LIFE Seminars | 19 de Novembro 2019

No próximo dia 19 de Novembro vamos contar com a presença de Ana Sofia Ribeiro, investigadora no ICS-ULisboa, que irá apresentar o seu novo projeto Recuperando capacidades: uma exploração multimodal da resiliência da juventude rural após os incêndios, financiado pelo programa Estímulo ao Emprego Científico 2017, da Fundação para a Ciência e a Tecnologia (Sociologia-CEECIND/01198/2017).  A entrada é livre.

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“As catástrofes ambientais são cada vez mais comuns e intensas, confirmando o risco como tema central nas sociedades contemporâneas. O verão de 2017 trouxe a Portugal uma nova geração de incêndios de larga escala, já vistos noutros cenários, que expuseram a vulnerabilidade das comunidades e territórios da zona centro do país e tornaram evidentes as desigualdades existentes entre as áreas urbanas e litorais, e o interior, despovoado e carente de recursos. No atual contexto de quebra demográfica, os jovens assumem particular relevância nos territórios rurais, pois a sua presença (caso decidam neles permanecer) garante a sustentabilidade destas comunidades e dos seus modos de vida. Contudo, os jovens que habitam espaços rurais não são tantas vezes investigados, não só por serem cada vez mais uma minoria, mas também porque existe uma assunção de que uma cultura globalizada comum uniformiza as experiências independentemente dos contextos locais. Para lá da polarização de narrativas de vidas rurais como idílicas ou deficitárias, este projeto propõe investigar as capacidades e experiências dos jovens habitantes em dois municípios do interior, em relação aos incêndios florestais e aos seus lugares. A abordagem das capacidades na formulação de Martha Nussbaum enquadra teoricamente o projeto, que propõe explorar de que forma o ambiente atua como fator de conversão na qualidade de vida dos jovens rurais. A metodologia proposta é longitudinal e multimodal, abrangendo entrevistas contextuais com instituições, análise documental, entrevistas biográficas com os participantes e metodologias criativas.”

Três crianças e um gato cego: crescer juntos, mas ao contrário, na casa da vida

… ou de como o projecto CLAN iniciou o estudo das relações entre as crianças e os animais que com elas (com)vivem


147Verónica Policarpo é socióloga e investigadora auxiliar no ICS-ULisboa.


HAS Hub@ICS-ULisboaSeis da tarde de um dia de outubro que mais parece de agosto, daqueles antigos, em que o sol queima, mesmo quando já está a desaparecer do horizonte. Tudo está calmo, neste bairro residencial da margem sul do tejo. Tão calmo que a nossa chegada, para a primeira entrevista do projeto CLAN, parece acordar a casa de um sono tranquilo, de sesta de final de tarde. No quintal do lado, dois cães de grande porte olham para nós, do alto da sua impassibilidade. Mas é um daqueles pequenos, cruzado de caniche, que vem ter connosco, a ladrar. Tento falar com ele. Abana a cauda. Está contente.

Na casa aonde nos dirigimos, não há cães. A mãe, os três filhos e um gato estão à nossa espera. As crianças vêm buscar-nos à porta e, assim que entramos, o gato amarelo vem cheirar-nos e tropeça nas nossas pernas. “É cego”, diz uma das crianças, “mas consegue encontrar o caminho dele para todo o lado!” Os três irmãos amontoam-se em escadinha, espreitando-nos com curiosidade, como uma escala tocada num piano que ainda não se faz ouvir: 9, 7 e 2 anos. No corredor há um arranhador, e pelo chão da sala misturam-se brinquedos de criança e de gato, numa osmose de brincadeiras antecipadas.

Imagem Folheto CLAN

Assim se inicia o projeto CLAN, ou pelo menos uma das suas partes mais entusiasmantes – o contacto com as famílias que aceitaram participar. O estudo visa compreender melhor as relações entre as crianças e os animais de companhia, no contexto da casa e da vida familiar. O foco principal são as práticas, ou seja, o que fazem, em conjunto, crianças e animais. Continuar a ler

LIFE Seminars | 12 de Novembro 2019

No próximo dia 12 de Novembro vamos contar com a presença de Nilson Moraes no seminário do grupo de investigação LIFE, Investigador Visitante no ICS-ULisboa que irá apresentar o seu trabalho Charges, saúde e conjuntura: como se fosse possível analisar os 100 primeiros dias de Bolsonaro.

Este estudo propõe-se descobrir os significados que as charges (cartoons) emprestam ou são tomadas conjunturalmente. As charges são o que são e como são por condições precisas, pelo que interpretamos sociologicamente as lógicas subjacentes à sua produção e utilização. A saúde no Brasil é motivo de preocupação e de debates entre gestores, políticos, intelectuais, artistas, portadores de agravos à saúde e militantes sociais. A saúde é pauta de todos os veículos e linguagens. Tomamos, neste estudo, os discursos dos jornais como práticas sociais estratégicas na produção de sentidos e ações que buscam orientar e influenciar grupos, visões de mundo e interesses sociais em disputa. Mas a mídia, além de produzir um discurso, é locus de disputas simbólicas, políticas e materiais. Reunimos e analisamos as charges que tematizam a saúde em três jornais nos cem primeiros dias do governo Bolsonaro. A opção de estudo em três jornais não se deu ao acaso. Consideramos que as charges são modos de produção e ressignificação de sentidos que interferem na produção e compreensão dos fatos, processos e relações A entrada é livre.


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Nilson Moraes é Professor Titular na Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Departamento de Saúde Colectiva-UNIRIO), e professor convidado no Programa de Pós-Graduação do Instituto de Comunicação e Informação Científica e Tecnológica em Saúde da Fundação Instituto Oswaldo Cruz (ICICT/FioCruz). É também, presentemente, Investigador Visitante do ICS-ULisboa até Dezembro, em colaboração com o Doutor Pedro Alcântara.

PARENT – Procriação e Parentalidade em contexto de baixa fecundidade, mudança familiar e crise económica

111Vanessa Cunha é socióloga e investigadora no ICS-ULisboa.


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O projeto PARENT pretende apreender o impacto da crise económica e dos novos valores da parentalidade nas perspetivas e nas práticas procriativas em Portugal[1]. Tem como ponto de partida a severa queda da fecundidade durante a recente recessão, que acentuou o persistente declínio da fecundidade das últimas décadas, e as suas consequências para pais, famílias e sociedade portuguesa no seu conjunto.

