Animais e catástrofes naturais: a construção desigual de múltiplas vulnerabilidades | 02 Junho | 11h





Na próxima terça-feira, dia 2 de junho 2020, o LIFE Webinars contará com a participação de Verónica Policarpo, investigadora no ICS-ULisboa, que virá apresentar-nos o seu projeto “Liminal Becomings: reframing human-animal relations in natural disasters” [CEECIND/02719/2017], bem como discutir formas para mitigar e adaptar a realização do trabalho de campo no atual contexto de pandemia.


Como se interligam as vidas de humanos e outros animais na experiência extrema das catástrofes naturais, ocorridas no contexto de alterações climáticas? Esta é a primeira questão de uma investigação em curso sobre a situação dos animais não humanos na experiência de catástrofes naturais (Liminal Becomings: reframing human-animal relations in natural disasters [CEECIND/02719/2017]). Pretende-se conhecer o modo como os animais são (ou não) considerados nas estratégias de gestão do risco, nos planos e práticas de emergência, e posteriormente na reconstrução da vida no pós-catástrofe. Exploram-se os modos como o continuum relacional entre humanos e animais se tece no tempo “extraordinário” das experiências extremas de sobrevivência a catástrofes naturais, e o potencial destes momentos para desafiar, ou reproduzir, as barreiras interespécies. O projecto propõe uma comparação internacional entre Reino Unido (inundações/cheias), Itália (terramotos) e Portugal (incêndios florestais), através das vozes de diferentes atores (populações afetadas, bombeiros, autoridades de proteção civil e policiais e públicas, veterinários, ONGs, e meios de comunicação de massas). Cruzando as temáticas das múltiplas desigualdades, território e da tensão humano-natureza, este projeto está ser desenvolvido no Human-Animal Studies Hub do ICS-ULisboa, integrando os GI LIFE e ATS.


Verónica Policarpo é investigadora auxiliar do ICS-ULisboa, integrada nos grupos de investigação LIFE – Percursos de Vida e Desigualdades Sociais; e ATS – Ambiente, Território e Sociedade, os seus interesses atuais de investigação centram-se no estudo das relações entre animais humanos e não humanos, nomeadamente na construção de laços entre espécies diferentes. Nesta área de estudos, coordena no ICS-ULisboa: o “Hub Human-Animal Studies@ICS-ULisboa”, um projeto com o apoio do Animals & Society Institute Award, USA; o projeto “CLAN – Amizades entre crianças e animais: desafiando as fronteiras entre humanos e não humanos nas sociedades contemporâneas” (PTDC/SOC 28415/2017); o projeto “Liminal Becomings: reframing human-animal relationships in natural disasters” (CEECIND/02719/2017); a Escola de Verão Internacional em Human-Animal Studies, uma parceria entre o ICS-ULisboa, a Universidade de Uppsala (Suécia) e a Universidade de Turku (Finlândia); e o grupo de leitura “Animal Wonder – Reading Group on Human-Animal Studies @ICS-ULisboa

À espera de a vida real reiniciar…

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Madelon Schamarella, doutoranda em Sociologia no
Programa de Doutoramento Inter-Universitário OpenSoc

Este é o Mac, meu computador, parceiro de investigação e da vida digital. Numa tarde, na passada quarta-feira, Mac avariou… escreveu uma mensagem no ecrã dizendo: disco rígido cheio…

Num gesto claro de exaustão, desligou-se deixando apenas uma tentativa de reiniciar pela metade; o que mais me pareceu o símbolo da incompletude da vida moderna. Mas como pode um Mac avariar? Eu pensei que ele fosse forte. Como eu conseguirei recuperar meus ficheiros? Como dar continuidade à minha agenda profissional e aos meus compromissos académicos? Como solicitar os serviços de reparo neste período de encerramento parcial do comércio? Parece que muitas das minhas perguntas ficariam sem respostas durante esta pandemia.

Os ecrãs da minha casa. Foto: Madelon Schamarella

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Artigos em Maio

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Rubrica mensal com destaque para publicações (livros, capítulos de livros e artigos) de investigadores/as do LIFE Research Group (ICS-ULisboa).

Nesta primeira entrada da rubrica Post Scriptum dedicada a artigos, destacamos cinco publicações novas. A diversidade dos temas reflete a diversidade do grupo de investigação.

Os artigos abordam assuntos tão variados como: a construção do outro-animal nos meios digitais (Verónica Policarpo); as motivações e limitações encontradas pelos prossumidores colectivos de energia (Lanka Horskink); os fatores preditos da satisfação dos pacientes em serviços de emergência (Pedro Alcântara da Silva); a fiabilidade das percepções de pacientes em relação aos tempos de espera em serviços de emergência (Pedro Alcântara da Silva); e os tempos e modos da sedução e da sexualidade em Portugal (José Machado Pais).

