Vozes e protagonismo de estudantes juvenis brasileiros: análise do projeto “Outros Olhares”

POST-CAST

fláviaFlávia Brocchetto Ramos é Professora na Universidade de Caxias do Sul-RS, e foi investigadora-visitante no ICS-ULisboa.

lovaniLovani Volmer é Professora na Universidade FEEVALE.

A linha literária é um instrumento para
elaborar o mundo interior e, portanto, de
modo indissoluvelmente ligado, a
relação com o mundo exterior.
(Michèle Petit)

O clássico literário ultrapassa barreiras temporais e espaciais. Assim são os contos de Machado de Assis que ainda têm algo a dizer a jovens em idade escolar. Os jovens têm a possibilidade de, pela literatura, ter contato com posições axiológicas de outra época, de estabelecer relações com a atualidade, de refletir sobre a língua e suas variantes, como forma de expressão e identidade dos grupos sociais e da época em foco. Esses contos foram o mote para o “Projeto Outros Olhares”. O Projeto é desenvolvido, anualmente, desde 2002, com alunos do Ensino Médio, em uma escola comunitária da região metropolitana de Porto Alegre, no sul do Brasil, e consiste na leitura e adaptação de contos de Machado de Assis a curtas-metragens. Aqui, tomamos o Projeto e, em especial, um curta para analisarmos a atuação de jovens integrantes da proposta.

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Cartaz produzido pelos estudantes para o curta Ela. Imagem da Prof.ª Lovani.

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“COVIDamos” em um mundo globalizado.

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Victor Nedel,  Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Brasil) 

Somos apresentados, diariamente, a uma enxurrada de informações acerca da pandemia de COVID-19. Televisão, redes sociais, rádio e vizinhos têm sido agentes propagadores das mais variadas notícias sobre o novo Coronavírus. Ao mesmo tempo, no mundo inteiro, as Universidades têm sido demandadas na produção de conhecimento científico sobre o vírus, na produção de insumos para testes, na criação de métodos de assepsia e consequente fabricação de álcool gel, na busca por uma vacina ou medicamento que interrompa a reprodução do vírus no corpo humano.

“COVIDamos” todos juntos. O mundo “COVIDou”. Com a devida licença pela criação, por meio de aglutinação das palavras, penso que essa seja a realidade pela qual estamos transcorrendo, enquanto humanidade. Não seria esperada outra situação, frente ao mundo globalizado em que vivemos, sobre a disseminação do novo Coronavírus: mais do que o próprio vírus, o que se prolifera são as informações que dele decorrem. Nunca antes da história da humanidade uma pandemia está tendo cobertura full time como a pandemia de COVID-19, e isso é reflexo da conectividade do globo, a partir da internet e, principalmente, das redes sociais. Exemplos dessa disseminação de informações são as mais de 1 bilhão de menções sobre o novo Coronavírus na mídia brasileira, desde o primeiro caso[1]. Continuar a ler

LIFE Seminar | 14 Janeiro 2020

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Neste seminário LIFE apresento o processo de pesquisa e os principais resultados da minha tese de doutoramento em Sociologia (Programa Interuniversitário de Doutoramento OpenSoc), intitulada “Encarnando a Europeia: biografias corporais, (i)mobilidades e subjetividades de trabalhadoras do sexo trans e travestis brasileiras em Lisboa”. A entrada é livre.

Esta tese busca compreender a construção de biografias corporais e de patrimônios de disposições de trabalhadoras do sexo trans e travestis brasileiras em mobilidade para Portugal e/ou no continente europeu. Por meio de entrevistas compreensivas e teoricamente orientado por uma Sociologia à escala individual e do corpo, analiso as disposições para a modificação do corpo e de produção do Eu produzidas no decorrer de trajetórias de vida que transitam por contextos sociais, geográficos e históricos distintos. Continuar a ler

Cartoons, Saúde e Conjuntura: disputas e sentidos na imprensa escrita brasileira

1Nilson Moraes é investigador visitante no ICS-ULisboa, e professor na Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro.


