O impacto do género nos cuidados de saúde de mulheres com sintomas pré-menstruais


Rita Morais, doutorada em Psicologia pelo ISCTE-IUL (2020), é Bolseira de Pós-Doutoramento no âmbito do projeto VAX.TRUST no Instituto de Ciências Sociais, Universidade de Lisboa, desde abril de 2021.


Quando entrei na sala de consulta da minha ginecologista para mais uma consulta de rotina estava longe de imaginar que ia sair de lá com uma ideia para o meu doutoramento. Naquela tarde, após os exames de rotina, queixei-me que todos os meses antes do meu período aparecer tinha alguns sintomas que me deixavam demasiado em baixo. Para além das dores abdominais e do inchaço, sintomas mais comuns aquando da chegada da menstruação, eu ficava demasiado irritada, muito sensível e deprimida. Eram dias muito cinzentos para mim. Percebi que começava novamente a “ganhar vida” uns dias depois da menstruação chegar, e associei quase de imediato os meus sintomas ao meu ciclo menstrual. Naquela tarde, achei por bem queixar-me à ginecologista daquilo que para mim era mais do que um simples incómodo.

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Uma nova fase da recepção da obra de Norbert Elias em Portugal?


Diogo Silva da Cunha, ICS-ULisboa, estudante no doutoramento em Filosofia da Ciência, Tecnologia, Arte e Sociedade da Universidade de Lisboa, com bolsa da Fundação para a Ciência e a Tecnologia (PD/BD/135240/2017)


A recepção da obra de Elias foi tardia e irregular. O Processo Civilizacional, publicado em 1939, teve inicialmente poucos leitores. Esta situação atormentou Elias durante vários anos. Perseguia-o um sonho: atendia um telefone, mas não era ouvido, pediam que falasse mais alto. Ele gritava; a voz insistia: “Fale mais alto, não consigo ouvi-lo” (Elias, 2013 [1984]: 135). Do outro lado, por vezes, escutava-se melhor, porém Elias nunca se considerou ouvido. Este post explora algumas ideias sobre a recepção da sua obra em Portugal, procurando expor o horizonte de uma nova fase.

Foto de Norbert Elias © Norbert Elias Foundation, Amsterdam
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O desenvolvimento social dos valores de crianças e adolescentes em tempos de pandemia


Iva Tendais, ICS-ULisboa


Esta é a história de um projeto de investigação que se adaptou às condicionantes da pandemia da COVID-19 e superou os seus objetivos ao dar voz, até ao momento, a mais de sete mil crianças, adolescentes e pais de todo o país. Neste artigo, partilho as estratégias que, estou convencida, explicam uma boa parte do sucesso de participação nos inquéritos online realizados durante o primeiro e o segundo períodos de confinamento em Portugal.

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Ao chegar “aquela altura do mês”: O impacto do género nos cuidados de saúde das mulheres com sintomas pré-menstruais | 22 maio | 11h





Na próxima terça-feira, dia 22 de junho de 2021, o LIFE Webinars contará com a participação de Rita Morais, do ICS-ULisboa.


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“É assim que gosto de olhar para as coisas”

Rita Morais, doutorada em Psicologia pelo ISCTE-IUL (2020), é Bolseira de Pós-Doutoramento no âmbito do projeto VAX.TRUST no Instituto de Ciências Sociais, Universidade de Lisboa, desde abril de 2021.

É Bolseira de Pós-Doutoramento no projeto VAX.TRUST no ICS-ULisboa (desde abril de 2021). O que lhe parece mais desafiante neste caminho de pesquisa? Sou imensamente agradecida pela oportunidade de trabalhar num projeto como o VAX.TRUST. As questões da vacinação são muito relevantes atualmente. O mais desafiante é sem dúvida trabalhar uma área nova para mim. Do ponto de vista prático, as questões relativas à hesitação vacinal são desafiantes por si só. Se pensarmos que para haja saúde individual precisamos do grupo (e que é exatamente o que acontece no caso da vacinação), então este é o desafio propício para os Psicólogos Sociais e da Saúde. Estou a aprender imenso e espero que esteja a dar imenso também ao projeto.  