Boas leituras!


ARTIGOS

Verónica Policarpo
Daphne the Cat: Reimagining human–animal boundaries on Facebook
The Sociological Review, First Published April 30, 2020, DOI 10.1177/0038026120918167

Lanka Horstink, Julia M. Wittmayer, Kiat Ng, Guilherme Pontes Luz, Esther Marín-González, Swantje Gährs, Inês Campos, Lars Holstenkamp, Sem Oxenaar and Donal Brown
Collective Renewable Energy Prosumers and the Promises of the Energy Union: Taking Stock
Energies 13, 421. DOI 10.3390/en13020421

Alina Abidova, Pedro Alcântara da Silva, Sérgio Moreira 
Predictors of Patient Satisfaction and the Perceived Quality of Healthcare in an Emergency Department in Portugal
Western Journal of Emergency Medicine, Published online 27 Jan 2020, DOI 10.5811/westjem.2019.9.44667

Alina Abidova, Pedro Alcântara da Silva, Sergio Moreira
Accuracy of Patients’ Waiting Time Perceptions in the Emergency Department
Academic Emergency Medicine, Published online Feb 27, 2020. DOI: 10.1111/acem.13949.

José Machado Pais
Sexualidade e Sedução em Portugal: tempos e modos
Revista Outros Tempos, 17 (29), pp. 282-298 

Livros & capítulos em Maio

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Rubrica mensal com destaque para publicações (livros, capítulos de livros e artigos) de investigadores/as do LIFE Research Group (ICS-ULisboa).

Boas leituras!


LIVROS

José Machado Pais
Jóvenes y Creatividad. Entre futuros sombríos  y tiempos de conquista
Barcelona: Ned Ediciones. ISBN: 978-84-16737-89-5]; eISBN: 978-84-16737-93-2.

Excerto do prólogo Hijo del fado: una conversación con José Machado Pais, de Carles Feixa:

Como Paulo Freire nos enseñó, la inexorabilidad del futuro es la negación de la historia. Por lo tanto, el futuro debe ser cuestionado en lugar de ser delimitado. En el presente libro, me propongo precisamente un cuestionamiento del futuro que nos permita imaginarlo. De esa forma, hacemos presente el futuro. ¿Y cómo podemos imaginar el futuro? En la lógica de los sistemas que se autoconstruyen, es decir, reflexivamente.

José Machado Pais


Bojan Bilić
Trauma, Violence, and Lesbian Agency in Croatia and Serbia: Building Better Times
Cham: Palgrave Macmillan. ISBN 978-3-030-22959-7

O livro de Bojan Bilić, Trauma, Violence, and Lesbian Agency in Croatia and Serbia: Building Better Times, trata os trauma da guerra, da homofobia e do capitalismo neoliberal como uma experiência verbal impenetrável que deseja ser narrada. A monografia explora as maneiras pelas quais a linguagem lésbica feminista emergiu repetidamente no contexto de um forte silenciamento patriarcal que cercou os conflitos armados de a sucessão jugoslava.


CAPÍTULO DE LIVRO

Destaque também para o capítulo de José Luís Garcia acerca dos biobancos, em que se discutem as complexas relações entre práticas científicas, desenvolvimentos tecnológicos e dinâmica mercantil em torno da vida e dos bens que corporizam.

José Luís Garcia
Os biobancos e a questão das práticas técnológicas e da dinâmica mercantil em torno da vida e dos bens que corporizam
In Silva, J. P. e Barros, H. (Eds.), Biobancos, investigação e Saúde Pública: promessas e desafios, pp. 59-67 . Porto: Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto. ISBN 978-989-99644-4-0.

On life: quando é que sabemos demais?

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Sara Merlini, Centro Interdisciplinar de Estudos de Género (ISCSP / ULisboa)

O Verão passado foi vivido intensamente cá em casa. A fase do doutoramento tinha acabado e os tempos turbulentos também. Antes disso, disseram-me que tínhamos sobrevivido a desafios “pouco recomendados” para a nossa idade… O que teríamos nós prevenido e quantos excessos cometemos? A palavra sobre-vivência foi a única que se encaixou na minha descrição de tudo, porque (só) viver implicaria um tipo de usufruto que, de certo modo, nos esteve vedado. Ou melhor, que foi sendo vivido por nós de uma forma muito peculiar. Esses horizontes de expectativa e espaços da experiência, sempre particulares e moldados em função de temporalidades e exigências, amadurecem-nos, constrangem-nos e formatam-nos, às vezes ao ponto da cegueira… Continuar a ler