writing-hand-fig-brand-art-sketch-490822-pxhere.com.jpgA pobreza, a desigualdade e as doenças são constituintes da História brasileira. Tais condições são reportadas ao longo de cinco séculos por artistas, estudiosos, analistas sociais, militantes sociais e políticos. O quotidiano da sociedade brasileira é feito e expresso em carências, ausências e desacertos, este é um dos motivos da presença das doenças, da saúde e do Sistema Único de Saúde (SUS) nos jornais. Continuar a ler

LIFE Seminar | 10 de Dezembro 2019

No próximo dia 10 de Dezembro o ciclo de seminários do grupo de investigação LIFE vai contar com a presença de Flávia Brocchetto Ramos, Investigadora Visitante no ICS-ULisboa, que irá apresentar o seu trabalho (em co-autoria com Lovani Volmer) A voz e o protagonismo de estudantes juvenis brasileiros: análise do projeto “Outros olhares”. A entrada é livre.

LIFE 10 dez_001 Continuar a ler

LIFE Seminars | 12 de Novembro 2019

No próximo dia 12 de Novembro vamos contar com a presença de Nilson Moraes no seminário do grupo de investigação LIFE, Investigador Visitante no ICS-ULisboa que irá apresentar o seu trabalho Charges, saúde e conjuntura: como se fosse possível analisar os 100 primeiros dias de Bolsonaro. Continuar a ler

Aprendizagem no cotidiano escolar: direitos, experiências e reflexões discentes

car.pngCaroline Caldas Lemons é doutoranda-visitante no ICS-ULisboa, proveniente da Universidade de Caxias do Sul/RS – Brasil.


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Ao realizar a pesquisa do Mestrado em Educação sobre o direito à educação no Brasil no âmbito da educação formal, escutei muitas vezes nas narrativas de professores e professoras da Educação Básica de uma Rede Municipal de Ensino no extremo sul do Brasil a queixa de que os/as estudantes não aprendem. Como pesquisadora e professora da Educação Básica, essa percepção de que o ensino não surte o efeito esperado na aprendizagem me deixou bastante intrigada e que fez querer saber:

O que está sendo apreendido pelos/as estudantes em decorrência do ensino? O que os/as jovens têm a dizer sobre suas aprendizagens? Que aprendizagens escolares têm sido consideradas mais significativas por eles/as e por seus/suas professores/as? Será que, de algum modo, os docentes não (re)conhecem as aprendizagens discentes?

Mobilizada por essas perguntas, aventurei-me na tarefa de construir um conhecimento sobre a aprendizagem no cotidiano escolar a partir dos direitos, das experiências e das reflexões discentes sobre a própria aprendizagem. Sabendo que construir respostas a esses questionamentos envolve aprofundamento teórico em relação ao(s) modo(s) como a aprendizagem é concebida pelos professores/as e pelos/as estudantes, seja na perspectiva do direito, seja na perspectiva das experiências que para ela se volta, essa foi a minha proposta de investigação para o doutoramento em Educação.

Aprofundando achados do estudo anterior, dentre os quais o que destacou a potencialidade da intervenção pedagógica para a efetivação do direito à educação, tenho me debruçado sobre cinco culturas de intervenção pedagógica que consegui categorizar a partir da minha tese de mestrado, buscando conhecer as derivações, os desvios e as potencialidades que as mesmas adquirem na efetivação da aprendizagem. Essas culturas de intervenção pedagógica, descobri também, carregam em si elementos que, nas práticas, não se alteram, independentemente da legislação educacional e/ou dos sujeitos para as quais se voltam.

Pela permanência temporal e pelos elementos cristalizados, as cinco culturas de intervenção pedagógica a que cheguei são as seguintes: culturas de (a) reprodução, (b) recomendação, (c) disciplina, (d) outorga/transferência e (e) emancipação, conforme explicito brevemente abaixo com alguns exemplos das narrativas docentes que auxiliaram nas suas construções.

(a) Culturas de reprodução: Dizem respeito às iniciativas e proposições docentes que não ultrapassam a dimensão da reprodução de conteúdos, das experiências e dos modos de ensinar e avaliar explorados maciçamente nas últimas décadas (em que, ainda que ocorram adequações, são raras ou pouco significativas as reinvenções).

“Porque não adianta, se o aluno apresentou uma dificuldade, eu retomar da mesma forma”; “O sistema tem que se reinventar”.

