A fissura na catástrofe: Animais, incêndios florestais e a resignificação da vulnerabilidade

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Verónica Policarpo, ICS-ULisboa

Em junho de 2017 fazia um calor sufocante. Por isso agarrei em mim e resolvi apanhar um avião para Milão. Fiel ao meu hábito de o fazer de vez em quando, para abrir espaço a outras vozes de dentro e fora, desliguei o telemóvel durante os três dias de viagem. E talvez isso explique parte do meu grande espanto. Ou talvez não. Nesse fim de semana de 16 de junho o país inteiro acordou em estado de choque. Para mim, a catástrofe começou a anunciar-se no voo de regresso, o avião sobrevoando o espaço aéreo português. Debruçando-me do meu assento à janela, comecei a contar as inúmeras fogueiras espalhadas pelo nosso território, como pirilampos trágicos pousados na noite, enquanto qualquer coisa me apertava cá dentro. Mas sabem como é: do ar, visto à distância só digna dos deuses, até o mais sinistro sinal tem o seu quê de beleza. E talvez isso tenha adiado o choque. Para a manhã seguinte, quando liguei finalmente a televisão, e aí vi a devastação das chamas, com a sua pesada taxa de mortos. Mal sabia eu, mal sabíamos todos, que era apenas o início.

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Ateliês de performances biográficas pelas canções populares: uma prática metodológica e formativa

POST-CAST

Sílvio Roberto Silva Carvalho, graduado em Pedagogia e doutor em Artes Cénicas, é professor adjunto da Universidade Federal da Bahia.

Ao me aproximar das abordagens (auto)biográficas compreendi que os umbrais canônicos, responsáveis pelo estabelecimento da oposição cartesiana entre sujeito e objeto, não conseguiam responder mais aos desafios da contemporaneidade, bem como não davam abertura para que os sujeitos pudessem assumir seus arcabouços culturais e a ocupassem, no processo de formação, uma posição ativa. Essa autocrítica, feita à minha própria prática de professor, levou-me à construção dos Ateliês de performance biográfica pelas canções populares, uma proposta teórico-metodológica de autoformação, amparada nas narrativas e nas trilhas sonoras que compõem as nossas histórias de vidas, e que almeja esboçar uma cartografia da trajetória individual.

O termo ateliê é tomado no sentido de oficina, de estúdio, de local de criação. Ou seja, um espaço de criação e de construção das narrativas de si, que eu preferi chamar de performances biográficas, por também entender as histórias de vida como “enunciados performativos”, uma vez que não se limitam “a contribuir com um novo acréscimo de informações”, mas porque “conferem sentido à experiência vivida, e esse sentido é apropriado pelo sujeito” (PINEAU e LE GRANDE, 2012, p.124-125).
A canção popular, por sua vez, é tomada como ponto de partida por exercer, dentro do cenário artístico brasileiro, uma força gravitacional de atração, ao ponto de entranhar-se tão fortemente no cotidiano e de chegar a se tornar, pelo menos numa determinada época, um dos meios mais significativos do nosso “modo de pensar” (WISNIK, 2004 p.215). Assim, penso que a canção, ao interagir com o vivente, pode provocar processos de subjetivações e de identificações.

Os ateliês são formados por pequenos grupos de, no máximo, quinze pessoas e têm como principal estratégia metodológica os círculos de conversas. Podem ser realizados com uma carga horária mínima de vinte horas. A primeira etapa do trabalho é a construção do “contrato biográfico”. Nesse momento, apresentam-se os objetivos e constroem-se as regras, os princípios e valores que irão reger o grupo. A etapa seguinte é a das performances biográficas. Esse é o momento da fala, da escuta, da partilha. A cada sessão de uma hora, um dos participantes diz qual a música lhe marcou. O grupo escuta a canção e, logo após, o participante narra as razões pelas quais aquela canção marcou a sua vida. A seguir, inicia-se uma conversa, crítica, reflexiva e sem julgamentos, sobre a experiência narrada. O objetivo dessa conversar é contribuir para que o narrador e todo o grupo consigam identificar e nomear os saberes formalizados e não formalizados, bem como significar as vozes que podem interferir, ainda que inconscientemente, na maneira de cada um ler-se e ler o mundo. Ao fim das performances biográficas, o trabalho de escrita sobre a experiência narrada. Por fim, a apresentação e leitura das mesmas.