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Artigos em Maio 2021

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Esta é a rubrica mensal em que damos destaque às publicações de investigadores/as do LIFE Research Group (ICS-ULIsboa).

Neste mês de maio de 2021 damos destaque a dois artigos recentemente publicados.

Em What does it Mean to be a Man? Trans Masculinities, Bodily Practices, and Reflexive Embodiment, Sofia Aboim e Pedro Vasconcelos exploram as práticas corporais de indivíduos trans-masculinos entrevistados no Reino Unido e Portugal. Na sua multiplicidade, as trajetórias destes indivíduos demonstram como as experiências corporais moldam e redefinem masculinidades, iluminando o nexo entre corpos, personificações e representações discursivas da masculinidade. As tensões entre o natural e o tecnológico, o material e o discursivo ou o feminino e o masculino são elementos-chave para a compreensão das narrativas trans-masculinas sobre o corpo, a corporificação e a identidade. O artigo foi publicado na importante revista Men and Masculinites.

Em Child Custody Preferences in Light of Attitudes Toward the Couple’s Division of Labor in Portugal, Sofia Marinho e Rita Gouveia examinam as atitudes de homens e mulheres em relação às diferentes modalidades de residência das crianças após a separação/divórcio dos pais. Os resultados indicam que polarização entre o favorecimento da residência alternada versus residência individual é fortemente moldada pelas atitudes em relação à divisão do trabalho familiar. O artigo saiu na prestigiada revista Journal of Marriage and the Family.

ARTIGOS

Sofia Aboim, Pedro Vasconcelos
What does it Mean to be a Man? Trans Masculinities, Bodily Practices, and Reflexive Embodiment.
Men and Masculinities. First Published April 20, 2021. doi:10.1177/1097184X211008519
http://hdl.handle.net/10451/47763

Sofia Marinho, Rita Gouveia
Child custody preferences in light of attitudes to family division of labor
Journal of Marriage and Family: 83, 3, First published: 14 May 2021. DOI 10.1111/jomf.12767.
http://hdl.handle.net/10451/48116

Boas leituras!

No ‘olho do furacão’: compreender a hesitação vacinal em Portugal e na Europa


Ana Patrícia Hilário, ICS-ULisboa Rita Morais, ICS-ULisboa


Como é que pais compreendem a hesitação vacinal? Como é que os profissionais de saúde entendem a hesitação vacinal? Quais os principais desafios que os profissionais de saúde enfrentam em torno da hesitação vacinal? Estas são as principais questões que norteiam o projeto «VAX.TRUST – Addressing vaccine hesitancy in Europe», financiado pela Comissão Europeia (Grant Agreement N.º 965280) e que está a ser desenvolvido em Portugal no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa (ICS-ULisboa) e na Universidade Nova de Lisboa (UNL). O projeto está também a ser realizado na Bélgica, Itália, Finlândia, Reino Unido, República Checa e Polónia, e pretende desenvolver recomendações sob o ponto de vista da hesitação vacinal, tanto ao nível nacional, como ao nível Europeu.

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(Post)Socialist Gender Troubles: Transphobia in Serbian Leftist Activism | 1 junho | 11h





Na terça-feira, dia 1 de junho de 2021, o LIFE Webinars contará com a participação de Bojan Bilić, investigador pós-doc no ICS-ULisboa.

Over the last few years, the highly charged debates about the role that trans women should play in leftist and feminist struggles have spilt over from the Anglo-American space into the polarized and fragmented field of Serbian activist politics. In the context of rapid impoverishment, omnipresent corruption, and constant erosion of the working class, trans women – one of the most marginalized social groups – have been constructed as an “arch-enemy” provoking painful tensions and draining activist energies.


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Investigação à deriva – Museus, jovens e uma pandemia


Carolina Silva, investigadora auxiliar no ICS-ULisboa.