(b) Culturas de recomendação: Correspondem às variadas indicações, conselhos e recomendações que os/as professores/as fazem aos/às estudantes em relação aos modos de aprender, cuidar de si, acessar a informações, construir relações entre seus conhecimentos e a realidade social ou ainda cuidar dos outros, dentro ou fora da escola.

“Trabalhar como pagar uma conta, arrumar uma cama, lavar uma louça”; “Ver os alunos na faculdade e/ou em um bom emprego”.

(c) Culturas de disciplina: Exemplificam práticas de intervenção pedagógicas voltadas tanto para a sujeição discente quanto para o exercício de sua cidadania frente aos regramentos sociais em geral, ou seja, tanto no sentido de dificultar ou impedir a sua expressão quanto no sentido de mostrar maneiras responsáveis, organizadas e respeitosas de estar no mundo e com os outros.

 “Os alunos que não querem estudar atrapalham os colegas”; “Não se aprende só na sala de aula, só sentado”.

(d) Culturas de outorga/transferência: Relacionam-se às práticas voltadas para a transferência total da responsabilidade docente com vistas a não assumi-la (quando delega a outro – membro da escola, da família ou profissional – a responsabilidade profissional que lhe cabe) e/ou transferência parcial da responsabilidade docente, cujo objetivo é congregar esforços para que as potencialidades discentes possam ser plenamente desenvolvidas.

“[Seriam necessários] profissionais da saúde à disposição da educação/escola”; “Não ter formação nem auxílio de especialistas para identificar ou diagnosticar alunos que apresentam limitações de aprendizagem”.

(e) Culturas de emancipação: Reúne as reinvenções docentes, a ampliação dos modos de socialização e dos estímulos às descobertas que, em geral, fogem das condutas mais tradicionais exemplificadas, pois carregam o inusitado, conduzem a novos arranjos pedagógicos, apostam em projetos voltados para o desenvolvimento da criatividade, buscando tornar concreta a ideia de autoformação integral dos sujeitos em processo de escolarização.

“Situações de alunos sendo oficineiros”; “A prova e o final não existem”; “Esse respeito à individualidade, ao ritmo de cada um para aprender […]”.

Bem, se no âmbito jurídico, desde a promulgação da Constituição Federal de 1988 no Brasil, a educação é um direito subjetivo universal e inviolável a que todos podem pretender e, se no âmbito social, a prática pedagógica deve orientar-se pelo conjunto de políticas educacionais vigentes, sendo importante adequá-las a diversidade cultural característica da progressiva escolarização de crianças e jovens em todo o país, carece problematizar:

Se o público escolar foi alterado e algumas práticas de intervenção pedagógica permanecem sendo acionadas, quais seus potenciais para a construção das aprendizagens juvenis? O que há entre a intervenção pedagógica e a aprendizagem dos estudantes quando os professores/as queixam-se da não aprendizagem? Quais são as derivações dessas intervenções no âmbito do cotidiano da Educação Básica? Que aspectos são potenciais na efetivação do direito à aprendizagem?

A aprendizagem, ao tornar-se protagonista das relações que devem ser estabelecidas no cotidiano escolar, portanto, centro do processo educativo, precisa estar presente na intencionalidade e nas ações pedagógicas. Contudo, se os/as docentes queixam-se de que nem sempre alcançam os resultados esperados e mesmo assim não alteraram substancialmente elementos de suas práticas, talvez, entre outras razões, haja falta de um horizonte comum entre as expectativas docentes e discentes quando se trata da aprendizagem.

Certamente, efetivar a aprendizagem para todos/as, consideradas todas as diversidades (sociocultural, cognitiva, biológica), não só torna a tarefa imensa e complexa – talvez até utópica para alguns – quanto exige muitos investimentos, dentre os quais o diálogo. Acredito que uma relação pedagógica dialógica entre docentes e discentes possa auxiliar a compreensão sobre quê aprendizagens têm sido mais significativas para a constituição dos saberes discentes, ou mesmo que elementos não percebidos ou reconhecidos pelos docentes têm sido potenciais nesse processo.