A partir dessas ações espera-se que os membros do grupo reconheçam e valorizem suas próprias subjetividades, abram-se para um pensar livre, aprendam sobre o trabalho em equipe, abracem a mudança como algo constante, assumam a ação e a reflexão como princípios do processo educativo, potencializem a escuta e abram-se pra uma ética, crítica e reflexiva, da vida como um valor. Enfim, emancipem-se.

Apresentada a proposta, ainda que de forma sintética, penso ser importante ceder lugar a algumas vozes que experienciaram os ateliês. Contudo, o papel do testemunho, aqui, não tem o caráter de confirmação da verdade absoluta, mas o de ajudar a compreender que tipo de impacto os ateliês produzem nos seus participantes. Os nomes dos que falam nesse pequeno painel de vozes são fictícios. Essas vozes, juntamente com outras, estão registradas na minha tese (Cf. CARVALHO, 2015).


Impactos dos ateliês
Davi, por exemplo, garante que a importância de participar dos ateliês não está no simples fato de rememorar situações, mas sim na possibilidade de compreendê-las e ressignificá-las, principalmente no exercício da escrita da sua história. E acrescenta:


A coisa mais importante que o seu trabalho me possibilitou foi não só uma rememoração de situações que eu vivi, sobretudo na minha infância, mas a possibilidade, hoje, de compreensão do que eu vivi e não tinha noção do
que estava vivendo. E, sobretudo pela música, porque a minha experiência pessoal, a minha constituição de identidade está diretamente ligada à minha experiência de vida com a minha avó, que era uma mulher muito musical.


Então, hoje – hoje que eu digo é depois de viver a experiência que você nos possibilitou, a experiência de estar escrevendo sobre isso – eu consigo compreender. Acredite, o seu trabalho funcionou como uma espécie de terapia, para mim. […] você está vivendo, ali, um processo histórico que você não se dá conta do tamanho das consequências que aquela vivência vai proporcionar na sua vida. […]. É por isso que eu disse lá atrás: cada vez que eu paro seriamente para pensar sobre isso, eu me emociono e choro, porque isso foi, absolutamente, transformador na minha vida.


E essa experiência de se pensar, parar e tentar compor esse painel, mosaico de tudo que é você dentro de um grupo pequeno, também se constrói um mosaico ou um panorama do outro. São duas dimensões: a do autoconhecimento e a do heteroconhecimento. […]. Isso nos abre uma perspectiva de abordagem de trabalho com o professor.


Cristina, mais uma participante dos ateliês, ressalta que, apesar de já trabalhar com narrativas, encantou-se com a perspectiva de usar as canções como estratégia para produzir narrativas autobiográficas. Em suas palavras:


Eu venho estudando muito as narrativas, leio muito sobre diários, escrevo sobre diários […]. É algo que venho construindo; várias produções: artigos, textos, a minha tese, o meu livro, que foi fruto da minha tese. Então, eu nunca vi esse viés a partir das músicas. Isso me encantou bastante. […]. Eu me senti muito bem, do ponto de vista profissional. Do ponto de vista pessoal, também. Foi muito interessante me revisitar a partir das músicas que me tocaram. […]. E, assim, fui trazendo toda a minha história de vida a partir das músicas e de uma forma tão simples, tão fácil.


Mas, sabe o que é engraçado? Engraçado é que não [me] lembro. Por isso que estou dizendo, você tocou. Foi uma formação ― eu não sei se você tinha essa intenção ― que eu não esperava que fosse algo tão profunda. Veja, uma música! Gente! é uma coisa impressionante! Por isso que eu digo, foi algo inovador.


Rute, por sua vez, garante ser esse um trabalho diferente e que, de certa forma, surpreendeu-lhe, principalmente pelo fato de os ateliês terem lhe despertado o desejo de romper limites. E conclui:


Eu estava estática, nada acontecia, eu achava que não precisaria mudar nada. […]. Ao ouvir as histórias dos outros […], fui amadurecendo. […]. Pra mim foi libertador e desafiador. […] foi um desafio lembrar coisas que eu achava que estavam esquecidas em minha memória. Foi libertador no sentido de que pude perceber que eu poderia fazer mais, ser mais. […]. Através das canções, […] também foi despertado o espírito de querer fazer mais, de ser desafiada e tentar ultrapassar o limite que me foi imposto. Esse espírito estava adormecido. Nesse sentido, me senti libertada. Foi libertador, também, dizer aos meus colegas quem eu sou.