18.03.2020. Regressava passados quase sete anos a Lisboa. Uma viagem planeada para Julho, mas antecipada inesperadamente pela pandemia. Tivemos quatro dias para tomar uma decisão, empacotar a casa, marcar e remarcar viagens, suspender planos e sair.

Londres-Lisboa. Foi talvez o voo mais silencioso que fiz. O medo, a incerteza e a expectativa de chegar a casa eram partilhados por todos, espaçadamente sentados. Numa altura em que nada era claro, aterrámos numa cidade prestes a fechar.

Passaram-se quase dois meses.

Neste tempo suspenso, de espera colectiva, fui acompanhando o encerramento dos museus um pouco por todo o mundo. Um encerramento físico que deu gradualmente lugar a iniciativas no espaço virtual. Para Karen Gron, Directora do Trapholt Museum of Modern Art and Design na Dinamarca, os museus que já desenvolviam um trabalho de continuidade com os seus públicos estavam melhor preparados para lidar com os desafios do confinamento, do que os museus que dependiam maioritariamente de públicos transitórios, nomeadamente turistas, e de estratégias de vendas, resultantes, por exemplo, dos seus restaurantes e livrarias. Este pressuposto é evidente na capacidade de resposta que os programas de jovens em museus de arte contemporânea tiveram.[1]

Exemplos de resiliência, resultado de um investimento sustentado, ao longo das últimas décadas, numa abordagem de cocriação – com e para os jovens -, destaco, no panorama internacional, três projetos desenvolvidos durante o primeiro confinamento: Pause – A digital Teen Night, dos MOCA Teens, Museum of Contemporary Art de Los Angeles (EUA); GENEXT Goes Online, do Youth Committee, Museum of Contemporary Art Australia; e Home: Live > In Room do programa de jovens da Whitechapel Gallery. No contexto nacional, onde a relação das instituições culturais com os jovens, fora do âmbito escolar, se começa a firmar, evidenciam-se os programas BoCA Sub-21 e o Imagina 15-25 da Fundação Calouste Gulbenkian. Todos, em diferentes graus, se adaptaram criativamente às restrições impostas pela pandemia, um caminho trilhado com os jovens, em resposta aos seus interesses e inquietações.

A relação entre museus e jovens, com ênfase para o contexto português e para o investimento recente, a nível internacional, em programas profissionalizantes para jovens em museus de arte contemporânea, é o foco do meu projecto “Educational provision and professional training for youth in contemporary art museums”, em curso no ICS, no âmbito de uma bolsa Marie Curie (2020-2023). De que forma podem programas continuados em museus contribuir para o desenvolvimento pessoal, sociocultural e profissional dos seus participantes? Quais são as percepções, motivações e expectativas dos jovens ao participar em programas educativos e de formação profissional em museus de arte contemporânea? Em que medida se articulam com as suas ambições profissionais no sector cultural e criativo?

Usando uma abordagem de investigação colaborativa, o projeto está a ser desenvolvido em parceria com o maat – Museu de Arte, Arquitectura e Tecnologia, e em diálogo com a ecologia sociocultural envolvente. Com enfoque no crescente investimento dos museus em programas profissionalizantes, irei investigar o potencial de uma programação por etapas (tier-based program) para envolver este grupo etário, entre os 15 e os 25 anos, uma vez que oferece aos participantes diferentes oportunidades de acesso ao museu. Pretendo também compreender a forma como estes programas podem gerar mudanças nas atitudes institucionais em relação aos jovens e influenciar a sua programação futura para este grupo.

Com início em Setembro de 2020, no epicentro da pandemia, tornaram-se igualmente visíveis os desafios e as oportunidades de pensar a relação dos jovens com os museus neste contexto. Se, por um lado, o encerramento dos museus condicionou a sua oferta educativa e trabalho de extensão, por outro lado, criou um momento de reflexão raro no acelerado passo da programação cultural. Havia agora uma disponibilidade, a nível nacional e internacional, para pensar sobre o trabalho feito e sobre o futuro, cuja incerteza abria portas a soluções mais experimentais. Foi importante aproveitar esta fissura como ponto de entrada e de diálogo com os interlocutores culturais do território do projecto, o eixo de Belém, Ajuda e Alcântara, entretanto estendido também a Almada.