Apesar do relativo reconhecimento público destas transformações demográficas e dos seus impactos a longo prazo, pouco se sabe acerca das representações e das experiências parentais atuais, do modo como são moldadas e condicionadas, e as expetativas que pais e mães acalentam relativamente às políticas de apoio às famílias. Por outro lado, emergiram perspetivas pró-natalistas e de suporte à parentalidade sem um debate inclusivo e informado sobre a formulação de políticas, pelo que é crucial a pesquisa produzir conhecimento sobre as coortes de nascimento e os contextos sociais mais afetados pelo declínio da fecundidade, assim como contribuir para a consciencialização pública destas questões, nomeadamente por parte de decisores políticos e grupos de interesse.

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Créditos: Foto de Jonathan Borba no Unsplash

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LIFE Seminars | 05 NOVEMBRO 2019

No próximo dia 5 de Novembro iremos retomar o ciclo de seminários do grupo de investigação LIFE com a presença de Ana Patrícia Hilário, investigadora no ICS-ULisboa, que irá apresentar o seu novo projeto Making visible the invisible: an exploration on family experiences and management of chronic pain in childhood, financiado no âmbito da medida Estimulo ao Emprego Científico 2017, da Fundação para a Ciência e a Tecnologia (Sociologia-CEECIND/03970/2017). O projeto pretende dar conta das experiências vividas pelas crianças que sofrem de dor crónica e pelas suas famílias. A entrada é livre.


 

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As mulheres e o associativismo em Portugal (1914-1974)

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Isabel Freire é socióloga e investigadora no ICS-ULisboa.


cropped-dkO projeto de investigação WOMASS (do inglês Women and Associativism) estuda organizações femininas e feministas criadas em Portugal entre 1914 e 1974. Desenvolvido no ICS-ULisboa, sob coordenação de Anne Cova (historiadora) e cocoordenação de Vanda Gorjão (socióloga), com financiamento da Fundação para a Ciência e Tecnologia (PTDC/HAR-HIS/29376/2017), tem uma duração estimada de 3 anos (2018-2021), e conta com uma equipa de 10 investigadores afiliados em 5 organismos nacionais (ICS-UL, ISCSP-UL, NOVA FCSH, Universidade Católica e Universidade do Minho): Ana Costa Lopes, Fátima Mariano, Isabel Freire, João Esteves, Manuela Tavares, Natividade Monteiro, Raquel Rego e Sílvia Espírito-Santo fazem parte da equipa. Continuar a ler

Posso dar a minha opinião? Um focus group sobre humanos e outros animais

147Verónica Policarpo é socióloga e investigadora auxiliar no ICS-ULisboa

11.pngHenrique Tereno é bolseiro de investigação no ICS-ULisboa


…O que é para nós um “animal de companhia”? E um ‘animal selvagem’? De que forma os mesmos animais circulam entre uma e outra destas classificações, e porquê? Quais são as categorias que construímos para os definir, em interacção uns com os outros e com o contexto à nossa volta – a casa, a rua, os espaços de lazer e divertimento, entre outros? De que modos isso influencia a nossa relação com esses animais, e consequentemente as suas vidas concretas – o seu bem-estar, a sua saúde, a sua felicidade?

Foi este o tema que, pela segunda vez, abordámos numa das atividades que tiveram lugar no ICS, no âmbito da iniciativa Verão na ULisboa. A atividade consistiu em encenar um focus group – uma técnica qualitativa muito usada nas ciências sociais e nos estudos de mercado, com o objetivo de fazer o levantamento das principais saliências temáticas a respeito de um tópico. Numa entrevista de grupo, um conjunto diversificado de pessoas escolhidas em função de alguns critérios discute, a partir de alguns estímulos, o tópico escolhido. Continuar a ler

Aprendizagem no cotidiano escolar: direitos, experiências e reflexões discentes

car.pngCaroline Caldas Lemons é doutoranda-visitante no ICS-ULisboa, proveniente da Universidade de Caxias do Sul/RS – Brasil.


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Ao realizar a pesquisa do Mestrado em Educação sobre o direito à educação no Brasil no âmbito da educação formal, escutei muitas vezes nas narrativas de professores e professoras da Educação Básica de uma Rede Municipal de Ensino no extremo sul do Brasil a queixa de que os/as estudantes não aprendem. Como pesquisadora e professora da Educação Básica, essa percepção de que o ensino não surte o efeito esperado na aprendizagem me deixou bastante intrigada e que fez querer saber:

O que está sendo apreendido pelos/as estudantes em decorrência do ensino? O que os/as jovens têm a dizer sobre suas aprendizagens? Que aprendizagens escolares têm sido consideradas mais significativas por eles/as e por seus/suas professores/as? Será que, de algum modo, os docentes não (re)conhecem as aprendizagens discentes?

Mobilizada por essas perguntas, aventurei-me na tarefa de construir um conhecimento sobre a aprendizagem no cotidiano escolar a partir dos direitos, das experiências e das reflexões discentes sobre a própria aprendizagem. Sabendo que construir respostas a esses questionamentos envolve aprofundamento teórico em relação ao(s) modo(s) como a aprendizagem é concebida pelos professores/as e pelos/as estudantes, seja na perspectiva do direito, seja na perspectiva das experiências que para ela se volta, essa foi a minha proposta de investigação para o doutoramento em Educação.

Aprofundando achados do estudo anterior, dentre os quais o que destacou a potencialidade da intervenção pedagógica para a efetivação do direito à educação, tenho me debruçado sobre cinco culturas de intervenção pedagógica que consegui categorizar a partir da minha tese de mestrado, buscando conhecer as derivações, os desvios e as potencialidades que as mesmas adquirem na efetivação da aprendizagem. Essas culturas de intervenção pedagógica, descobri também, carregam em si elementos que, nas práticas, não se alteram, independentemente da legislação educacional e/ou dos sujeitos para as quais se voltam.

Pela permanência temporal e pelos elementos cristalizados, as cinco culturas de intervenção pedagógica a que cheguei são as seguintes: culturas de (a) reprodução, (b) recomendação, (c) disciplina, (d) outorga/transferência e (e) emancipação, conforme explicito brevemente abaixo com alguns exemplos das narrativas docentes que auxiliaram nas suas construções.