Com relação aos impactos dos ateliês dentro da instituição onde essas pessoas trabalham, destaco as falas de Cristina e Davi. Para Cristina, “[…] a importância dos ateliês foi muito isso, de as pessoas perceberem as suas diferenças. Mas, também, saber: eu tenho potencialidades, mas o outro também tem”. Já Davi, embora afirme não dispor de muitos elementos para uma avaliação mais aprofundada com relação aos impactos dos ateliês dentro da sua instituição, diz perceber indícios de mudança, alguns avanços. Com cautela, argumenta:


[…] acho que o grupo, em algum grau, já se revela um pouquinho mais tolerante para além do discurso […]. Claro, o grupo é pequeno, mas vejo indícios disso. O trabalho do ateliê é citado em muitas ações que a gente tem feito aqui. Pra mim, é um outro indicativo de que aquela ação continua. Continua em um outro lugar, né? Não daquele jeito que fizemos juntos, mas continua reverberando nas pessoas.


Construído esse rápido painel de vozes, é possível se perceber que, amparados pelas canções e pela partilha de vozes, indivíduos e instituição podem: construir “viagens” por lugares tão conhecidos e, ao mesmo tempo, tão estranhos, dar novos significados às suas histórias, produzir uma nova ética e abrir perspectivas para novos projetos de vida.


CARVALHO, Silvio Roberto Silva. Construções biográficas pelas canções populares. Tese de Doutorado em Artes Cênicas. Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas, Universidade Federal da Bahia. Salvador: UFBA, 2015. Disponível em: https://repositorio.ufba.br/ri/bitstream/ri/19391/1/TESE%20REVISADA%2002%2009%202015%20a%20noite%20%281%29.pdf.


PINEAU, Gaston; LE GRAND, Jean-Louis. As histórias de vida. Tradução de Carlos Eduardo Galvão Braga e Maria da Conceição Passeggi. Natal, RN: EDUFRN, 2012. (Pesquisa (auto)biográfica ∞ Educação. Clássicos das histórias de vida).


WISNIK, José Miguel. Sem receita. São Paulo: Publifolha, 2004.


Sílvio Roberto Silva Carvalho é graduado em Pedagogia e doutor em Artes Cénicas. É professor adjunto da Universidade do Estado da Bahia e trabalha com temáticas voltadas para a (auto)biografia, arte, educação, formação de professores, leitura e família. Pesquisa sobre a potência da canção na produção de subjetividades e desenvolve, em diversos grupos e instituições, o Ateliê de Performances Biográficas pelas Canções Populares, proposta metodológica para a autoformação e construção de uma ética crítica e interpretativa, da vida como um valor. Atua como palestrante e consultor. É, também, cantor, compositor e contador de histórias..


Como citar este artigo: Carvalho, Sílvio (2020). Ateliês de performances biográficas pelas canções populares: uma prática metodológica e formativa. Life Research Group Blog, ICS-Lisboa, https://liferesearchgroup.wordpress.com/2020/07/31 31 de julho (Acedido a xx/xx/xx)

Sílvio Carvalho e a performance biográfica pela canção com docentes do ensino básico

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Sílvio Roberto Silva Carvalho, graduado em Pedagogia e doutor em Artes Cénicas, é professor adjunto da Universidade Federal da Bahia.

Ateliês de performances biográficas pelas canções populares: impactos de uma experiência (autoformativa) é a pesquisa de pós doutoramento que desenvolve como investigador-visitante no ICS-ULisboa, com a supervisão de José Machado Pais.

Que estudo tem em mãos?
Um estudo sobre a potência da canção popular na produção de processos de subjetividade, desenvolvida no meu doutoramento (Construções Biográficas pelas Canções Populares), e que será publicada, ainda este ano, pela Cátedra de Leitura da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro.

Há um ano retomei a pesquisa sobre a temática, com foco na formação continuada de professores da Escola Básica. A estratégia é a realização de ateliês de performances biográficas pelas canções, com professores da Escola Básica, nas cidades de Braga e Guimarães.

