Ateliês de performances biográficas pelas canções populares: uma prática metodológica e formativa

POST-CAST

Sílvio Roberto Silva Carvalho, graduado em Pedagogia e doutor em Artes Cénicas, é professor adjunto da Universidade Federal da Bahia.

Ao me aproximar das abordagens (auto)biográficas compreendi que os umbrais canônicos, responsáveis pelo estabelecimento da oposição cartesiana entre sujeito e objeto, não conseguiam responder mais aos desafios da contemporaneidade, bem como não davam abertura para que os sujeitos pudessem assumir seus arcabouços culturais e a ocupassem, no processo de formação, uma posição ativa. Essa autocrítica, feita à minha própria prática de professor, levou-me à construção dos Ateliês de performance biográfica pelas canções populares, uma proposta teórico-metodológica de autoformação, amparada nas narrativas e nas trilhas sonoras que compõem as nossas histórias de vidas, e que almeja esboçar uma cartografia da trajetória individual.

O termo ateliê é tomado no sentido de oficina, de estúdio, de local de criação. Ou seja, um espaço de criação e de construção das narrativas de si, que eu preferi chamar de performances biográficas, por também entender as histórias de vida como “enunciados performativos”, uma vez que não se limitam “a contribuir com um novo acréscimo de informações”, mas porque “conferem sentido à experiência vivida, e esse sentido é apropriado pelo sujeito” (PINEAU e LE GRANDE, 2012, p.124-125).
A canção popular, por sua vez, é tomada como ponto de partida por exercer, dentro do cenário artístico brasileiro, uma força gravitacional de atração, ao ponto de entranhar-se tão fortemente no cotidiano e de chegar a se tornar, pelo menos numa determinada época, um dos meios mais significativos do nosso “modo de pensar” (WISNIK, 2004 p.215). Assim, penso que a canção, ao interagir com o vivente, pode provocar processos de subjetivações e de identificações.

Os ateliês são formados por pequenos grupos de, no máximo, quinze pessoas e têm como principal estratégia metodológica os círculos de conversas. Podem ser realizados com uma carga horária mínima de vinte horas. A primeira etapa do trabalho é a construção do “contrato biográfico”. Nesse momento, apresentam-se os objetivos e constroem-se as regras, os princípios e valores que irão reger o grupo. A etapa seguinte é a das performances biográficas. Esse é o momento da fala, da escuta, da partilha. A cada sessão de uma hora, um dos participantes diz qual a música lhe marcou. O grupo escuta a canção e, logo após, o participante narra as razões pelas quais aquela canção marcou a sua vida. A seguir, inicia-se uma conversa, crítica, reflexiva e sem julgamentos, sobre a experiência narrada. O objetivo dessa conversar é contribuir para que o narrador e todo o grupo consigam identificar e nomear os saberes formalizados e não formalizados, bem como significar as vozes que podem interferir, ainda que inconscientemente, na maneira de cada um ler-se e ler o mundo. Ao fim das performances biográficas, o trabalho de escrita sobre a experiência narrada. Por fim, a apresentação e leitura das mesmas.


A partir dessas ações espera-se que os membros do grupo reconheçam e valorizem suas próprias subjetividades, abram-se para um pensar livre, aprendam sobre o trabalho em equipe, abracem a mudança como algo constante, assumam a ação e a reflexão como princípios do processo educativo, potencializem a escuta e abram-se pra uma ética, crítica e reflexiva, da vida como um valor. Enfim, emancipem-se.

Apresentada a proposta, ainda que de forma sintética, penso ser importante ceder lugar a algumas vozes que experienciaram os ateliês. Contudo, o papel do testemunho, aqui, não tem o caráter de confirmação da verdade absoluta, mas o de ajudar a compreender que tipo de impacto os ateliês produzem nos seus participantes. Os nomes dos que falam nesse pequeno painel de vozes são fictícios. Essas vozes, juntamente com outras, estão registradas na minha tese (Cf. CARVALHO, 2015).


Impactos dos ateliês
Davi, por exemplo, garante que a importância de participar dos ateliês não está no simples fato de rememorar situações, mas sim na possibilidade de compreendê-las e ressignificá-las, principalmente no exercício da escrita da sua história. E acrescenta:


A coisa mais importante que o seu trabalho me possibilitou foi não só uma rememoração de situações que eu vivi, sobretudo na minha infância, mas a possibilidade, hoje, de compreensão do que eu vivi e não tinha noção do
que estava vivendo. E, sobretudo pela música, porque a minha experiência pessoal, a minha constituição de identidade está diretamente ligada à minha experiência de vida com a minha avó, que era uma mulher muito musical.