A solidariedade não pode entrar em quarentena

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Maria Teresa Nobre, Universidade Federal do Rio Grande do Norte (Brasil)

 

Fique em casa, lave bem as mãos, use álcool gel, alimente-se, hidrate-se, durma bem. Mantenha distância das pessoas, use máscara, saia apenas para resolver questões essenciais, higienize as compras antes de guardá-las. Essas recomendações chegam-nos todos os dias, inúmeras vezes, através de todas as mídias, de modo que diante do pânico e da insegurança, para muitos o mais difícil não é ficar em casa, mas voltar para ela, como relatou-me um amigo por estes dias: “saímos tensos e voltamos estressados. Limpa tudo, lava tudo, sapatos no corredor”.

Mas… e para quem não tem casa e depende dos serviços públicos ou filantrópicos para alimentar-se, dormir, fazer higiene pessoal e até beber água?

Mesmos em tempos normais, a oferta desses serviços já era imensamente inferior à demanda de milhares de pessoas em situação de rua/sem abrigo no Brasil, que em 2015 já passavam dos 100 000, segundo o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA).

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Viaduto do Baldo, em Natal (Brasil), onde vivem cerca de 30 pessoas em situação de rua. Foto: Maria Teresa Nobre (acervo pessoal) Continuar a ler

Diário do novo normal

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Sofia Aboim, ICS-ULisboa

Há pouco mais de três meses ninguém, ou quase ninguém sabia, que o vírus existia. A vida era simplesmente “normal” porque transcorria sem mais sobressaltos do que habitualmente. De um momento para o outro, tudo mudou deixando entrar um inesperado caos que trouxe consigo sentimentos de incerteza e insegurança, duas emoções que custam a digerir e se apresentam como um abalo estranho que nos desencaixa dos mundos e rotinas a que nos habituámos. Somos afinal seres de hábitos, como a sociologia tão bem nos mostra. Os riscos desconhecidos causam turbulência e estranheza.

Em 1992, Ulrich Beck advertia-nos que os perigos e inseguranças da sociedade contemporânea moderna são ainda mais sérios e perversos do que os que ameaçavam os nossos antepassados a braços com os labores de uma sociedade industrial desigual, pobre, profundamente insalubre e marcada pelo recorrente infortúnio de infeções tão temíveis, quão arbitrárias. A ideia de risco teorizada por Beck encaixa-se no presente, mas não chega para interpretarmos o momento atual. Estamos afinal perante um trauma histórico e social profundo que marcará vidas e dividirá gerações entre um antes e um depois da pandemia. Continuar a ler

“Onde gastei, eu, hoje, o meu tempo?”

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Vanessa Cunha, ICS-ULisboa

Em plena crise pandémica, o meu relógio parou… o de pulso, o que anda sempre comigo para todo o lado. Parou às 7 horas e 10 minutos. Se da manhã ou da tarde, não sei (é um relógio analógico)… Mas ambos os horários são igualmente sugestivos, pois reenviam-me para a minha existência pré-COVID-19, para um tempo em que 7:10 era (mais coisa, menos coisa) a hora de acordar, com a ajuda do despertador, e em que 19:10 era (mais coisa, menos coisa) a hora de chegada do comboio, de regresso a casa, ao final de um dia de trabalho. Marcadores dos meus ritmos diários, há anos, muitos, apenas dispensados em fins-de-semana e em férias, tempos menos espartilhados por horários rígidos.

Quando o relógio parou fiquei apreensiva: “Logo agora, que está tudo fechado! Onde vou eu desencantar uma pilha?” É preciso dizer que gosto de usar relógio (é uma segunda pele, tal como os óculos) e sempre resisti a substituí-lo pelo versátil telemóvel, que entre tantas coisas que nos permite fazer, ver as horas é apenas uma delas. Não é, contudo, a mesma coisa, não está sempre à mão, ao subtil e natural(izado) rodar do pulso, e é tão dispersivo que não me transmite a segurança de que sou dona do meu tempo (cada qual com a sua mania…).

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O relógio da Vanessa

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Sinead Marian D’Silva shedling some light on youth negotiation of tourism in Goa and Lisbon

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Foto redonda

Sinead Marian D’Silva is a research fellow at ICS-ULisboa. We are pleased to introduce you to her study – Youth negotiation of tourism-based employment in Goa and Lisbon – funded by the European Union’s Horizon 2020 research and innovation programme, through a ‘Widening Fellowship’, accepted for funding via the Marie Skłodowska-Curie Actions – Individual Fellowship scheme. The project has the scientific supervision of Dr. Vitor Sérgio Ferreira.