Infelizmente, a pandemia interrompeu o andamento do projeto. Os sujeitos da pesquisa, com o ensino remoto, não tiveram condições físicas e psicológicas para continuarem, mesmo virtualmente. Portanto, estou a repensar o projeto.

Como o situa no seu percurso biográfico/académico?
Nunca pensei ser professor. Sempre quis ser artista. Desde os 12 anos toco violão, gosto de cantar e contar. Acontece que sou de uma família pobre, nascido em uma cidade pequena do interior da Bahia, onde livros eram coisa rara. Mas os sonhos de estudar, ser artista e morar na cidade grande eram maiores que as limitações. Ao chegar em Salvador, com 18 anos, tive que trabalhar para me sustentar e ajudar meus pais nas despesas com a família que, àquela altura, era formada por mais seis filhos além de mim, o mais velho. A vida foi difícil, mas com muitas possibilidades.

Ao fazer o vestibular para ingressar na Universidade não tive dúvida: matriculei-me no curso de música. Fui aprovado, mas não pude cursá-lo, o curso era diurno e eu trabalhava o dia inteiro. Como só tinha horário livre à noite, procurei um curso noturno. O único que me agradou foi pedagogia. Na universidade descobri que havia muitas possibilidades para incluir as minhas artes nos processos pedagógicos.

Todo o meu percurso de pesquisa (especialização, mestrado e doutorado), de uma certa maneira, foi voltado para questões relacionadas à leitura de mundo, de si e do outro, sempre utilizando-me da canção. E por trabalhar com essas questões de leitura, senti-me estimulado e, de certa maneira, na obrigação de pensar uma metodologia de trabalho que possibilitasse a ressignificação das questões subjetivas dos sujeitos participantes, que gerasse uma abertura na relação desses com os saberes formais e não formais e, consequentemente, que pudesse ser um campo concreto de pesquisa.

Amparado nas abordagens (auto)biográficas, passo a desenvolver os ateliês de performances biográficas pelas canções populares, uma proposta teórico-metodológica de autoformação, que, através das histórias de vida, busca colocar em cena o “eu” e o “outro” e tem como ponto de partida as canções que marcaram as vidas dos sujeitos. É com esse trabalho que me coloco na condição de pesquisador e educador, inclusive como investigador-visitante do ICS. Mas gosto muito de me afirmar como professor-artista. Ou vice-versa, a depender da situação.

O violão, as canções e as narrativas sempre estiveram presentes na minha vida de estudante de pedagogia, de professor universitário, de palestrante etc. Não sei fazer nada sem envolver essa tríade, sem trazer a minha arte intuitiva.

O recolhimento e o isolamento social gerados pela atual situação pandémica inspiraram muitas canções e performances em novas janelas. Inspirador para o seu objecto e/ou método de estudo?
Certamente. O recolhimento e o isolamento social foram fundamentais para repensar o meu objecto e o próprio método de estudo. Por exemplo, vi a possibilidade de construir um formato online para desenvolver os ateliês. Embora já tivesse feito muita coisa nas linguagens das novas tecnologias, ainda não tinha pensado, concretamente, na possibilidade de realizá-los virtualmente.

Neste período, também, observei a música como a grande companheira de muitas pessoas, inclusive daquelas que não tinham ou perderem o hábito de ouvir música de forma contemplativa. Eu mesmo me vi apreciar, de forma muito diferente, canções que considerava razoáveis. Durante o isolamento social, essas canções ganharam, de mim, novos significados.

O recolhimento e o isolamento social inspiraram-me, também, a produzir novas canções e performances em novas janelas. Pelo menos uma nova canção ficará pronta até o meu retorno ao Brasil. Novas performances foram produzidas por mim durante o respectivo período, em forma de série de vídeos: Histórias de Maria. É um trabalho autobiográfico, centrado nas ambiências afetivas produzidas pela personagem principal: Maria.

Onde viveu a maior parte da sua vida e o que gostaria de destacar desse lugar?
A maior parte da minha vida vivi em Salvador/Brasil. Saí da minha terra natal, Inhambupe (interior da Bahia), com 18 anos, a fim de estudar e trabalhar na capital.