Nesta perspectiva, pretendo adentrar o espaço escolar, observar o cotidiano da Educação Básica e estabelecer um diálogo reflexivo com professores (as) e estudantes acerca de suas compreensões sobre os processos de ensino e aprendizagem. Esta é a forma escolhida para construir respostas à seguinte problemática de pesquisa: “A partir do ponto de vista dos estudantes da Rede Municipal de Ensino de Caxias do Sul, como as culturas de intervenção pedagógica de reprodução, recomendação, disciplina, outorga e emancipação potencializam a aprendizagem?”.

Para alcançar a percepção dos jovens sobre suas experiências de aprendizagem no cotidiano escolar, convidarei estudantes do 9º ano do Ensino Fundamental que tenham feito todo o percurso escolar deste nível de ensino apenas em escolas da Rede Municipal de Ensino de Caxias do Sul.

O trabalho de campo envolverá inicialmente Mapas E-mic Rítmicos e Grupos Focais. Com os Mapas – instrumento quantitativo e gráfico para marcações relacionadas aos ritmos da vida (altos e baixos) – pretendo tomar o grau de satisfação dos estudantes em relação aos seus percursos escolares e de vida e estimulá-los a narrar sobre os pontos em que estes percursos se (des)encontram. Com os Grupos Focais, a partir de três temáticas predefinidas, desejo estimular nos jovens o debate acerca de suas experiências de aprendizagem e a relação dessas com as práticas e culturas de intervenção pedagógica.

Com esses procedimentos metodológicos – e outros que poderão ser agregados ao longo desta pesquisa que envolve as relações entre cotidiano, aprendizagem, experiência, reflexão e percepção – acredito ser possível mapear aprendizagens significativas, desdobradas da relação entre professores e estudantes, e discutir desvios e potencialidades da intervenção pedagógica na efetivação do direito à aprendizagem na Educação Básica. O desejo é que, ao final da investigação, seja possível propor intervenções pedagógicas potenciais para a efetivação do direito à aprendizagem.


Como citar este artigo: Lemons, Caroline Caldas (2019). Aprendizagem no cotidiano escolar: direitos, experiências e reflexões discentes. Life Research Group Blog, ICS Lisboa, https://liferesearchgroup.wordpress.com/2019/07/11 11 de Julho de 2019 (Acedido a xx/xx/xx)

Infâncias brasileiras, educação e sentidos de futuro

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Levindo Diniz Carvalho é professor da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Minais Gerais e investigador-visitante no ICS-ULisboa.


A reflexão sobre a infância, educação e sentidos de futuro constitui um instigante desafio, em particular para nós, pesquisadores brasileiros, em um contexto de retrocesso na conquista de direitos sociais, barbárie nas condições de vida das crianças pobres e do risco que se anuncia na implantação de uma visão reducionista e dogmática para as políticas educacionais.

Emblemáticas imagens da infância brasileira informam a complexidade dos  modos de vida de nossas crianças, e exemplificam a trama simbólica em que são tecidas suas experiências em uma sociedade cindida e desigual que conforma distintas e diversas formas de se viver esse ciclo da vida.

Nesse horizonte, as interrogações da sociologia da infância procuram tomar as crianças como o seu centro de interesse, superarando o paradigma biológico: em um nível de análise estrutural buscam compreender a infância como geração. A sociedade, tal como é atravessada por clivagens de classes sociais, dicotomias de gênero, identidades étnicas etc., assenta também em uma ordem geracional, em que coexistem adultos e crianças, “adultez” e infância opondo-se enquanto categorias binárias dessa ordem. Pode-se então dar visibilidade às crianças considerando-as a parte dominada e subalterna dessa ordem geracional, mostrando como elas não têm os mesmos direitos de cidadania dos adultos e que estão também afastadas do acesso aos recursos econômicos.

Entretanto, a criança não está passivamente submetida a essa estrutura. Como sujeito social ativo, ela exerce uma “agência” (agency) nas relações sociais. Esta perspectiva interpretativa evidencia como esses sujeitos constroem processos de subjetivação próprios por meio de sua produção simbólica, estabelecendo interações com os adultos e com seus pares, que as levam a “reproduzir interpretativamente” e recriar a cultura mais ampla e a própria cultura escolar.