(a) Culturas de reprodução: Dizem respeito às iniciativas e proposições docentes que não ultrapassam a dimensão da reprodução de conteúdos, das experiências e dos modos de ensinar e avaliar explorados maciçamente nas últimas décadas (em que, ainda que ocorram adequações, são raras ou pouco significativas as reinvenções).

“Porque não adianta, se o aluno apresentou uma dificuldade, eu retomar da mesma forma”; “O sistema tem que se reinventar”.

(b) Culturas de recomendação: Correspondem às variadas indicações, conselhos e recomendações que os/as professores/as fazem aos/às estudantes em relação aos modos de aprender, cuidar de si, acessar a informações, construir relações entre seus conhecimentos e a realidade social ou ainda cuidar dos outros, dentro ou fora da escola.

“Trabalhar como pagar uma conta, arrumar uma cama, lavar uma louça”; “Ver os alunos na faculdade e/ou em um bom emprego”.

(c) Culturas de disciplina: Exemplificam práticas de intervenção pedagógicas voltadas tanto para a sujeição discente quanto para o exercício de sua cidadania frente aos regramentos sociais em geral, ou seja, tanto no sentido de dificultar ou impedir a sua expressão quanto no sentido de mostrar maneiras responsáveis, organizadas e respeitosas de estar no mundo e com os outros.

 “Os alunos que não querem estudar atrapalham os colegas”; “Não se aprende só na sala de aula, só sentado”.

(d) Culturas de outorga/transferência: Relacionam-se às práticas voltadas para a transferência total da responsabilidade docente com vistas a não assumi-la (quando delega a outro – membro da escola, da família ou profissional – a responsabilidade profissional que lhe cabe) e/ou transferência parcial da responsabilidade docente, cujo objetivo é congregar esforços para que as potencialidades discentes possam ser plenamente desenvolvidas.

“[Seriam necessários] profissionais da saúde à disposição da educação/escola”; “Não ter formação nem auxílio de especialistas para identificar ou diagnosticar alunos que apresentam limitações de aprendizagem”.

(e) Culturas de emancipação: Reúne as reinvenções docentes, a ampliação dos modos de socialização e dos estímulos às descobertas que, em geral, fogem das condutas mais tradicionais exemplificadas, pois carregam o inusitado, conduzem a novos arranjos pedagógicos, apostam em projetos voltados para o desenvolvimento da criatividade, buscando tornar concreta a ideia de autoformação integral dos sujeitos em processo de escolarização.

“Situações de alunos sendo oficineiros”; “A prova e o final não existem”; “Esse respeito à individualidade, ao ritmo de cada um para aprender […]”.

Bem, se no âmbito jurídico, desde a promulgação da Constituição Federal de 1988 no Brasil, a educação é um direito subjetivo universal e inviolável a que todos podem pretender e, se no âmbito social, a prática pedagógica deve orientar-se pelo conjunto de políticas educacionais vigentes, sendo importante adequá-las a diversidade cultural característica da progressiva escolarização de crianças e jovens em todo o país, carece problematizar:

Se o público escolar foi alterado e algumas práticas de intervenção pedagógica permanecem sendo acionadas, quais seus potenciais para a construção das aprendizagens juvenis? O que há entre a intervenção pedagógica e a aprendizagem dos estudantes quando os professores/as queixam-se da não aprendizagem? Quais são as derivações dessas intervenções no âmbito do cotidiano da Educação Básica? Que aspectos são potenciais na efetivação do direito à aprendizagem?

A aprendizagem, ao tornar-se protagonista das relações que devem ser estabelecidas no cotidiano escolar, portanto, centro do processo educativo, precisa estar presente na intencionalidade e nas ações pedagógicas. Contudo, se os/as docentes queixam-se de que nem sempre alcançam os resultados esperados e mesmo assim não alteraram substancialmente elementos de suas práticas, talvez, entre outras razões, haja falta de um horizonte comum entre as expectativas docentes e discentes quando se trata da aprendizagem.

Certamente, efetivar a aprendizagem para todos/as, consideradas todas as diversidades (sociocultural, cognitiva, biológica), não só torna a tarefa imensa e complexa – talvez até utópica para alguns – quanto exige muitos investimentos, dentre os quais o diálogo. Acredito que uma relação pedagógica dialógica entre docentes e discentes possa auxiliar a compreensão sobre quê aprendizagens têm sido mais significativas para a constituição dos saberes discentes, ou mesmo que elementos não percebidos ou reconhecidos pelos docentes têm sido potenciais nesse processo.

Nesta perspectiva, pretendo adentrar o espaço escolar, observar o cotidiano da Educação Básica e estabelecer um diálogo reflexivo com professores (as) e estudantes acerca de suas compreensões sobre os processos de ensino e aprendizagem. Esta é a forma escolhida para construir respostas à seguinte problemática de pesquisa: “A partir do ponto de vista dos estudantes da Rede Municipal de Ensino de Caxias do Sul, como as culturas de intervenção pedagógica de reprodução, recomendação, disciplina, outorga e emancipação potencializam a aprendizagem?”.

Para alcançar a percepção dos jovens sobre suas experiências de aprendizagem no cotidiano escolar, convidarei estudantes do 9º ano do Ensino Fundamental que tenham feito todo o percurso escolar deste nível de ensino apenas em escolas da Rede Municipal de Ensino de Caxias do Sul.

O trabalho de campo envolverá inicialmente Mapas E-mic Rítmicos e Grupos Focais. Com os Mapas – instrumento quantitativo e gráfico para marcações relacionadas aos ritmos da vida (altos e baixos) – pretendo tomar o grau de satisfação dos estudantes em relação aos seus percursos escolares e de vida e estimulá-los a narrar sobre os pontos em que estes percursos se (des)encontram. Com os Grupos Focais, a partir de três temáticas predefinidas, desejo estimular nos jovens o debate acerca de suas experiências de aprendizagem e a relação dessas com as práticas e culturas de intervenção pedagógica.

Com esses procedimentos metodológicos – e outros que poderão ser agregados ao longo desta pesquisa que envolve as relações entre cotidiano, aprendizagem, experiência, reflexão e percepção – acredito ser possível mapear aprendizagens significativas, desdobradas da relação entre professores e estudantes, e discutir desvios e potencialidades da intervenção pedagógica na efetivação do direito à aprendizagem na Educação Básica. O desejo é que, ao final da investigação, seja possível propor intervenções pedagógicas potenciais para a efetivação do direito à aprendizagem.


