Apenas para situar, refira-se que o dealbar do projecto &etc se deu ainda na segunda metade da década de 1960, na qualidade de magazine do Jornal do Fundão. Seguiu-se depois a revista autónoma com o mesmo nome, e a editora (de livros), funcionando desde 1973 até 2015. O afastamento reiterado da vertente mercantil, o regresso a certas formas de artesania e saber, o eclectismo das linguagens artísticas que congregou, a centralidade na afirmação de expressões marginais e de determinados grupos estéticos (realce-se, por exemplo, a ligação inicial a uma particular vaga do surrealismo português) ou o carácter de pólo despoletador de outras editoras foram, efectivamente, alguns dos traços de uma iniciativa editorial que pus sob a focagem das sociologias da cultura e da edição, contemplando as subjectividades, os sentimentos, e, muito importante, reivindicando um modo artesanal de produzir ciência – “A Sociologia como um pensar que ainda é um fazer, mas um fazer pensando[iii].


[i] Medeiros, Nuno. 2012. «João Romano Torres e C.ia: hermenêutica social de uma editora». Texto apresentado na Escola São Paulo de Estudos Avançados sobre a Globalização da bCultura no Século XIX, Universidade Estadual de Campinas (Brasil), 22 de Agosto, disponível em http://repositorio.ipl.pt/bitstream/10400.21/2193/1/Jo%C3%A3o%20Romano%20Torres%20e%20Cia.pdf, acedido em Janeiro de 2016: 4 p.

[ii] Heinich, Nathalie. 1998. Ce que l’art fait à la sociologie. Paris: Les Éditions de Minuit.

[iii] Martins, José de Souza. 2014. Uma Sociologia da vida cotidiana: ensaios na perspectiva de Florestan Fernandes, de Wright Mills e de Henri Lefebvre. São Paulo: Editora Contexto.


Como citar este artigo: Cameira, Emanuel  (2017) ISociologia de uma singularidade editorial. Life Research Group Blog, ICS-ULisboa, https://liferesearchgroup.wordpress.com/2017/11/02/ 02 Novembro 2017 (Acedido a xx/xx/xx)

Ações afirmativas no acesso ao ensino superior: como têm mudado a vida dos jovens de origem popular no brasil?

avaAva Carvalho é  doutoranda em Psicologia do Desenvolvimento na Universidade Federal da Bahia, professora do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia da Bahia (IFBA), membro do grupo de pesquisa Observatório da Vida Estudantil (UFBA), e doutoranda-visitante no ICS-ULisboa.


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Ibititá é uma pequena cidade localizada no centro-norte do estado da Bahia, Brasil, com menos de 20.000 habitantes. Em uma casa simples com quintal, cozinha ampla e dois quartos – para receber o filho quando chega de viagem – vivem Gilda e Joselito, pais de Fredson, 30 anos. Fred, como é chamado pelos pais, saiu do interior para a capital da Bahia, Salvador, aos 18 anos, com a expectativa de se preparar para a entrada na universidade, após ter concluído a sua formação escolar. Depois de um ano estudando na capital, foi aprovado para o curso de Direito da Universidade Federal da Bahia e não mais retornou à casa dos pais. Segundo ele, até hoje a sua mãe “sente” a sua ausência; Gilda gostaria que Fred encontrasse um emprego em alguma cidade próxima, embora esteja cada vez mais convencida de que ele não volta mais a viver em sua casa. Continuar a ler

Uma sociologia leve e profunda

emanuelEmanuel Cameira é estudante de  doutoramento em Sociologia no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa.


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Jeremias van Winghe (1578-1645)
Cena de cozinha, 1613

Extraído de Um quarto que seja seu: “O almoço começou com linguados imersos num molho espesso e branco, preparados pelo cozinheiro da universidade”[i]. Tais palavras, da autoria de Virginia Woolf, vieram-me de imediato à lembrança enquanto lia a entrevista dada pelo sociólogo José Machado Pais à também socióloga Marcela Fernanda da Paz de Souza, publicada este ano na brasileira Revista de Ciências Sociais. Continuar a ler