Então, hoje – hoje que eu digo é depois de viver a experiência que você nos possibilitou, a experiência de estar escrevendo sobre isso – eu consigo compreender. Acredite, o seu trabalho funcionou como uma espécie de terapia, para mim. […] você está vivendo, ali, um processo histórico que você não se dá conta do tamanho das consequências que aquela vivência vai proporcionar na sua vida. […]. É por isso que eu disse lá atrás: cada vez que eu paro seriamente para pensar sobre isso, eu me emociono e choro, porque isso foi, absolutamente, transformador na minha vida.


E essa experiência de se pensar, parar e tentar compor esse painel, mosaico de tudo que é você dentro de um grupo pequeno, também se constrói um mosaico ou um panorama do outro. São duas dimensões: a do autoconhecimento e a do heteroconhecimento. […]. Isso nos abre uma perspectiva de abordagem de trabalho com o professor.


Cristina, mais uma participante dos ateliês, ressalta que, apesar de já trabalhar com narrativas, encantou-se com a perspectiva de usar as canções como estratégia para produzir narrativas autobiográficas. Em suas palavras:


Eu venho estudando muito as narrativas, leio muito sobre diários, escrevo sobre diários […]. É algo que venho construindo; várias produções: artigos, textos, a minha tese, o meu livro, que foi fruto da minha tese. Então, eu nunca vi esse viés a partir das músicas. Isso me encantou bastante. […]. Eu me senti muito bem, do ponto de vista profissional. Do ponto de vista pessoal, também. Foi muito interessante me revisitar a partir das músicas que me tocaram. […]. E, assim, fui trazendo toda a minha história de vida a partir das músicas e de uma forma tão simples, tão fácil.


Mas, sabe o que é engraçado? Engraçado é que não [me] lembro. Por isso que estou dizendo, você tocou. Foi uma formação ― eu não sei se você tinha essa intenção ― que eu não esperava que fosse algo tão profunda. Veja, uma música! Gente! é uma coisa impressionante! Por isso que eu digo, foi algo inovador.


Rute, por sua vez, garante ser esse um trabalho diferente e que, de certa forma, surpreendeu-lhe, principalmente pelo fato de os ateliês terem lhe despertado o desejo de romper limites. E conclui:


Eu estava estática, nada acontecia, eu achava que não precisaria mudar nada. […]. Ao ouvir as histórias dos outros […], fui amadurecendo. […]. Pra mim foi libertador e desafiador. […] foi um desafio lembrar coisas que eu achava que estavam esquecidas em minha memória. Foi libertador no sentido de que pude perceber que eu poderia fazer mais, ser mais. […]. Através das canções, […] também foi despertado o espírito de querer fazer mais, de ser desafiada e tentar ultrapassar o limite que me foi imposto. Esse espírito estava adormecido. Nesse sentido, me senti libertada. Foi libertador, também, dizer aos meus colegas quem eu sou.


Com relação aos impactos dos ateliês dentro da instituição onde essas pessoas trabalham, destaco as falas de Cristina e Davi. Para Cristina, “[…] a importância dos ateliês foi muito isso, de as pessoas perceberem as suas diferenças. Mas, também, saber: eu tenho potencialidades, mas o outro também tem”. Já Davi, embora afirme não dispor de muitos elementos para uma avaliação mais aprofundada com relação aos impactos dos ateliês dentro da sua instituição, diz perceber indícios de mudança, alguns avanços. Com cautela, argumenta:


[…] acho que o grupo, em algum grau, já se revela um pouquinho mais tolerante para além do discurso […]. Claro, o grupo é pequeno, mas vejo indícios disso. O trabalho do ateliê é citado em muitas ações que a gente tem feito aqui. Pra mim, é um outro indicativo de que aquela ação continua. Continua em um outro lugar, né? Não daquele jeito que fizemos juntos, mas continua reverberando nas pessoas.


Construído esse rápido painel de vozes, é possível se perceber que, amparados pelas canções e pela partilha de vozes, indivíduos e instituição podem: construir “viagens” por lugares tão conhecidos e, ao mesmo tempo, tão estranhos, dar novos significados às suas histórias, produzir uma nova ética e abrir perspectivas para novos projetos de vida.


CARVALHO, Silvio Roberto Silva. Construções biográficas pelas canções populares. Tese de Doutorado em Artes Cênicas. Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas, Universidade Federal da Bahia. Salvador: UFBA, 2015. Disponível em: https://repositorio.ufba.br/ri/bitstream/ri/19391/1/TESE%20REVISADA%2002%2009%202015%20a%20noite%20%281%29.pdf.


PINEAU, Gaston; LE GRAND, Jean-Louis. As histórias de vida. Tradução de Carlos Eduardo Galvão Braga e Maria da Conceição Passeggi. Natal, RN: EDUFRN, 2012. (Pesquisa (auto)biográfica ∞ Educação. Clássicos das histórias de vida).


WISNIK, José Miguel. Sem receita. São Paulo: Publifolha, 2004.