Como citar este artigo: Lemons, Caroline Caldas (2019). Aprendizagem no cotidiano escolar: direitos, experiências e reflexões discentes. Life Research Group Blog, ICS Lisboa, https://liferesearchgroup.wordpress.com/2019/07/11 11 de Julho de 2019 (Acedido a xx/xx/xx)

Quando a liberdade passa pelo corpo: compreensões acerca do pensamento feminista e antifascista de Maria Teresa Horta

miv.pngMichelle Vasconcelos Oliveira do Nascimento é doutoranda em História na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grade do Sul (PUCRS) e doutoranda-visitante no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa.


1.jpgMaria Teresa Horta (1937), jornalista e escritora portuguesa conhecida pela sua forte oposição ao Estado Novo, ao salazarismo e pela luta feminista, iniciou a sua vida jornalística ainda cedo, entre finais da década de 1950 e início dos 60, na redação do jornal República. Começa a sua carreira literária com Espelho Inicial, em 1960, vindo a fazer parte do movimento literário Poesia 61, juntamente com Fiama Hasse Paes Brandão, Casimiro de Brito, Gastão Cruz e Luiza Neto Jorge. Durante a década de 1960, Teresa Horta colaborou em vários periódicos.

Embora tenha publicado 8 títulos na década de 1960, foi na década de 1970 que se torna amplamente conhecida pelo público. Não apenas pela publicação de Minha Senhora de Mim (1971), que foi apreendida pela censura do Estado Novo, mas, sobretudo, pela publicação de Novas Cartas Portuguesas (1972), juntamente com Maria Isabel Barreno e Maria Velho da Costa. O livro, pelo qual ficaram conhecidas como As Três Marias, foi considerado pela censura como imoral e pornográfico, o que lhes rendeu a apreensão da obra, condução e interrogatório das escritoras e um processo movido pelo Estado, que as tornou conhecidas internacionalmente.

O salazarismo… e a opressão feminina

A instabilidade política do período republicano abriu caminho para o Golpe militar de 28 de maio de 1926. O golpe foi, de acordo com Oliveira Marques (2001), uma reação antiurbana, da maioria conservadora das províncias, e que triunfou porque soube utilizar as camadas inertes da população, representando-as, no seu conservadorismo, através da defesa dos valores tradicionais: a Religião, o Exército, a Nação, a Família, a Ordem, a Terra.

Salazar tinha uma forte ligação com a Igreja, que foi, fundamentalmente, o braço direito de seu governo, seja no restabelecimento oficial das relações, que se consolidou a partir da Concordata de 1940, seja pelo discurso conservador de cunho cristão utilizado pelo ditador para defender os seus valores e modelos, adotando o slogan “Deus, Pátria e Família”, e o lema “A mulher para o lar”. A família de modelo cristão passou a ser o núcleo da sociedade do Estado Novo, e o “destino biológico” e a moral cristã passam a ser os determinantes da conduta feminina, “uma moral repressiva, assente na desigualdade de gênero e na diabolização do prazer”, como demonstrado por Isabel Freire. A autora continua o seu argumento, pontuando que “o sexo feminino, alvo preferencial deste puritanismo, foi simultaneamente o alvo mais fácil de atingir, dado que a “relação com a Igreja era feita pelas mulheres” (FREIRE, 2010, p. 26).

Maria Teresa Horta rememora o fato comigo, durante uma das nossas conversas, afirmando que “os homens iam à Igreja, mas ficavam lá trás, e as mulheres à frente.” A desigualdade de gênero estava marcada em todas as esferas, privada e pública. Mesmo em relação à sexualidade, considerada um dos maiores tabus, senão o maior durante a ditadura portuguesa, a desigualdade de gênero estava marcada nos comportamentos esperados, conforme descrito por Isabel Freire (2010, p. 32):

Chegada pura e casta ao altar no dia do casamento, a noiva seria desflorada na noite de núpcias. A partir desta data, sujeitar-se-ia aos desejos e impulsos do esposo, tanto no leito conjugal, como nos outros domínios da vida de cada dia. De si, não se esperam iniciativas sexuais, fantasias eróticas e muito menos orgasmo. Pelo contrário. Deveria manter-se recatada e passiva nas artes do prazer. Quanto menos soubesse sobre a exuberância do corpo, ou menos aparentasse saber, maior seria a sua virtude.

O corpo feminino, então, é o que se pretende dócil, subserviente e casto. É neste contexto de opressão feminina em que Maria Teresa Horta cresce, como ela própria me descreveu:

Eu conheci mulheres que escreviam na casa de banho, às escondidas do marido. A casa de banho era o único sítio onde elas podiam estar fechadas. Não podiam estar em outro sítio nenhum, porque aí tinham que estar disponíveis para os maridos, os filhos, as sogras, para as cunhadas, para toda a gente. E para os maridos. Não podiam ter vida particular, não podiam ter segredos, pensar coisas que os outros não tivessem à espera que elas pensassem. E não se culparem por isso…

Em 1971 publica a sua obra Minha Senhora de Mim, que pode ser compreendida como um discurso de oposição à mentalidade conservadora e à política do Estado Novo em relação à mulher.

Na chamada poesia inicial de Maria Teresa Horta, a de 1960, a temática do corpo feminino aparece, talvez, como secundária. O corpo aparece em ato amoroso já em Candelabro (1965). Mas é com Minha Senhora de Mim que Teresa Horta assinala definitivamente a subversão literária e política. Como o próprio título já sinaliza, a obra tem como um dos temas centrais a autonomia e liberdade femininas, contesta o modelo e a desigualdade de gênero dentro da sociedade portuguesa da época. Isso se dá, sobretudo, pela reivindicação do eu lírico feminino através da posse do seu próprio corpo e sexualidades. Ser senhora de si e não de um homem, ter o direito sobre seu corpo, sobre sua sexualidade, seu desejo, ter direito à individualidade e ter direito à voz são alguns dos discursos de subversão construídos nos poemas do livro.