No contexto brasileiro, as investigações sobre infância nas ciências sociais informam a complexa realidade da infância e os inseguros mundos de vida das crianças. Ainda que tenhamos tido avanços inéditos, sobretudo na primeira década dos anos 2000, no Brasil, seis em cada dez crianças vivem na pobreza – isto é, aproximadamente 32 milhões de pessoas (PNAD 2015). Dessas, 24 milhões além de viverem com renda insuficiente, têm um ou mais direitos negados, como moradia, água, educação, exploração do trabalho, sendo o saneamento básico a privação mais recorrente.

Os dados mais recentes apontam para a rápida deterioração das condições de vida da criança no Brasil após 2016. Registra-se, por exemplo, o aumento da mortalidade infantil após 20 anos de queda contínua. Observa-se, assim, a fragilidade das conquistas de direitos pela criança, num país onde a democracia é ainda recente e a desigualdade sócio-racial é histórica e persistente.

É das franjas mais empobrecidas da nossa população que se escuta, em uma etnografia, a instigante frase de Ana, uma menina de 6 anos, vítima de violência  doméstica e negligência. À época, a criança já havia vivido por alguns meses em uma instituição de acolhimento, um abrigo, e também com duas diferentes  famílias que faziam parte de um programa chamado ”famílias acolhedoras” cujo objetivo era abrigar crianças. É em uma atividade de produção de desenhos na escola que a menina tematiza o seu complexo mundo social, desenha as diferentes casas em que já morou e, ao olhar repetidas vezes para o desenho, diz: “Eu queria mesmo era morar em um caminhão de biscoito”.

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Desenho de Ana representando as portas casas onde já viveu
Fonte: Carvalho 2015

Apontada como ‘a problemática’, ‘sem futuro’, ‘a suja’ e/ou ‘a coitadinha’ da escola, Ana não é uma metáfora sobre a vulnerabilidade e a pobreza na infância. Ana é uma realidade, um sujeito concreto, sendo representativa de uma geração que teve recente acesso à educação, mas ainda enfrenta a luta cotidiana pelas condições objetivas da vida.

Por outro lado, pelo o fato de estar em uma escola que em tempo integral (ou a “tempo inteiro”), a condição social de Ana ganha visibilidade: ela demanda práticas de cuidado e higiene, passa se a alimentar melhor graças à escola,  mas sobretudo desafia a escola e o papel dessa instituição como agente articulador da rede de proteção social. Sua presença nos convoca, portanto, a ultrapassar uma análise binária acerca da função da escola – ensino versus proteção social;  cidadania escolar versus cidadania plena;  alargamento dos currículos e  diálogos ‘com’ e ‘no’ território versus crença na função única da escola.

Entretanto, o caso de Ana não encerra a imagem da criança pobre brasileira e seus direitos. Ainda que também pontualmente, vale lembrar que temos no Brasil um original exemplo de participação ativa das crianças na cena social: o Movimento Nacional dos Meninos e Meninas de Rua (MNMMR), que tensionou, no final da década de 80 e 90, as ideias sobre as crianças em situação de rua: ‘menores?’; ‘Abandonados?’; ‘Infratores?’.

A participação das crianças no MNMMR deu-se num momento de redemocratização do país e de conquista de direitos, em que o movimento teve papel fundamental  na elaboração e aprovação da Estatuto da Criança e Adolescente, marco legal que institui a noção da proteção integral.  A celebração dos 30 anos da Convenção Internacional dos Direitos da Criança (UNCRC), que acontece em 2019, constitui um precioso momento de reflexão sobre os resultados de sua implementação, expresso nas condições de vida das crianças dos países signatários.

A produção acadêmica sobre o tema revela que o protagonismo dos meninos e meninas de rua na definição e conquista de seus direitos, demonstra, inclusive, uma concepção menos adultocêntrica do que a participação preconizada pela declaração Tal  movimento informou também  novas  lógicas de governança e de afirmação dos direitos da criança e poderia, assim, como o contemporâneo movimento dos “Sem Terrinha”,  inspirar lentes sociológicas sobre a criança, sua agência e  incidência  em políticas e práticas de educação.

 São, entre outras tantas possíveis de serem aqui evocadas, essas diferentes crianças e infâncias que estão em nossas escolas. Diversidade cujos campos da sociologia da Educação e Sociologia da infância, em suas tensas articulações, assumem a tarefa de compreender, na polifonia de suas vozes e as condições conjunturais em que seus discursos são produzidos. Um desafio teórico, epistêmico e metodológico em muitos casos ainda por ser decifrado.