A rede que comecei a criar com profissionais da área educativa do maat, BoCA, Casa da Cerca, Galerias Municipais e LU.CA, ganhou uma expressão inesperada. E com ela uma nova questão de investigação: pensar o potencial de uma programação por etapas não apenas dentro de uma instituição, mas entre instituições, permitindo aos jovens um percurso mais autónomo, diversificado e participativo na programação cultural que lhes é dirigida. Central para este diálogo será também a voz dos jovens e de outros interlocutores sociais, nomeadamente representantes das Juntas de Freguesia, Agrupamentos de Escola, instituições sociais e associações juvenis. O momento destes contactos foi adiado pelas restrições impostas pela pandemia. Há uma dimensão interpessoal, da ordem dos afetos, determinante na criação de relações de proximidade e de confiança. Se a miríade de plataformas digitais disponíveis para encontros online nos permite chegar a quase todo lado, os encontros presenciais criam, potencialmente, espaços de partilha mais significativos. A importância da presença torna-se mais evidente quando se pretende chegar a interlocutores à partida distantes do espaço do museu e das suas práticas, incluindo da programação com e para jovens.

O pressuposto de uma investigação colaborativa é o de incerteza, ou de desconhecido, perante um caminho que se quer feito com e não sobre. Este pressuposto é exponenciado quando a ele se alia uma incerteza global sobre o presente e, também, sobre o futuro. Recordo o conceito de deriva, proposto por Guy Débord e os Situacionistas: “In a dérive one or more persons during a certain period drop their relations, their work and leisure activities, and all their other usual motives for movement and action, and let themselves be drawn by the attractions of the terrain and the encounters they find there” (Débord, 1956/2001, para. 2). Interessa-me este movimento sem rumo, onde se encontram caminhos não antecipados, aliado, como no processo situacionista de deriva, a um questionamento crítico desses mesmos encontros. Pensar a relação entre museus e jovens em tempos de pandemia é colocar a incerteza ao centro e investigar com ela.


[1] Silva, C. (2021). Pockets of resilience – The creative responses of youth collectives in contemporary art museums during lockdown. (Artigo submetido para publicação)


Carolina Silva é investigadora auxiliar no ICS-ULisboa, com uma bolsa Marie Skłodowska-Curie. Actualmente está a desenvolver o projecto “Educational provision and professional training for youth in contemporary art museums” em parceria com o Museu de Arte, Arquitectura e Tecnologia (MAAT). É doutorada em Educational Studies pelo Goldsmiths, Universidade de Londres, com tese sobre colectivos de jovens em museus de arte contemporânea. Entre 2017 e 2020 foi curadora do programa para comunidades na Whitechapel Gallery em Londres. Tem trabalhado e publicado sobre educação em museus, educação artística e cultura visual, práticas artísticas e pedagogias participativas.


Como citar este artigo: Silva, Carolina (2021). Investigação à deriva – Museus, jovens e uma pandemia. Life Research Group Blog, ICS-Lisboa, https://liferesearchgroup.wordpress.com/2021/05/18 18 de maio (Acedido a xx/xx/xx)

Agricultura Urbana na cidade de Lisboa: potenciais, desafios e limitações


Laura Martins de Carvalho
Assistente de pesquisa no Centro de Administração Pública e Governo – Fundação Getúlio Vargas


Este post apresenta os resultados referentes ao estudo de campo em Lisboa da tese “Agricultura Urbana em contextos de vulnerabilidade social na zona Leste de São Paulo e em Lisboa, Portugal”, onde foram investigados os Parques Hortícolas de Carnide (bairro Padre Cruz) e do Vale de Chelas. Em perspectiva sócio-histórica, o post mostra os potenciais, os desafios e as limitações da agricultura urbana (AU) engendrada pelo poder público, por agricultores dos referidos bairros sociais e pelas novas iniciativas propostas pela juventude, bem como são instauradas as dinâmicas relacionais entre esses atores.

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