Sinead, tell us about your research project…
My research is on young people working in tourism in Goa and Lisbon, while being ‘local’ to either respective place. In both locations, reactions by ‘locals’ to tourism are represented as either highly contested or completely endorsed as both economies are geared towards the industry. As I begin my research, I hope to understand why young people decide to work in tourism and how they negotiate their participation in it. This includes who they are in society, how they perceive their futures and their relationship with place.

What excites you most about this research plan?
I suppose this is two-fold. In terms of academic interests, the focus on youth futures is a continuation of my previous work. The consideration of it within a contentious industry allows me to take further an interest I have as a researcher, in the empirical sense, as I must confront perspectives that may be different from mine or are not popularly presented. I must then treat them in the way that those narrating them intended while simultaneously maintaining a critical perspective. There is also a personal aspect to it which I will speak later…

Did the global pandemic situation influenced your initial research design? How?
The current pandemic has definitely had an impact on the initial plan for my research. It has sent my fieldwork for a toss – I had just started in March – and made me re-construct it to be back-to-front. My fieldwork has been delayed further by a need to re-apply for ethical clearance – understandably so.

At the moment how are you trying to solve difficulties?
I would not call these difficulties, but rather inconveniences, mostly bureaucratic ones. I suppose such times call for a mobilizing of ‘Plan B’. As social researchers, we are usually prepared to eat some humble pie and realize that circumstances change and our ‘dream project’ may not play out as planned. In practical terms this has meant that rather than starting off with observations and encountering participants ‘organically’, I need to have a virtual approach to contacting people, using the networks I have and my own knowledge. In addition to virtual interviews which will be flexible, I have included a diary method for participants to go their thoughts and experiences in multiple ways, including sharing social media posts they might feel demonstrate this, doing videos, voice messages, and so on. The uptake is yet to be known as I await amended ethical clearance, but if anyone would like to help, here is a link to share.

How does this research fits into your biographical/academic background?
As said previously, this fits with my academic interests in work, youth futures and place-making. I cannot stress how important it is to have some sense of financial stability – even if temporary – when doing research. I feel a sense of confidence and freedom to pursue my work. I hope to demonstrate part of my capacity through this project. On a personal level, following my PhD I feel determined and confident to return to (research about) my home context of Goa. I have also wanted to know more about Portuguese culture and society for a while now, which can perhaps bring me a step closer to understanding my own social and cultural history. It gives me a good opportunity to be critical and appreciative.

Where have you spend most of your life and what would you like to highlight from that place?
I lived in Goa for the most part of my life – in proportion anyway. Following my schooling I lived in Bombay for 7 years and then Leeds in the North of England for 6 years before coming to Lisbon. I am not sure what to say and about which context, but perhaps my research will shed some light on the situation in Goa!

Bio
Social scientist/researcher whose disciplinary background is an intersection of Sociology and Geography. Formal academic focus on work, youth futures and a senses of place. Engaged with research and community-based action for social justice and equality, such as being a member of the steering group for the Inequalities Research Network at the University of Leeds.

Follow her on…
LinkedIn: https://www.linkedin.com/in/sinead-d-silva-15022810a/
Twitter: @CianydeArgentum – https://twitter.com/CianydeArgentum

Rear window / Janela indiscreta

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Maria Manuel Vieira, ICS-ULisboa

Em 1954 estreava o filme Rear Window / Janela Indiscreta, de Alfred Hitchcock. Considerado por alguns críticos o melhor filme do realizador britânico, o cenário e o enredo apresentam curiosamente fortes homologias com a sociologia e o tempo presente.

O personagem principal, desempenhado por James Stewart, é um jovem fotógrafo a quem um acidente e uma perna engessada o atiram para um confinamento forçado no seu apartamento de Greenwich Village. Sentado numa cadeira de rodas, pretendendo refrescar-se da onda de calor que assola Nova Iorque, encontra distração nas ações dos indivíduos que observa atentamente da janela das traseiras (rear window), aberta de par em par. Encolhido o raio de visão ao tamanho da sua janela, descobre pela primeira vez o mundo próximo que o rodeia: os vizinhos dos apartamentos em frente, os utilizadores do pátio em baixo, os transeuntes que se deslocam no passeio da rua, entrevistos ao fundo.

O acompanhamento diário de hábitos, gestos e horários, ampliado nas lentes dos seus binóculos, permitem-lhe ser testemunha de um acontecimento fatal, que alimentará o clímax de mais este thriller, genialmente encenado pelo mestre do suspense.

Frame do filme Janela Indiscreta, de Alfred HitchcockFrame do filme Janela Indiscreta de Alfred Hitchcock

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