Inhambupe era uma pequena cidade do nordeste brasileiro, marcada por uma praça, uma igreja católica no centro, algumas ruas, duas escolas primárias e um colégio secundário, uma população urbana com aproximadamente 4 mil habitantes, uma feira animada por cantadores de cordel, um cinema improvisado e um alto-falante que funcionava das 18 às 22 horas, com energia elétrica à base de um gerador que só funcionava, também, nesse mesmo período de horas.

Livros, por lá, eram coisa rara. Mas, até à adolescência, as narrativas e as canções lançaram mundos na minha imaginação e ajudaram-me a transpor os limites impostos pelas condições econômicas em que vivíamos. Em outras palavras, foram o ponto de partida para que algo se movesse em mim, fizeram-me romper tratados, trair ritos, ajudaram-me a ampliar o tempo, a transcender o presente e a inventar mares e cais. Ou seja, impediram-me de ficar fora do mundo.

Por fim, as narrativas e as canções de alto-falante (conceito que uso na minha tese) foram os meus livros, fizeram-me leitor. Essas experiências, construídas em Inhambupe, foram imperativas na minha formação, no meu gosto pela palavra, pela música, pela arte.

Em Salvador, o encantamento com o mundo urbano. Os cinemas, os teatros, a universidade, o estádio de futebol, os bares, o mar… Apaixonei-me pela cidade. Hoje, é nela e dela que vivo. De Inhambupe trago os princípios, os valores, as crenças, os saberes não formais. De Salvador, a formação acadêmica, a descoberta de novas belezas, a sobrevivência.

Que músicas e que histórias biográficas vêm despertando da sua vivência em Portugal?
Nesses tempos de isolamento, até mesmo pelo fato de não ter podido desenvolver os ateliês junto aos professores das escolas selecionadas para a pesquisa, muitas foram as canções que me visitaram, inclusive os fados antigos que ouvia quando era criança. Contudo, a emoção mais forte aconteceu no dia primeiro de maio.

Às 20 horas, inesperadamente, ouvi os sinos da igreja, que fica ao lado da minha casa em Braga, tocarem “Treze de Maio”, canção religiosa que conta a aparição da Virgem Maria aos pastorinhos de Fátima. Logo nas primeiras notas, indentifiquei os primeiros versos: “A treze de maio / na Cova da Iria / No céu aparece / A Virgem Maria”. A minha infância veio toda e fiquei muito emocionado. Primeiro, as imagens das meninas da minha terra natal vestidas de anjos, a levar flores para Nossa Senhora durante todo o mês de maio. Depois, as imagens da minha madrinha a contar-me a história dos três pastorinhos, da Cova da Iria, da cidade de Fátima, da aparição da Virgem, e eu ali, junto a ela, com medo de que a Santa aparecesse para mim.

A partir desse dia, uma nova canção vinha-me à lembrança e remetia-me ao período da minha infância, em Inhambupe. A emoção era muito forte e fazia lembrar-me da minha madrinha a contar-me uma história ou a ouvir o repertório musical que tocava no rádio da sua casa. Foram tantas as lembranças que resolvi contar as minhas primeiras experiências estéticas e de descobertas do mundo construídas nas ambiências leitoras produzidas por Maria, a madrinha.

A princípio, resolvi escrever crônicas. Por fim, produzi uma série de vídeos, com sete episódios, cada um em torno de quinze a vinte minutos, intitulada Histórias de Maria. Na verdade, essa passou a ser a minha atividade de produção acadêmica e artística: pesquisar sobre a díade marcada, principalmente, pela reciprocidade e o afeto. Assim, criei um cenário que pudesse remeter a um ambiente doméstico permeado pela leitura. Sentado em uma cadeira, ao lado de uma pequena mesa com livros, uma caneca e um lampião, eu conto e canto as histórias e canções que marcaram a relação entre o menino e sua fada madrinha. A série está disponibilizada no meu canal de Youtube. As canções que me chegavam eram de gêneros diversos. Foi uma experiência maravilhosa e acho que vai terminar em um livro.

No prelúdio da canção “Acho que chegou a hora”, o músico português Tiago Bettencourt diz que “não é boa ideia deixar assuntos pendentes a não ser que seja numa canção”. Alguma coisa pendente, na sua busca, neste momento? Ou alguma canção para o exprimir?
Nas canções, alguma coisa sempre parece ficar pendente. Mas não é mesmo boa ideia deixar assuntos pendentes. A minha mãe nos botava sentados ao seu lado para bordarmos enormes peças de cama e mesa. Eventualmente, ela alertava: “Preste atenção à costura. Se der um ponto errado desfaça-o imediatamente. Com a costura pronta não tem como desfazer-se um ponto errado”. Entretanto, por mais cuidado que se tenha com o bordado, alguma pendência parece ficar.