Minha Senhora de Mim

Comigo me desavim
minha senhora
de mim

sem ser dor ou ser cansaço
nem o corpo que disfarço

Comigo me desavim
minha senhora
de mim

nunca dizendo comigo
o amigo nos meus braços

Comigo me desavim
minha senhora
de mim

recusando o que é desfeito
no interior do meu peito

Mas é o erotismo feminino o tema que mais causou reação adversa à obra na sociedade portuguesa da época, por subverter totalmente o papel (e comportamento) feminino, por transgredir toda uma cultura pautada nos juízos morais cristãos e no papel feminino da “boa mulher” naquela sociedade. É na exploração da sexualidade e desejo femininos que a senhora de si assume o papel ativo na sexualidade. Ou no encontro amoroso do casal, como em Segredo, em que a mulher guia o encontro. O ato sexual e o gozo aparecem de forma metaforizada, através dos termos “poço”, “novelo” e “roca de fiar”, e sugere o encontro secreto de um casal:

Segredo

Não contes do meu
Vestido
Que tiro pela cabeça
Nem que corro os
Cortinados
Para uma sombra mais espessa

Deixa que feche o anel
Em redor do teu pescoço

Com as minhas longas
Pernas
E a sombra do meu poço

Não contes do meu
Novelo
Nem da roca de fiar

Nem o que faço
Com eles
A fim de te ouvir gritar.

O fechar das cortinas e o segredo/silêncio sobre o encontro e o prazer são flagrantes de uma sociedade em que a sexualidade ou a simples demonstração afetiva era um interdito social, fato que pode ser atestado pela Postura nº 69 035 da Câmara Municipal de Lisboa, que data de 9 de janeiro de 1953, e que ditava as seguintes multas para quem fosse ‘flagrado” realizando atos inapropriados em logradouros públicos:

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A postura da Câmara de Lisboa não apenas limitava a afetividade e o erotismo entre os casais, como estipulava, em forma de multa, qual ato erótico/sexual era considerado mais “pernicioso” dentro daquela sociedade. Ora, como explica Isabel Freire, “o sexo servia para descarregar a energia masculina. A mulher, que não tinha sido educada para o erotismo, e muito menos para a beleza do sexo, apanhava muitas vezes com o marido na cama que se servia dela como uma besta” (2010, p. 122).

Neste sentido, a obra representa uma viragem na produção poética e na vida da escritora porque não só inova nos aspectos e temas literários que seriam comuns às mulheres da época, como foi objeto de apreensão e destruição pela PIDE/DGS, sendo a autora levada a prestar depoimento. Contou-me Teresa Horta que “certa noite estava descendo as escadas do Cinema São Jorge, quando dois homens chegaram e perguntaram:você é Maria Teresa Horta?” Tais homens, que se identificaram como sendo da PIDE, levaram Maria Teresa Horta para a delegacia, sem mandato, onde foi interrogada e detida. Sua editora, Snu Abecassis, da Editora Dom Quixote à época, foi proibida de publicar qualquer título de Maria Teresa Horta. Mesmo que fossem “contos da carochinha”.

Com Minha Senhora de Mim apreendido e a escritora proibida de publicar, Maria Teresa Horta, Maria Isabel Barreno e Maria Velho da Costa escrevem, a seis mãos, a polêmica obra Novas Cartas Portuguesas, lançada em 1972 pela Estúdios Cor. A obra foi considerada “atentatória à moral e aos bons costumes”, vindo a ser apreendida, destruída e as três escritoras interrogadas e presas. Com isso, as três foram levadas a julgamento, que se estendeu até maio de 1974, tendo fim com a Revolução dos Cravos e a absolvição das três.

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As Três Marias (Maria Teresa Horta, Maria Isabel Barreno e Maria Velho da Costa)

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Manifestação na Embaixada Portuguesa em Boston

Contudo, entre 1972 e 1974 ela escreve um de seus livros em que, até então, o erotismo se faz mais presente, e o corpo feminino aparece, definitivamente, como corpo político. É como ato de insubmissão, desobediência e rebeldia que Maria Teresa Horta escreve Educação Sentimental (1975), que, como ela mesma diz, foi “escrito nos bancos do tribunal”. Num país conservador, sexista e autoritário em que as mulheres não possuíam qualquer educação para a sexualidade ou para o corpo, Horta escreve o poema para estas mulheres, como uam espécie de guia de conhecimento do corpo:

Educação Sentimental

Põe devagar os dedos
devagar…

                                                         e sobe devagar
até ao cimo

o suco lento que sentes
escorregar
é o suor das grutas
o seu vinho

Contorna o poço
aí tens de parar
descer, talvez
tomar outro caminho…

Mas põe os dedos
e sobe devagar…

Não tenhas medo
daquilo que te ensino

Teresa Horta, em Educação Sentimental, subverte os discursos em torno da sexualidade que estabelecem finalidade, procedimentos e ordenações sobre o sexo, substituindo-os pelo conhecimento do corpo sexual, pela busca do prazer: o gozo como única finalidade.

Como ato de insubordinação e rebeldia, os poemas que compõem o seu vasto guia de educação sentimental afrontam os discurso de poder e controle sobre a sexualidade e, principalmente, mentalidade/imaginário acerca do sujeito feminino. E esta educação sentimental pode ser entendida como a impossibilidade de deixar-se dominar, impossibilidade de se deixar ser “educada” pelos discursos conservadores:

Domínio

Não deixo que as coisas
Me dominem
Nem que a vasta secura
Me adormeça
Nem que a vela
Me apague
nos sentidos
a febre a que a boca não se entrega
[…]

Em Domínio conseguimos perceber claramente que Educação Sentimental não é apenas um livro de conhecimento erótico, no sentido em que explora o conhecimento e prazer, mas um livro de contestação política a todo um sistema de controle social dos corpos. Educação Sentimental é, além de tudo, um livro de liberdade que desafia, através da palavra, os resquícios de um sistema autoritário numa sociedade extremamente conservadora e ainda atrasada no que se refere às políticas dos corpos.

Convém apontar que dia 24 de maio de 1974, o jornal O Expresso publica uma matéria intitulada “Virgindade até o casamento é símbolo da mulher portuguesa – pensa (ainda) a população nacional”, em que conclui, num universo de 800 entrevistados em centros urbanos, que pelo menos 2/3 da população acredita que a virgindade deve ser conservada até o casamento (66%). E desta maioria, 75% são mulheres e 73% são de sujeitos casados. E 77% desta amostra concordou que a virgindade é um símbolo próprio da mulher portuguesa. O que confirma a permanência de uma mentalidade extremamente conservadora após o 25 de Abril.

