Da Escola Pública ao espaço público da educação: concepções e reverberAÇÕES

alex.pngAlexandre dos Santos Silva é doutorando no Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), e doutorando-visitante no ICS-ULisboa.


“É nós por nós, defendendo a Educação”
(Tema dos protestos estudantis na Insurreição Secundarista nos atos em 2018 contra a Proposta de Reformulação do Ensino Médio brasileiro).

O ano de 2015 foi marcado, no Brasil, por lutas e ocupações das escolas públicas do estado de São Paulo por parte de estudantes do Ensino Médio e do Fundamental II contra a postura autoritária e a equivocada proposta de “Reorganização Escolar” imposta pelo governo estadual de Geraldo Alckmin. Com o slogan “Não tem Arrego!”, o processo de mobilização e resistência estudantil juvenil inicia um movimento de intensas manifestações (163 protestos) e, consequentemente, mais de 200 escolas foram ocupadas durante todo o processo, entre setembro a novembro de 2015.

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Protesto dos estudantes na Avenida Paulista, em São Paulo. 2015

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Ocupar e resistir

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Celecina de Maria Veras Sales é professora na Universidade Federal do Ceará  e investigadora-visitante no ICS-ULisboa.


 

IMG_5256Crise, golpe, fascismo, empurram a juventude a beira do abismo e a desesperança quer ocupar seu território existencial, mas algo se passa, afeta, é hora de fazer alguma coisa. Chegou o momento de descobrir e inventar novos territórios. Em um processo dinâmico que não significa se fixar, mas produzir mudança, foi o que aconteceu nas Ocupações das escolas e universidades no Brasil. Isso nos instiga a pensar que ocupar é política, é aprendizagem, é arte, é criar laços, é reacender sonhos e criar uma nova forma de fazer política.

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Era fim da tarde do dia 3/11/2016, quando o cruzamento de duas grandes avenidas na hora do rush, ganhou novo cenário pela intensa movimentação de jovens universitários que estavam a chegar ao pátio da reitoria para realizar a assembleia estudantil no espaço da concha acústica. Que pauta poderia chamar 2 mil jovens em dia de pós-feriado? A convocação foi a discussão da PEC 241/55, Proposta de Emenda Constitucional em tramitação que estava a propor congelar as despesas do governo federal por até 20 anos, inclusive saúde e educação. Continuar a ler

“De quem é a escola? A quem a escola pertence?”: estudantes secundaristas e a ocupação das escolas no Paraná, em 2015

7.pngValéria Floriano é professora na Universidade Federal do Paraná (UFPR, Brasil) e investigadora-visitante no ICS-ULisboa.


A frase que dá o título a este post, foi pronunciada numa voz embargada e decidida pela estudante secundarista Ana Julia. Foi assim, provocando a audiência, que iniciou o seu discurso na tribuna da Assembleia Legislativa do  Estado do Paraná, em defesa das ocupações das escolas.  Era o dia  26 de outubro de 2016 e o movimento de ocupações, deflagrado, em 03 de outubro, contava com 850 escolas ocupadas, 14 Universidades e 3 Núcleos de educação.

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Mas afinal, que movimento foi esse que precisava ser defendido em audiência pública?

Para começar, não creio que seja possível compreender o movimento dos estudantes secundaristas e a potência do processo de ocupações das escolas, sem lembramos do contexto que antecedeu a denominada “Primavera Secundarista” (teaser) Continuar a ler

OCUPAR A ESCOLA, OCUPAR A POLÍTICA: QUESTÕES, SURPRESAS, ALENTOS

miriam.pngMiriam Leite é professora na Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ, Brasil) e investigadora-visitante no ICS-ULisboa.


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Desde 2015, diversos estados do país têm assistido a ocupações de escolas públicas por suas estudantes, sobretudo, secundaristas, mas também com presença de ativistas dos últimos anos do ensino fundamental. Mobilizam-se por questões com importante dimensão local – como, por exemplo, por voz e democracia nas escolas, contra a chamada “reorganização escolar”, em 2015, em São Paulo, ou em reação às decorrências do severo corte de verbas para a Educação ocorrido no contexto de falência financeira do estado do Rio de Janeiro, em 2016 – mas também em resposta a iniciativas conservadoras em nível nacional, como a emenda constitucional promulgada em dezembro de 2016, que congelou os gastos públicos por 20 anos, e por lutas ainda mais amplas, como pelos direitos das mulheres, das pessoas negras, lgbt, jovens, pobres.

Pobre, sempre falaram isso pra mim, pobre, preta, sapatão e estuda em colégio público. Tudo pra dar errado. A gente vê todos os preconceitos numa coisa só, numa coisa só, entendeu? (Aluno[1], 16 anos, 2ª série, Grande Rio 1)

Tive o privilégio de pesquisar sobre essa ação política, de que me aproximei por diversos caminhos: páginas do Facebook mantidas pelas ocupações, vídeos no YouTube produzidos por ou sobre o movimento, visitas a escolas ocupadas na região do Grande Rio, e discussões com grupos de ativistas das escolas visitadas (gravadas e transcritas). De fato, um privilégio. Continuar a ler