A pandemia produziu, entre outras coisas, frustrações. A minha grande frustração, que tomo como pendência, foi: o trabalho de investigação e formação que me propus a desenvolver, aqui em Portugal, não pode ser concluído. Apesar de ter apelado para outras formas, como o virtual, não consegui realizar os ateliês. Essa é uma pendência, uma grande frustração.

É claro que construí outras coisas. Mas a minha vinda foi com esse objetivo e esse ainda não foi cumprido. Portanto, como diz uma canção minha e da Roseana Murray, chamada Espera: “Aqui estou / De pé na sua porta / Na sua pele / Bato palmas / Toco os sinos / Num sortilégio estranho / Digo o teu nome tantas vezes / Que o mar adormece”. Espero, assim, voltar um dia e resolver essa pendência.

O que esperava encontrar na Academia portuguesa?
Esperava encontrar um ambiente rico em produções acadêmicas, muito formal e com grandes possibilidades para a ampliação dos meus estudos. Além disso, esperava encontrar as condições ideais para o trabalho acadêmico, uma vez que, no Brasil, temos muitas dificuldades de toda ordem (administrativa, econômica e política).

O que já encontrou?
Tudo o que eu esperava. Nesse sentido, a minha expectativa não foi frustrada. Ao contrário. Além de encontrar um ambiente com muita produção científica, com grandes possibilidades para a ampliação dos meus estudos, experienciei, aqui, coisas pouco comuns no mundo acadêmico. Primeiro, a solidariedade, a generosidade e a sensibilidade do Professor José Machado Pais, meu supervisor. O acolhimento do Professor Vitor Sérgio Ferreira, ao me convidar para participar dos seminários do Grupo LIFE, foi, também, uma marca da generosidade e sensibilidade que cercam o ICS.

Segundo, destaco a maneira generosa como o meu trabalho de pesquisa e formação, tanto em Lisboa como em Braga e em Guimarães, foi recebido. Em Braga, tive ainda o apoio incondicional do Professor Carlos Veiga, da direção da Escola André Soares e das professoras que se envolveram no projeto de pesquisa e formação. Em Guimarães, o apoio da Professora Luíza foi também generoso. Portanto, retornarei ao Brasil com a melhor impressão possível sobre a Academia Portuguesa e, especialmente, sobre as pessoas com quem tive contato direto.

Bio

É graduado em Pedagogia e doutor em Artes Cénicas. É professor adjunto da Universidade do Estado da Bahia e trabalha com temáticas voltadas para a (auto)biografia, arte, educação, formação de professores, leitura e família. Pesquisa sobre a potência da canção na produção de subjetividades e desenvolve, em diversos grupos e instituições, o Ateliê de Performances Biográficas pelas Canções Populares, proposta metodológica para a autoformação e construção de uma ética crítica e interpretativa, da vida como um valor. Atua como palestrante e consultor. É, também, cantor, compositor e contador de histórias.

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Retrato dos estudantes à saída do ensino secundário: Traços e (algumas) tendências | 21 Julho | 11h





Na próxima terça-feira, dia 21 de julho 2020, o LIFE Webinars contará com a participação de Andreia Micaela Nascimento, doutoranda em Sociologia (OpenSoc) no ICS-ULisboa, que virá apresentar-nos alguns resultados da sua investigação de doutoramento intitulada “Para além do Ensino Secundário: autonomia juvenil e mobilidade na construção dos projetos de vida ligados ao ensino superior”.


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O papel do dinheiro na Transição para a Vida Adulta | 14 Julho | 11h





Na próxima terça-feira, dia 14 de julho 2020, o LIFE Webinars contará com a participação de Filipa Cachapa, doutoranda em sociologia no ICS-ULisboa, que virá apresentar-nos os principais resultados da sua investigação de doutoramento intitulada “O papel do dinheiro na transição para a vida adulta: percursos e representações”.


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Capítulos e artigos em junho

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Nesta rubrica destacamos mensalmente publicações (livros, capítulos de livros e artigos) de investigadores/as do LIFE Research Group (ICS-ULIsboa).