Uma breve aproximação das realidades paradoxais das crianças brasileiras e suas escolas, nos inquieta e nos exige afirmar a necessidade de uma educação inscrita no amplo campo das políticas sociais, lócus de enfrentamento de desigualdades sociais. Esse foi, em alguma medida, o caminho percorrido pelo Brasil entre anos 2003 a 2013.

Entretanto o retrocesso que o Brasil apresenta nesse momento histórico mobiliza a todos nós com grande preocupação. Jair Bolsonaro, presidente eleito nas eleições de 2018 e vinculado à ultradireita, defende, entre outras aberrações, a revisão do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). O líder de Estado chegou a afirmar que ECA deveria “ser cortado em pedaços e jogado no vaso sanitário“. Já nos cinco primeiros meses de mandato, as atuais políticas educacionais caminham para a precarização da oferta da educação pública, criminalização dos professores e para militarização de escolas. Um revés que atinge diretamente a população mais pobre do país.

No desejo de que não nos furtemos do nosso compromisso ético, pergunto: Que sentidos de futuro podemos vislumbrar para as crianças brasileiras neste final da segunda década dos anos 2000? Oxalá possamos avançar em nossos trabalhos na compreensão da singularidade da infância e sua presença na cena social e, assim, encontrar respostas à esta indagação. Mas também que possamos, a partir das nossas lentes,  colaborar, de maneira enfática e posicionada, no engajamento político e pela defesa de seus direitos como crianças.


Como citar este artigo: Carvalho, Levindo Diniz  (2019). Infâncias brasileiras, educação e sentidos de futuroLife Research Group Blog, ICS Lisboa, https://liferesearchgroup.wordpress.com/2019/05/09 09 de Maio de 2019 (Acedido a xx/xx/xx)

Pedras nas trajetórias de estudantes de Taperuaba: a superação como ponto de partida

aleksandra.pngAleksandra Oliveira é doutoranda em Sociologia na Universidade Federal de Goiás, Brasil, e doutoranda-visitante no ICS-ULisboa.


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Minha pesquisa doutoral em curso trata da história de vida de estudantes que buscam inclusão e reconhecimento social através da escolaridade estendida. Para além da análise da singularidade das biografias, procuro compreender que conjunturas e processos desencadearam transformações nas trajetórias de pessoas comuns, o que fez com que agarrassem ou cultivassem oportunidades e alcançassem destinos improváveis.

Elegi oito interlocutores provenientes de famílias com baixo poder aquisitivo, com pouca escolaridade, egressos de escola pública, que conseguiram chegar ao ensino superior público, entre graduação e pós-graduação stricto sensu. Três são mestras em Geografia, Filosofia e Saúde Pública, e uma doutoranda em Antropologia Social; entre os moços, três são doutorandos em Geociências Paleontologia, Química e Geografia, e o mais jovem é graduado em Letras/Inglês.

A realidade local onde os meus interlocutores lançaram seus primeiros passos como sujeitos de sua história tem como característica o isolamento geográfico. Esta foi a primeira “pedra” – no sentido de barreira – para o prosseguimento escolar. O distrito de Taperuaba fica a 72 km de distância da sede do município de Sobral, no Noroeste do estado do Ceará, distante 207 km da capital Fortaleza, no Brasil. Dadas as distâncias que os separam da capital e de Sobral, os moradores têm acesso limitado a muitos serviços, bem como ao intercâmbio cultural e institucional.

A estrada é um caminho inevitável para obter comércio diversificado, transações bancárias, assistência médica especializada, ensino universitário e formação complementar. Em algumas ocasiões, não raras, os estudantes necessitam fazer este trajeto duas vezes ao dia, quando há atividades em turnos não conciliáveis, como manhã e noite, o que os leva a percorrer até 288 km numa única jornada. Localizado no Nordeste brasileiro – que em termos de geopolítica é considerado periferia em relação ao Sudeste e ao Sul -, esta região é historicamente menos assistida por investimentos econômicos e sociais. Melhorias através da implantação de políticas públicas na área da educação e saúde, por exemplo, são ações muito recentes. Para se ter uma ideia, a implantação do nível médio de ensino e a construção do posto de saúde foram conquistas que a comunidade de Taperuaba só alcançou no início dos anos de 1990.