Sílvio Roberto Silva Carvalho é graduado em Pedagogia e doutor em Artes Cénicas. É professor adjunto da Universidade do Estado da Bahia e trabalha com temáticas voltadas para a (auto)biografia, arte, educação, formação de professores, leitura e família. Pesquisa sobre a potência da canção na produção de subjetividades e desenvolve, em diversos grupos e instituições, o Ateliê de Performances Biográficas pelas Canções Populares, proposta metodológica para a autoformação e construção de uma ética crítica e interpretativa, da vida como um valor. Atua como palestrante e consultor. É, também, cantor, compositor e contador de histórias..


Como citar este artigo: Carvalho, Sílvio (2020). Ateliês de performances biográficas pelas canções populares: uma prática metodológica e formativa. Life Research Group Blog, ICS-Lisboa, https://liferesearchgroup.wordpress.com/2020/07/31 31 de julho (Acedido a xx/xx/xx)

Entre redes: o que os jovens falam sobre as redes sociais digitais?

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Rafael G. Barreiro é professor na Universidade de Brasília (UnB), doutorando no Programa de Pós-Graduação em Terapia Ocupacional da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), e foi doutorando visitante no ICS/ULisboa.


 

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                                                  “Nobody likes me”, Graffiti in Stanley Park, Vancouver – Canadá

Atualmente, enfrentamos uma revolução comunicativa implementada por tecnologias digitais que estão ocasionando importantes transformações na forma como grupos sociais se relacionam. Dessa forma a popularização da internet, especificamente com o advento da Web 2.0, permite a interação entre pessoas via “redes sociais digitais”, compartilhando informações, formando grupos e tornando o ambiente virtual uma arena de acesso de diversos conteúdos e opiniões.

Massimo Di Felice, em sua obra “Do Público para as Redes” (2008), aponta que as mídias digitais transformam radicalmente as experiências sociais nos últimos tempos com a difusão da conexão e do acesso à internet de alta velocidade e móvel, oferecendo novos recursos para a construção de identidades nesses espaços comunicativos através das redes sociais online. Continuar a ler

Posicionalidad: descubrir de no ser “tan” joven en el trabajo de campo

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Margot Mecca é doutoranda em Geografia e investigadora pre-doctoral da Universitat Autónoma de Barcelona, España. É doutoranda visitante no ICS-ULisboa pelo programa Erasmus + (margot.mec@gmail.com).


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Cuando he inserido un apartado dedicado a la “posicionalidad” en mi tesis, ha sido una decisión motivada por un escrúpulo científico, por la voluntad de compartir de manera abierta y clara como había abordado el trabajo de campo. Lo que no me esperaba es que este ejercicio de reflexión terminase por hacerme repensar mi misma identidad, una identidad que tenía también que ver con mi trabajo de investigadora.

Pero finalmente: qué es la posicionalidad? La necesidad de situar el conocimiento, y quien produce tal conocimiento, se ha ido difundiendo en los estudios geográficos a partir de los años ’90, con autoras como Linda McDowell y Kim England. Esta posición nace de la deconstrucción de la idea neo-positivista de una producción objetiva, impersonal y universal del conocimiento: en cambio, lo que tales autores y autoras reivindicaban era la naturaleza intrínsecamente parcial, subjetiva y particular del saber. Un saber que no puede prescindir y aislarse del contexto donde ha sido generado, de las personas concretas que lo han elaborado, de sus identidades y de sus historias, incluso de sus emociones. Continuar a ler

Imaginarios de la infancia, un aporte a la formación de profesores

deliaMaría Delia Martínez Núñez é Professora na Universidad Metropolitana de Ciencias de la Educación, em Santiago de Chile, e é atualmente investigadora visitante no ICS-ULisboa (deliacameliaster@gmail.com)


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En el plano de la educación el estudio de los imaginarios acerca de la infancia, aparece como una fuente de conocimiento en el contexto de la formación docente. Las investigaciones desarrolladas hasta ahora han develado tres cuestiones respecto de la educación infantil. Un aspecto inicial y que ha surgido a partir del desarrollo de los proyectos implementados, es el aporte que las metodologías de estudio de los imaginarios realizan a la formación inicial de educadores para la primera infancia. Este aspecto se fundamenta en la reflexión acerca del propio quehacer y la posibilidad de compartir con otros/as la construcción de un perfil profesional sólido.

Los imaginarios son fundamentalmente interpretativos, por lo tanto la metodología utilizada debe incorporar espacios de reflexión individual y grupal que permitan a los sujetos de la investigación consolidar opiniones respecto a lo que consideran que es la infancia. En el caso de estudiantes en práctica profesional, el diálogo y la reflexión compartida entre pares, respecto del propio desempeño puede impulsarlas de manera significativa a mantener una cercanía con sus propias estructuras mentales, además de incorporar nuevas voces, dimensiones y perspectivas a su construcción profesional como futuras docentes. Continuar a ler