Este mês destacamos quatro publicações novas (dois capítulos e dois artigos).
O capítulo de Isabel Freire contribui para a reflexão sobre a história da sexologia (e da sexualidade) em Portugal, especificamente entre no período que abrange o final do Estado Novo, a Revolução de 25 de abril de 1974 e o início da democracia. Analisam-se discursos mediáticos sobre a sexualidade e o papel que os media desempenharam no agendamento das questões do bem-estar e da saúde sexual e reprodutiva, bem como a sua articulação com a luta pela emancipação feminina.

O ensaio de Manuel Villaverde Cabral trata de alguns projectos editoriais dos anos 40 e 50 do século XX que veicularam discursos textuais e visuais marcados por uma posição diversa e adversa à propaganda do Estado Novo, ao mesmo tempo que combinavam em graus distintos o texto com a fotografia.

O artigo de José Nuno Matos analisa as transformações estruturais no campo da imprensa e no exercício da profissão de jornalista. A reconfiguração das últimas décadas é marcada pelo desemprego e pela precarização das condições laborais. O texto analisa estas transformações a partir das trajectórias sócio-profissionais de ex-jornalistas, olhando para o que levou ao término das suas carreiras, à trajectória subsequente e ao modo como atualmente encaram o jornalismo.

O artigo de Vasco Ramos analisa algumas experiências de pobreza alimentar de crianças de famílias em situação de pobreza em Portugal, a partir de dados de um estudo europeu. Os discursos das crianças colocam em evidência de que forma a pobreza alimentar se incorpora nas suas vidas, afectando não só a qualidade e a quantidade de alimentos, como também reduzindo as oportunidades de socializar com família, colegas e amigos e criando stress emocional.

Boas leituras!


CAPÍTULOS DE LIVRO

Isabel Freire
A afirmação de uma visão terapêutica da sexualidade nos media portugueses após a Revolução dohs Cravos
In Quartilho, M. J. R. (Ed.), Psiquiatria Social e Cultural – Diálogos e Convergência, pp. 241-263
Coimbra: Imprensa da Universidade de Coimbra
ISBN 978-989-26-1928-6.
DOI 10.14195/978-989-26-1928-6_9

Manuel Villaverde Cabral
Projectos editoriais e contradiscursos: livros ilustrados & fotolivros, 1940-1960
In Serra, F., André, P., Rodrigues, S. L. (Eds.), Projectos Editoriais e Propaganda Imagens e Contra-Imagens no Estado Novo, pp. 303-325
Lisboa: ICS. Imprensa de Ciências Sociais
ISBN 978-972-671-575-7


ARTIGOS

José Nuno Matos
It Was Journalism that Abandoned Me”: An Analysis of Journalism in Portugal
tripleC: Communication, Capitalism & Critique, 18 (2), 535-555.
DOI 10.31269/triplec.v18i2.1148

Vasco Ramos
Children’s experiences of food poverty in Portugal: Findings from a mixed-method case study approach
Children and Society, First published 08 June 2020
https://doi.org/10.1111/chso.12401.


O Life nos media em junho

Rubrica que destaca a voz de investigadores/as do LIFE Research Group nos media.


“CIÊNCIAS SOCIAIS EM PÚBLICO”  (XIII)

Público | 28-06-2020

“A pandemia e os perigos de uma distopia digital: colonizando pelo algoritmo?”
Artigo de José Luís Garcia numa reflexão em torno da pandemia.

“Como influenciam a nossa realidade social a computação, o big data e os algoritmos? Será que estas novidades tecnológicas constituem ou integram um poder que está sem limites? Precisamos de abrir a caixa negra computacional, digital e algorítmica. Colocá-la sob um quadro de imaginação e regulação pautado por valores democráticos. E não pelo aumento do poder económico, político e policial.”


Público | 27-06-2020

DIREITOS HUMANOS » 62% dos portugueses manifestam racismo, revela estudo europeu
“European Social Survey revela que quanto mais velhos, mais fortes são os preconceitos. Escolaridade e rendimento não apagam racismo” uma reportagem de Joana Gorjão Henriques com declarações de Alice Ramos.


RTP1 – Jornal da Tarde | 27-06-2020

Racismo em Portugal: estudo europeu revela que em portugal 62% dos inquiridos revelam racismo com declarações de Alice Ramos.