Logo, a poesia de Educação Sentimental desafia os tabus sexuais, talvez os maiores interditos desta sociedade, utilizados para estabelecer as relações de poder entre os gêneros.

O sonho de Abril: “Abril foi um sonho!”

A Revolução dos Cravos, em 25 de abril de 1974, pôs fim a quase meio século de ditadura em Portugal, dando início a um longo processo político de redemocratização no país. A liberdade veio com o 25 de Abril. Mas o que realmente teria mudado para as mulheres? Que liberdades haviam sido conquistadas?

Dentro da nova vaga de liberdades pós-25 de Abril, começam a surgir os debates e grupos feministas e grupos de mulheres. Maria Teresa Horta, por sua vez, participa da formação do Movimento de Libertação das Mulheres (MLM), em maio de 1974, após o término do julgamento das Três Marias, seguindo a mesma linha do movimento francês MLF, que tinha como principal diretriz a eliminação de todas as estruturas e instituições sexistas. Tal como apontado por Manuela Tavares (1998), o MLM tem como principais pautas a igualdade de direitos e a todas as profissões para ambos os sexos, a igualdade salarial, o reconhecimento do valor econômico do trabalho doméstico e, ainda, o direito à educação sexual, a métodos contraceptivos e ao aborto. O MLM teve pautas extremamente progressistas para o período. A Revolução dos Cravos havia mudado definitivamente a estrutura política portuguesa, mas não a mentalidade.

A exemplo, em 13 janeiro de 1975, o grupo propõe um ato no Parque Eduardo VII, em que queimaria os símbolos do patriarcado, e, para isso, mulheres foram caracterizadas como “dona de casa”, “noiva” e “vamp”. O ato no parque, noticiado pelo Expresso, dizia que as mulheres iriam praticar strip-tease e queimar soutiens, foi invadido por homens que agrediram e violaram as mulheres presentes.

Manifestação no Parque Eduardo VII. Fonte: Diário de Notícias

Tal ato reflete a permanência da visão conservadora em relação ao comportamento e ao lugar social feminino. Segundo Teresa Horta me testemunhounós nunca queimamos soutiens, não havia soutiens, nós sequer usávamos soutiens…” E completou: “subiam homens [no Parque Eduardo VII] aos magotes… a violência era tanta que eles queriam nos violar[…], havia homens com símbolos de todos os partidos: PCP, CDS, PS… a violência foi tal que […] a única mulher que saiu intacta, sem ter um beliscão, foi a noiva: toda vestida de branco, com o seu véu, ela passava e eles abriam alas.”

A direção do MLM à época vai buscar os partidos políticos para explicações sobre as atitudes dos seus associados, mas estes se isentaram das ações criminosas. Enquanto a implementação de Educação Sexual parecia ser bem aceita pelos entrevistados na pesquisa realizada pelo Expresso em 24 de maio de 1974: 88% da amostra respondeu que gostaria de ter recebido educação sexual na escola, o aborto era ainda punido com prisão.

Em finais de 1974, Teresa Horta, juntamente com Célia Metrass e Helena de Sá Medeiros, publicam o livro Aborto: direito ao nosso corpo, que se trata de um inquérito realizado pelas três feministas com mulheres vítimas de aborto, parteiras, médicos, psicólogos e juristas, a fim de desnudar a realidade do país, mostrando o aborto como uma prática comum na clandestinidade, e que afeta a saúde física e psicológica das mulheres. O objetivo era a discriminalização do aborto, defender o direito ao aborto seguro, ao acesso a métodos contraceptivos, a uma educação sexual e planeamento familiar. O livro, como as próprias autoras assinalaram na introdução, foi publicado após a cisão do MLM, causada por divergências ideológicas.

Ora, se a liberdade, para Maria Teresa Horta, passava pela liberdade do corpo, pelo direito do sujeito ao seu corpo no que diz respeito ao comportamento, sexualidade, desejos, decisões, logo o aborto se tornou uma questão central e tabu, porque implicava outras tantas: como a maternidade compulsória, a violência contra a mulher, a falta de educação sexual e planeamento familiar, a tripla exploração da mulher (trabalho, marido e filhos), etc. Não obstante, estas serão várias das questões a serem trazidas pela jornalista no periódico “o diário”, do editorial Caminho (1976 e 1977), na Revista Mulheres (1978-1989), e na sua obra Mulheres de Abril (1977).

Em 1977, Maria Teresa Horta publica Mulheres de Abril, escrito entre abril e novembro de 1977, composto por 58 poemas, muitos deles poemas-denúncias que a escritora escreve a partir de notícias de violências contra mulheres, acompanhados pelas notas dos jornais; de relatos de mulheres operárias, que recolheu em inquéritos. Ou mesmo da condição das camponesas, o grupo menos privilegiado, levando em consideração a exploração e miséria do camponês português. A escritora apresenta assim o seu livro na primeira edição (1977, p. 13):

Mulheres de Abril pretende ser um relato do quotidiano das mulheres portuguesas: de hoje e ontem, também… o ontem reflectido no hoje, ainda, mas já o futuro e o presente, tão diferentes, apesar de tudo. […] pretende ser, pois, a denúncia do real terrível, do devastador, aniquilador quotidiano das mulheres portuguesas, mas também da mudança, já, da esperança e da luta por um mudo novo: sem diferença de classe e de sexo.[…] pretende ser o canto à coragem, a resistência […] pretende ser o desfiar, contar do seu anonimato […] pretende ser o retrato de todas as mulheres portuguesas que o fascismo exigia sacrificadas, secundarizadas, duplamente exploradas e oprimidas. […] pretende ser dessas mulheres o grito. […].

E traz uma dedicatória a todas essas mulheres:

A todas as mulheres, minhas irmãs,
que durante estes últimos três anos
tanto me ensinaram sobre
a  liberdade, a dignidade e a coragem.

O possui poema homônimo que faz homenagem às Mulheres de Abril, sujeito plural, coletivo, que não figuram na História oficial, mas são parte do processo de mudança que está ser implementado no país. Afinal, as mulheres continuam sem ter acesso aos direitos requeridos, a sua exploração continua: na casa, na fábrica, no campo, no trabalho doméstico. São as mulheres invisíveis, comuns, que Teresa Horta nos apresenta em seu livro, que muitas vezes só se tornam “alguém” quando figuram a página policial:

Cantar A Uma Mulher Assassinada Enquanto Dormia

Estavas na cama
com o filho deitada
chegou-se-te o homem
não te disse nada
[…]
Mas tu já dormias
e dele o ciúme
tu desconhecias

E o homem curvado
de súbito se ergueu
brandindo o machado que no teu pescoço
três vezes desceu

– Marido! – dirias
Que fizeste tu
da vida que eu queria?

