Pessoas sem abrigo: percursos de uma investigação no Brasil e em Portugal

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Maria Teresa Nobre é Professora da Universidade Federal do Rio Grande do Norte e Investigadora Visitante no ICS (tlnobre@hotmail.com)


 

Fig.1 – Pessoas em situação e rua e sem abrigo, no Brasil e em Portugal
(Foto: Maria Teresa Nobre)

Como pessoas em condições extremas inventam a vida de cada dia? Parti desta questão norteadora para realizar uma investigação no Brasil e em Portugal, com o objetivo de conhecer modos de vida de pessoas sem abrigo ou que vivem “em situação de rua”.  Neste post descreverei os percursos do trabalho de campo, através da utilização de estratégias metodológicas que permitiram-me acessar o cotidiano dessas pessoas. A construção das narrativas privilegiou a fala dos sujeitos em situações espontâneas, captadas em conversas e em deambulações pelas cidades.

O trabalho dividiu-se em duas fases: a primeira em Natal, no nordeste brasileiro, entre 2013 e 2016, realizada junto ao Movimento da População em Situação de Rua, configurou-se como pesquisa-intervenção em direitos humanos. Após três anos deste trabalho, o foco deslocou-se da macro para a micropolítica, impondo novas questões de investigação: Como habitam e circulam nas cidades esses “nômades contemporâneos”? Que espaços urbanos ocupam e como reinventam objetos e percursos? Como enfrentam as adversidades? Como ressignificam as categorias de tempo e espaço nas suas vivências cotidianas?

Na segunda fase da investigação, entre agosto de 2016 e maio de 2017, em Fortaleza e Lisboa, o cotidiano emergiu como categoria central, da qual apropriei-me através das teorizações de Michel de Certeau e de José Machado Pais. De ambos tomei a noção de cotidiano como algo que difere de dia-a-dia, pelo seu caráter enigmático e singular, escondido sob as operações corriqueiras e aparentemente repetitivas, a serem reveladas pelo trabalho de decifração dos sentidos e lógicas que as práticas comportam, que cabe ao cientista social realizar. Continuar a ler

Encontros: de que formas pode um cão transformar a vida familiar e pessoal?

teresaTeresa Líbano Monteiro é socióloga e investigadora associada ao ICS-ULisboa (tlibano@netcabo.pt)


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Few associations are as intense and emotionally involving
as those we have with companion animals.
Despite the frequency and importance of relationships
between humans and animals, analyses of interspecies interaction
are noticeably rare in the social scientific literature.

Clinton R. Sanders
In Understanding dogs

Em 29 de Novembro de 2015 a TVI 24 transmitiu uma reportagem com o seguinte título “Portugueses já têm mais animais de estimação do que filhos”. Esta reportagem cita um estudo da GFK que revela que 2,5 milhões de famílias têm, pelo menos, um animal de estimação, estando o cão no topo das preferências dos portugueses. Não é raro ouvir frases como: “não vivo sozinho, vivo com o meu cão”. Ou, mais comum ainda: “vivo com a minha família de quatro patas. “

Porque é que as pessoas têm um cão? O que é um cão? Um objeto de consumo? Um novo amigo? Um membro da família? Que papel ou papéis pode ter um cão, enquanto animal de estimação, numa família e no desenho de novas morfologias familiares, na sociedade contemporânea? Continuar a ler

Uma sociologia leve e profunda

emanuelEmanuel Cameira é estudante de  doutoramento em Sociologia no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa.


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Jeremias van Winghe (1578-1645)
Cena de cozinha, 1613

Extraído de Um quarto que seja seu: “O almoço começou com linguados imersos num molho espesso e branco, preparados pelo cozinheiro da universidade”[i]. Tais palavras, da autoria de Virginia Woolf, vieram-me de imediato à lembrança enquanto lia a entrevista dada pelo sociólogo José Machado Pais à também socióloga Marcela Fernanda da Paz de Souza, publicada este ano na brasileira Revista de Ciências Sociais. Continuar a ler