A economia da comunidade taperuabense gira em torno da agricultura sazonal típica do semiárido, do pequeno comércio, de benefícios sociais do governo e dos insuficientes e disputados empregos públicos – em geral temporários – na área da educação (cinco escolas) e na área da saúde (dois postos de saúde). Mas a vocação econômica do distrito está nas pequenas e médias empresas de confecção para recém-nascidos, que há pelo menos três décadas passaram pela transição do artesanato do bordado à mão para o bordado à máquina. Com exceção do interlocutor mais jovem da pesquisa, todos os demais iniciaram a vida profissional nas atividades da confecção do bordado, não como escolha, mas como meio de sobrevivência. Logo que possível, todos abandonaram a atividade do bordado e migraram para a área da educação e da pesquisa. Este é o micropanorama socioeconômico que gestou os sujeitos com quem trabalho.

Ao longo de suas vidas, os interlocutores pesquisados driblaram uma série de escassezes e contratempos, aproveitaram e otimizaram chances e meios para ampliar a escolaridade e para se qualificarem profissionalmente. Um dos critérios na escolha dos interlocutores da pesquisa foi a faixa etária, que vai de 24 a 40 anos de idade. Esta opção considera que o contexto histórico da educação pública brasileira atravessou mudanças ao longo das últimas duas décadas, e que essas mudanças repercutiram, de formas diversas, nos percursos escolares dos pesquisados.

Em 1998, a primeira estudante do grupo estudado ingressou no ensino superior. Àquela altura, ela fazia parte de uma parcela muito restrita de pessoas pertencentes às camadas economicamente desfavorecidas que alcançavam esse feito. A partir de 2003, é verificado maior investimento em políticas públicas de educação. As matrículas no ensino superior cresceram paulatinamente até tomar grandes proporções, especialmente com a criação do Programa de Expansão e Reestruturação das Universidades Federais (Reuni), em 2008. Em todo o Brasil, inclusive no interior, foram abertas 18 novas Universidades Federais e 173 campi universitários, incluindo novas unidades de Institutos Federais de Educação Ciência e Tecnologia. Os Institutos Federais (IFs) oferecem cursos que vão do nível técnico à pós-graduação. Foram criados novos programas de pós-graduação stricto sensu em todo o Brasil, acompanhados pela criação e ampliação de sistemas de bolsas de estudo e pesquisa em vários níveis. Tal cenário possibilitou o ingresso e a permanência de estudantes economicamente carentes, viabilizando o estudo e acesso à uma renda mínima de subsistência.

A realidade de quem viveu o ensino básico entre as décadas de 1980 e 1990, e chegou ao ensino superior na travessia para os anos 2000, foi completamente diferente de quem viveu a escolaridade nos anos posteriores. As políticas públicas de educação que foram implantadas na última década e meia alteraram sobremodo o perfil dos ingressantes na universidade, além das trajetórias escolares e de vida de grupos sociais antes excluídos. Os sujeitos da pesquisa estão entre os primeiros de sua geração familiar a experimentar tal novidade. Foram contemplados pelas políticas públicas e as mudanças macrossociais que acompanharam suas trajetórias acadêmicas.

A partir de 2001, o governo municipal de Sobral levantou uma forte bandeira de melhoria da educação básica pública e reestruturou toda a rede municipal com metas arrojadas de proficiência da aprendizagem. Em 2006, a rede estadual de ensino incorporou a filosofia e o modelo do projeto de educação aplicado em Sobral. Este cenário médio encontrou apoio nas políticas públicas federais de educação. Desde a década de 1980 o distrito de Taperuaba protagoniza um movimento comunitário de valorização da educação escolar. O fortalecimento dos sistemas de ensino municipal, estadual e federal foi abraçado com entusiasmo pela comunidade taperuabense, que tem uma história de reinvindicações pela melhoria das escolas e pelo acesso à universidade. Toda a atmosfera local também é um ingrediente relevante para compreender como os cidadãos de um lugar tão isolado podem desejar se apropriar da possibilidade de aprender e podem ter no acesso ao conhecimento um bem precioso.