Mas tu já morrias…

São mulheres cujos corpos são explorados e violentados por maridos, pais, patrões, pela sociedade que se cala e que as trata como um objeto. É para um trabalho de parto de um país, um novo país, que Teresa Horta conclama as companheiras, as Mulheres de Abril, tantas anônimas, nos campos, cidades, fábricas, guerreiras.

Trabalho de Parto

Mulheres – companheiras
ombro a ombro

o ventre a crescer-nos
de coragem

Como tarefa temos
o que somos:
no interior da luta
a sua faca
[…]
Em trabalho de parto
de um país

Produto ainda do salazarismo, de uma mentalidade conservadora e sexista, Portugal precisa ser gestado e parido (novamente): um país com liberdade, igualdade, fraternidade e o respeito que nunca se viu. O ideal de liberdade e o ideal feminista são, sobretudo, antifascistas. Antifascista porque só se pode clamar pela liberdade individual combatendo o fascismo. Só se pode defender a liberdade sexual, a liberdade dos corpos, a educação sexual, o aborto, e a autonomia feminina combatendo o fascismo. Desta maneira, na produção intelectual de Maria Teresa Horta do período, ser feminista é ser antifascista e vice-versa.


Biliografia:

FREIRE, Isabel. Amor e sexo no tempo de Salazar. Prefácio de José Luís Pio Abreu. Lisboa: Esfera dos Livros, 2010.
HORTA, Maria Teresa. Mulheres de Abril. Lisboa: Editorial Caminho, 1977.
HORTA, Maria Teresa. Poesia: década de 70. Organizado por Michelle Vasconcelos Oliveira do Nascimento; Marlise Vaz Bridi. São Paulo: LiberArs, 2019.
MARQUES, António H. de Oliveira et al. Da Monarquia para a república. In: História de Portugal. Org. José Tengarrinha. 2 ed. Bauru/Sp: EDUSC; São Paulo/SP: UNESP; Portugal, PT: Instituto Camões, 2001.
TAVARES, Manuela. Movimento das mulheres em Portugal após Abril de 1974. 295 p. Dissertação de Mestrado em Estudos sobre as Mulheres. Universidade aberta. Lisboa, 1998.


Como citar este artigo: Nascimento, Michelle (2019). Quando a liberdade passa pelo corpo: compreensões acerca do pensamento feminista e antifascista de Maria Teresa Horta. Life Research Group Blog, ICS Lisboa, https://liferesearchgroup.wordpress.com/2019/06/26 26 de Junho de 2019 (Acedido a xx/xx/xx)

As TIC nas actividades quotidianas e o seu peso nas relações familiares: comparação entre mulheres portuguesas e italianas

silviaSilvia Di Giuseppe é Doutoranda em Sociologia (OpenSoc) no ICS-ULisboa


 

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Pretendo, na minha pesquisa de doutoramento, conhecer o quotidiano de mulheres na sociedade digital, numa comparação entre Portugal e Itália. Mais especificamente, o meu interesse é orientado, por um lado, para as representações e os significados que as mulheres atribuem às tecnologias digitais de informação e comunicação (TIC), e, por outro, para as práticas, ou seja, as modalidades de acesso e uso nos diferentes contextos do seu dia-a-dia (exercício da profissão, tarefas domésticas e atividade de entretenimento). Entendemos por TIC os equipamentos digitais (ex. computador, smartphone, tablet), mas também as redes de informação e comunicação (ex. emails, Facebook, Youtube).

Um grande problema de interesse sociológico ainda é o da questão da conciliação família-trabalho: estatisticamente, prova-se que é sobre as mulheres que recai o grosso dessa conciliação, apesar de alguns avanços masculinos na esfera doméstica; o que se traduz numa desigualdade de oportunidades de sucesso e progresso profissional e salarial. Outro fenômeno a assinalar é a massificação das tecnologias digitais de informação e comunicação nas diversas esferas de atividade quotidiana. Não podemos subestimar a importância da relação entre media, novos media, vida pública e vida privada (Baym, 2010; Papacharissi, 2010; Monteiro e Policarpo 2011; Aboim, 2011; Almeida 2011). As TIC estão em constante mudança (os novos devices de hoje ficarão obsoletos amanhã), criam conexões cada vez mais intensas entre o espaço público e privado e na relação entre atividades on-line e off-line (Almeida, Alves, Delicado e Carvalho, 2014).

No cenário da conciliação família-trabalho (onde as TIC são mais ou menos presentes e importantes), pretendo observar a importância das TIC para as mulheres nos seus quotidianos e rotinas: no trabalho profissional, nas tarefas domésticas (divididas ou não com os seus parceiros), nos cuidados aos filhos, no lazer pessoal e familiar. No ambiente doméstico vemos, por exemplo, que essas ferramentas são cada vez mais utilizadas pelos membros da família. Há, portanto, uma espécie de negociação para o uso das TIC entre os casal e pais e filhos – já foi destacada a importância da negociação na vida conjugal e na parentalidade contemporâneas (Marinho, 2011; Cunha e Marinho, 2018).

Pretendo averiguar, portanto, como as TIC se integram e redefinem o quotidiano feminino e considero que é de sociologicamente relevante ampliar a perspectiva de conciliação família-trabalho à luz das mudanças da sociedade digital.

Segui uma metodologia qualitativa e realizei 44 entrevistas semi-estruturadas a mulheres portuguesas e italianas. Em particular, a amostra é composta por mulheres activas residentes na área metropolitana de Lisboa e Roma, entre 25 e 49 anos, de diferentes profissões e níveis de escolaridade, que vivem em conjugalidade e com filhos. Entre outras questões, o meu primeiro objetivo foi observar e interpretar o impacto das TIC nas atividades quotidianas destas mulheres, quer ao nível laboral, quer no espaço doméstico, nomeadamentenas suas relações familiares.