Sociedade Civil | 25-06-2020

No dia 25 de junho o programa da RTP “Sociedade Civil” teve como tema “OS ANIMAIS” e contou com a presença de Verónica Policarpo, investigadora do ICS e coordenadora do curso Animas e Sociedade (a decorrer no último trimestre de 2020).


Jornal de Negócios – Revista MUST| 19-06-2020

“Tatuar ou não tatuar deixou de ser uma questão”
“Será que as tatuagens continuam a ser um impedimento na entrada no mercado de trabalho? Porque é que há cada vez mais pessoas a recorrer à remoção das mesmas? E qual é o sentido de tatuar, agora que é um ato reversível? Fomos à procura de respostas com a ajuda de uma especialista em head hunting e um sociólogo com uma tese sobre o tema.”, reportagem da autoria de Rita Silva Avelar com declarações de Vitor Sérgio Ferreira.


24.sapo.pt | 30-05-2020

Socióloga alerta para os conservadorismos emergentes na sociedade portuguesa

A sociedade portuguesa evoluiu de forma significativa na última década, para uma maior tolerância e aceitação da homossexualidade e da diferença, mas é preciso estar alerta para conservadorismos emergentes, defendeu a socióloga Sofia Aboim em entrevista à Lusa.


Público/Ipsilon | 22-05-2020

A crise que ergueu a multidão do precariado das artes ...

A crise que ergueu a multidão do precariado
“Vivem dias ‘de incerteza sufocante’. Sem trabalho e com pouco dinheiro, a “fazer contas à vida”. Mas não se deixam paralisar. O choque bruto e fulminante no corpo colectivo dos trabalhadores das artes e da cultura em Portugal está a pôr em marcha um pujante movimento de união e reivindicação laboral. Retrato de uma luta-in-progress.” artigo de Mariana Duarte com declarações de Teresa Duarte Martinho


Ateliês de Performances Biográficas pelas Canções Populares: uma prática metodológica e formativa | 07 Julho | 11h





Na próxima terça-feira, dia 07 de julho 2020, o LIFE Webinars contará com a participação de Silvio R. S. Carvalho, professor na Universidade do Estado da Bahia e investigador-visitante no ICS-ULisboa, que virá apresentar-nos a sua proposta metodológica de “Ateliês de Performances Biográficas pelas Canções Populares: uma prática metodológica e formativa”.


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NOVA DATA |”Retratos de família” num cenário inicial da pandemia COVID 19 em Portugal | 30 Junho | 14h30




Na próxima terça-feira, dia 30 de junho 2020, o LIFE Webinars contará com a participação de Rita Gouveia, investigadora no ICS-ULisboa, que virá apresentar-nos os principais resultados do inquérito nacional sobre os impactos sociais da pandemia COVID 19 nos indivíduos e nas famílias em Portugal, na fase inicial de confinamento decorrente da declaração do Estado de Emergência. Este webinar estava inicialmente agendado para o dia 23 de junho mas, devido a problemas no servidor da ULisboa, teve de ser adiado.


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Uma espécie de diário de campo em tempos de pandemia: A vida continua e vai ficar tudo bem?

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Andreia Nascimento, doutoranda em Sociologia no ICS-ULisboa


Era aluna do 5.º e último ano do curso de sociologia quando, em plena pausa letiva de Natal, o meu pai morreu. Ele dizia frequentemente, embora raramente à minha frente, “Sou um pai orgulhoso. Tenho uma filha na universidade (e um filho no infantário)”, apesar de não ter seguido aquilo que ele considerava ser um curso com futuro, Direito. Era a primeira, do lado da família paterna, a frequentar o ensino superior.

Aos 17 anos, celebrados cerca de 15 dias antes, parti rumo a Lisboa numa época em que a TAP gentilmente não vendia o lugar central como resultado da sua política de conforto (qual medida de contingência face à COVID -19!) e dos telefonemas para a família após as 21h00 por ser mais económico. De levar comigo um cartão multibanco emprestado para a gestão orçamental longe de casa ser mais fácil e do depósito mensal de centenas de contos oriundos da conta da minha mãe, a quem telefonava sempre que as saudades eram grandes e o saldo pequeno – era tudo tão novo e empolgante.

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