Em um encadeamento de elementos a longo prazo, os eventos macro (nacionais) e meso (regionais) podem gerar movimentos locais e podem afetar a visão de mundo de muitos indivíduos e as suas trajetórias. Quantas pessoas e quantas famílias e grupos sociais podem ser afetados por esses movimentos de mudanças? No sentido inverso, ou concomitante, quantos indivíduos podem criar em suas biografias rupturas profundas capazes de impactar sobremaneira seus grupos e suas realidades, proporcionando alterações nas macroestruturas? Esse movimento é parte do fluxo social que é conflitante e complexo.

No nível micro, o desafio é conhecer que características relevantes e que referências significativas foram determinantes na constituição dos sujeitos da pesquisa como estudantes de pós-graduação. Procuro apreender os meandros dos caminhos e as estratégias de superação que os meus interlocutores encontraram para galgar novos degraus sociais: universidade e trabalho qualificado. Estes indivíduos não se curvaram às adversidades e, ao contrário da constatação do poeta Carlos Drummond de Andrade, não se fiaram no fato de que “no meio do caminho tinha uma pedra”. Eles fizeram das “pedras” um recurso de preparação para enfrentar os desafios.

Minha fundamentação teórica-metodológica está focada em reconstituir os processos de socialização dos interlocutores da pesquisa em formas de “retratos sociológicos” inspirados no modelo de Lahire. À luz dos conceitos bourdieusianos de capitais (econômico, social, cultural e simbólico), e de patrimônio disposicional de Lahire, dentre outros, procuro encontrar os fios que tecem o panorama de sucesso escolar nas camadas populares.

Precocemente encaixados na múltipla condição de trabalhadores e estudantes/viajantes, as conquistas que alcançaram até agora os sujeitos pesquisados já os colocam na condição de “vencedores” perante seus pares, porque escaparam das reservadas trajetórias convencionais de seus antepassados e dos parâmetros comuns que limitam os indivíduos de suas classes sociais. Os estudantes indicam em suas falas que o saber escolar e a obtenção do título acadêmico representam um conjunto de suportes práticos para ascender, mesmo que relativamente, a patamares mais elevados de oportunidades profissionais, melhoria na própria condição socioeconômica e de seu grupo familiar. Além disso, há uma série de elementos simbólicos na qualificação adquirida que é conferida com a aquisição do conhecimento e a certificação do saber, que se convertem em capital cultural. Toda a nova condição se desdobra em consciência sobre a realidade, realização pessoal e conquista de autonomia.

Num cenário geopolítico de incerteza e reduzidas garantias para os menos aquinhoados no mundo onde vigora o capital financeiro, ter acesso ao conhecimento ainda é um privilégio. Para os sujeitos da pesquisa, extrapolar seus circunscritos campos de possibilidades e contrariar as recorrências de suas origens foram os primeiros passos de uma longa caminhada.


Como citar este artigo: Oliveira, Aleksandra (2019). Pedras nas trajetórias de estudantes de Taperuaba: a superação como ponto de partida. Life Research Group Blog, ICS Lisboa, https://liferesearchgroup.wordpress.com/2019/04/23 23 de abril de 2019 (Acedido a xx/xx/xx)

 

 

Da Escola Pública ao espaço público da educação: concepções e reverberAÇÕES

alex.pngAlexandre dos Santos Silva é doutorando no Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), e doutorando-visitante no ICS-ULisboa.


“É nós por nós, defendendo a Educação”
(Tema dos protestos estudantis na Insurreição Secundarista nos atos em 2018 contra a Proposta de Reformulação do Ensino Médio brasileiro).

O ano de 2015 foi marcado, no Brasil, por lutas e ocupações das escolas públicas do estado de São Paulo por parte de estudantes do Ensino Médio e do Fundamental II contra a postura autoritária e a equivocada proposta de “Reorganização Escolar” imposta pelo governo estadual de Geraldo Alckmin. Com o slogan “Não tem Arrego!”, o processo de mobilização e resistência estudantil juvenil inicia um movimento de intensas manifestações (163 protestos) e, consequentemente, mais de 200 escolas foram ocupadas durante todo o processo, entre setembro a novembro de 2015.

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Protesto dos estudantes na Avenida Paulista, em São Paulo. 2015

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