Para tal, comecei por dividir as entrevistadas em dois grupos distintos com base na profissão e no nível de escolaridade: mulheres licenciadas com profissões mais liberais e científicas (empregadas técnicas e especialistas), e mulheres não licenciadas que trabalham sobretudo no sector dos serviços pessoais e comerciais, em contacto com o público ou em empresas (empregadas de serviços pessoais, comércio e escritório).

Basicamente, segui quatro hipóteses: i) as desigualdades sociais são reduzidas em termos de acesso à tecnologia, mas persistem as diferenças nas práticas e representações; ii) o modo de uso das tecnologias digitais varia de acordo com a especialização/qualificação, uma vez que diferentes trabalhos envolvem diferentes relações com as TIC; iii) o modo como as TIC são usadas influencia os posicionamentos em termos de pontos de vista pessoais em relação às TIC; por último, iv) as TIC têm um peso mais ou menos marcado nas relações familiares.

A observação dos resultados preliminares permitiu verificar que, de facto, existem diferenças expressivas por tipo de profissão, na medida em que há profissões que exigem um maior ou menor nível de literacia digital. Assim, de acordo com as tarefas associadas a cada profissão, há um uso diferente das TIC no contexto de trabalho.

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O computador é a ferramenta que muitas das entrevistadas possuem e usam no ambiente de trabalho. No grupo das empregadas técnicas o computador e o smartphone são usados em simultâneo para a consulta de e-mails e sites, o uso de bases de dados e programas de computador. Os media são usados também para fins de trabalho, como o WhatsApp e o Skype. No grupo das empregadas de comércio, o uso do computador é mais limitado, varia entre ser fundamental, servir de complemento às tarefas principais ou ser praticamente inexistente. Aqui também o computador é usado para a consulta de emails e programas de computador (ex. o Office).

O smartphone é a ferramenta que todas as entrevistadas mais utilizam no espaço doméstico desde simples conversas com familiares e amigos à consulta de aplicações como o Whatsapp, o Facebook, a Amazon, o Youtube, os Jogos. Em alguns dos casos, as empregadas técnicas acedem às TIC em casa também para trabalhar, enquanto as empregadas de comércio as usam para comunicar com familiares e amigos (ex. para saber como estão) no auxílio às tarefas escolares dos filhos ou ainda para entreter as crianças com os jogos. O uso do Facebook é praticamente semelhante, mas enquanto as empregadas técnicas visualizam mais as notificações e partilham posts, as empregadas de comércio colocam mais fotos e gostos e fazem comentários nas publicações.

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O uso do smartphone é muito comum também no tempo livre para comunicar e marcar encontros com familiares e amigos, procurar eventos para os seus filhos (Facebook) e visualizar vídeos de música e receitas (Youtube). Em relação ao tempo livre gasto em casa, às vezes também é usado para trabalhar no grupo das empregadas técnicas, enquanto as empregadas de comércio fazem mais compras online ou verificam ainda as diferenças de preços na Internet.

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Tomando agora em consideração as  representações sobre os usos das TIC, as empregadas técnicas confirmam que as TIC alteram de forma positiva a maneira como exercem a sua actividade profissional. Em geral, melhoram a qualidade do trabalho, o qual passou a ser mais rápido e imediato. As empregadas de comércio, por um lado, concordam com esta tendência, por outro lado, não notaram qualquer mudança.

Relativamente ao espaço doméstico, as entrevistadas concordam que as TIC são úteis para ter acesso imediato a qualquer contacto ou informação e que as pessoas, com elas, são mais independentes. As TIC são sobretudo úteis na pesquisa de informações escolares para ajudar os filhos. Em termos de alterações negativas em casa por parte das TIC, o traço comum observado é que estas condicionam as relações sociais na família porque a interação entre os membros passou a ser mais reduzida. As empregadas técnicas argumentam que o trabalho pode sempre tornar-se parte das atividades quotidianas, mesmo no tempo livre, e nesse sentido as TIC facilitam essa dinâmica.  O problema colocado pelas empregadas de comércio é que, devido às TIC, a comunicação na família torna-se bastante mais reduzida, enquanto as crianças tendem a ser hoje em dia mais preguiçosas porque os jogos virtuais não estimulam muito a sua imaginação.

Em termos das alterações no tempo e práticas lazer, e num sentido positivo, as empregadas técnicas argumentam que as TIC são úteis para organizar o tempo livre nas viagens (reservas de hoteis, escolha de lugares para visitar), enquanto as empregadas de comércio valorizam o entretenimento (pessoal e das crianças), bem como a partilha de experiências com familiares e amigos. Num sentido negativo, as empregadas técnicas entendem que, às vezes, as pessoas são forçadas a trabalhar mesmo no seu tempo livre, e que as TIC facilitam este processo porque o indivíduo está sempre contactável, ao passo que as empregadas de comércio argumentam que as TIC tendem a isolar os familiares e que, em muitos casos, podem criar desentendimentos.

Em conclusão, as diferenças entre os dois grupos de mulheres estão marcadas por posições e motivações muito distintas em relação às TIC, em particular na maneira como as TIC são usadas nas mais variadas esferas de actividade. Talvez dizer que as profissões, muito mais do que a nacionalidade, moldam estas práticas. Observou-se, de facto, por um lado que, de acordo com o tipo de profissão, há uma procura maior ou menor pelo uso de TIC. Por exemplo, uma investigadora usará o computador de forma muito mais intensiva e diversificada do que uma empregada numa loja de electrodomésticos.

Por outro lado, notou-se que, às vezes, o uso de TIC no trabalho pode, em certos casos, vir a influenciar o seu uso em outros contextos, como o doméstico e o lazer. É por exemplo o caso de entrevistadas que em contexto laboral usam os e-mails para comunicarem com os empregadores, clientes ou colegas, e por vezes, com os seus próprios parceiros ou com a escola dos filhos, ou que quando se encontram no espaço doméstico também fazem uso dos emails para fins de trabalho.  Portanto, não se excluí a existência de outros factores influentes, mas, por agora, considera-se que o modo de usar as TIC no trabalho também se pode reflectir em outras esferas de actividades quotidianas.

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Como citar este artigo: Di Giuseppe, Silvia (2019). As TIC nas actividades quotidianas e o seu peso nas relações familiares: comparação entre mulheres portuguesas e italianasLife Research Group Blog, ICS Lisboa, https://liferesearchgroup.wordpress.com/2019/06/11 11 de Junho de 2019 (Acedido a xx/xx/xx)